quarta-feira, 8 de julho de 2015

Maquiagem em Filmes Históricos ou a Ficção "Embelezando" a Realidade


Esses últimos dias o meu Ask ficou bem animado.   Não que tenham surgido muitas perguntas interessantes, mas, como ele estava às moscas, receber uma enxurrada de perguntas de repente é muito curioso.  Dentre elas, talvez por causa do post sobre o canal do Youtube com clássicos da BBC, recebi esta aqui “Professora, assisti o documentário da Elizabeth I da BBC 1971 e percebi que somente a rainha usava a maquiagem branca e forte, não encontrei nenhuma outra rainha com maquiagem tão forte. Por que ela se adornava daquela forma?”.  Vou usar parte da resposta (*aqui*) para construir o post que vocês verão a seguir.  

Nunca escrevi no blog sobre maquiagem, quer dizer, talvez tenha feito referência em algum post, mas escrever mesmo certeza que não.  No próprio post comentando a série Elizabeth R, elogiei a maquiagem, uma das melhores que já vi, afinal, lá pelo último capítulo da série temos uma atriz de 30 e poucos anos se passando por uma idosa de 70 que usa uma maquiagem pesada para parecer uma mulher de 30 e poucos anos.  E, o melhor, é que funciona! 


Enfim, o fato é que os filmes tendem a dar uma reduzida no que deveria ser a maquiagem usada em sociedades e épocas passadas para que a gente não se choque ou fique incapaz de ver beleza nas personagens. O mesmo vale para pelos, a presença ou ausência de certas vestimentas, certos hábitos de higiene e por aí vai... Você sabia, por exemplo, que a maioria das mulheres não usavam nada semelhante à roupa de baixo – calções, calçolas, calcinhas, o que seja – até o século XIX?  Que para fazer xixi bastava afastar as saias ou erguê-las?  Quando o assunto é maquiagem, são raras as produções que passam perto daquilo que deveria ser a realidade e, normalmente, o fazem quando retratam a decadência de uma determinada época. Dois exemplos que posso citar, e isso já para século XVIII, é Casanova e a Revolução e o primeiro capítulo da série Scarlet Pimpernel de 1999.

Estabelecido isso, vamos lá!  Homens e mulheres usavam maquiagem no período elisabetano e até o século XVIII.  Na época dos Tudor, e em particular de Elizabeth I, o desejável era que as mulheres tivessem a pele mais alva possível, pele queimada de sol era coisa de pobre que tem que trabalhar ao sabor do tempo.  Era assim na Atenas Clássica e na Índia ainda é hoje.  Quanto menos queimada de sol é a pele de uma mulher, mais atraente ela é, obviamente, a pele sinaliza a qual família ela pertence.  


No caso elisabetano, e mesmo depois, para se ter uma pele branca, as mulheres (*e alguns homens*) usavam maquiagem e produtos para branqueá-la, algumas chegavam até a se deixar sangrar de tempos em tempos para ficarem pálidas (*efeito da anemia, claro*).  O mais assustador é que a receita mais comum usada na pele era chamada de alvaiade (*em inglês “ceruse”*),uma mistura de um composto de chumbo (2PbCO3·Pb(OH)2) + vinagre.  Bem, boa parte dos cosméticos da época usavam chumbo ou mercúrio e eram venenosos, causando envenenamento lento ou danos à pele.  Para esconder os danos, quantidades maiores do cosmético eram aplicados e os efeitos tendiam a aumentar ou persistir.

No caso de Elizabeth I, a rainha utilizava quantidades muito generosas de maquiagem, mais que a média, segundo as fontes. Os motivos eram esconder as marcas do tempo (rugas) e alguns danos que lhe foram causados pela varíola. De qualquer forma, o seriado de 1971 faz um trabalho muito bom com a maquiagem de Elizabeth, mas não é surpresa que seja somente ela a aparecer com sua imagem exagerada, afinal, ela é o centro do seriado e a maquiagem das outras personagens em cena é atenuada para não chocar as nossas sensibilidades modernas.


Fazendo a ponte com o Japão, não me lembro de nenhuma produção que fosse muito rigorosa na maquiagem das mulheres, seja as do período Heian, seja as geishas.  Além disso, não me lembro de nenhuma mulher usando ohaguro (お歯黒), isto é, com os dentes pintados de preto.  É algo que não se usa mais no Japão e que não deve ser visto como agradável para as audiências modernas.  

É isso... Um texto curtinho e meio off-topic, mas achei que valia a pena trazer para cá.

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2 pessoas comentaram:

Muito legal saber desses coisas.
Muita gente não consegue nem imaginar certos detalhes das eras anteriores em relação aos hábitos humanos. Se soubessem de tudo, seria um choque, pelo visto.

Valéria,

O filme Kaguya-hime do estúdio Ghibli tematiza a questão da maquiagem no japão e dos dentes escuros, é muito interessante a visão do filmes sobre isso e sobre o corpo da mulher japonesa. Ainda sim, concordo plenamente com sua análise, Kaguya-hime traz essa maquiagem porque é uma animação, mas em filmes com atores reais é raro ver essas representações.

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