segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ainda o ENEM, só um pequeno toque sobre gênero


Está circulando em uma rede social por aí (*Cóf! Cóf! Facebook*), esta imagem com as anotações indignadas de uma candidata, ou sei lá, se alguém que viu a questão sobe Simone de Beauvoir e não entendeu.  "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.", é uma frase síntese da condição feminina nas sociedades ocidentais que já virou jargão, mas parece que muita gente não consegue parar para refletir que ser homem ou mulher em uma sociedade é algo aprendido. 

Uma menina e um meninos aprendem desde cedo o que é esperado deles, porque ao nascermos, XX ou XY, nada, ou quase nada, está determinado pela biologia, mas os papéis que deveremos interpretar já estão pré-definidos pela sociedade. É disso que Beauvoir fala, não de termos pênis, vagina, nenhum dos dois, ou algo que não se define em uma primeira observação.  Aliás, é um equívoco muito grande confundir papéis de gênero com sexualidade/desejo, ou papéis de gênero com sexo biológico expresso na genitália externa ou nos documentos civis.


Quando Beauvoir - e outras antes e depois delas - pontuaram que "ser mulher" é algo construído para conclamarem todas nós à reflexão, estão se referindo às pressões que todas nós sofremos: o casamento como necessidade, a maternidade como destino, a felicidade atrelada ao olhar masculino, a opressão confundida com proteção, a culpa pela queda da humanidade etc.  

Uma mulher aprende desde cedo que seus desejos ou são sujos, ou são secundários, se não estiverem chancelados pela aprovação masculina.  Aprendem desde sempre que é desejável que sejam frágeis e dependentes - ou o sejam na medida que os homens significativos de sua vida considerem decente, belo e útil - para, logo em seguida, serem criticadas pela mesma fragilidade e submissão.  Taxadas de exploradoras, de aproveitadoras.  


Nós, mulheres, somos estimuladas a se despir, ou cobrir, para o prazer masculino, para resguardar a honra dos homens (*pais, irmãos, maridos, filhos*), ou reafirmar sua posição social.  Meninas são cuidadosamente enfeitadas, elogiadas pela sua aparência, estimuladas a se verem como princesas.  Correr e se sujar, para muitas meninas, é quase uma transgressão.  Desde cedo, são estimuladas a passar horas no salão e desejando e/ou comprando roupas e sapatos, algo fundamental para que sua função no mundo seja plenamente desempenhada.  Suas atenções acadêmicas - quando estimuladas - muitas vezes ocupam um papel secundário em relação à aparência.  

E as meninas crescem, se tornam mulheres, a maioria nunca atende aos padrões impostos pela mídia e pelas várias indústrias relacionadas ao corpo e aparência em geral.  Insegurança é algo constituinte dos papéis de gênero socialmente atribuídos às mulheres.  E quem pode lhe dar a confirmação de que, sim, tudo está bem?  O olhar masculino.  E mesmo que as mulheres atinjam os altos padrões de expectativas, não se enganem, pois, ainda assim, não escaparão das ofensas, sejam o "puta" e "vadia" de sempre ou o de "frígida" por outro.  

Sophie Grillet.  Não sou feminista, mas… Lisboa, Presença, 2001.
Meninos não nascem com carrinhos, caminhões e bolas; meninas não nascem com bonecas, panelas, kit de beleza.  São presentes de adultos.  Meninas não nascem odiando matemática, nem acreditando que a maternidade é seu destino. Meninos não nascem violentos.  Meninas não nascem desejando desesperadamente servir ao próximo.  Meninos jogam mais videogame, brincam mais, porque, talvez, sua infância, pelo menos em algumas classes sociais, seja mais respeitada.  Mesmo meninos pobres vão brincar mais nas ruas, correr mais, interagir mais com outros meninos, ainda que arriscando sua própria vida.  Meninas precisam crescer rápido e, quando pobres, ou nem tanto, assumir mais tarefas domésticas que seus irmãos.  É o destino!  É a natureza! "Sempre foi assim!" e quem é você para questionar?

Mesmo com emprego, salário, carreira, elas vão ter que servir, ou, na "melhor das hipóteses", conseguir outra mulher ou mulheres que lhe sirvam e a sua família.  É um ciclo de exploração que se renova e que reforça os laços entre as mulheres e seus homens, ao mesmo tempo que nos impele a não perceber que entre nós, mulheres, temos muito mais em comum, a começar pela forma como somo socializadas, passando pela maneira como nossos produtos - trabalho, tempo, corpos - são apropriados.  Trabalho de mulher vale menos.  O sistema ainda nos impele a desvalorizarmos umas às outras.


(Sophie Grillet.  Não sou feminista, mas… Lisboa, Presença, 2001.)
Não há escolha, nem escape se não repensarmos os papéis de gênero.  E, aqui, neste texto minúsculo, falo de papéis de gênero atribuídos às mulheres.  Os modelos de masculinidade precisam igualmente ser repensados para que tenhamos uma sociedade mais justa, feliz e sadia.  Opressão há dos dois lados, violência e coerção são a regra, porém, não há simetria.  Nosso modelo de sociedade privilegia o masculino e, ainda que muitos homens sofram com o peso das cobranças, eles têm vantagens inegáveis nos planos social e econômico.  

E apesar desse meu blá-blá-blá todo, a questão nem era sobre gênero, lamento informar aos que vivem da difusão da ameaça da suposta "ideologia de gênero", mas simplesmente da identificação de um movimento social de grande relevância nos anos 1960.  Poderia ser sobre o movimento negro, gay, flower power, descolonizador, mas foi sobre o movimento feminista. Movimentos de Contracultura é marca da década de 1960 e eu faço questão de pontuar isso nas minhas aulas ao falar de 1968 e da Guerra do Vietnã.  É isso!  Bom dia para vocês!  O ENEM foi muita emoção concentrada em dois dias.

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1 pessoas comentaram:

O tamanho da ignorância devidamente transmitida por essa turba político-religiosa no congresso está chegando a níveis impressionantes.
As pessoas não tem mais sequer a capacidade de ler uma questão de prova sem vomitarem automaticamente esse lixo. Reflexão que é bom, nada!

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