sábado, 9 de janeiro de 2016

"Como é que as japonesas conseguiram se consolidar no universo mangá... apesar do machismo local?"

Kaoru Mori trabalhando.
Recebi esta pergunta hoje no Twitter.  Obviamente, não há uma resposta somente, tampouco, uma única razão para o sucesso das mulheres no mercado de quadrinhos japoneses.  Nas minhas leituras teóricas e observações,  percebo três ingredientes que possibilitaram que tal ocorresse, isto é, que as mulheres se consolidassem no mercado de mangá.  Vamos lá:

1. Desde pelo menos o século XI, com Lady Murasaki e Sei Shōnagon, existe uma tradição literária feminina o Japão, mais importante ainda, mulheres que escrevem para mulheres e que, em maior, ou menor grau, conseguem sucesso, também, com os homens.  Com a Revolução Meiji e as revistas literárias, havia o incentivo para que as meninas e mulheres leitoras escrevessem suas histórias e enviassem para as revistas.  Ainda que não em maioria, mulheres autoras publicavam nessas revistas, algumas, com muito sucesso, como Yoshiya Nobuko.  Já nos anos 1940/50, várias mulheres estavam publicando mangá, a maioria shoujo mangá, Miyako Maki, que ajudou a criar a estética shoujo.  Mais uma vez, as revistas e os autores - Makoto Takahashi e Miyako Maki - estimulavam as jovens leitoras a enviarem seus próprios desenhos com as heroínas das histórias vestidas com roupas criadas por elas.  Curiosamente, isso era feito nos EUA, também, mas em um contexto diferente, por assim dizer.

Arte de Miyako Maki.
2. Demanda. Ora, quando entramos na década de 1960, havia uma necessidade cada vez maior de mão-de-obra.  Revistas seinen sendo criadas e os artistas homens sendo exigidos além da conta, afinal, as revistas eram semanais.  Alguns desses autores preferiam escrever para garotos, então, quando as mulheres começaram a entrar em massa, eles não resistiram e migraram definitivamente para as revistas shounen e seinen. Cada um no seu quadrado, por assim dizer, pelo menos é isso que a gente vê olhando por alto.

3. Ao mesmo tempo, as leitoras cresciam e se tornavam cada vez mais exigentes e detalhistas.  E aí, acontecia isso aqui:  “(...) quando as artistas mulheres começaram, você sabe, Ueda Toshiko, Hasegawa Machiko, Miyako Maki, e outras, imediatamente ficou claro que as meninas estavam realmente atraídas pelo trabalho das mulheres quadrinistas. Olhando para o trabalho [delas], eu não consigo dizer qual a diferença, mas algo era transmitido (...)”.  (Akira Maruyama, editor sênior de uma grande revista shoujo, em entrevista para Jennifer Prough) [1]  Meninas começaram a preferir as autoras, talvez, porque elas falassem melhor a sua língua,  fossem mulheres, às vezes, muito jovens ainda, como suas leitoras.  Pensem, especialmente, que a sociedade japonesa era extremamente gendrada e já estava mais que consolidada uma cultura visual e literária shoujo, graças às revistas literárias que perdiam espaço para o mangá.  Esse feedback para as editoras, também fez diferença.

Capa de Riyoko Ikeda para a Margaret.

A partir daí, as revistas femininas começaram a adotar um formato diferente, de semanais para quinzenais e, hoje, um grande número é mensal mesmo.  Revistas semanais de shoujo (*e, depois, josei*) morreram.  Segundo li, anos atrás,  as leitoras eram muito exigentes em relação ao desenho,  especialmente, das personagens, aos pequenos detalhes, e coisas que aumentavam a carga de trabalho.  Como sei que só li isso em um lugar , não lembro mais onde e não estou em casa para ir tentar recuperar a referência, por favor, não tomem como verdade.

É  isso. Hoje, algumas mangá-kas são estrelas do shounen e do seinen.  Talvez, algumas pessoas nem saibam que um mangá "para garotos" que curtem muito é feito por uma mulher.  Das mangá-kas que se especializaram em shounen  mangá a mais famosa é Rumiko Takahashi, mas  Hiromu Arakawa não fica muito atrás, mas ela produz shoujo, também.  Kaoru Mori, por exemplo, acho que nunca fez shoujo ou josei, ainda que a revista na qual publica, a Harta, não seja lá muito tradicional.

Arte de Kaoru Mori.
No fim das contas, é um outro mundo editorial, não que não exista desigualdade de gênero, mas acho que mesmo em premiações mais gerais, seria impossível não haver a obra de uma autora indicada, menos ainda um babaca iria falar que não há mulheres com carreira sólida o suficiente para merecerem menção.

[1] PROUGH, Jennifer S. Shōjo Manga in Japan and Abroad In: TONI, Johnson-Woods (ed.) Manga. An Anthology of Global and Cultural Perspectives. London: Continuum, 2010.


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4 pessoas comentaram:

Você sabia que Leiji Matsumoto (Patrulha Estelar, Capitão Harlock...) criou mangás shojo?

Sim, sabia, há mquem defenda que a estética das mulheres do Matsumoto veio do shoujo mangá. Miyako Maki é casada com ele.

Todos os grandes mangá-kas da época, salvo os que vieram do mangá de aluguel, acho eu, fizeram shoujo.

Ou, Valéria, comecei a acompanhar mangá graças a você quando vc anunciou Fruits Basket. Eu fazia parte da comunidade do Orkut Tomodachi no Shoujo, mas desde que Fruits Barker acabou em 2007 eu parei de colecionam mangá, voltei ano passado graças a Orange e gostaria de saber se existe algum grupo no Facebook soube Shoujo.

Ps: vc planeja voltar a usar o instagram para mostrar suas aquisições ou algo do tipo? Obrigado pelas informações.

Vendo o comentário de vocês, lembrei que sempre achei o design de personagens do Matsumoto com um "pezão" no shoujo.

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