quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Comentando Kaguya-hime no Monogatari (2013) do Estúdio Ghibli


Sei que estou atrasada, mas são tantos filmes que não assisti, que estão no meu HD em uma fila eterna, que é muito bom comentar esta linda obra do Studio Ghibli lanada em 2013 e que foi indicada para vários prêmios ao redor do mundo.  Assisti ao filme no domingo, porque Júlia viu o DVD – sim, houve lançamento oficial no Brasil – e pediu que eu colocasse para ela.  Começo dizendo que ela não resistiu muito, terminou largando o filme que é muito denso para uma criança de dois anos.  Sim, nem todas as animações são palatáveis para todas as idades, Kaguya Hime (かぐや姫の物語) não é melhor ou pior por causa disso.  

Baseado em um conto folclórico do século X, “O Conto do Cortador de Bambu”, Kaguya-hime é uma história muito popular no Japão, que já foi filmada, virou mangá, e é citada em inúmeras outras obras.  A história começa com um idoso cortado de bambu encontrando uma moça miniatura dentro de um bambu brilhante.  A criaturinha, tão pequena que cabe na palma de suas mãos, é levada para casa.  Lá, ela se transforma em um bebê e é acolhida pelo cortador de bambu e sua esposa, que não tinham filhos.


Apelidada de “pequeno bambu”, a menina cresce em um ritmo diferente do das outras crianças.  Aprende as coisas com grande facilidade e sabe de cor uma canção cantada pelas crianças do vilarejo sem nunca tê-la ouvido.  A menina vai crescendo amante da vida simples, pobre, mas livre das montanhas e se apaixona por um companheiro chamado Sutemaru.  Ao longo dos anos, o cortador vai encontrando ouro dentro de bambus e entesourando.  Quando ele encontra uma grande quantidade de tecidos caros, chega a conclusão de que os deuses querem que ele leve “pequeno bambu” para a capital, Kyoto, e faça com que ela viva como uma princesa.

Subitamente, a menina é levada para Kyoto, vai viver em uma mansão comprada com o ouro dos céus, cercada por luxo, criados e uma dama encarregada de educá-la.  A menina resiste, sente-se presa, deseja voltar para a montanha, mas acaba cedendo por amor aos pais idosos.  Quando começam a chegar os pretendentes, homens ricos e poderosos, ela resiste, mas ao se tornar alvo das atenções do próprio imperador, “pequeno bambu”, agora chamada de Kaguya-hime, lança um pedido desesperado de socorro para os céus e seus dias na Terra passam a estar contados.


Antes de tudo, começo dizendo que Kaguya-hime é um filme visualmente lindo.  O traço tenta imitar as pinturas tradicionais, é simples e delicado, porém dinâmico e as personagens tem rostos muito expressivos, mesmo que isso não seja o que você espere encontrar em um primeiro momento.  O figurino é muito bonito e os movimentos da protagonista – quando exercitando sua liberdade – são leves, fluídos e, ao mesmo tempo, carregados de energia e de vigor.  É um anime que não segue aquele tipo mais tradicional e se distancia mesmo do estilo mais comum do próprio Studio Ghibli.  Diferente e encantador.  Essa parte do filme, a direção de arte, a animação em si, são um dos destaques da película, assim como a trilha sonora de Joe Hisashi, um veterano dos filmes do Studio Ghibli.  

Kaguya-hime se passa no Período Heian (794-1185), a sociedade de corte japonesa, e apresenta as enormes discrepâncias entre a vida dos nobres com toda a sua pompa e a dos camponeses, sempre no limiar da fome.  Ainda assim, Kaguya-hime se sente feliz na simplicidade da vida do campo, ouvindo e cantando a canção que ouvira de outro ser divino e que era sua única lembrança da sua passagem pela Terra.  No entanto, e talvez essa seja uma das lições dadas à princesinha, a vida dos humanos é muito maior que as montanhas cheias de desafios e liberdade.  Kaguya, até pela sua própria condição superior, deveria experimentar, também, a vida da corte, daí, não podemos culpar seu pai – já que a mãe sempre foi contra a mudança – por querer que ela vivesse como uma princesa.



Uma das coisas que Kaguya-hime mostra – o conto e o anime – é que havia alguma mobilidade social no Período Heian, mesmo em uma sociedade estratificada, um novo rico poderia surgir.  Sua filha, Kaguya, mesmo cheia de graça, inteligência e beleza, não poderia aspirar o lugar de esposa de alguma figura de grande importância, muito menos do próprio imperador, mas ser concubina – o que já era uma posição de muito prestígio – não era algo fora do horizonte.  O problema é que isso exigiria uma disciplina corporal que foi matando a alegria de viver da protagonista.

Como levantar, como se sentar, a maquiagem pesada, o ohaguro (お歯黒), isto é, os dentes pintados de preto tudo isso é opressivo e apontava para o papel decorativo que as mulheres da nobreza deveriam ser.  Ao questionar sua mestra sobre a dificuldade de se levantar de uma só vez (*e imagine isso com várias camadas de quimonos*), a professora exige que ela treine, mas avisa eu uma dama raramente se levanta.  Quando ela reclama do absurdo de retirar as sobrancelhas só para que elas sejam pintadas com maquiagem, a mestra despreza sua opinião.  Quanto aos dentes, bem, uma dama nunca sorri.  O ser divino se submete por amor aos pais, abre mão de sua felicidade, da liberdade de ir e vir, e vai deixando morrer aos poucos o seu amor pela Terra.  Ela se torna um pássaro raro em uma gaiola de ouro, amada, bem cuidada, mas prisioneira.


Se Kaguya-hime conseguisse dominar todas as técnicas e disciplinas que a tornariam atraente ao olhar masculino, seu prêmio seria o máximo que uma mulher poderia aspirar: o casamento.  Não consigo deixar de ver em Kaguya-hime uma crítica aos papéis de gênero e este padrão de feminilidade que, de uma forma ou de outra, continua perpassando as sociedades patriarcais.  Alguém poderia dizer que a disciplina do corpo também era imposta aos homens, no entanto, não há simetria em termos de poder, eles poderiam escapar da reclusão sem serem recriminados (*os pretendentes à mão de Kaguya saem pelo mundo para cumprir as missões impostas por ela*) e eles poderiam ter várias consortes (*Esposas, concubinas, amantes etc.*), coisa que as mulheres nem poderiam sonhar em ter.

Lembrei imediatamente do livro (*no filme isso não é explicitado da mesma forma*) E o Vento Levou e de todo o esforço imposto à Scarlett O’Hara para que ela pudesse se tornar uma dama.  O objetivo era o mesmo, o casamento, maior aspiração que uma mulher deveria ter na vida.  Em uma dada passagem, a autora fala que o investimento de vários anos era colocado à prova em uma estação de festas, se a moça realmente fosse brilhante, ela conseguiria um marido e todos os artifícios de encantamento seriam usados em poucos meses para, depois do casamento, serem descartados, porque, bem, uma mulher casada deveria ocupar outro espaço e não precisaria mais atrair a atenão dos homens, já que pertenceria a um só.  Sim, pertenceria, não seria a dona, porque não o era nem de si mesma, por mais poder delegado que pudesse exercer sobre outros subalternos.


Não é o caso da Corte Heian, ou mesmo do Japão ao longo dos séculos, mas o lugar da donzela casadora, não é o mesmo da matrona, nem lá, nem em outras sociedades.  Mais sufocante ainda é que todo esse jogo de sedução – isso, porque Kaguya-hime não quer escolher um marido selecionando simplesmente pelas cartas de apresentação – se dava por trás de biombos.  Eles não podiam vê-la e ela os via de forma limitada.  Sua voz, sua música, a riqueza de seu pai (*na verdade, dela mesma*) eram os elementos de sedução.  No entanto, ao rejeitar os pretendentes nobres, ela atrai o olhar do próprio imperador, ele mesmo um deus vivo, daí, as convenções sociais são burladas e ele invade o espaço de reclusão de Kaguya-hime.

Enfim, ainda que o filme nada mostre, nem mesmo coloque em discussão, a invasão do imperador aos aposentos da princesa é uma forma de violação.  E a criatura divina se sente ameaçada.  As carícias do imperador, sua certeza de que ela desejava o tempo inteiro a sua atenção, é uma ofensa.  Fora, claro, que ela não deveria recusar o governante do Japão.  É aí que Kaguya-hime pede socorro aos seus companheiros divinos e seus dias na Terra estão contados.


O filme passa a idéia de que há beleza nos humanos e em seu mundo imperfeito.  São lindas as cenas de Kaguya nas montanhas, rodopiando e se livrando das roupas pesadas.  É lindo o seu reencontro com o amor de infância, Sutemaru, mas uma vida com ele – agora, um pai de família – era um sonho impossível.  Fora isso, para alguém como Kaguya-hime, com a beleza e as virtudes de um ser divino, seria impossível escapar à atenção de grandes figuras.  Há versões do conto nas quais o pai cortador de bambu não tenta expô-la, mas, ainda assim, os pretendentes vêm até ela.  

Seguimos para o desfecho que é feliz e triste ao mesmo tempo, e que foge do lugar comum das animações norte americanas.  Não é possível assistir a um filme da Ghibli sem se emocionar de alguma forma, se deixar tocar, refletir sobre algum aspecto da humanidade.  Mais ainda, Isao Takahata, o diretor e roteirista de O Túmulo dos Vaga-Lumes (火垂るの墓 Hotaru no haka), um filme superficial, ou água com açúcar.  Kaguya-hime no Monogatari, como escrevi no primeiro parágrafo, tem cenas bonitinhas, algum humor (*destaque para as agruras da mestra em etiqueta de Kaguya-hime*), mas é essencialmente, um filme para adolescentes e adultos.


O que ainda posso pontuar?  Kaguya-hime é baseado em uma espécie de contos de fada e há elementos nele que me lembraram de outras histórias que utilizam elementos semelhantes.  O ser divino, ou perfeito, que cobiça a vida dos mortais já estava na narrativa bíblica e pode ser vista em mitologias diversas e, normalmente, quando não há arrependimento, há punição.  Curiosamente, se pensarmos no referencial budista de Kaguya-hime, e o próprio Buda faz uma aparição no filme, não se pode ver o desfecho do anime como uma forma de castigo, afinal, o Nirvana, o esvaziar-se das emoções, desejos e angústias mundanas é um nobre objetivo, ainda que a protagonista e seus pais lamentem – e essa é uma parte muito tocante do filme – que tal seja necessário.

Outras idéias recorrentes que estão no conto – ou em alguma versão dele – e no filme é o da criança presente dos céus para um casal de idosos sem filhos.  Eles recebem a dádiva da paternidade/maternidade tardia e se tornam corresponsáveis pela missão que este ser deve desempenhar.  Pensem nos apócrifos que contam o nascimento e infância da Virgem Maria, por exemplo.  Já a criança aparecida dentro de uma planta, remete à Polegarzinha, mesmo que neste conto a menina nunca se torne um ser humano de estatura normal.  As missões impossíveis propostas por Kaguya-hime aos seus pretendentes, me fizeram recordar de Pele de Asno.  A diferença é que em Kaguya-hime os desafios propostos eram uma punição por elogios formais, desprovidos de sentimento, à beleza e graça da moça e não podiam ser cumpridos.  Os que tentaram de verdade, que não buscaram enganar a moça, realmente colocaram em risco suas vidas.


De resto, o filme cumpre Bechdel Rule com facilidade.  É um filme sobre uma menina/mulher, tem várias personagens femininas que conversam entre si, a própria protagonista é seu principal assunto.  Fora isso, ao discutir papéis de gênero e a repressão exercida sobre as mulheres, o enquadraria, também, como um filme feminista, sem que precise se assumir como tal.  É isso.  O DVD está disponível para compra no Brasil.  Assisti com a dublagem nacional, que está muito boa.  O DVD traz o áudio original e legendas em português.  Não há versão em Blu-ray, infelizmente.  Já O Túmulo dos Vaga-Lumes, também lançado no Brasil, tem Blu-ray, mas não a necessária dublagem nacional.

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7 pessoas comentaram:

Assisti duas vezes, as duas no cinema: uma em um festival antes de haver uma legenda definitiva e anúncio de lançamento comercial, e uma já da versão comercial, também legendada. Mas não vim falar da legenda. Como não tenho em casa, não posso assistir mais vezes e pular para cenas, como sempre faço com meus animes, então me corrija se minha impressão estiver errada: o traço é mais sujo, mais rascunhado, no começo, e conforme a história se desenvolve, ainda que continue sendo um traço com estilo muito peculiar, se torna bem mais ... não sei direito que palavra usar, palatável talvez? Bom, diferente. Exceto nas cenas de ação furiosa onde de novo o traço se torna bastante sujo, mas aí é porque ele se confunde com as próprias linhas de ação.

E eu tenho certeza que você já sabe disso, mas se importa se eu deixar um comentário para os demais comentaristas? Como dito no texto o filme é baseado em um conto folclórico muito famoso e há referências a ele a torto e a direito em outros obras de cultura popular japonesas (animes em particular, que são o meu interesse). Me pergunto se elas aumentaram depois do filme ou se elas já estavam lá e as legendas pararam de tentar adaptar as referências assumindo que agora as pessoas já as conheciam. Basicamente a referência de longe mais comum em animes são os "pedidos da princesa Kaguya", no sentido de pedidos impossíveis ou terrivelmente difíceis em troca de algo e que a pessoa (sempre garota? não vou lembrar agora se já vi um garoto fazendo um desses) que os fez não deseja ver cumpridos. É mais ou menos comum a referência mais genérica à "princesa da Lua" também, que pode significar algo como bela e misteriosa.

De todo modo, excelente filme, preciso assistir mais Takahata. Já "zerei" o Miyazaki porque ele é bem fácil de achar, hahaha.

Fábio, acho que você está certo na percepção da arte. Parece, sim, que, no início, o traço era mais rascunhado e, depois, o estilo se altera um pouco, fica com linhas mais firmes.

Já a segunda parte do comentário, não entendi direito... As referências, sim, estão em todo o lugar. Agora, os presentes impossíveis...

Valéria, que linda resenha!
Eu não consegui vê-lo nos cinemas e por um acaso ele estava passando no TC Cult.
Me apaixonei pelo estilo da animação, assim como pela delicadeza da narrativa e os questionamentos de gênero. Não teve como eu não me debulhar em lágrimas com a cena final dela indo embora (quando fui assistir Omoide no Marnie foi a mesma coisa, chorei). Os filmes do Studio Ghibli sempre me emocionam, não tem jeito. Mexem muito comigo.
Quando terminei Kaguya, pensei, "como eu gostaria que todas a as pessoas do mundo assistissem essa obra, serem tocadas por ela e passarem adiante."

O que o Fábio comentou dos "pedidos da Kaguya" me soa como os "trabalhos de Hércules". Nunca vi essa referência, não explícita, apesar de que sinto que já vi algo do tipo em algum lugar...

Sobre minha opinião do filme, fiquei angustiado com o final.
Ainda não sei o que pensar sobre o Buda e o que ele fez, fiquei com a sensação de ter sido um final muito infeliz. Afinal, estavam treinando a Kaguya para suprimir seus desejos e emoções, e com aquele final ela se torna incapaz de sentir qualquer coisa. Mesmo que no mundo deles ela possa observar o mundo é as pessoas, a vida simples e natural que ela tanto quis viver, ela não sentiria nada.

Sabe, Panino, eu acho que essa sensação de infelicidade no final é parte do nosso estranhamento cultural mesmo. É triste, a gente vê Kaguya-hime como alguém que está sendo tirada dos que ama, só que, ao mesmo tempo, o Budismo almeja esse vazio, esse estado de superação do desejo, da dor. Por conta disso, talvez, a apreensão do conto e do filme no Japão seja bem diferente do nosso.

Valéria, já tem a versão em Blu-ray desse anime.

Sério? Eu perguntei na Cultura a e funcionário jogou no sistema e não achou... Pena ter comprado o DVD. :(

Obrigada pela informação! ^_^

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