sábado, 26 de março de 2016

Anunciado o remake de E o Vento Levou e um monte de outras coisas que escrevi sobre a obra


Um dos grupos de fãs de seriados e filmes de época que sigo no Facebook repassou a notícia de que a Paramount anunciou ontem que teremos um novo filme de E o Vento Levou (Gone with the Wind) nos cinemas em dezembro de 2017.  Só de ler esse tipo de notícia eu fico nervosa, afinal, eu adoro o filme original e o vejo junto com o livro - com todos os problemas que eles têm - como obras monumentais.  Fico feliz?  Fico com medo?  Enfim, dois nomes - três, na verdade - estariam confirmados para o filme: Hugh Jackman como Rhett Butler; Tom McCarthy (Spotlight) como diretor; e Phillip Adams, cuja grande credencial é ter escrito episódios de Game of Thrones, escreveu o roteiro.

Vamos por partes, se este filme um dia chega às telas realmente, Hugh Jackman certamente será um excelente Rhett Butler.  Ele é um excelente ator, tem o porte certo e uma idade adequada.  Só que todo mundo que já assistiu os documentários sobre E o Vento Levou ou leu sobre a atribulada produção do filme sabe que o problema nunca foi escalar Rhett, mas Scarlett.  A história é sobre ela, não sobre ele.  A notícia nada fala da protagonista que é a alma da história.  Uma Scarlett errada comprometeria absolutamente a produção.  Por mais que Hugh Jackman seja um arraso e fique lindo em roupas de época, Scarlett é a chave para um filme convincente.



Nada tenho a dizer sobre o diretor, mas E o Vento Levou, o filme original, teve três ao longo da produção, fora o desespero para acertar o roteiro.  Nada surpreendente, se levarmos em conta o livro volumoso e cheio de partes importantes... Como arrumar tudo isso em um filme só? Se fosse hoje, poderiam fazer uma trilogia E o Vento Levou sem problemas.  Na época, era acertar tudo em um filme só ou levar nas costas um prejuízo absurdo.  Isso  David Selznick não poderia aceitar ou suportar.  Até hoje, acho magnífico que E o Vento Levou tenha saído maravilhoso como saiu.  E, sim, "haters gona hate", eu adoro o filme e o livro.

Enfim, voltando aos diretores, quem assinou no final foi Victor Fleming, mas quem participou do planejamento e fez muito do trabalho foi George Cukor.  Cukor era um diretor amado pelas atrizes, Fleming era especializado em valorizar os seus protagonistas masculinos.  Fleming, ao assumir, decidiu enfatizar os traços mais detestáveis do caráter de Scarlett, queria fazer dela uma "bitch", coisa que não é uma idéia presente no livro, onde a personagem é muito complexa, muito mesmo. Ele e Vivian Leigh se destestavam, mas Fleming era amiguxo de Clark Gable. O outro diretor envolvido no projeto foi Sam Wood, que substituiu temporariamente Fleming, acho que por motivos de saúde.  Sobre a demissão de Cukor há várias versões e as mais feias envolvem a homofobia de Clark Gable.  Como a vida de Gable não é lá muito bonita, não duvido de coisa alguma.



Eu realmente torcia para que o livro fosse refilmado, vejam bem, remake é de filme.  É isso mesmo que supostamente se vai fazer?  Refilmar o filme de 1939 ou pegar o livro de Margaret Mitchell e fazer um novo filme? Sei que o filme original é icônico, está grudado no imaginário coletivo de meio mundo, mas filmar o livro seria uma boa idéia.  O problema é que não acredito que isso seja possível em um filme só.  Querem ver?   Uma das questões centrais do filme é a culpa que Scarlett sente por não conseguir ser uma dama como sua mãe.  No filme, isso é reduzido a quase nada.

Uma minissérie, uma superprodução aos moldes do que fizeram com vários livros extensos, como Os Pilares da Terra ou Orgulho e Preconceito, ou ainda Norte e Sul, o americano que é, também, sobre a Guerra de Secessão, seria o ideal a meu ver.  E, claro, mostrar Scarlett em toda a sua tenacidade e não somente em suas características mais negativas, por assim dizer.  Scarlett é uma sobrevivente, assim como Rhett, um espírito prático e capaz de fazer o que preciso for, inclusive passar por cima dos valores que nortearam a sua educação.



Querem ver? Se houvesse uma minissérie, poderíamos ter a passagem que o filme omitiu e que mostra o motivo pelo qual Scarlett e sua família não morrem de fome.  Ela encontra antigos conhecidos em uma fazenda vizinha, conhecidas, na verdade, um grupo de mulheres sobreviventes, os homens morreram na guerra, cuja matriarca dá uma chamada em Scarlett e a faz ver que é caso de vida o morte.  Foram elas que deram alimentos e outros suprimentos para que os O'Hara pudessem continuar lutando pela vida. O livro original, escrito por uma mulher, é cheio de mulheres fortes e discussões sobre papéis de gênero que o cinema deixou de fora no filme original.  No século XXI, tudo isso seria bem-vindo.

 Há quem se preocupe, claro, com questões de racismo.  No filme de 1939, fica claro para quem quiser ver que o grupo de cavaleiros que vai vingar Scarlett da tentativa de estupro  são a KKK.  Ficou estabelecido que não haveria menção ao grupo no original.  Agora, o que é praticamente omitido do filme, ou omitido, eu diria, é a forma crítica como Rhett e Scarlett vêem a Klan.  Para eles, cisa de perdedores que não entendem que os tempos mudaram.  Românticos ou idiotas, mas o fato é que os protagonistas não compactuam com eles. É preciso seguir em frente.  Queria ver isso no filme.



Outra coisa que eu queria ver era mais cenas de Melany.  No livro, ela é a grande dama, a moça perfeita, o coração bom, mas é capaz de ações de coragem que o filme ignora totalmente.  No livro - e isso traz culpa para Scarlett - Melany e a protagonista se tornam amigas.  Elas passaram umas boas juntas e Melany não era um peso morto, mas uma mulher ativa, ainda que a sua maneira.  Ela, Melany, também segue em frente.  

Uma personagem que espero ver incluída no novo filme - se ele sair - é Will Benteen, um soldado confederado que chega ferido até Tara e é acolhido pela família de Scarlett.  Depois de são, ele se torna capataz e braço direito da protagonista.  A personagem é responsável por pelo menos uma das grandes cenas que, no filme, foram transferidas para outras personagens, neste caso, Mammy, a ama de Scarlett e um motivo de controvérsia ambulante, já que virou protótipo de um dos estereótipos mais comuns para as mulheres negras na ficção.



Queria, também, ver Scarlett com todos os seus filhos.  No filme, ela só teve uma, no livro, tem um com cada um dos maridos e - eis o lado "bitch" aparecendo - ela é uma péssima mãe.  Amar mesmo, ela só ama a filha com Rhett.  E esta filha que está no filme de 1939.  Até hoje isso seria tabu, ou não seria?  Alguém poderia perguntar se vejo Scarlett como uma personagem feminista.  Olha, ela não é uma mocinha comum, ela tem um montão de defeitos e poucas qualidades tradicionais, por assim dizer, mas através dela a autora fez uma série de discussões - sobre maternidade, papel das mulheres na sociedade, direito a autodeterminação etc. - que estão na agenda feminista até hoje.  

A questão não é se Scarlett é feminista, para mim ela não é, mas ela é interessante para fazer uma série de discussões de gênero que eu perderia a conta.  A Guerra funciona como um fator de subversão, mas é Scarlett o agente de mudança.  Egoísta, verdade, porque ela pensa em si e, no máximo, na sobrevivência dos seus, mas, ainda assim, de transformação.  Vou citar somente algumas das problemáticas que estão muito melhor colocadas no livro, porque o texto já seguiu longe. 



Quando começa o livro, Scarlett tem 16 anos e se pergunta sobre o valor da educação dada às jovens damas de sua época.  Ela não pode correr, nem saltar cercas, ela não pode rir alto, ela não pode comer o que quiser e na quantidade que quiser, porque, bem, ela está na vitrine para ser tomada como esposa.  E tudo isso, todo esse esforço, para que em uma, no máximo duas estações, ela se case, é isso, ou ficar mal falada.  Ela se casa (*e, aí, livro e filme se encontram*), só que, logo depois, se descobre miseravelmente grávida e viúva.  Por conta disso, ela pode, agora, comer o que quiser, afinal, é mãe e viúva, pode, inclusive, ficar assim para sempre.  



Ela se revolta contra o luto - um ano, se bem me lembro, totalmente de preto - e a modéstia que lhe é imposta.  Ela é uma moça de 17 anos e quer viver a vida.  Vem a guerra.  Scarlett acaba sendo o único membro da família apto a tentar salvar todos da inanição e dos impostos.  Ela vai para a lavoura, obriga suas irmãs a fazer o mesmo, ela mente, ela aceita a ajuda do governo Ianque, ela se mete em negócios sujos "que nem um homem deveria aceitar", mas ela quer não somente sobreviver, mas viver bem.  

Ela faz o diabo, mas está sempre corroída pela culpa, pela memória da mãe.  Agora, são mulheres como Scarlett - brancas e negras - que conseguem manter o Sul funcionando no caos do pós-guerra.  A diferença e o escândalo é que depois que os homens voltam, ela não aceita ficar nas sombras.  Scarlett O'Hara é transgressora, seu porém é a paixonite pelo mosca morta do Ashley Wilkes, o protótipo do sujeito que morreria com o velho Sul... se Scarlett não o tivesse puxado, também, e se ele não tivesse Melany ao seu lado, claro.



Para dizer que não falei de Japão, E o Vento Levou já foi transformado em mangá com o nome de Kaze to Somoni Sarinu (風と共に去りぬ).  Publicado em 1979 na revista Seventeen, teve sete volumes no total; quatro na reedição que eu tenho.  Ele foi publicado na Itália nos anos 1980.  Foi em páginas italianas que eu o conheci.  A autora do mangá, Mutsumi Tsugumo, fez uma adaptação do livro, fiel e com todos os detalhes que o filme de 1939 teve que sacrificar, mas a referência visual é o filme.  Aliás, é um mangá muito bonito.  O Teatro Takarazuka já encenou E o Vento Levou diversas vezes, também.  é possível encontrar cenas de algumas montagens no Youtube.

Terminando, eu realmente fico com o pé atrás com essa adaptação, o roteirista comenta que o roteiro ficou muito "wild".  Como entender isso?  Emocionante?  Louco?  Há quem considere guerra dos Tronos como boas credenciais, eu não vejo muito por aí, não... Enfim, segundo a notícia, filmagens começam em julho. Como não há uma Scarlett, eu duvido muito.  Isso se essa notícia nào for um trote, enfim... Para quem estiver interessado, aqui há uma entrevista com a autora do épico, Margaret Mitchell, datada de 1936.

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2 pessoas comentaram:

Sou apaixonada por este filme e tb li o livro. Gostaria muito que fosse feito um filme adaptado do livro, e a sua ideia de trilogia é excelente. São muitas partes importantes do livro que não puderam estar na tela, e seria muito interessante vê-las.
Se acontecer mesmo esta adaptação, eu espero que façam com muito cuidado e carinho, sabendo que este livro e filme possuem fãs ardorosos!! :d

Do jeito que anda Hollywood, se já escalaram o Jackman logo de cara, não me surpreenderia se o Rhett fosse o protagonista do filme e a Scarlett virasse coadjuvante, com a história contada pelos olhos dele.

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