terça-feira, 22 de março de 2016

Dominação que faz mal


O Jornal Correio Braziliense de domingo trouxe uma matéria interessante discutindo cultura pop e a questão da dominação, especialmente, aquela que está ligada a questões de gênero, isto é, os papéis femininos e masculinos em uma dada sociedade.  Dominação está ligada à opressão, à violência contra as mulheres, que pode ser física, ou não.  Gaslighting, por exemplo, é um termo que foi forjado a partir do cinema, um filme com a Ingrid Bergman, e significa fazer com que a pessoa comece a duvidar de sua própria sanidade.  É uma forma de abuso comum. 

Interessante é como a cultura pop - e aqui entra shoujo mangá, também, ainda que a matéria não fale - vem abordando a questão, seja de forma crítica, ou com um afastamento que causa incômodo em alguns casos. Aliás, está aí em cima uma imagem de Hot Gimmick (ホットギミック), série de abuso por excelência. Enfim, segue a matéria, ela está na versão completa para assinantes.


Dominação que faz mal

Tratados sem a devida importância, relacionamentos abusivos ganham destaque em produções da cultura pop e provocam reflexões sobre o tema


Killgrave e Jessica Jones: pressão psicológica para dominar o objeto do desejo
Alexandre de Paula
Especial para o Correio

Killgrave, da série Jessica Jones, não é um vilão comum. Ele tem, sim, um poder, mas não é o de levantar carros, voar pelos céus ou soltar chamas de fogo pelas mãos. Seu grande triunfo é controlar mentes. E usa isso para que todas as pessoas ajam de acordo com as vontades dele. Jessica Jones, protagonista da série, é uma das vítimas do personagem. Dominada por ele e, seguindo suas ordens, matou, foi estuprada, entre outras ações que não desejava.

No mundo real, não é possível controlar mentes como faz Killgrave, mas o domínio exercido por esse vilão revela um típico caso de relacionamento abusivo. Muitas vezes ignorado, esse tipo de relação está presente em várias produções do mundo pop. Filmes, novelas e livros abordam situações em que o desejo de uma pessoa é superado pelo controle de outra.

A importância dessas representações varia de acordo com a forma com que os personagens são representados, acredita a professora e cineasta Rosa Berardo, especialista nas relações entre produção audiovisual e questões de gênero. “Construir personagens enquadrados num sistema opressor, seja qual ele for, serve para alertar sobre comportamentos de submissão ou de opressão”, afirma. Reconhece que apresentam os temas de uma maneira diferente têm o poder de incomodar o público e colocar em cheque valores antigos e prejudiciais, ou seja, faz com que as pessoas reflitam e identifiquem o maléfico controle.

A professora, doutora em cinema pela Sorbonne e pós-doutora pela Université du Québec à Montreal, cita a própria série Jessica Jones e algumas novelas como exemplo que, certamente, tiveram impacto positivo. No caso das telenovelas, ela acredita que personagens que conseguem denunciar os abusadores e se livrar do domínio influenciam reações positivas do público. “Isso certamente deve ter inspirado espectadoras que passavam por situação semelhante a questionar seu papel como mulher e a almejar uma mudança”, destaca.

Cinquenta tons de cinza, Game of thrones, Crepúsculo são exemplos de outras produções culturais de grande sucesso que apresentam relacionamentos abusivos, embora nelas, muitas vezes, o questionamento ao comportamento nocivo não apareça.

A exposição do tema é importante para mostrar para as pessoas que esse tipo de relacionamento existe e é grave, acredita o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos. “Muita gente mal se dá conta de que sofre abuso, às vezes, pelos próprios companheiros. É importante que isso seja denunciado”, completa.

Autor do livro Ciúme — O lado amargo do amor (ed. Ágora), o psiquiatra ressalta que esse tipo de relação não se resume a casos conjugais e pode ocorrer em qualquer relação em que alguém se coloque em posição superior ao outro e use isso para controlá-lo. “É uma situação em que existe uma pessoa exercendo sobre outra um efeito de destruição psicológica, que a faz renunciar aos próprios desejos e vontades”, explica.

Na maioria dos casos de relacionamento abusivos representados nas produções culturais, a vítima é mulher. No dia-a-dia, o panorama não é diferente, elas são as principais atingidas pelo problema. “Isso tem a ver com o nosso machismo. Há mudanças acontecendo, as mulheres estão mais ativas, mas na nossa cultura em qualquer relação ela já parte de uma posição supostamente inferior ao homem”, explica.

Apesar de a relevância de temas como esse ter aumentado nas produções da cultura pop, a professora Rosa Berardo acredita que ainda . há muito o que se conquistar em termos de representação nas narrativas midiáticas.

No mundo real

A estudante de antropologia Olga Morais, 21 anos, foi vítima de um relacionamento abusivo. Assim como Jessica Jones, ela se sentia dominada por um amigo que a controlava sem precisar usar força física ou gritar. Mesmo sem terem um relacionamento amoroso, o “amigo” se indignava quando ela saía ou mesmo se envolvia com outras pessoas. “Pode parecer bobagem, mas esses caras sabem exatamente o que dizer para te deixar mal”, explica Olga.

No começo, era sutil. Depois vieram as ordens diretas, que ela obedecia. “Sempre que eu resistia, ele se fazia de vítima. Todas as minhas conquistas eram piadas para ele e tudo o que dava errado era porque não segui as ordens dele”, lembra. O amigo a fez acreditar que apenas ele enxergava qualidades nela e que todos, exceto ele, a desprezavam.

Submissão, dependência, depressão foram consequências desse abuso. A culpa que Olga sentia fez se afastar de todos e até largar a faculdade. A força para perceber que se tratava de um relacionamento abusivo veio com tudo se tornando cada vez mais sério.

Como Jessica Jones, ela buscou refúgio na bebida para se esquecer dos transtornos que a relação causava. Foi difícil se livrar do domínio, ela conta. “Não tive ajuda, até porque não falava muito sobre isso e muitas pessoas não acreditavam ou não davam importância.” Ver a série da Netflix trouxe sofrimento por fazê-la se lembrar do que viveu, mas também a sensação de ser compreendida. “Chorei de emoção na cena em que o Killgrave não consegue controlá-la mais. Eu me senti acolhida pela série.”

Paula Alquist (Ingrid Bergman) sofre abuso do marido.
Desde o passado

A representação de relacionamentos abusivos em produções culturais não é exatamente novidade. Embora esse tipo de temática tenha ganhado força nos últimos tempos (até pela influência de parte do público), é possível citar exemplos bem anteriores. Com direção de George Cukor, o filme Gaslight, de 1944, retrata um caso em que o marido faz a mulher parecer louca e assim lhe tomar a fortuna. Para isso, ele provoca situações supostamente sobrenaturais e, sempre que ela pergunta, afirma que tudo não passou de delírio dela. O próprio filme deu origem a uma expressão famosa no estudo das relações abusivas: “gaslighting”. A expressão nomeia a forma de abuso psicológico em que informações são omitidas ou inventadas para fazer a vítima duvidar da própria sanidade.


Danos amenizados

Em algumas produções, os relacionamentos abusivos são tratados de maneira romântica, sem expor os prejuízos provocados por esse tipo de comportamento:



Crepúsculo: Em passagens da saga, Edward ameaça matar Bella e se suicidar caso ela coloque um fim na relação entre eles. Bella é representada com autoestima baixa e Edward como seguro e confiante.



Cinquenta tons de cinza: Em diversos momentos da história, Anastasia é agredida ou ameaçada pelo parceiro Christian. Ele tem também personalidade controladora e obsessiva.


Diário de uma paixão: Apesar de, no fim do filme, tudo acabar bem, o relacionamento entre os protagonistas Allie e Noah começa baseado em uma chantagem. Quando mal se conheciam, Noah ameaça se suicidar caso ela não aceite sair com ele.

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