sábado, 16 de abril de 2016

Para quem acredita que a Escrava Isaura não era branca, algumas considerações

Isaura em sua primeira versão televisiva.
Por conta do texto sobre a futura novela das seis da Globo – Sol Nascente – algumas pessoas comentaram o absurdo que foi escalarem uma branca – Lucélia Santos em 1976, Bianca Rinaldi em 2004 – para o papel da protagonista de Escrava Isaura, como se se tratasse de um black face.  Essa reclamação está, também, por exemplo, no documentário a Negação do Brasil e na tese de doutorado que lhe deu origem, como se fosse uma ofensa.  Bem, eu amo A Negação do Brasil, passo sempre que posso para as minhas turmas, sigo o Joel Zito no Facebook e tal, mas tenho muita críticas ao que ele apresenta ali.  Uma delas é que ele perde a mão nas críticas ao Gilberto Braga, por não gostar dele por motivos justos, mas passa a mão na cabeça do Manoel Carlos, queimando na fogueira o (suposto) racismo de um e relevando o do outro.  Isso fica mais evidente no livro, mas dá para sentir no documentário, também.

Voltando à Escrava Isaura, a de 1976 é uma das minhas novelas favoritas.  Se passar, eu assisto, gravo, revejo.  Há resenha aqui no blog da péssima versão em DVD que a Globo lançou (*1-2*) e, bem, sempre que vejo alguém reclamando da Isaura branca, me pergunto se a pessoa leu o livro do Bernardo Guimarães.  Se leu, deve recordar da apresentação de Isaura, um trechinho já basta: “A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor de rosa desmaiada”, mais adiante, quando Isaura está desaparecida, sua descrição para quem a encontra-se começa assim “Cor clara e tez delicada como a de qualquer branca”.  Alguma dúvida que Isaura é branca?  A descrição completa da primeira aparição de Isaura está aí embaixo:


A mãe de Isaura era escrava, seu pai branco.  Provavelmente, uma “mulata” clara.  Pelas leis derivadas da “One-Drop Rule”, se alguém tivesse uma gota de sangue negro, essa pessoa seria negra. Só que isso funcionava nos EUA, não por aqui. Muitos brancos (sociais) nada mais eram, ou são, do que mestiços.  Peguem fotos das elites brasileiras dos séculos XIX e início do XX e observem os traços de alguns deles.  A própria idéia do livro, que considero racista, ainda que bem intencionado, era produzir o horror, a repulsa à escravidão, afinal, até uma moça branca, prendada, intelectual e moralmente superior, poderia ser escrava, se nascesse de um/uma escrava. 

Sempre que analiso o livro, que é cheio de lacunas, percebo bem o motivo pelo qual o autor não coloca no centro uma moça de traços negros evidentes.  Para uma sociedade escravocrata, que via as mulheres negras como burros de carga, reprodutoras, nutrizes e objetos sexuais, seria difícil causar comoção com uma protagonista negra, era preciso chocar.  De resto, recomendo a leitura do livro, a observação de como são rasas as outras personagens negras, como André, que é apaixonado por Isaura, é pintado como alguém torpe, que deseja algo que está além do seu direito.  Isaura, bela, pura e prendada como é, merecia um branco, o melhor de todos eles, Álvaro.  A novela, ambas as versões, aliás, fizeram muito pelo livro, foram muito além daquilo que ele oferece.

Isaura na reinterpretação da Record.
De resto, acho interessante ver como a coisa funcionava nos EUA. Talvez, Isaura fosse uma Octoroon (1/8 de sangue negro) ou até menos. Por conta da discussão paralela, cheguei até esse artigo “The Hidden White Slaves of America” (Os Escravos Brancos Ocultos da América) falando sobre os escravos "brancos" norte americanos. Tão brancos como qualquer branco ou branca, mas negros, porque com uma gota (*ou mais*) de sangue negro e, claro, escravos.  Leiam a descrição a seguir: 
“(...) Uma menininha, de cerca de nove anos de idade, cuja pele era tão branca quanto a média das crianças brancas. Ela atraiu alguma atenção, e o comprador relatou a sua história. Ela era filha de uma mulata bonita, e seu pai foi o Hon. Sr. _____ ,*  Membro do Congresso deste Estado. Sua mãe não era escrava de Mr. _____, mas propriedade de um vizinho. Eu acredito que é um costume entre os patriarcas fazer um intercâmbio de cortesias deste tipo.  Aqui estava uma criança de tenra idade, aparentemente branca, conduzida com um bando de escravos para uma distante terra, nunca mais a conhecer o amor de uma mãe, mas para ser dali por diante vítima de chicote ou da luxúria de um tirano, enquanto seu pai, no augusto Senado dos Estados Unidos, fala de liberdade! " (Correspondente do Daily Tribune, St. Louis, Missouri, 31 de outubro de 1859).
Poderia ser nossa Isaura esta menina aí em cima, não é mesmo?  Bernardo Guimarães talvez tenha visto muitas escravas (*e escravos*) que poderiam passar por brancos.  Então, não considero Escrava Isaura um caso de blackface ou de discriminação racial.  Isaura na novela é tal e qual a Isaura do livro.  Se quiserem culpar alguém, culpem o livro.  E, como deixei claro no outro post, que atraiu muito mais atenção do que eu poderia prever, sim, é preciso que as nossas novelas mostrem a diversidade do nosso povo, que não se apeguem somente à estereótipos e que deem visibilidade aos atores e atrizes competentes de todas as cores.  Em um país cheio de nipo-brasileiros é absurdo pegar alguém que não tenha relação com eles para fazer o papel de um japonês ou descendente.  Não estou falando de estrangeiros, estou falando de brasileiros interpretando brasileiros em novelas e minisséries nacionais.  

Não bastava ser branca, Isaura era, também, casta, modesta e culta.
De resto, é sempre bom falar de Isaura.  Infelizmente, estou falando muito de novela esses dias e já estou aqui me roendo para comentar Liberdade Liberdade... Só que tenho pilhas de trabalhos para corrigir e notas para fechar.  Aliás, é por conta disso que não consegui terminar de ler Orange #5 e nem resenhar Zootopia.

GOSTOU?

0 pessoas comentaram:

Related Posts with Thumbnails