domingo, 10 de julho de 2016

Comentando Malévola (Maleficent, 2014)



Domingo passado, finalmente assisti Malévola (Maleficent), a releitura da versão da Disney da história da Bela Adormecida a partir da sua vilã.  Começo afirmando que se trata de um filme assumidamente feminista, algo a se elogiar, sem dúvida, no entanto, a película me despertou sentimentos conflituosos.  Gostei do filme?  Sim, no entanto, algumas questões me incomodaram muito.  Não é porque o filme é feminista que ele é perfeito, ou que eu tenha que fechar os olhos para seus problemas, então, vamos lá para a resenha.

Em um tempo e país não identificado, uma fada alada chamada Malévola  é a guardiã de uma floresta mágica chamada Moors (*charneca/pântano*).  Um dia, a menina-fada conhece um garoto humano chamado Stefan.  A amizade e o amor nasce entre os dois, mas o jovem Stefan deseja poder e ascensão social, afastando-se de Malévola.  O tempo passa e o rei humano do reino vizinho decide conquistar a charneca.  Malévola e outros seres mágicos derrotam seu exército e ele oferece metade de seu reino e a mão de sua filha em troca da morte da fada alada.  Esta é a chance de Stefan (Sharlto Copley), agora camareiro do rei.

A mutilação de Malévola é, também, uma metáfora de estupro.
Conhecendo as fraquezas de Malévola (Angelina Jolie), ele se aproxima dela, a engana e pratica contra ela uma terrível violência que lhe garante a promessa do rei, mas, também, transforma a fada em um ser sombrio e vingativo.  O tempo passa, Stefan tem sua primeira filha e durante o batizado da menina, Malévola se apresenta e coloca em ação sua vingança.  Quando Aurora  (Elle Fanning) alcançasse o seu décimo sexto aniversário, ela feriria o dedo em uma roca de fiar e cairia em um sono perpétuo, a não ser que um beijo de amor a despertasse.  Stefan se torna obcecado por destruir Malévola e a fada em fazer cumprir a sua vingança, no entanto, nem tudo sai como planejado.

Assistir Malévola me fez lembrar de O Corcunda de Notre Dame.  Você tem material para fazer um filme adulto e até sombrio, mas teria que romper com parte da sua suposta audiência e, por conta disso, patina aqui e ali, tornando um filme que poderia ser memorável somente uma obra interessante.  Querem ver?  Malévola tem ecos de As Brumas de Avalon, dos traços pagãos que sobrevivem em muitos contos de fada e que foram domesticados ao longo de séculos de apropriações e reescrituras.  O mundo de Malévola é pagão, mas nada é dito sobre religião no filme, porque para isso teriam que situar o reino dos humanos como cristão, não somente como patriarcal e violento e, portanto, opressor para a natureza e o feminino.  Se o embate fosse claro entre paganismo e cristianismo, parte do público do filme poderia, sim, se evaporar, especialmente, nos EUA.  Ainda assim, este aspecto não passou despercebido.

Dentro da ordem patriarcal do filme, a função da Rainha é decorativa.
Sim, o filme é bem sucedido em retratar essa ordem patriarcal que deseja se impor e tudo dominar.  A natureza, representada pela floresta mágica, precisa ser ocupada e tornada “útil” e “racional” dentro dessa nova ordem.  As mulheres, na verdade as fêmeas em geral, precisam ser controladas, dominadas, colonizadas.  Por exemplo, a rainha (Hannah New), esposa de Stefan não tem voz, chega a ser exagerado o seu apagamento, e quando ela deseja tomar a palavra, é calada pelo marido com um gesto de mão para, logo em seguida, ser banida da história.  Quando o rei e sua filha se encontram, o que ele faz é trancá-la para “a sua proteção”.  Sem voz, encarceradas, sem a possibilidade de ir e vir, daí, voltamos para Malévola.

Stefan não é capaz de matar Malévola, a quem dizia e acreditava amar, mas tenta dominá-la roubando-lhe as asas, sua possibilidade de ir e vir como e quando quiser.  Alguns viram na castração de Malévola uma metáfora do estupro.  Sim, é uma leitura possível, afinal, ela é seduzida, drogada e mutilada.  Stefan rouba dela não  somente suas asas.  A violência faz com que a fada se torne um ser sombrio e perca a noção de justiça e o equilíbrio.  A vingança, que o filme trata como legítima, se volta contra a filha de Stefan, mas como se trata de um filme feminista, ainda que ingênuo e pueril, a mensagem final é a de que Malévola estava tentando atingir a pessoa errada.  Afinal, Aurora também era uma vítima, além de ser muito mais parecida com Malévola do que com o pai.

Malévola e a jovem princesa.
Narrar uma história por um outro ponto de vista, deixar claro que as vozes femininas foram caladas, é um dos pontos altos do filme.  Se pensarmos bem, a Bela Adormecida é um conto de fadas muito problemático.  As versões mais antigas da história, em especial a de Giambattista Basile, falam de estupro, de uma princesa – ou beldade irresistível – adormecida e que é violentada por um príncipe que passava.  A princesa, aliás, não é acordada por um beijo de amor, mas pelo ato de quase canibalismo dos filhos que gerou enquanto dormia e a história não terminava aí, como nos contos que foram fixados a partir do século XVIII e XIX.  Havia mais sofrimento para a princesa, que na versão mais antiga chamava-se Talia, e sua antagonista era  uma mulher.  

É comum nos contos de fada que mulheres sejam inimigas das mulheres.  Afinal, elas lutam pelo lugar na vida de um homem.  A madrasta ou sogra, no francês antigo era a mesma palavra, querem ser as senhoras da casa, da vida dos filhos, a nova mulher, jovem, virgem, vem para lhes tomar a primazia.  No fim das contas, o que muitas vezes se celebrava nos contos de fada era a inimizade "natural" entre as mulheres e sua dependência em relação ao masculino, as migalhas que caíam da mesa do senhor.  A chegada de uma nova mulher, abala a ordem estabelecida.  Malévola, o filme, se coloca antes desta ordem discursiva ser estabelecida e a subverte.  Eis outro trunfo do filme.

Essa imagem se remete diretamente ao clássico de 1959.
Outro problema do conto da Bela Adormecida, desta vez em suas versões mais modernas, é que a mocinha e o príncipe não se encontram antes do beijo mágico.  Na verdade, a bela, que geralmente não tem nome, mal tem voz, passa seu tempo em uma clausura temerosa no castelo dos pais até que vem a tragédia.  A fada má, criatura caprichosa e vingativa, lança seu feitiço por não ter recebido convite para o batizado da menina.  Por isso mesmo, eu gosto muito da versão da Disney para a Bela Adormecida, e isso certamente teve impacto sobre a forma que assisti o filme.

O que a Disney fez foi tentar dar alguma personalidade e história para Aurora, bebendo em outras versões e mesmo outros contos.  Daí, Aurora ir morar com as tias fadas – Flora, Fauna e Primavera (Merryweather, em inglês) – na floresta, acreditar ser uma simples camponesa e ter a chance de se encontrar e se apaixonar por seu príncipe e ele por ela.  A Bela adormecida original não tinha essa oportunidade, ela era somente um ser inerte.  Claro que a Aurora do filme de 1959 não se rebela, é submissa e segue chorando para o castelo dos pais, mas a tragédia que se segue, o cumprimento da maldição de Malévola, não permite maiores discussões.  O rebelde na história é o príncipe Filipe,  o primeiro da Disney a ser mais que um lugar de felicidade e salvação para a mocinha e ter uma personalidade.  É ele que recusa se casar com a princesa e ainda diz para o pai “nós já estamos no século XIV, papai!” para justificar o casamento por amor.  

As fadas-tias, as mais injustiçadas do filme.
Em Malévola nada disso acontece, ou não acontece de forma decente.  As boas fadas, tão importantes na animação, são convertidas em um indigesto alívio cômico.  Uma excelente atriz como Imelda Staunton reduzida a um ser ridículo, absolutamente incapaz, enquanto a original era a voz do bom senso.  Sim, além da falta de definição sobre as questões religiosas necessárias ou o exagero de efeitos e seres fofinhos, o tratamento das fadas foi o que houve de pior.  E vejam que em um filme feminista, as três fadas são transformadas em seres sem importância, sem função prática ou capacidade mesmo de cuidar de uma criança.  Sem Malévola, Aurora não sobreviveria.

As fadas poderiam ter sido transformadas em agentes do patriarcado, em aliadas de Stefan, preocupadas em sobreviver em uma nova ordem.  Poderiam, mas simplesmente foram colocadas no filme para nada além de serem idiotas.  Para piorar, o filme omite algo importante. São três fadas “boas” a darem presentes e uma fada “má” que amaldiçoa a princesa.  Malévola chega depois do segundo presente e lança sua maldição, a menina morreria aos 16 anos, depois de espetar o dedo na roca de fiar.  OK, mas aí entraria Primavera  (Lesley Manville) e diria que não pode desfazer a maldição, mas pode amenizá-la e surge a história do beijo de amor.  No filme, tudo fica para Malévola.  Ora, se tudo seria obra, responsabilidade, mérito da personagem título, para que as fadas-tias afinal?

O beijo que não deu certo.
Sobre Filipe (Brenton Thwaites) não há o que falar.  Ele é mais um alívio cômico, mas pior ainda que as fadas, pois ele efetivamente nem precisava estar em cena.  A sua presença não justificaria que Aurora abandonasse Malévola, o vínculo entre as duas era forte demais.  Seu beijo também é ineficaz, ele não luta com o dragão, que nessa versão não é Malévola, pois o antagonista maior é Stefan, de resto, o moço mal serve para enfeitar a tela, porque, bem, é um filme de mulheres, sobre mulheres e tudo se resolve entre elas.  Vejam bem, não estou dizendo que o filme dissemina o ódio ou o desprezo aos homens, mas que só há duas personagens masculinas importantes e nenhuma delas é o príncipe Filipe.

Bem, uma das personagens masculinas importantes é o rei, ele é o vilão do filme, o único irrecuperável, por assim dizer.  De um menino ambiciosos, Stefan transformado em rei é apresentado como cada vez mais perturbado conforme o tempo vai passando e o aniversário de 16 anos de Aurora se aproximando.  Ele é obcecado por Malévola e quer destruí-la.  Eliminar a fada, eliminar a floresta mágica, seria uma forma de confirmar sua posição.  Há exageros, considero a anulação total da rainha, um deles, mas a personagem faz sentido e funciona bem como antagonista de Malévola.

O corvo promovido a personagem fundamental do filme.
A outra personagem masculina importante e a que eu mais gostei no filme, é o corvo Diaval, na animação era Diablo mesmo.  Sam Riley consegue dar dignidade e humor para a personagem, veja bem, ele é engraçado sem ser idiotizado como as fadas.  As suas metamorfoses foram importantes para o filme e ele mostrou bom senso em momentos nos quais a protagonista estava tomada pelo ódio.  Não gostei de Malévola – minha vilã favorita da Disney – não ser o dragão, mas, efetivamente, isso não atrapalhou o filme. Depois de descobrir que Sam Riley é o Darcy de Orgulho e Preconceito e Zumbis, fiquei mesmo curiosa em ver como ele se sai no papel.

De resto temos Aurora e eu realmente achei a versão de Elle Fanning exageradamente adocicada e sem profundidade.  Essa Aurora feliz e fofa, fez a Cinderella do live action parecer uma personagem densa.  Faltou melancolia e, como não aprofundaram em nada a relação dela com as fadas ou com Filipe ou com o pai, faltou drama, também.  Aliás, até a beleza faltou e nem estou dizendo que a menina é má atriz, simplesmente ela não teve cenas decentes para atuar.  De tudo no filme, talvez ela – e o príncipe, claro – sejam as coisas mais esquecíveis.

De fada má à fada madrinha, Malévola é uma personagem complexa.

Já terminando, nem preciso dizer que o filme cumpre a Bechdel Rule.  Tudo está lá e, mais ainda, ainda temos de bônus a exploração dos laços entre mulheres, neste caso, Aurora e Malévola, a valorização das mulheres, seus saberes, suas palavras.  Ao girar o ponto de vista da narrativa da Bela Adormecida da Disney o filme abre espaço para que questionemos o quanto as histórias poderiam ser diferentes se contadas por outras pessoas, a partir de outros lugares de fala, e o quanto a escrita aprisiona essas mesmas histórias, cristalizando-as em uma só versão, que se torna a autorizada, a canônica.  

Poderia ter sido de outra maneira?  O beijo de amor, assim como em Frozen, poderia ter sido dado por outra mulher?  A vilã era vilã mesmo, ou os narradores assim a tornaram?  Malévola era realmente uma ameaça, ou era ameaçada?  Muitas possibilidades, no entanto, reafirmo que o filme fica pelo meio do caminho, porque precisa ser infantil e mesmo bobo, daí certas questões são tratadas de forma superficial, ou deixadas de lado.  Agora, de ruim mesmo, só as fadas.  Neste caso, trata-se, também, de uma injustiça, afinal, são mulheres como Malévola e Arurora, porque foram negligenciadas   e ridicularizadas desta forma?  Enfim, como fui na onda dos elogios que li, partidos de gente que eu respeito e gosto, comprei o Blu-ray, ou seja, acreditei que o filme merecesse morar aqui em casa.  Depois de assisti-lo, no entanto, me arrependo um pouco da compra.  É legal, mas não faria questão de tê-lo na minha coleção.

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