sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Comentando Amor & Amizade (Love & Friendship, 2016), baseado no primeiro romance escrito por Jane Austen


 Quarta-feira assisti ao filme Amor & Amizade (Love & Friendship), baseado no livro Lady Susan de Jane Austen.  Escrito por Austen ainda na adolescência, a obra só foi publicada muitos anos depois de sua morte e, que eu saiba, nunca foi adaptado para o TV, ou para o cinema.  Tal situação deu um certo ineditismo para a adaptação, que foi elogiada no festival de cinema independente de Sundance, e salva o filme daquelas comparações inevitáveis, ou seja, ninguém sai do cinema se questionando se Kate Beckinsale é a melhor Lady Susan, ou não.  Agora, confesso que terminei o filme com uma estranha sensação de ter visto interpretações modernas e dinâmicas em um filme dirigido tal e qual as minisséries da BBC dos anos 1970.  Foi esquisito, muito mesmo, e não sei dizer se gostei, ou não gostei do resultado final da coisa.

A história do filme é simples: Lady Susan Vernon (Kate Beckinsale) é uma viúva relativamente jovem, bonita e com poucos recursos financeiros.  Ela vive de casa em casa, passando temporadas nas propriedades de amigos ricos até se estabelecer em Churchill, residência de seu cunhado, Charles Vernon (Justin Edwards), para o desgosto da esposa deste, Catherine (Emma Greenwell). Disposta a continuar levando uma vida confortável, ela decide conseguir um marido rico para a filha, Frederica (Morfydd Clark), e para si mesma.  Para que tal aconteça, ela não mede esforços e não tem escrúpulos em relação a nada, ou ninguém, a começar pela própria filha.  

A exuberante Lady Susan.
Assistir Amor & Amizade – e eu preferia que o nome fosse Lady Susan mesmo – é ver em cena uma protagonista diferente de todas as outras que Austen nos ofereceu em seus livros mais famosos.  Uma mulher madura e capaz de torcer as convenções sociais a seu gosto e maneira.  Uma pessoa que faz mil armações, tal e qual as melhores vilãs de nossas novelas televisivas, que prejudica quem quer que cruze seu caminho, mas se mostra chocada com pequenas descortesias, como quando sua correspondência é exposta e seu mau-caratismo evidenciado.  Fora isso, ela é capaz de um cinismo que raramente vi em uma personagem, especialmente, feminina.

Lady Susan é transgressora ao extremo, porque não fica na dependência de ninguém, ou submissa às convenções sociais.  A protagonista não se recolhe, não se coloca na posição de vítima das circunstâncias, moldando os acontecimentos para que eles se adaptem aos seus interesses. Ela quer um marido, quer escolhê-lo, e, depois de querer simplesmente brincar com o jovem irmão da cunhada, Reginald DeCourcy (Xavier Samuel), a quem despreza, ela percebe que pode lucrar mais e conseguir um marido bem mais jovem que ela e, ainda por cima, um herdeiro rico.  O rapaz (*que se acha muito conhecedor da humanidade*) cai feito um patinho na sua teia e seus pais e irmã ficam desesperados só de imaginá-lo casado com uma mulher como Lady Susan.  

A família que teme a influência de Lady Susan.
É bom dizer que Lady Susan não é casta e sua fama na sociedade é de ser uma predadora de homens.  Mais curioso é que o filme e o livro, que é todo epistolar, não a julgam, nem condenam, Austen simplesmente deixa as coisas acontecerem, por assim dizer.  Lady Susan não tem escrúpulos, tem um amante, Lord Manwaring (Lochlann O'Mearáin), “destrói” o casamento dele e ainda faz troça publicamente de sua esposa (Jenn Murray) histérica.  Os ginchos que a atriz solta em suas crises de choro são assustadores.  O filme, aliás, não mostra nenhuma solidariedade entre mulheres.  Susan e Alicia Johnson (Chloë Sevigny), única e melhor amiga da protagonista, desprezam por não saber segurar o seu homem.  Lady Susan não tem problemas em passar por cima nem de sua filha, quanto mais uma estranha... 

Aliás, ela é detestada pela cunhada, porque tentou impedir seu casamento.  Imagino que o cunhado fosse mais velho e o herdeiro das propriedades da família, por isso mesmo, impedi-lo de casar seria uma forma de conseguir que seu próprio esposo herdasse tudo.  Lady Susan decide bajular o pequeno sobrinho, que tem o nome de seu finado marido, para fazer com que o garotinho desenvolva amor por ela.  O fato é que a situação dessas viúvas e órfãs dessa pequena nobreza britânica é sempre complicada.  Olhando o estilo de vida de Lady Susan - sua casa em Londres e criados - é visível que ela não está na miséria, mas, ainda assim, talvez dependesse da boa vontade de seu cunhado para ter uma vida confortável.  Em um determinado momento é falado que ela está vendendo suas jóias e a protagonista afirma que não pode pagar pela educação de Frederica.  Se bem que essa última afirmativa pode ser, simplesmente, fruto do egoísmo e não de problemas econômicos reais.

Catherine odeia Susan, porque ela tentou impedir seu casamento.
Os únicos homens invulneráveis ao poder de Lady Susan são velhos, o pai de Reginald (James Fleet) e o marido de Alicia, interpretado pelo excelente Stephen Fry.  Sobre Mr. Johnson, que foi tutor da agora Lady Manwaring, Lady Susan diz uma das melhores frases do filme “Ele é velho demais para ser controlado e jovem demais para morrer”.  Sim, eis um dos motivos para que ela deseje um marido mais jovem.  O cunhado da protagonista também é invulnerável a ela e faz a linha clueless.  Parece não entender, ou saber de nada, sugere a todos ao seu redor que é fácil manobrá-lo, mas acredito sinceramente que ele estava um passo adiante de todos.

As melhores cenas do filme são sem dúvida entre Sevigny e Beckinsale.  As duas armam juntas, mentem juntas, lamentam que Mr. Johnson queira atrapalhar sua amizade mandando Alicia de volta para os EUA (*ela é americana*) por não cortar relações com a protagonista.  Juntas elas são capazes de tudo, inclusive deixar a pobre Frederica ao alcance de Sir James Martin (Tom Benett), o idiota rico que Susan escolheu para marido da filha.  A moça foge do colégio por causa disso.  Sei que é uma obra de Austen jovem, mas o filme ganharia mais com uma Frederica com mais presença.  A atriz é muito bonita, mas absolutamente apagada, eu diria.  Com ela tudo é previsível, por assim dizer e eu não consigo ver nela uma proto-protagonista de Jane Austen.

Lady Susan e sua melhor e única amiga.
Uma coisa que não falta em Lady Susan é humor que oscila entre piadas extremamente elaboradas e diálogos muito bobos.  A parte elaborada fica por conta de Lady Susan e Alicia.  Por exemplo, a protagonista, no início do filme, tem uma “amiga” pobre que faz as vezes de dama de companhia, a Sr.ª Cross (Kelly Campbell) a quem Lady Susan não paga um tostão sequer, porque, bem, ela é sua amiga e pode se sentir ofendida.   Já Sir James Martin é o perfeito bufão e todos sentem pena de Frederica.  A personagem é tão exagerada nas tolices que faz ou fala que supera de longe Mr. Collins na capacidade de ser irritante.  

No fim das contas, Lady Susan é pega nas suas mentiras, mas, ainda assim, escapa e dá a volta por cima.  Ao contrário de um Ligações Perigosas, por exemplo, a personagem consegue virar a mesa a seu favor e conseguir um belo e satisfatório casamento para si (*ah, descubra como e com quem!*) e para a filha.  Na verdade, ela pensava em benefício próprio, mas como o forte de Lady Susan é o humor, o tom de farsa, a pobre Frederica termina se dando bem para os padrões da época e o tipo de “bom casamento” que vemos nos livros de Jane Austen, claro.  

Frederica desprezada e chantageada pela mãe.
Antes de passar para a parte da direção, nem preciso comentar que o filme cumpre a Bechdel Rule, não é?  Muitas personagens femininas, todas com nomes, a maioria conversando com uma ou mais mulheres e, bem, o assunto maior é Lady Susan, a protagonista.  Ela domina a narrativa e é secundada por várias outras mulheres interessantes, como Alicia e a própria Catherine que não se deixa enredar pela cunhada, mas mantém as aparências.  Não se pode dizer que é um filme feminista, mas é um filme dominado pelas mulheres, até porque, os poucos homens que tentam frear Lady Susan são ou ignorados, ou atropelados por ela e sem perder os bons modos.

Chegamos a parte relacionada à direção.  Tendo assistido várias séries da BBC dos anos 1970, há resenhas de algumas no blog, se você procurar, percebi uma similaridade entre a direção de Whit Stillman, que assina, também, o roteiro, e essas séries mais antigas.  A interpretação dos atores é dinâmica, moderna, mas a direção é estática, teatral.  Os poucos cenários ajudam a passar esta impressão de teatro filmado.  Fora isso, há o abuso de letreiramentos para localizar os lugares e o uso de um recurso, certamente com fins cômicos, de interromper a narrativa colocar a imagem da personagem e quem ela é na descrição.  Não ficou engraçado, quebrou o bom fluxo da história, as personagens deveriam ser apresentadas dentro do filme.  Se o objetivo foi inovar, não me impressionou positivamente.

Pobre Lady Manwaring!
Querem ver?  O jovem reverendo (Conor MacNeill), um ator baixinho, muito mesmo, em relação aos outros atores e atrizes do elenco, é introduzido quando aparecem todas as personagens ligadas à Churchill, mas só vai aparecer muito depois.  Para quê lascar a foto do moço e criar a expectativa em relação a ele se só o veríamos na cena do baile, sem falas, e em uma cena posterior com Frederica?  Depois, ele só reaparecerá na sequência do casamento e só.  Desnecessário, enfim. 

De resto, o figurino era muito bonito e correto.  É raro colocarem as personagens de Austen vestidas com roupas do final do século XVIII.  Normalmente, há a sedução do estilo regência (*ou Império, se estivéssemos na França*) e é difícil ver a temporalidade respeitada.  Nada contra, adoro as roupas femininas da época em que a maioria dos livros de Austen foi publicada, mas Lady Susan só saiu em 1871, então, foi um acerto colocar as mulheres, porque o impacto é maior nas roupas delas, vestidas como na década de noventa do século XVIII já que o livro foi escrito em 1794.  Lady Susan e seu figurino são deslumbrantes.

Legendas apresentando personagens.
Terminando, digo que se trata de um filme interessante que explora muito bem o talento de  Kate Beckinsale e Chloë Sevigny.  Fora isso, dá a chance para Beckinsale de interpretar outra protagonista de Jane Austen, pois, no início de carreira, ela foi Emma em uma adaptação de 1996, que eu gosto muito.  Amor & Amizade estreou em circuito restrito, até achei que sairia de cartaz hoje, mas continua.  De qualquer forma, acredito que não vai durar mais um fim de semana em cartaz.  Se você se interessa por filmes de época ou adaptações de Jane Austen, este é um filme que pode lhe agradar.

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1 pessoas comentaram:

Olá Valéria, queria pedir sua autorização para publicar sua resenha no blog da Jasbra.

abraço,

Adriana

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