quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Comentando Café Society (2016)


Ontem, assisti Café Society, último filme de Woody Allen, que deve receber um punhado de indicações para o Oscar.  Bem, o filme foi elogiado pela crítica como o melhor filme de Allen em dez anos.  Ele faz uma média de um filme por ano.  No entanto, como não sou especialista na obra do diretor, muito diferente disso, aliás, só posso dizer que gostei do filme.  A reconstituição de época é belíssima, fotografia, luz, tudo, enfim, feito para deleite dos olhos.  Já a história, uma dramédia, é muito boa, ainda que eu lamente que o Steve Carell participe tão pouco do filme.  Tenho outra crítica, também, mas ela aparecerá ao longo do texto.

O filme é um misto de biografia e crônica de costumes e acompanha a vida de Bobby  (Jesse Eisenberg), o caçula de uma família judia novaiorquina de classe média.  Entediado e temendo que seu futuro fosse substituir o pai, dono de uma pequena joalheria, ele parte para Hollywood com o objetivo de trabalhar com o tio, Phillip (Steve Carell), um poderoso agente de grandes estrelas.  Em Hollywood, ele acaba conhecendo e se apaixonando por uma das secretárias do tio, Vonnie (Kristen Stewart).  A moça, no entanto, tem um namorado, “Doug”, que o rapaz depois descobre ser o seu próprio tio Phil.  

O momento em que Vonnie pareceu mais bela.
Decepcionado, o moço retorna para Nova York e passa a trabalhar com o irmão mais velho, Ben (Corey Stoll), em seu recém adquirido night club.  Aproveitando-se dos contatos que fez em Hollywood e do seu talento pessoal, Bobby consegue transformar a boate em um dos lugares mai badalados pela alta sociedade da cidade e muito além.  O tempo passa, e Bobby acaba reencontrando Vonnie, mas a moça parece muito mudada.  Na verdade, ambos mudaram muito e a vida não parece mais tão simples como nos primeiros anos em Hollywood... 

Café Society é um filme marcado por personagens humanas e críveis.  Bobby, o protagonista, é cheio de pequenas imperfeições, ainda que, no geral, seja uma boa pessoa.  Ele finge ignorar que seu marido é um criminoso perigoso e toca o negócio do irmão, ele trai a esposa sem nenhum remorço.  Já a personagem de Steve Carell, que tinha tudo para ser o estereótipo do sugar daddy capitalista sem limites, é um sujeito que, por baixo da aparência de empresário que só pensa em lucros, tem um coração.  Ele, de fato, ama Vonnie, as promessas que lhe faz, e a moça nada lhe pede, não são vãs, e ele sofre por se dividir entre uma esposa a quem deve tanto e que estima (*mas não ama mais... será que um dia amou?*), e a jovem amante.

Steve Carell fez falta na segunda metade do filme.
Li críticas que lamentam que o filme não tenha se prolongado mais, ou ficado somente, em Hollywood e dado mais espaço para Steve Carell.  Bem, eu não lamento a segunda parte do filme, a família de Bobby é ótima, mas a resolução do primeiro arco, isto é, a decisão de Phil de romper com um casamento de 25 anos e a decisão de Vonnie, poderia er melhor explorado.  Só que Carell e Eisenberg são atores de grandes recursos, mas há uma ponta fraca neste triângulo, Kristen Stewart.

Há quem veja em Kristen Stewart uma grande atriz, ou, pelo menos, uma atriz promissora.  O que eu vejo nela é uma versão muito, mas muito piorada mesmo, da Keira Knightley.  Stewart é menos talentosa, menos bonita e menos elegante que a britânica.  Vê-la sendo vendida no filme como uma mulher lindíssima e cheia de vida, quando sua cara é de eterno tédio, não ajudou em nada a me convencer que estou errada. Stewart aparece no filme como musa do protagonista, trata-se de um dos clichês mais comuns quando se trata de personagens femininas, mas o papel pedia mais, exigia que ela se mostrasse inteligente e cheia de vivacidade, um tanto moderna e, ao mesmo tempo, acanhada, interiorana (*o que eram aquelas malditas meias curtas com sandália que ela usava o tempo inteiro?*) para, no final, apresentá-la mais madura e lamentando as escolhas feitas.  

Essas meias me deram vontade de gritar.
Stewart não dá conta, ela não consegue expressar as emoções com a intensidade que as cenas exigem.  O filme precisava de uma outra atriz, e é exatamente por isso que eu não lamento tanto que a ação volte para Nova York.  Na cidade grande, os holofotes se dividem entre os membros da família de Bobby.  A extrema violência de Ben, um sujeito que tinha prazer em matar, é apresentada de forma cômica.  Há a mãe judia (Jeannie Berlin) – outra caricatura muito eficaz – que adora os filhos e o irmão rico e espicaça o tempo inteiro o marido (Ken Stott), que ela considera burro e pouco religioso.  

Há, também, a irmã do meio (Sari Lennick), uma professora primária, casada com um filósofo comunista e pacifista (Stephen Kunken).  O casal tem um vizinho encrenqueiro e violento.  Como a polícia e o marido não dão conta do sujeito, que ameaça inclusive matar o cachorro da família, ela recorre ao irmão mafioso.  As complicações de Ben já eram muitas e este último crime parece ser a gota d’água que o leva para o corredor da morte.  Bobby – e isso pode ser encarado como problema de roteiro, ou não – parece muito pouco preocupado e entristecido pela situação do irmão.  Fica no ar a idéia de que o destino de Ben seria, ou merecido, ou inescapável.

Bobby e seu irmão Ben.
Algumas das passagens que eu mais gostei do filem estão relacionadas ao desfecho de Ben.  Com típicos diálogos de Woody Allen, é a da conversão de Bem ao catolicismo, porque ele deseja uma outra vida para viver e o judaísmo não lhe oferece isso, que mais me fez rir.  A mãe fica desolada, primeiro, por ver o filho condenado à morte, depois, porque  ele renunciara à sua fé.  Daí, depois de uma discussão com o marido, que se acha muito religioso sem necessariamente ser, acaba soltando que o judaísmo teria muito mais clientes se inventasse o seu próprio paraíso. ^_^  Há muitas piadas envolvendo questões judaicas e, também, fica no ar o antissemitismo que não abria exceções nem para os ricos.  Fiquem atentos para a piada sobre o clube de golfe.

Enfim, a família de Bobby é muito mais interessante que o próprio protagonista em Nova York.  O ambiente do night club mostra os meandros das relações entre alta sociedade, magistrados e criminosos, mas isso é pano de fundo para que Bobby seja mostrado como alguém capaz de circular.  A esposa que lhe arranjam (Blake Lively), rende boas cenas, mas só serve para reforçar que ele não superou Vonnie, afinal, seu “novo amor” tem o mesmo nome da agora esposa do tio, Veronica.  Lively tem pouco tempo em cena, e ela é melhor que Stewart, porque a Vonnie original retorna à tela e faz com que Bobby mergulhe temporariamente no passado... Em nenhum momento, aliás, Bobby parece dividido entre as duas.  São sentimentos diferentes, a mulher que ele tem, está domesticada e “feliz”, a outra, que ele nunca terá, a não ser por breves momentos, é seu passado.  A meu ver, é esta última que ele ama.

Blake Lively e Parker Posey
O filme cumpre a Bechdel Rule?  Bem, acredito que não.  Há várias mulheres no filme, elas têm nomes, personalidades bem desenhadas até, mas quando conversam entre si o assunto aprece girar em torno dos homens.  Na verdade, é um filme sobre homens, narrado no masculino (*o narrado é o próprio Allen*) e falando dos homens e seus sentimentos.  Como pontuei lá em cima, Vonnie é a musa de Bobby e, ainda que tenha se transformado em uma espécie de anjo caído, continua sendo até o fim.  A mãe e a irmã da personagem giram em torno dos homens de sua vida.  A Veronica esposa torna-se “do lar” depois de ter sua primeira criança.  Sobra uma personagem secundária (Parker Posey), a amiga que Bobby faz em sua temporada em Hollywood e que lhe abre algumas portas para o protagonista junto com seu marido (Paul Schneider).  Ela tem uma agência de modelos e leva uma vida alternativa com o marido. Em dado momento afirmam que amam crianças, as dos outros, claro!

É isso.  Um bom filme, bons diálogos, visualmente deslumbrante, mas não um filme que tenha me empolgado, por assim dizer.  Mais Steve Carell ajudaria, outra atriz no lugar de Stewart, também.  De qualquer forma, eu recomendo, especialmente, para quem, como eu, não é especialista em Woody Allen e capaz de apontar onde o diretor e roteirista está se repetindo.  Não é um filme romântico, ainda que tenha romance, não é uma celebração desse amor capaz de vencer a morte, o tempo e tudo mais, simplesmente, mostra pessoas fazendo escolhas, inclusive quando se trata de amor, e arcando com as conseqüências de seus atos.

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