quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Comentando O Bebê de Bridget Jones (Bridget Jones's Baby, 2016)


Segunda-feira, eu assisti ao filme O Bebê de Bridget Jones (Bridget Jones's Baby).  Quando anunciaram o filme, fiz pouco caso, jurei para mim mesma que não iria assistir e coisa e tal, mas fui.  Até enfrentei uma pequena aventura para assisti-lo legendado, já que as sessões com áudio original, quando existem, estão cada vez mais confinadas à noite.  Enfim, continuo afirmando que o filme é desnecessário, repetitivo em alguns aspectos, mas já que foi feito, por qual motivo não o assistir?

Dez anos se passaram depois do primeiro encontro com Bridget Jones (Renée Zellweger) e nossa protagonista começa o filme comemorando sozinha o seu 43º aniversário.  Triste, não é?  Nem tanto!  Bridget superou alguns de seus problemas, como a luta contra a balança, e se diverte sozinha em sua festa particular.  Rememorando as últimas doze horas, entendemos porquê Bridget não tem companhia.  Naquele dia ela foi aos funerais de Daniel Cleaver, com quem teve um relacionamento amoroso, reencontrou Mr. Darcy (Colin Firth) e foi confrontada com a realidade, todos as suas velhas amigas e amigo estão casados, com filhos, e não tinham como tirar a noite para comemorar com ela.

"All by myself" de novo?
Só que a atual Bridget, apesar de continuar atrapalhada, é produtora de TV, respeitada e amada por sua equipe, enfim, uma mulher bem-sucedida.  Convidada por uma amiga de trabalho, Miranda (Sarah Solemani), para ir a um festival descolado de música e transar com o primeiro homem que encontrar, ela efetivamente acaba fazendo isso...  Sim, ela esbarra com o sedutor e simpático Jack Qwant (Patrick Dempsey) e terminam na cama.  No outro dia, Bridget some sem dar satisfações ao moço.  Poucos dias depois, Bridget reencontra Mark Darcy no batizado do filho de uma de suas amigas e os dois terminam transando.  Outra vez, a moça vai embora, mas deixa uma carta falando das incompatibilidades entre ela e Darcy, afinal, eles quase foram casados.  O tempo passa e Bridget começa a sentir coisas estranhas.  Descobrindo-se grávida, pois suas camisinhas veganas estavam fora da validade, ela está em apuros, afinal, quem é o pai de seu bebê?  Como descobrir?

Não vou mentir que dei umas boas risadas com esse novo Bridget Jones.  Também senti certa nostalgia, afinal, eu assisti ao primeiro filme no cinema em 2001.  Na época, eu não tinha lido Orgulho & Preconceito, livro de Jane Austen que é usado como referência por Helen Fielding, a criadora de Bridget Jones, tampouco assistido ao seriado da BBC de 1995.  Sim, eu já não era imune ao charme de Colin Firth, mas não tinha bagagem para entender integralmente as piadas.  O tempo passou, veio o segundo Bridget Jones, os mesmos desencontros entre Bridget e o sisudo Mark com o Daniel Cleaver de Hugh Grant para atrapalhar os dois.  Rever as personagens é sempre legal, mas Grant não aceitou voltar.  Resultado?  Patrick Dempsey não fez feio e quase roubou a cena.

Qwant corteja Bridget o tempo todo.
Passaram-se mais de dez anos e, bem, o novo filme, que é dirigido e roteirizado por mulheres, traz de volta velhas questões com algumas novas cores.  Li em alguns lugares sobre “empoderamento” em Bridget Jones.  Olha, o filme até levanta umas bolas interessantes, Bridget amadureceu um pouco, mas o filme está longe de ser empoderador.  Verdade que a carta que Bridget deixa para Mark – e é bem Austeniano essa coisa de carta – é muito legal, afinal, ela coloca claramente que o admira, respeita seus ideais (*ele é advogado especialista em direitos humanos*), mas que está cansada de ser colocada em segundo, terceiro plano por ele.  Ela não precisa disso em sua vida.  Esse aspecto é mantido ao longo do filme e é Mark Darcy quem tem que repensar a sua vida, não Bridget.

No entanto, a protagonista continua sendo atormentada pelas questões ditas fundamentais na vida de uma mulher, casamento e maternidade.  Negar é só fonte de piada.  Algo muito forte no filme, também, e que é tratado de forma humorística, é como mulheres que fazem sexo casual são mal vistas.  Bridget não se aceita.  Depois de transar com Qwant, ela mesma se chama de prostituta.  Ela curtiu, o cara é muito gostoso, ela é livre, PORÉM mulheres não devem fazer essas coisas.  Enquanto isso, ninguém se pergunta, nem mesmo ela, por qual motivo homens podem fazer sexo casual e mulheres não podem.  Mais adiante, o fato dela não saber quem é o pai da criança é motivo de piada.  Como pode isso?  E, claro, o riso é condenatório, ainda que haja complacência para com Bridget.  De resto, uma mensagem que o filme passa – ainda que com esse viés humorístico – ser gay é muito mais fácil do que ser mulher que faz sexo casual.  A sociedade não aceita mulheres liberadas.

Liberada, pero no mucho.
Do outro lado, temos os dois homens – o descolado Qwant e o travado Darcy – que aceitam de forma muito tranquila a notícia de que vão ser pais.  Não questionam, não a culpam, simplesmente acolhem Bridget e sua barriga.  Da mesma maneira que a maternidade é o destino das mulheres, o filme vende que a paternidade é, também, o desejo escondido de todo homem de meia idade, porque, bem, são todos de meia idade.  Bridget é chamada de “mãe geriátrica” pela obstetra interpretada por uma excelente Emma Thompson.

Obviamente, a paternidade misteriosa não é encarada com a mesma cordialidade pelos dois.  Darcy, em especial, se sente muito incomodado.  Já Qwant parece apaixonar-se por Bridget e sua barriga.  Está disposto mesmo a mudar de vida – ele é um bilionário solteirão – para se tornar pai e marido.  Só que, e isso ajuda a definir a parada, ele parece menos disposto a acolher um filho que não é seu.  Só que ele acredita piamente que a criança é dele e tenta sabotar Darcy.  Só que a personagem de Dempsey não é escorregadia como o antigo rival de Darcy, Daniel Cleaver.  Ele é uma cara legal e quase ganha o coração de Bridget e o meu.  Inclusive, e isso foi muito legal do roteiro, ele nos livra do constrangimento de uma troca de socos entre os dois homens na vida de Bridget, ele recusa educadamente e nos poupa de uma cena constrangedora.  Afinal, ninguém ali tem mais idade para isso.

Emma Thompson é uma participação muito especial.
Voltando ao ponto do “mulher não pode fazer sexo casual”, quando Darcy e Qwant vão com Bridget para o curso pré-natal, eles são confundidos com um casal e a protagonista como “barriga solidária”.  Nenhum dos três nega, ou explica.  Afinal, como pontuei lá em cima, dentro do filme é muito mais tranquilo ser homossexual.  A sociedade patriarcal – pelo menos na Inglaterra – já é capaz de lidar com isso, mas, não, com uma mulher que não sabe quem é o pai de seu filho.  Nesse sentido, a mãe de Bridget (Gemma Jones), que está empenhada em uma eleição para um cargo na paróquia, é que vai rever seus conceitos para acolher a filha e a diversidade da sociedade de uma só vez. São ótimas as cenas dela.

Enfim, todo o elenco de amigos de Bridget está de volta e uma das coisas que o filme trabalha muito bem é como, mesmo quando a amizade fica, as rotinas e atividades afastam as pessoas.  Eu tenho 40 anos e amigos e amigas de toda uma vida, ou, pelo menos, desde a faculdade (*entrei em 1993*).  Cada vez mais é difícil se encontrar, comemorar os aniversários como fazíamos antes.  Atividades, distância, filhos e filhas, são fatores de afastamento.  Muito provavelmente, algumas coisas melhoram quando as crianças crescem, mas até que cheguem lá... 

Miranda, a nova amiga de Bridget.
Em outra piada envolvendo homossexualidade, Bridget se frustra ao descobrir que mesmo homossexuais sonham em ter filhos com seus parceiros e que ter um amigo gay, nesse caso Tom (James Callis), não é ter um sujeito disponível sempre que precisar desabafar ou sair para festejar.  Eles também têm vida e amadurecem.  O Bebê de Bridget Jones mostra de forma bem-humorada como essas coisas terminam acontecendo.  As verdadeiras amizades ficam, mas a leveza da juventude nem sempre resiste.  Por isso, Bridget finge – porque é fingimento mesmo – estar OK com tudo isso, sendo solteira, sem filhos e tendo novas amigas que estão com menos de 40 anos e, portanto, sem filhos.  

Dentro do filme, 40 anos é um divisor de águas, já que a maternidade parece chegar cada vez mais tarde em países desenvolvidos, ou mesmo no Brasil, por isso mesmo, fica fácil entender por que Bridget aceita de forma tão pacífica a gravidez.  É agora, ou nunca, por assim dizer.  E aí, nem mesmo a pressão da nova chefe, uma mulher jovem, (pseudo) moderna e ditatorial, consegue abalá-la de fato.  Ela está se realizando, pois a maternidade é o destino de todas as mulheres.  Mas e o casamento?  Bridget pode viver sem ele?  Por essas e outras é que não vou considerar Bridget Jones como um filme empoderador.

"a two men job"
De resto, há boas piadas no filme, algumas, claro, são bem rasteiras, ainda que funcionem.  Bridget em trabalho de parto é carregada por um decidido Mark, mas ele não dá conta.  Qwant aparece, mas, sozinho, carrega-la é impossível.  “It’s a two men job” e lá vão os dois carregar Bridget.  Afinal, o bebê não é dos dois?  Há piadinhas, também, sobre trabalho de parto, que é pintado como terrível, mas assunto de mulheres.  Tanto Qwant, quanto Darcy, pagam a conta por tentar se meter, ainda que cobertos de boas intenções.

Não considero o filme feminista nem de longe e ainda que ele chame para si algumas discussões feministas, o faz de forma superficial, ou para parecer moderninho.  Exemplos?  Em um dado momento, Qwant fala em família poliamorosa, isto é, que não estaria condicionada ao modelo tradicional e nuclear.  Dois pais e uma mãe.  Darcy aceitaria?  Nem Bridget, ainda que lhe pudesse parecer cômodo.  Mas Darcy tem que rever vários conceitos e abrir mão dos seus egoísmos, ainda que revestidos das melhores intenções, em prol de Bridget e do bebê que ele nem sabe que é seu.  Sua transformação é, por assim dizer, a mais importante do filme.

Casal e barriga solidária.
Agora, o outro exemplo: Darcy defende uma banda de rock feminista, cujo slogan é “menstruação castração liberação”, que corre o risco de ser extraditada para o país de origem, uma ditadura.  É uma referência direta ao caso das Pussy Riot perseguidas na Rússia.  Só que a todo instante elas são pintadas como doidas, além de feministas e lésbicas.  A complacência e o deboche estão juntos.  O próprio Darcy as considera insuportáveis, mas seu amor pela justiça e pelos direitos humanos, o obriga a defendê-las.  Você ri, mas para mim ficou evidente que quem produziu o filme não lida bem com essas coisas.  Fora isso, O Bebê de Bridget Jones gerou certa insatisfação por apresentar uma Inglaterra branca, o elenco não tem nada de multirracial.

Para terminar, dois pontos.  O filme cumpre a Bechdel Rule?  Claro, afinal, há várias personagens mulheres, a maioria, na verdade, e o assunto maior das conversas é a protagonista.  O outro ponto, e isso me incomodou muito, muito mesmo, é ver o estrago que Renée Zellweger fez em seu rosto. Sua musculatura facial está rígida, sua boca torta.  Todo o resto do elenco – as mulheres incluídas – envelheceu com dignidade, por assim dizer, menos Zellweger.  Sabemos que há uma pressão desigual sobre homens e mulheres, os primeiros podem envelhecer e as marcas da idade são vistas como um plus, já as mulheres são pressionadas a esticar seus rostos, esconder rugas e fios brancos, emagrecer (*Zellweger se recusou a engordar para fazer Bridget e ela se tornou uma magra realizada no filme*), parecer mais jovem do que é.  Não é uma escolha e, no intuito de conseguir o objetivo, algumas mulheres ultrapassam limites.  Eu acredito que este foi o caso da atriz.  

Bridget tentando se virar sozinha.
Vale a pena assistir Bidget Jones?  Se você é fã de Bridget, ou gosta de comédias românticas, a resposta é sim.  Não é um grande filme, mas não está abaixo do segundo, por assim dizer.  Talvez seja até mais divertido, já que Patrick Dempsey é melhor que Hugh Grant na sua interação com Firth e Zellweger, mas se não tivessem feito o filme, não faria falta mesmo.  So que ele foi feito, daí, se você é fã das personagens, corra para assistir.  De resto, não darei spoilers, mas acho que a personagem de Dempsey foi injustiçada no final, mesmo que o desfecho do filme tenha sido fofinho (*e conservador*).


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