domingo, 11 de dezembro de 2016

Ana Hickman sofreu bullying por ser bonita, uma reflexão feminista


A foto acima foi postada com o objetivo de fazer humor, de servir de chacota.  O mesmo aconteceu com uma de Grazi Massafera tempos atrás  que ia na mesma linha, e falava em preconceito por ser bonita.  É aquilo, ela pode, sim, ter sofrido bullying. A questão é dimensionar o sofrimento, ter consciência de que, ainda que tenha passado por um ou outro aperto, ela está em vantagem sobre a maioria as mulheres.

Mas eu lembro de uma palestra anos atrás, na qual o palestrante disse que é cada vez mais comum que meninas consideradas bonitas sofram bullying. Agora, vamos analisar isso sob a ótica feminista, se mulheres são adestradas a verem outras mulheres desde cedo como inimigas, se o importante é que você "pertença" a um homem, ou, dizendo de forma mais romântica, que ele escolha você, as mulheres devem realmente ficar de olho em suas competidoras. Sabe a espetacular abertura do filme O Casamento do Meu Melhor amigo?  Está aí embaixo e com legendas em português.  Quem é a ameaça? Com quem você precisa competir?  Quem precisa ser derrotada para que você brilhe?  Enfim, nada de novo.


Fora isso, a menina modelo aos 14, 16 anos, pode ter sido a garota girafa desengonçada aos 11, 12, aquela de quem todos riam, que os meninos ignoravam, porque, bem, ela era muito maior que eles. Há um episódio de Todo Mundo Odeia Cris exatamente sobre isso.  De novo, meninas altas demais, fortes demais, baixas demais, com a "cor errada" de pele, com "cabelo ruim" só o são, porque parecem menos atraentes ao olhar masculino.  Apesar da piada em cima da fala da Ana Hickman, que nem sei em qual contexto foi dita, há muita coisa que pode ser analisada. Há muitas formas de opressão, muitas expressões de machismo e mesmo misoginia por aí.  Mas o importante é que as mulheres sejam atiçadas umas contra as outras.

Obviamente, ou não tão óbvio assim, há opressões que podem adquirir uma dimensão mais ampla.  A menina negra que é ofendida ou estimulada a não se ver como "bela", porque ser bela é ser loura.   Olhe para a maioria das bonecas!  Quais são as bonecas mais ofertadas?  Mais vendidas?  As que encalham?  Todo mundo é capaz de reconhecer a "beleza"!  Essa mesma menina é bombardeada o tempo inteiro com imagens e textos de subalternidade, mulheres negras associadas aos trabalhos braçais no campo (*ou à escravidão*), à cozinha, ou aos serviços sexuais, isso quando as imagens e textos existem, na escola, na ficção, enfim, eles estão em todo o lugar, talvez não consiga romper com essas mesmas imagens.  Em quem se espelhar?  Uma menina  branca, uma "girafa" loura ou ruiva pode se mirar em Gisele Bündchen, em uma Grazi Massafera, em uma Ana Hickman.  Não estou negando o sofrimento, estou tentando redimensioná-lo.


E se uma menina negra encontra um modelo de mulher negra em quem se mirar.  Uma atleta, uma juíza, uma médica, talvez, termine por descobrir, também, que elas são estatisticamente as pessoas mais solitárias de nossa sociedade.  Quanto mais longe uma mulher negra for, quanto mais alto ela estiver, maior a possibilidade de estar só.  Solidão tem cor e ela é negra, e é mais feminina que masculina, também.  Este massacre, no qual a escola tem um grande papel, ajuda na manutenção de uma mão-de-obra barata e subalterna que é majoritariamente feminina e negra, bem, ajuda muito às mulheres que estão em outras prateleiras sociais.  Enquanto umas podem voar e são "escolhidas", outras são tolhidas de sonhos.

E nessa conversa toda, nem falei do ser gorda.  Eu que sempre estive acima do peso durante boa parte da minha vida, lembro-me muito bem de todas as ofensas, porque é dito como ofensa mesmo, que ouvi ao longo da minha infância e adolescência.  Por isso, agora que cismei de assistir a segunda temporada do Master Chef, tenho tanta empatia pela Isabel (*ela venceu a competição*), com seu medo de ser a última escolhida para compor uma equipe (*o efetivamente aconteceu*), já que  sempre era assim na escola, especialmente, quando tinha que jogar basquete.  Ela é baixinha, eu nunca fui das menores da turma, mas era desse jeito, salvo se fosse questão acadêmica, eu era a última, a gorda, a feia, a lerda, a que não corria direito.  E quem ofendia?  Normalmente, meninas.


Lembro bem do elogio mais interessante que recebi na vida: festa de 15 anos, aquela que foi sonhada por meus pais, não por mim, uma tia me diz "E olha que ela ficou bonita maquiada!".  😁 E você agradece e continua desfilando pelo salão e cumprimentando a todos com um sorriso nos lábios.  Recebi, também, elogios por isso, a gordinha tímida e séria conseguiu ser simpática.  Eu poderia ser atriz, mas nunca tive interesse em tentar de verdade.  Enquanto isso, meu pai deveras preocupado, porque queria que eu fosse bonita como minhas primas e que fosse prendada, dizia que ler demais me deixaria maluca.  Tipo a Bela da Bela e a Fera?  Mas eu não era a Bela.  Meu pai, na sua falta de tato, queria simplesmente que algum homem me escolhesse e do jeito que eu era...  Não vou dizer que essas coisas se resolveram bem dentro de mim, mas cá estou eu, sobrevivi e continuo na guerra.  

Enfim, não sei se o texto atingiu o objetivo, eu não quero diminuir as opressões sofridas por A e B, ainda que A e B possam estar superdimensionando seus problemas e deixando de olhar ao redor.  O que eu quero dizer é que essas opressões são sistêmicas e se prestam muito bem a manutenção do patriarcado e do capitalismo mais selvagem.  Este mesmo, que na nova reforma da previdência, se nega a ver que mulheres tem dupla, tripla jornada de trabalho.  Enfim, deixo-vos Adrienne Rich, que disse tudo.  


Se mulheres se unirem, o sistema cai, por isso, é bom que continuemos nos agredindo, ofendendo e competindo pelo quê?  Um olhar, um anel no dedo, o braço de um homem para nos conduzir na vida.  E, não, não estou dizendo que amar não é bom, que ser heterossexual é um problema, mas isso é assunto para outro texto, não para este.  De qualquer forma, só quando houver a compreensão de que somos todas nós vítimas é que as coisas mudarão, não por aceitarmos a situação de parte mais frágil, mas porque dessa compreensão poderemos tirar forças para lutar juntas e transformar o mundo.  Bom domingo!

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2 pessoas comentaram:

Obrigada por esse texto <3
Sempre sofri o bullying oposto da Ana, o mesmo q o seu
Ainda assim, o tanto de piadas que as pessoas fizeram com ela e com a Grazi, me deixou desconfortável. Não conseguia por em palavras, mas vc disse tudo.

A mulher gata sofre preconceito também depois de mais velha, inclusive na hora de arrumar emprego. Coisas que, com o tempo, estão mudando após textos como esse :)

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