quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Comentando Moana (Disney, 2016)



Começo a resenha de Moana com um grande parágrafo que resumirá todas as minhas impressões gerais, talvez seja a animação mais bonita que eu já assisti e não estou falando somente de Disney. Bonita, porque é um deleite para os olhos, o ápice não somente da técnica de animação 3D, mas da harmonia das imagens, da fotografia, o melhor produto não somente da Disney que já assisti. Aos meus olhos, Moana é a mais linda das princesas, e, claro, parte dessa beleza vem tanto do domínio da tecnologia 3D, como da capacidade dos animadores de captar e colocar o encanto das mulheres polinésias. E há a música que se entrelaça com as imagens. Se houve mais cantoria do que a média dos últimos filmes, tivemos, também, músicas lindas e empolgantes. Nota dez nesses quesitos, portanto. Indo ao roteiro, bem, ele não deixou a desejar, mas não conseguiu exceder a média do estúdio. Agradará ao seu público, mas duvido que chegue perto do impacto de outra produção da Disney, que lhe é inferior, Frozen.

A história de Moana gira em torno da princesa – ela prefere ser chamada de “filha do chefe” – que se sente desde muito criança atraída pelo oceano e pelas histórias mitológicas contadas pela avó paterna, Tala Waialiki. Já o pai de Moana, o chefe Tui, reprime a filha e enfatiza que a ilha que habitam e seu calmo mar ao redor oferecem tudo o que é necessário para uma vida maravilhosa. Com o passar do tempo, no entanto, as histórias da velha começam a se realizar como uma profecia – árvores que não dão seu fruto, falta de peixes – empurrando Moana para o oceano, o reencontro com o passado de sua tribo, outrora navegadores.

Belas imagens.
Para restaurar o equilíbrio do mundo, Moana precisa encontrar o semideus Maui que, ao roubar uma pedra, o coração da deusa mãe-criadora Te Fiti, cuja lenda abre o filme, atraiu a desgraça para o mundo. Maui precisa ajudar Moana, algo que ele não deseja, e recuperar seu instrumento mágico, um cetro em forma de arpão, e sua capacidade de se transmutar em vários animais. Quando o coração de Te Fiti fosse devolvido, tudo voltaria aos seus eixos.

Moana, como defini no meu primeiro parágrafo, tem mais pontos fortes do que fracos. Artisticamente, e sou uma leiga falando, eu daria nota dez para a produção. O deleite visual, a música muito que se entrelaça com as imagens, emoções, isso tudo faz com que Moana seja um espetáculo deslumbrante, um filme para figurar entre os melhores da Disney. Agora, um dos pontos centrais do roteiro, o ponto de partida da jornada da heroína, no entanto, é batidíssimo, a proibição paterna (*de novo temos o pai amoroso castrador nos filmes da Disney*) de que a heroína possa sair do seu lugar, ir além dos limites geográficos ou culturais ou, ainda, papéis de gênero, no melhor estilo “não há lugar melhor que o lar”.

O porquinho lindo tem pouco tempo de tela, já o galo...
A Pequena Sereia, Pocahontas, e mesmo Frozen tem essa premissa. Ademais, é comum na cultura norte americana esse conflito entre dentro-fora. O que seria mais importante? Aquela ficção da comunidade ancestral, onde todos seriam “o mesmo”, pautados pelos mesmos gostos e valores, mantê-la protegida das inovações que irão corromper sua pureza, ou abrir-se para o novo, lançar-se para o mundo. Footloose, episódios das diversas séries de Jornada nas Estrelas, e poderia citar toda uma série de histórias que partem da mesma premissa. Fora isso, há o trauma. O pai de Moana abomina o mar grande e a navegação, porque passou por uma situação difícil. Transgressão das normas, para alguns pecado, e o resultado é culpa. Lembrei de Footloose de novo. Enfim, nesse aspecto Moana não inova em nada.

Só que um filme pode ser bom, e Moana é bom, sem ter que fazer grandes revoluções. Em Moana, temos, por exemplo, a figura do mentor, algo típico dessas jornadas heróicas, mas, o que é muito bem-vindo, o papel cabe a uma mulher, a avó. Nossa Moana não está só na companhia dos homens, ela tem fortes laços com a avó, que faz as vezes de feiticeira sábia, e com a mãe. Esta última aparece pouco, mas sua presença é segura e importante. Ela apóia a filha, ela explica o trauma do pai em relação ao oceano. Cumpre-se a Bechdel Rule e ainda temos um filme com lampejos feministas fortes e inegáveis.

  Uma vovó inesquecível.
Algo bom em Moana é que nada é feito em nome do pai, outro clichê hiper-batido e eu serve de reforço falocêntrico (*vide Rogue One*), mas em nome de algo maior, o bem estar da comunidade, o equilíbrio cósmico e em nome de si mesma. A avó até aponta caminhos, mas não exige, não obriga e Moana cresce em sua jornada. Em nenhum momento, também, e isso pode ser visto como positivo, ou não, Moana precisa provar que é boa apesar de ser menina. Seus embates como o semideus Māui, a desconfiança que ele tem por ela, são muito mais determinados pelo fato dela ser uma reles mortal, uma frágil humana. Ser uma “princesa” seria um agravante, mas não o determinante.

Falei em positivo ou negativo, porque, bem, Moana anula o gênero. Ela é uma menina, mas ser menina nunca é de fato relevante para a personagem. Até que ponto ser uma mulher não seria um problema para a filha de um chefe maori? Alguém assistiu A Encantadora de Baleias? Pois é, mas é preciso não chamar discussões que podem atrair polêmicas, porque em se tratando de Disney, o povo costuma ver até os mínimos pontos parra crítica. Os conservadores estão horrorizados e até clamam que Moana faz apologia à obesidade! Sua autossuficiência incomoda. Para os progressistas, Moana também não é boa o suficiente, porque, bem, já seria hora de uma princesa LGBTQ-whatever.

Linda Moana.
Eu concordo com um texto que li na BBC, a Disney nunca está descolada do que acontece no mundo, no social. Agora, isso não quer dizer que a empresa possa, deva, ou queira responder à todas as demandas. E isso, claro, não anula algumas críticas. Eu, de minha parte, acho interessante, desde que não se torne regra, que princesas, ou quaisquer personagens femininas protagonistas, possam ser mulheres independentes, que a descoberta do amor não precise ser o horizonte obrigatório e o matrimônio o destino.

Em Moana temos uma heroína assim. Não sabemos bem sua idade, mas é uma adolescente em busca de um lugar no mundo e que conquista o respeito dos homens que com ela convivem, neste caso, o pai e Māui. Das mulheres relevantes em sua vida, Moana já tinha tudo, são elas, aliás, o principal suporte de seu crescimento. A figura da velha, em especial, é a mais importante. Ela é a voz feminina livre. Ela não tem marido, não tem mais a função de reproduzir, tem certa ascendência sobre o filho que a esposa, que fala baixo, pelos cantos até, não possui. Poderia ser a reforçadora de normas, algo que é função dos velhos, mas se apresenta como “louca da aldeia” e, ao invés de, reforçar grilhões, ela estimula os jovens a testarem suas asas. Talvez, se a avó não fosse a mãe do chefe não pudesse ser tão adoravelmente doidinha. Mas e daí? Para mim, ela foi um dos tesouros do filme e ao reencarnar como um animal ainda mais livre e majestoso, ela possibilitou lindas cenas. Lindas mesmo.
A bebê Moana é tão lindinha.
Por outro lado, ao contrário, por exemplo, da protagonista de Rogue One, ela carrega todas aquelas marcas de feminilidade, que uma princesa precisa ter. Ela tem longa cabeleira, um rosto atraente, lábios bonitos. Moana é sensual. Eu, pelo menos, a vi assim. Algo importante para torná-la mais bonita foi dar-lhe proporções quase reais (*ninguém tem olhos daquele tamanho, OK?*), ela poderia ser uma moça polinésia normal. Sim, normal, forte sem ser de fato atlética, não obesa, como alguns críticos conservadores apontaram. Agora, as proporções do corpo de Moana não são invenção desse filme. Algo parecido foi visto nas personagens de Lilo e Stitch, que é de 2002. A diferença, agora, é que Moana é 3D e foi feita para ser particularmente bonita.

E falta falar de Māui, ele é inspirado em um herói civilizador das várias mitologias da polinésia e, em particular, a maori. O Māui original poderia ser desde um humano heroico até um deus completo. Depende da versão. Ele é um herói civilizador ao estilo Prometeu, e vejam que foi Māui quem roubou o fogo para os humanos, só que com toques de Locki, ou Exu, ou seja, um pregador de peças. Suas vítimas privilegiadas? As divindades. Logo, mais cedo, ou mais tarde, ia dar problema. O Māui segue do filme segue nessa linha e se vê em maus lençóis ao roubar o coração da deusa Te Fiti e ainda atrai a desgraça para toda a humanidade.

Nem tudo o que parece, é.
O Māui agrega características do ser mitológico, mas é uma típica personagens Disney. Um alívio cômico, que usa e abusa de estereótipos em relação aos povos da Polinésia. Ele pode ser visto como simpático, ou antipático, a depender de como você encara esse tipo de personagem expansiva, barulhenta e que, no início, age quase como um bully em relação ao protagonista. De qualquer forma, é muito, muito importante que filmes como Moana possam ser encarados como janelas para outras culturas, que aticem a curiosidade

Por exemplo, meus conhecimentos sobre mitologia da Polinésia era zero. Para escrever a resenha, precisei pesquisar, ver informações sobre Māui, especialmente. Um verbete puxa o outro e estou deslumbrada. Quanta gente pode começar a pesquisar, ler, estudar, enfim, a partir de um filme sincero, ainda que com deficiências? Muitas. Eu devo muito ao cinema e à animação. Olhando a Wikipedia, vi que uma das principais críticas à Moana é em relação ao uso limitado da mitologia polinésia, que o filme foi redutor. 

Moana tem muita determinação.
 Não há deusas guerreiras no filme, mesmo que elas sejam abundantes nos panteões locais e apareçam nas lendas de Māui, existe o reforço da idéia de deusa-mãe-criadora. Obviamente, quando comparamos com o nosso modelo patriarcal de paternidade solitária, há o choque e mesmo Moana se torna muito subversivo. É preciso perceber que um filme da Disney, especialmente os mais recentes, nunca é pródigo de personagens. Um elenco numeroso poderia não funcionar em tela, ademais, uma deus guerreira poderia eclipsar a própria personagem, ou seria algo enriquecedor? O que me fica de dúvida é se a maioria das falas de Moana são femininas, ou não.

Aliás, uma das cenas mais lindas do filme, e olha que Moana é belíssimo, é o encontro final da heroína com a grande deusa, um momento de reconciliação e, de certa forma, de exaltação do feminino, daquilo que em nós busca compreensão, acolhimento, manutenção da vida, vinculo com a natureza, de uma ordem que não é em si mesma excludente. Sim, soou reforço de papéis de gênero, mas assumo que são aspectos que vejo não como naturais, mas positivos. De guerra, violência e destruição, o mundo centrado no masculino já nos impõe o tempo inteiro.

Boa parte do tempo, ele é um bully.
No fim das contas, Māui aprende com Moana e a heroína com o semideus. Ele, que viveu milhares de anos, tem muito a lhe ensinar, quando decide que quer fazer isso, claro. Ela mostra para a entidade que seu egoísmo é daninho para toda a humanidade, que ele mais prejudicou do que ajudou os humanos com alguns de seus atos. Entre eles há respeito, parceria, não tutela, sem que em nenhum momento Māui parece menos poderoso que Moana, porque efetivamente ele não é, mas a moça não precisou dele para resolver o grande problema, ela consegue chegar à solução buscando aqueles valores que apontei no parágrafo acima, além da coragem que somente alguém que se lança ao grande mar pode ter. 

Acho que é isso. Moana é um filme lindo visualmente, uma poesia, ou canção, com imagens. Com uma heroína independente, forte, carismática, sensual e que não é chatinha em nenhum momento. Só três coisinhas, há uma cena pós-créditos com o terrível caranguejo que roubou o cetro anzol de Māui, eu saí e não consegui vê-la; Moana quer dizer “oceano” na maioria das línguas da Polinésia; e, bem, aqueles cocos piratas (*não, não vou explicar*) e pareceram referência ao último Mad Max, oou será que não deu tempo? É palatável para crianças, mesmo pequenas (*Júlia estava comigo*), e para adultos que não sejam muito exigentes. Espero mesmo que o filme conquiste seu espaço entre os melhores da Disney, porque, de fato, merece. 

O coque também funciona.
Detalhe, aqui, no Rio, a maioria das sessões que continuam abertas são 3D.  Isso é péssimo para crianças pequenas, sem falar em outras pessoas que não podem,ou querem assistir em 3D.  Os óculos não cabem na Júlia, ela assistiu sem. Passou boa parte do tempo dispersa. Agora, além da ditadura da dublagem, a imposição do 3D, mais lucrativo.  Parece mesmo que querem fazer de tudo para expulsarem as pessoas do cinema.  O problema é que a gente se acostuma a ser maltratado.  Foi a primeira experiência da Júlia com o 3D e vai permanecer assim por muito tempo, mas ela não era a única criança entre 2 e 3 anos na sessão, ou seja, paga-se mais caro para não receber pelo que se pagou.


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1 pessoas comentaram:

Interessante notar que a deusa lá se tornou um ser violento e daninho ao ser violada, ter uma parte de si roubada por um semideus - uma divindade masculina. Não sei se essa analogia com violência sexual faz sentido pra mais alguém mas foi algo que me ocorreu. O próprio fato da integridade física e paz de espírito dela terem sido restauradas por outra mulher, que é a primeira pessoa a enxergar além da supeefície e vê-la como uma vítima, parece corroborar essa teoria.

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