quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sobre Devaneios e Três Pragas Literárias

Ele parece bonzinho.
Estou desde segunda-feira com vontade de escrever um post, tudo começou pensando em como certos atores – não estava pensando em atrizes, não – terminam sendo escalados para os mesmos papéis.  Gente com potencial que termina sendo limitada por escalações tacanhas de elenco.  Como estou assistindo Essas Mulheres no Youtube, estava pensando no Gabriel Braga Nunes e de como a Globo cismou que ele tem cara de vilão psicopata.  O mesmo vale para o Carmo Dalla Vecchia, parece que o rei de Cordel Encantado nunca existiu.  

Da mesma forma, Dan Stulbach só faz papel de bobão, como se sua estreia na Globo não tivesse sido na pele de um sujeito frio, cruel, que espancava a esposa, em Mulheres Apaixonadas de Manoel Carlos.  E cheguei em Hugh Bonneville – Lorde Grantham de Downton Abbey – que tem o mesmo perfil e acumulava papéis de sujeito bonzinho, amigo engraçado do protagonista (*vide Nothing Hill*), até que o vi como o vilão na adaptação de Daniel Deronda (2002), baseado no livro de George Eliot de 1876.  Enfim, Bonneville faz um sujeito que é terrível  e muito convincente, nem parece o sujeito sempre escalado para fazer o sujeito bonzinho.  Para mim, se equipara ao Sr. de Montserrat (Carlos Vereza) de O Direito de Amar.

Ela avisou...
Chegando em  Hugh Bonneville e Daniel Deronda, lembrei da praga que a concubina do vilão (Greta Scacchi) joga na noiva do nobre, Gwendolen (Romola Garai), quando ela se recusa a cancelar o casamento com o nobre, mesmo sabendo que ele tinha três filhos com a mulher mais velha.  Daí, pensei, quais as três pragas literárias que mais me marcaram e que melhor foram transferidas para o cinema e TV.  A primeira, claro, está aí.  Gwendolen é uma moça nobre, falida, que deseja manter seus hábitos caros,e ela tinha uma mãe viúva, também.  Ela ama Daniel Deronda, o protagonista, mas recebe uma proposta de casamento do mais velho Lorde Grandcourt (Hugh Bonneville).  Ele a enche de presentes, enquanto Deronda, primo do vilão, não se mexe para cortejá-la (*era um sujeito confuso*).  

Ela termina aceitando e, às vésperas do casamento, é procurada pela amante do sujeito, companheira de longa data, com três crianças a tiracolo.  Diz que Grandcourt não é flor que se cheire e que se ela se casar com ele sofrerá, fora que o objetivo dele é ter um herdeiro com ela e deixar suas três crianças ao desamparo.  Gwendolen não é má, se comove, mas se recusa a atender o pedido.  E vem a praga.  A mocinha leviana comerá o pão que o diabo amassou nas mãos do vilão.  Suas manchas roxas e ferimentos serão cobertas com as mais belas jóias.  Mas o final da história é interessante e dúbio, ainda que eu acredite que Deronda casou com quem não amava de verdade, enfim... 

Uma jovem Ellen.
Segunda praga, outra lançada por uma mulher, é a de Ellen, “a bruxa” de Os Pilares da Terra.  Logo na abertura do livro, temos a execução de um jovem.  Ninguém sabe o que ele fez, mas toda execução é um acontecimento.  Antes de ser enforcado, o rapaz canta em francês.   De repente, uma mocinha grávida aparece, roga uma praga terrível sobre os três responsáveis pela execução, um cavaleiro, um padre e um monge.  As pragas da Ellen sempre têm sangue de galo, então toma rodopiar o bicho decapitado e sujar de sangue a vítima do sortilégio.   Gente só vai saber quem era o moço e a relação exata com Ellen, porque ele foi morto, lá no final do livro.  A praga pega, nem preciso dizer.

Mas Ellen vi rogar outra praga com galo decapitado quando Aliena, a mocinha do livro, se vê obrigada a casar com Alfred, violãozinho vagabundo de terceira categoria, porque seu negócio foi destruído por um incêndio (*provocado por William, o vilão de verdade da história*) e ela não tem coo sustentar seu irmão cavaleiro, que é um inútil.   Só que Aliena ama Jack, o filho de Ellen, herói da história, que está sofrendo horrores por causa disso.  

Não mexa com meu filho.
Lá vai Ellen de novo, dessa vez, ela roga a praga da impotência.  Ou seja, o galo de pescoço molinho representa outra coisa que também não vai endurecer jamais.  Dito e feito.  Só que, bem, Aliena tinha feito amor com Jack horas antes dele fugir da vila e não sabia que estava grávida... Leiam o livro, porque nada disso foi contado da forma mais adequada na série de TV de 2010.  Ela é boa, mas não tem comparação com o livro.

E, por fim, a melhor de todas as pragas literárias que eu me lembro, porque acabou com uma dinastia, se estendeu por treze gerações e está na base da Guerra dos Cem Anos: Os Reis Malditos.  No primeiro livro da série, O Rei de Ferro, Maurice Druon mostra a execução de Jacques de Molay na fogueira por ordem de Filipe IV, o Belo, o Rei de Ferro.  Resumindo, Filipe IV foi um rei fundamental para o início do processo de centralização de poder na França.  Ele presidiu um Estado predatório que taxou impiedosamente judeus, banqueiros italianos e, bem, necessitando de recursos, partiu para cima dos Templários.  Como o papa Bonifácio VIII não se mostrou flexível, ele excomungou o rei e seu ministro Nogaret, foi sequestrado por ordem do monarca francês.  Algo sem precedentes.  

Versão 2005.
Enfim, morto o papa, transferida a sede da Igreja da Roma para Avignon, Felipe consegue um pontífice mais colaborativo, Clemente V.  Os Templários são dissolvidos, seus bens confiscados pelos reis e pela Igreja, muitos dos cavaleiros são mortos.  Jacques de Molay é torturado e condenado, por fim, a morrer n fogueira como herege.  Do meio das chamas ele levanta a voz e roga a praga “Papa Clemente... Cavaleiro Guilherme de Nogaret... Rei Filipe: antes de um ano eu vos intimo a comparecer diante do tribunal de Deus, para ali receberdes o justo castigo. Malditos! Malditos! Todos malditos, até a décima terceira geração de vossas raças!”.  No  livro, o rei murmura que cometeu um erro.  Seu irmão, Filipe de Valois, que foi contra a execução, pergunta qual erro.  “Não ter mandado cortar a língua de De Molay”.

O fato é que seis meses depois, Clemente, Nogaret e Felipe estavam mortos.  Todos os filhos homens de Felipe IV morreram em relativamente rápida sucessão, sem descendência masculina, o que tinha se tornado fundamental quando o segundo filho do rei de ferro desencavou a infame “Lei Sálica”, uma falsificação que proibia as mulheres de herdarem o trono francês, para roubar o trono da sobrinha.  Muita gente morre e o rei da Inglaterra, neto de Felipe IV através de sua filha, Isabel, a loba de França, vem pedir o trono francês.  Aplicam-lhe a lei Sálica, claro, no que o embaixador britânico pergunta se os homens não nascem de mulheres na França... 

Versão 1972.
São vários livros e muita desgraça decorrente da tal praga, treze gerações...  Minha orientadora de graduação e mestrado disse uma vez que largou os livros, porque não aguentava tanto sofrimento, especialmente, por parte das personagens fictícias que orbitavam as históricas.   Considero Os Reis Malditos uma obra monumental e ela foi adaptada pelos franceses duas vezes, em 1972 e em 2005.  É fácil achar a versão de 2005, muito inferior, mas com design de Moebius (*acho que é ele e fica parecendo ficção científica*) e Jacques de Molay interpretado por Gerard Depardieu com legendas.  A melhor, no entanto, é a série de 1972. Pena que ambas as adaptações tenham sacrificado o segundo melhor livro da série – A Lei dos Varões – que é quando inventam a Lei Sálica por falta de gerenciamento de tempo.

É isso, devaneei e cheguei nesse post.  Resumindo, há atores muito subestimados.  No Brasil, a Globo é especialista em desperdiçar talento e promover nulidades.  De resto, há pragas literárias que foram bem transpostas para outras mídias, as minhas três favoritas são essas.  Não lembro de nenhuma da literatura brasileira.  Vocês têm uma praga literária favorita?  Uma que foi adaptada para o cinema e/ou TV?

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1 pessoas comentaram:

Não conheço muitas pragas literárias, mas recentemente comecei a ler o Manto, da Márcia Tiburi... que existe uma espécie de encanto sobre "ser a mãe" do leitor. Me assustei um pouco quando li. Não é a minha favorita pois é a única da qual me lembro.

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