segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Comentando Cadete Winslow (The Winslow Boy, 1999)


Sexta-feira, reassisti, depois de quase vinte anos, um filme do qual gosto muito The Winslow Boy. Não é um filme de Natal, mas curiosamente toda a ação começa em um 25 de dezembro.  A culpa de ter relembrado do filme, que estava no meu HD faz tempo, foi do site Frock Flicks que fez um post biográfico sobre os filmes de época estrelados por Jeremy Northam. Como o filme é muito bom e ele está lindo na película, decidi que iria reassistí-lo mas férias.  Northam não é o grande protagonista de The Winslow Boy, mas é o advogado, o melhor da Inglaterra na época, que usando como slogan “Let the Right be Done", consegue vencer o caso dificílimo contra o Estado, na verdade, o próprio Rei (Jorge V).

Natal de 1912, a família Winslow celebra o noivado da filha mais velha, Catherine (Rebecca Pidgeon), quando o filho caçula, Ronnie (Guy Edwards), um jovem cadete no Osborne Naval College, retorna para casa em desgraça.  Foi acusado de ter roubado uma ordem postal de 5 xilings, uma quantia insignificante, e expulso da rígida instituição militar.  O menino – ele nem completou 14 anos ainda – nega que tenha cometido o ato infracional.  


Parecia um dia qualquer...
Pai (Nigel Hawthorne) e filha iniciam, então, uma luta judicial para que o nome do filho e da própria família fique livre da acusação infame.  Depois de várias tentativas frustradas, o Winslows decidem contratar o melhor advogado da Inglaterra, Sir Robert Morton (Jeremy Northam), para tentar levar o caso até as mais altas instâncias judiciais da época. A batalha judicial é longa, a família é difamada, fica economicamente depauperada e mesmo com a vitória, o preço que cada um dos envolvidos tem que pagar é bem alto.

The Winslow Boy é quase teatro filmado.  David Mamet, que também é o diretor, tomou como ponto de partida a peça de 1946 de Terence Rattigan, que já tinha sido filmada em 1948, e coloca em tela a discussão sobre justiça, verdade e honra, além do abuso de poder do Estado – primeiro na figura do Almirantado (*que seria, mis ou menos, um Ministério da Marinha*), depois de outras instâncias – sobre os direitos fundamentais dos cidadãos.  É ficção, mas foi baseado em um caso real no qual um cadete de 14 anos foi expulso da mesma academia militar acusado de roubar o tal vale postal.  O caso mobilizou a Inglaterra, a acusação de roubo, a expulsão, mancharia a ficha do jovem e o bom nome da família.


Um pai capaz de tudo para limpar a honra de seu filho.
Arthur Winslow, o pai, quer a honra da família e o nome do seu filho fiquem limpas.  Ao longo do filme, vemos a saúde da personagem se deteriorar, ele era velho, Ronnnie era seu filho temporão. Como estamos às vésperas da I Guerra Mundial, a família é até acusada de falta de patriotismo por mobilizar todo o sistema judicial e a própria Câmara dos Comuns, por causa de um menino, quando havia tantas questões urgentes e mais importantes.  Trazendo para os dias de hoje, pense na capacidade que o atual governo brasileiro tem de usar da propaganda (*graças ao dinheiro público*) e mobilizar empresariado, personalidades da internet e da TV e a grande imprensa (*que recebem parte do tal dinheiro*) para conseguir passar as suas “reformas”. Dinheiro e poder.  Agora, imagine toda essa máquina – nas proporções da época, claro – colocadas contra uma família, mesmo que burguesa e com alguns recursos.  Foi um massacre.

Na verdade, o que o Almirantado e depois outros poderes não desejam é admitir que erraram, que se precipitaram, que foram abusivos.   A funcionária dos correios disse que não conseguia discernir um cadete uniformizado de outro e, ainda assim, o menino foi sumariamente expulso, sem possibilidade de defesa ampla e sem que seu pai fosse sequer chamado à escola.  Foi como se colassem uma placa de ladrão a testa do adolescente que era o orgulho da família.  O máximo de erro que a Marinha (*o Almirantado*) admitiu, depois de vários embates judiciais, foi o de ter expulsado o garoto sem que seus responsáveis legais tivessem sido chamados.  Algo que não iria se repetir em casos semelhantes daí para frente, segundo o Governo.


Os irmãos de Ronnie.
Enquanto Ronnie parecia estar seguindo rumo a um futuro brilhante, até que veio a expulsão, os outros filhos, Dickie (Matthew Pidgeon) e Catherine, não eram motivo de grande orgulho para o pai, que tem uma personalidade que lembra bastante o do Sr. Bennet de Orgulho e Preconceito.  E Nigel Hawthorne está fantástico no papel de pai preocupado, estremado, mas com um humor um tanto peculiar, ferino.  Enfim, Dickie é o filho do meio, que nunca se forma em Oxford, que vive se divertindo com mulheres e as últimas danças e músicas da moda.  Ele termina tendo que largar a faculdade e arrumar um emprego, porque o pai não tem mais como arcar com os custos por causa dos gastos com o processo.  

A filha mais velha, com quem o pai mantém forte laço afetivo, Cate, é sufragista e feminista, interessada pelas causas sociais, muito inteligente, mas que, bem, como não é homem e não pode seguir uma carreira segundo as aptidões que parece ter.  Na verdade, ela é meio acomodada, também.  Apesar de sua militância, de ser voluntária na associação de sufragistas, ela faz questão de dizer que “não é radical” (*como as do filme Sufragistas*), nem parece ter lutado para ter alguma carreira (*como a protagonista de Juventudes Roubadas*), ela gosta da vida burguesa que leva e como mulher, não precisa/deve trabalhar.


Cate combina peças de vestuário
femininas e masculinas em muitas cenas.
Só que o noivado com o Capitão John Watherstone (Aden Gillett) parece aos olhos dos pais a salvação para a solteirona (*ela está perto dos trinta anos*), só  que conforme a disputa judicial avança, seu dote vai embora, o noivo deixa  de aparecer para visitar e o pai do rapaz, um General, ameaça o filho (*que não vive somente do soldo, mas de uma mesada*), ou os Winslow retiram o caso contra o Estado, ou o casamento não vai acontecer, não, pelo menos, com sua bênção.  É o único momento em que o pai quase desiste da luta, que é justa aos seus olhos.  Pelo futuro da filha, ele aceitaria a humilhação.  Enfim, não preciso dizer que Cate perde o noivo que dizia amar e que começa a questionar algumas de suas convicções, inclusive cogitando em aceitar um casamento sem amor com o advogado, e velho amigo da família, Desmond Curry (Colin Stinton).  Ele sempre a amou, a venera, na verdade, mas é um sujeito bem limitado intelectualmente, fora que não é nada atraente, também.

As outras figuras da família, o próprio Ronnie, o pivô de toda desgraça, a mãe, Grace (Gemma Jones), e a criada Violet (Sarah Flind) permanecem meio à margem do processo.  Gemma Jones me parece sempre interpretar o mesmo tipo de mãe, amorosa, mas desconectada da realidade.  Grace, no filme, pensa micro e, não, macro.  Ela se preocupa com a saúde do marido, com o bem estar do filho (*ele vai bem na nova escola, brigar para quê?*), em não ter que perder seus pequenos luxos e comodidades, em não ter que demitir a empregada de mais de 25 anos, Violet.  Ela é a mulher absolutamente convencional e domesticada, isso, aliás, nada tem a ver com não ser boa mãe, esposa, amável, enfim.  Esta, aliás, é uma questão que rende uma das grandes cenas de Gemma Jones no filme, quando ela confronta o marido e pergunta se tudo o que está fazendo não seria por orgulho e vaidade.  A  outra grande cena da atriz é  quando o marido a questiona sobre sua roupa para o tribunal, bonita demais, aparentemente cara demais, afinal, o filho está sendo acusado de roubo e falsificação, ela se enfeza, afinal, ela não pode repetir a mesma roupa o tempo inteiro, não é mesmo?


Acima de tudo esposa, mãe e dona de casa.
O ator que interpreta Ronnie consegue passar todas as contradições de sua idade.  Ele se preocupa mais em não decepcionar o pai, afinal, o patriarca considerava motivo de grande orgulho ter seu filho na Academia de Osborne.  Fica evidente, também, que como caçula e temporão, ele é o centro das atenções do pai, da mãe e da irmã muito mais velha.  Só que ele não tem a dimensão do drama da família, sequer do que uma expulsão em desgraça pode fazer no seu futuro.  Quando sai o veredito, ele está no cinema.  Sua cena mais exigente é exatamente a do interrogatório feito por Sir Robert Morton.  Ali, o jovem ator mostra toda a sua competência.  Só uma curiosidade, o verdadeiro “cadete Winslow”, o que inspirou a peça, viveu pouco, morreu na Grande Guerra com míseros 19 anos.

E chegamos a Jeremy Northam, cuja interpretação é um dos pontos altos do filme.  Ele é um advogado famoso, o melhor da Inglaterra, conhecido por suas atuações teatrais, por se ligar a casos de grande repercussão nacional, grandes questões, e por suas ideias conservadoras.  Desde o primeiro momento, ele é hostilizado por Cate.  Ela não consegue convencer o pai a não contratá-lo, ela torce para que o grande advogado não aceite o caso, ela desconfia de suas intenções.  Já o advogado parece encarnar todas aquelas virtudes viris públicas das classes dominantes, mostra sangue frio, analisa meticulosamente o caso, suas demonstrações de emoção são absolutamente calculadas.  
Morton acredita em Ronnie.
Ele confronta o menino de forma rude e impiedosa para horror de seus familiares, literalmente o encurrá-la.  O menino mantém sua versão, mas comete uma série de pequenas omissões que convencem o advogado de que, sim, ele fala a verdade.  O que é certo deve prevalecer.  “Let the right be done”.  Quando o caso está quase sendo rejeitado pela Câmara dos Comuns, os Winslow, o queriam retirar das mãos do Almirantado e torná-lo um caso contra a Coroa, Morton saca um jornal difamatório, uma cantiga que acusa o menino de vários vícios, e dá de Bíblia em todo mundo.  Com a lei civil e a Bíblia atuando juntos, um advogado talentoso, um clima emocionalmente favorável,  o estratagema funciona, mas isso é o começo.

The Winslow Boy é um filme de tribunal no qual o tribunal mal aparece.  E, bem, ele é muito bom por isso, ou apesar disso, talvez.  O melhor do filme são os diálogos.  Os duelos verbais entre Cate, que só vê defeitos no advogado que ela acredita estar sempre do lado dos poderosos, e de Morton, que, na minha opinião, aceitou o caso também por causa dela, são excelentes.  Eles não se agridem, ambos são bem comedidos e civilizados, só que Northam tem sempre um arzinho malicioso... o mesmo que o ator usou no seu Mr.  Knightley.  Ele decora as roupas da moça, sabe exatamente o que ela vestia, acompanha todos os seus passos, crítica suas aparentes contradições.  É um romance pouco convencional e, ao mesmo tempo, muito intenso.  Ela parece não perceber o interesse dele, nem o seu próprio, estava envolvida com o drama familiar, claro, mas, como ele pontua no final, ela conhece pouco dos homens. 


O advogado mais bem sucedido da Inglaterra.
O último diálogo-duelo dos dois, depois da vitória, é o único momento em que Morton trai suas emoções, não em relação à moça, mas quanto a forma emocional como tinha abraçado o caso.  Ele finge frieza, é uma necessidade e um dever manter uma imagem de autocontrole público, mas o processo todo o deixou abalado.  Imagino que ele também  tenha perdido um pouco de sua saúde ao longo da jornada processual.  É Desmond Curry, o advogado apaixonado por Cate, que entrega para a moça o grande sacrifício feito pelo advogado e faz com que ela o veja com outros olhos.  Tentaram suborná-lo para que abandonasse o caso contra a Coroa, oferecendo-lhe o que deveria ser o sonho de um advogado como ele, mas ele rejeitou.  Ele pode não compartilhar os mesmos ideais de Cate, ele debocha das convicções feministas da moça, mas é um homem de caráter e fica subentendido que ele iria vê-la de novo e que ela deseja o reencontro.  

Já indo para o final, o filme cumpre a Bechdel Rule.  Não é um filme feminista, ainda que aborde as limitações impostas às mulheres.  Cate, por exemplo, não pode assistir a sessão da casa dos Comuns junto com os homens, as mulheres têm uma galeria a parte, com treliças, como em algumas mesquitas e sinagogas.  Elas podem ver, mas não podem ser vistas.  Morton diz que espera ver Cate de novo, um dia, nas galerias, ela diz que o verá de novo, um dia, mas participando da sessão.  Ele diz ser impossível.  Ela diz que ele não conhece as mulheres.  O filme não é sobre bandeiras feministas, sobre Cate, sobre igualdade, mas algumas discussões estão presentes.   Mostrar que mesmo homens de caráter podem ser contra o avanço dos direitos das mulheres, é mostrar as possibilidades da época e, não, mascará-las como em uma novela da Globo, como Tempo de Amar.


Uma senhorita que parece não conhecer os homens.
Já terminando, o filme sempre traz uma cena repetida, a gráfica de jornal.  Os reveses do caso são mostrados em manchetes e em charges.  Outra curiosidade, há dois advogados importantes no filme, mas os termos usados para um e outro são diferentes.  Mr. Curry é um “solicitor”, ele cuida de papelada, encaminha petições.  Morton é um “barrister”, é quem vai ao tribunal, quem participa ativamente dos julgamentos (*Aprendi no Canal Tecla Sap*).  Na Inglaterra, são duas carreiras distintas.  Bem, é isso.  Recomendo muito o filme The Winslow Boy.  Ele é inteligente, elegante, discute questões pertinentes ainda hoje.  Fora isso, tem um dos romances que não são bem romance mais bem construídos que eu já vi, um belo figurino, grandes atuações, e um Jeremy Northam lindo.  Vou reassistir e resenhar outro filme de época com ele, Possessão.  Aguardem.

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1 pessoas comentaram:

Engraçado, eu que me acho muito fã de filmes de época nunca sequer ouvi falar desse filme, mas já fiquei totalmente envolvida pela proposta. As relações que vc fez com personagens da Jane Austen (e a presença do próprio Northam) me deixaram mais ávida ainda! (Pesquei no Desmond Curry um Mr. Collins, ou estou errada?)

No mais, parabéns pelo blog! :*

http://www.cafeidilico.com/

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