quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Guest Post: Comentando o primeiro trailer oficial do filme “Alita: Battle Angel”.


Havia prometido no fim de semana um guestpost sobre o trailer do filme de Alita, que estréia ano que vem, e mobilizou os fóruns de internet.  Eu não sou leitora do mangá, mas o autor do texto, Júlio César "Kamugin", meu marido, é fã da série faaz quase 20 anos.  Nossa filha é Júlia ALITA, por causa da personagem, só para vocês terem uma idéia..

Enfim, aviso que não é um texto meu, mas ao publicá-lo, aceito as ponderações como válidas e que não estariam em conflito com a política do Shoujo Café. Não tenho condições de fazer grandes ponderações sobra Alita e o trailer, salvo uma: aqueles olhos ficaram bizarros.  Se você quiser marcar a singularidade dos robôs por meio de olhos horrorosos, marque de TODOS eles, não somente da protagonista.  Seguem o trailer e o guest post:


Antes de mais nada, tenham em mente que estou escrevendo pensando em especial naqueles que leram o mangá e assistiram ao anime em dois episódios lançado para vídeo (OVA – “original video animation” – animação original para vídeo) em 1993 e que, portanto, conhecem a estória. Também é necessário dizer que minhas opiniões não representam, necessariamente, as opiniões da criadora do blog Shoujo Café.

Esse filme tem sido alvo de especulações pelos fãs desde que se soube pela primeira vez, há uns quinze anos, que o aclamado cineasta James Cameron (Titanic, Avatar) comprou os direitos de filmagem do famoso mangá “Gunnm: Hyper Future Vision” da autoria de Yukito Kishiro, o qual começou a ser publicado em 1990 no Japão e, poucos anos depois, chegou aos Estados Unidos – onde teve o título mudado para “Battle Angel Alita” – e Europa. Portanto o mangá se tornou mais conhecido no ocidente pelo título americano. 

O título original “Gunnm”, segundo o autor, é uma contração de 銃夢 “gunm dream” (“o sonho da arma” ou “sonhando com armas” – ignoro qual seja a melhor tradução). Em especial o nome da personagem principal foi mudado de “Gally” para “Alita”. Para mim, que comecei a ler o mangá lá pelo final de 1998, o título e nomes americanos são mais familiares e, portanto, preferidos, embora atualmente esse tipo de deturpação não seja mais tolerado pelos fãs. É obrigatório comentar também que o mangá foi lançado no Brasil há uns dez anos pela Editora JBC (originalmente com o título e nomes japoneses) e agora está sendo relançado pela mesma editora, em formato muito melhor, porém desta vez com o título americano, para oportunamente capitalizar a publicidade e interesse criados pelo filme, o qual tem data de lançamento para julho de 2018.

Cameron planejava de fato produzir e dirigir o filme, porém, após o sucesso bombástico de Avatar, ele resolveu se dedicar exclusivamente à essa franquia e os planos para o filme de Alita foram engavetados. O projeto somente foi retomado porque o diretor Robert Rodriguez se propôs a fazer o filme, tendo por base o roteiro já escrito por Cameron, portanto meus comentários fazem principalmente um contraponto à entrevista de Rodriguez, disponível aqui.

Assistindo ao trailer, a primeira coisa que nos “salta aos olhos” são justamente os olhos da personagem título. O trailer se inicia com um “close up” do rosto de Alita despertando e abrindo seus olhos assustadoramente grandes. 


 São esses olhos o motivo da celeuma entre os fãs em qualquer lugar onde o trailer é assunto. Neste vídeo do Youtube temos outra entrevista com Rodriguez, desta vez na CCXP 2017, ele esclarece o motivo da escolha:


Rodriguez se concentra apenas nos olhos como a marca distintiva dos animes de uma maneira geral, ele volta no tempo até Astroboy (original de 1963 com remake em 2003). Sim, eles o são, e uma vez que você se acostuma com eles, você os considera muito naturais. No entanto, é evidente (pelo menos para mim) que o que parece ser bom nas páginas de um mangá ou em um anime é bizarro com "pessoas reais". Rodriguez acha que é muito inovador porque isso jamais foi feito antes numa adaptação de anime para o cinema “live action”. Nos mangás e animes, de maneira geral, todos as personagens femininas (as jovens na verdade) têm esses olhos, portanto eles não são um privilégio de Alita. Rodriguez toca a superfície do lago, mas é incapaz de mergulhar nele. Creio que assistiu aos dois OVAs e, na melhor das hipóteses, folheou primeiros volumes do mangá. Na entrevista, é apenas o produtor Jon Landau que menciona o mangá de Kishiro, Rodriguez não tem familiaridade com ele.

Os olhos anormalmente grandes, jogam a personagem interpretada por Rosa Salazar no fundo do “vale da estranheza” e o resultado pouco, ou nada mesmo, se assemelha ao rosto da atriz.



As adaptações Hollywoodianas de mangás e animes são invariavelmente medíocres. Entrega-se uma obra prima do mangá nas mãos de alguns “hotshots” de Hollywood e eles o transformarão numa merda, tal foi o caso do recente Ghost in The Shell e outros como Speed Racer ou Dragonball, tão ruins que todos preferem esquecer. Rodriguez pensa, do fundo de sua ignorância, que a essência da personagem Alita são seus olhos – ele não poderia estar mais errado. 



O que faz o leitor se identificar com Alita é a sua origem misteriosa e comovente: uma garota literalmente encontrada no lixo, cujo corpo é todo artificial e que não tem memórias de sua vida anterior. Some-se a isso o fato de ela dominar, sem saber como, uma antiga arte marcial conhecida como “panzer kunst” (punho blindado) desenvolvida em Marte duzentos anos antes do início da estória. O “panzer kunst” foi a primeira arte marcial desenvolvida especialmente para o combate entre ciborgues e que se supunha extinta até o aparecimento de Alita. Caso eu, ou qualquer outro fã do mangá, encontrasse a imagem abaixo enquanto navegava ao acaso pela internet e desconhecendo o trailer, jamais diria: “Esta é Alita!” – Quem disser o contrário, mente.


Em minha opinião, isto não passa de um “photoshop” mal feito com um aplicativo de celular!

Ao longo do mangá, por várias vezes o autor, Yukito Kishiro, menciona que o traço facial mais marcante de Alita são seus “octopus lips” (lábios de polvo). Tal como os olhos, creio que essa característica não ficaria bem numa representação mais realista.


Nem tudo é ruim na composição da personagem, seus braços ficaram muito bons, porém, no mangá, Alita usa aqueles braços decorados por muito pouco tempo, pois eles foram retirados do corpo de uma prostituta assassinada por um serial killer e são inadequados para o combate. De fato, todo o primeiro corpo que Daisuke Ido monta para ela, à duras penas, é muito fraco e logo se despedaça num combate contra um inimigo poderoso. Assim sendo, contra sua própria vontade inicial, Ido dará para Alita um corpo ciborgue retirado de um guerreiro berserker morto. Esse corpo berserker é, em si próprio quase uma personagem dentro da trama, pois trará vários desdobramentos importantes ao longo do mangá. Inicialmente, é graças a tal corpo que Alita pode despertar todo o seu potencial como guerreira que é herança de sua de sua vida passada da qual não consegue se lembrar.




Falando em Ido, eles escolheram um ator muito velho para interpretá-lo. Eu imagino a idade de Ido entre 28 e 34 anos no máximo. Christoph Waltz tem 61 anos, caramba! Ido estava reconstruindo Alita para ser sua amada, quando percebeu que não poderia tê-la como tal, ele se conformou com o papel do pai. Os braços decorados eram apenas parte da fantasia ao estilo Pigmaleão e Galatea de Ido.

Outra escolha ruim é a criação de uma personagem que não existe no mangá e nem nos OVAs, a enfermeira Gerhad (Idara Victor) a qual é posta no lugar de Gonzu, amigo e assistente eventual de Ido. Idara Victor aparentemente foi escolhida apenas para cumprir quotas de representatividade, o que não seria necessário, pois o mangá possui uma boa quantidade de personagens negras e também mulheres, como é o caso de Zafal Takié ou Shumira.


Mahershala Ali, apenas com aparência, é uma boa escolha para interpretar Vector, uma personagem menor que tem pouca contribuição para o amadurecimento da Alita. No entanto Rodriguez opta por mesclar esta pesonagem com Desty Nova, outro erro enorme! Vector é apenas um gangster médio, um chefe do submundo, o qual pouco aparece no mangá. Desty Nova, por sua vez, é um cientista expulso de Tiphares/Zalem por usar seres humanos em pesquisas proibidas. Nova é um agente do caos, uma personagem cujo caráter e papel é semelhante ao de Loki ou Exu. Ele não se dedica ao bem, porém não é completamente perverso. Nova não está interessado em conquista, poder ou dinheiro; ele escolhe pessoas que pensa serem boas cobaias e interfere em suas vidas, é um pregador de peças em sua essência. Nova tem um papel importante no amadurecimento de Alita, indiretamente no início, como o criador de Makaku e Jashugan e, mais tarde, “brincando” diretamente com ela. Nova não aparece nos OVAs, enquanto neles Vector tem um papel maior, fato que somente reforça a impressão de que são estes a fonte maior de inspiração e não o mangá, como seria correto.

Chiren (Jennifer Connelly) é outra inclusão ruim, já que ela é uma personagem apenas dos OVAs. Ela é uma cidadã de expulsa de Tiphares (tal como Nova e Ido) que desejava retornar para a cidade utópica. Ela recorre a Vector para tentar voltar e tudo o que consegue é ser morta e desmembrada por ele, pois, em seu variado ramo de atividades, Vector controla o envio de órgãos humanos para Tiphares, a única e perversa maneira ao seu alcance de cumprir o desejo de Chiren.

A única escalação que me agradou foi Ed Skrein no papel de Zapan, o qual interpretou muito bem o vilão Ajax/Francis no filme Deadpool. No entanto é bem possível que ele apareça pouco durante o filme, dada a grande quantidade de personagens e situação que Rodriguez pretende incluir na trama. 

Keean Johnson, no papel de Hugo, é apenas o garoto bonito para ser o interesse romântico de Alita. Penso que ele seja excessivamente bonito e limpo para interpretar Hugo, pois a personagem é originalmente um garoto de rua, um órfão que rouba espinhas de ciborgues para revendê-las. Isto o coloca na lista de criminosos a serem procurados pelos guerreiros caçadores (Alita é um deles).

Grewishka (Jackie Earle Haley) – outra personagem dos OVAs – Ele está preenchendo o lugar de Makaku como nosso costumeiro monstro sem cérebro. Muito provavelmente não terá a mesma profundidade e importância, pois Makaku é o primeiro grande “chefe” que Alita enfrenta. Em realidade Makaku é uma alma torturada. Depois de derrotá-lo, Alita pôde ver que ele era apenas outra vítima de uma sociedade implacável e derrama lágrimas por ele.

Scrapyard, a “cidade da sucata”, que vive sob a sombra da majestosa Tiphares/Zalem e se alimenta de seu lixo, seria melhor descrita como uma “favela cyberpunk”. Sua população é predominantemente de ciborgues e pessoas com corpo completamente humano como Ido e Gonzu são minoria. É um lugar sujo e perigoso onde a regra geral é “cada um por si”. Não existe polícia, todos os criminosos são punidos com a morte e os guerreiros caçadores implacáveis são enviados atrás destes. Os flashes da cidade que aparecem no trailer mostram um ambiente muito claro e limpo, habitado por pessoas em sua maioria normais. Scrapyard deveria se assemelhar à cidade onde se passa a ação no cult movie Blade Runner (o original).

Vi vários comentários criticando a música  eu mal a notei, dada a quantidade de coisas erradas que se passavam diante de meus olhos. Ouvindo-a novamente, posso dizer que não me parece particularmente ruim, porém é um aspecto de somenos importância neste primeiro trailer.

Por fim, concluo que esse filme será um fracasso, tanto de público quanto de crítica. Para consertar os erros gritantes evidentes, o filme teria que ser completamente reformulado. Caso, por conta da repercussão negativa, tenham o bom senso de pelo menos colocar olhos normais em Alita, eu me arriscarei a ir ao cinema assistir. Não desejo de forma alguma que meu mangá favorito seja profanado por memórias ruins e o que ví até agora já me desagrada profundamente.

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1 pessoas comentaram:

Concordo com todos os pontos que você falou. Alita merece ser melhor representado, mas o que dizer de autores que permitem tais mudanças? São inocentes? Não veem eles o que se passa com suas criações? Talvez seja o caso de responsabilizar, em primeira instância, o autor que, inescrupulosamente, vendeu Alita aos gringos, além do direto de profaná-la à vontade. Me parece que, apesar da supersensibilidade dos japoneses para construir obras incríveis como Alita, eles sofrem de um profundo desinteresse em manter a essência dessas mesmas obras quando grandes somas de dinheiro lhes são apresentados. Digo assim que, antes de culparmos o diretor ou o produtor pelas mudanças bizarras, devíamos culpar o autor, criador da obra, que simplesmente largou sua filha (talvez não tão amada) nas mãos de qualquer um, para que este faça à ela o que lhe der na telha.

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