sábado, 5 de maio de 2018

Para quem ainda não compreende o que é feminicídio, mais um post.


Ontem, aqui, no DF, na Ceilândia, uma de nossas áreas pobres e periféricas, que chamamos de Entorno, um policial militar de 29 anos, Ronan Menezes do Rego, matou à tiros a ex-namorada de 25 anos, Jessyka Laynara da Silva.  A moça tinha acabado de ser aprovada para o concurso do Corpo de Bombeiros, o que certamente lhe daria melhores condições financeiras e autonomia, além de colocá-la em contato com um número grande de homens.  Jessyka namorava com Ronan desde os 13 anos.  Em uma ocasião, chegaram a romper e ela arrumou outro namorado. Ronan teria ameaçado o jovem e sua família. Jessyka havia sido agredida por ele dias antes de ser morta, mas decidiu não denunciá-lo.  

Segundo uma prima da vítima, "Era um relacionamento abusivo e, assim como acontece com várias outras mulheres, ela tentava sair e não conseguiu.".  Será que a denúncia faria diferença?  Iria manter um homem que podia LEGALMENTE andar armado distante?  Segundo um primo de Jessyka, Ronan a ameaçava e dizia que: "(...) ia matar e que não ia ficar muito tempo preso porque era PM. Ele falava que ia matar a nossa avó se ela denunciasse as ameaças.”  Quantos feminicidas ameaçam matar os filhos e os parentes de suas vítimas como forma de mantê-las caladas?  Ele cumpriu a ameaça e matou a ex-namorada, além de ferir gravemente um amigo da vítima, Pedro Henrique  da Silva Torres, que permanece hospitalizado correndo risco de morte, segundo o G1.

A outra vítima, um professor amigo de
Jessyka, está em estado grave no hospital.
Mas, talvez você ainda não entenda o que é feminicídio. Cabe ao post explicar.  Feminicídio tem a ver com desigualdade, com posse, com a complacência da sociedade em relação à violência doméstica, ao contrato social que diz que uma mulher pertence a um homem e que ele, como dono, pode dela fazer o que desejar.  Querem ver?  A própria uma parenta de Jessyka disse o seguinte: "A tia da Jessyka morreu do mesmo jeito, morta por tiros do marido. Pelo menos ela deixou um filho no mundo, a Jessyka não teve essa sorte."  Mulher é morta, mas há um consolo para os parentes ela deixou um filho órfão no mundo.  Cumpriu sua função natural e obrigatória, procriar, cumpriu plenamente sua função aqui nesse planetinha.

Feminicídio se relaciona com as próprias estruturas do patriarcado. Não é como se esta moça, tão jovem, tivesse sido morta em um assalto, ou atropelada, isso pode acontecer com qualquer ser humano.  Eu já fui assaltada muitos anos atrás e ainda que os dois adolescentes que o fizeram pudessem se sentir superiores a mim por serem homens, tenho certeza de que não pensariam duas vezes em assaltar um homem, se o considerassem uma vítima vulnerável.  Não há agravante de gênero aí.  Agora, quando ocorre um feminicídio, e muitos deles em tempos idos seriam chamado de "crimes de honra" (*e com a honra de um homem não se brinca, não é mesmo?*) ou passionais (*esses pobres homens que enlouquecem por amor... mas as emocionais somos nós, mulheres!*), a mulher é morta pelo HOMEM que dizia amá-la e que não aceitava que este AMOR (*que não sei se um dia existiu*) havia acabado. Jessyka foi morta por um HOMEM que acreditava-se seu DONO, porque imaginava AMÁ-LA e, como DONO, a podia destruir, afinal ELA ERA DELE, SOMENTE DELE.

Agora, acho que compreendo melhor a
 instabilidade emocional de Diego Hypolito
em vários momentos de sua carreira.
Espero que Ronan seja punido pelos vários crimes que cometeu, mas não é suficiente, porque a questão não é somente individual, mas estrutural.  Precisamos mudar a forma como as masculinidades são forjadas em nossa sociedade, pela violência e para a violência.  Meninos submetidos a uma rotina de abusos - físicos ou emocionais - podem não crescer para serem abusadores em alto grau, mas tenderão a ver a violência como aceitável, formativa, e, talvez, até um dos laços que os une aos outros homens, vide a camaradagem dos que praticam bullying, por exemplo.  Vítimas um dia, agressores mais adiante, como se fosse um ciclo normal, como se fizesse parte da vida, desde que, claro, você não seja SEMPRE a vítima.  Alguém leu o depoimento do Dyego Hypólito sobre sua infância e adolescência como atleta?  Pois é, ele veio à tona no meio de inúmeras denúncias de abusos cometidos por homens (técnicos) e meninos ginastas contra outros meninos ginastas.  Isso é normal?  Pelo jeito foi, para uma geração ou mais de atletas brasileiros.  Esse caso está me dando angústia, mas não sabia bem como comentá-lo aqui.

Meninos e homens são vítimas do machismo e da sua violência, e suas identidades pessoais e sociais são forjadas assim.  Daí, vários se tornam opressores, agressores e cúmplices, porque a classe dos homens se protege e há vantagens em estar do lado dos opressores e não nas vítimas usuais, as mulheres, as crianças, os machos considerados mais fracos.  E pedir ajuda pode transformar você em um desses machos fracos, ou em um traidor.

Ser mulher poderia ser um motivo para que a odiassem mais,
mas isso não caracteriza feminicídio.
E terminando, hoje são 52 dois dias do assassinato de Marielle e que vitimou seu motorista, Anderson.  A última notícia foi de que na véspera (*NA VÉSPERA*) as câmeras de rua da prefeitura que monitoram regularmente o percurso que o carro da vereadora faria foram desligadas.  A agenda de um político é pública.  Quem as desligou?  E todas elas?  Enfim, para quem não entende, ou quer entender feminicídio, o caso Marielle não é feminicídio, ainda que os criminosos pudessem ter mais raiva dela por ser mulher, mas, provavelmente, também por ser negra, de origens humildes, alguém que não reconheceu o "seu lugar" na sociedade.  Foi um assassinato político, provavelmente, planejado e deve ficar impune, pelo menos, no Brasil que vivemos hoje.

P.S.: Dois posts seguidos que não falam de cultura pop ou algo relacionado... Prometo dar um tempo, mas eu tinha que escrever.  Eu precisava escrever sobre isso.

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