segunda-feira, 9 de julho de 2018

Sobre Racismo, Pobres Meninos Ricos Imaturos e Linchamentos Virtuais


Estou de férias, então, nem sempre posso e quero me manter conectada e postando coisas complexas.  No entanto, houve uma leva de questões, especialmente, sobre racismo que pipocaram nos últimos dias e queria comentar algumas coisas. Espero que seja rápido.  Tudo começou, com um Tweet racista de  um youtuber (*que só vim a conhecer graças ao caso*) com míseros 16 milhões de seguidores (*antes  da debandada*).  Durante o jogo da França com a Argentina, depois de uma arrancada espetacular que resultou em um gol, ele escreveu:

Questionado sobre a associação do jogador negro adolescente da seleção da França, Mbappé só tem 19 anos, a uma prática criminosa, ele se recusou a admitir seu erro.  Quem vê racismo é que é racista.  Sabe resposta padrão?  O que mais esperar?  Trata-se de um digno representante de sua geração.  Talvez ele nunca tenha ouvido o dito popular "Branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão.", mas certamente a  ideia está firme no inconsciente coletivo nacional.  Como a pressão se tornou muito grande, afinal, fizeram coletâneas de falas do sujeito desde, sei lá, 2010, e ele começou a perder dinheiro (*É no bolso que dói mais.*), o moço recuou e pediu desculpas.  

Segundo um especialista de internet em análise não verbal, as desculpas foram sinceras, mas ele não acredita que errou.  Segundo o  mesmo analista, não errou mesmo.  Essa história de racismo é puro mimimi, deixem o moço em paz. Bem, mas se o protagonista desse caso infeliz não tem o que temer, por qual motivo apagar cerca de 50 mil Tweets que envolviam racismo, homofobia e machismo. Você imaginam o que é isso?  CINQUENTA MIL!!!!!!!  Alguns coleguinhas youtubers e influenciadores digitais vieram em sua defesa e foram expostos, também.  E essa de apagar Tweets e posts antigos virou tendência entre celebridades, por assim dizer.  

Um dos coleguinhas que deve ter apagado muitos Tweets.
O problema, e isso é um problema, é quando vão em busca de falas polêmicas de uma pessoa simplesmente para desviar a atenção e calar suas críticas. "Está vendo, em 2005, a Valéria disse que morria se não tomasse coca-cola e hoje fica dizendo que refrigerante faz mal!".  Ora, ora, as pessoas mudam, se educam, por assim dizer.  E ninguém está livre de um comentário problemático, porque vivemos imersos em uma cultura racista, machista (*em alguns casos misógina*), homofóbica etc. e tudo mais que há de pior.

Então, você está dizendo que não pode buscar o passado de uma pessoa para provar que ela tem o hábito de dizer atrocidades, ou mesmo se posicionar de forma criminosa?  Sim, vale, desde que se revele que se trata de um continuum, isto é, que a pessoa  tem por hábito despejar os piores (pre)conceitos na net, porque acha que é território livre de qualquer amarra, que pode ofender, achincalhar, ameaçar, que nunca terá problemas.  Fora isso, ainda terão quem venha defendê-los. "Não foi bem isso que ele disse!" "Não foi racismo/machismo/homofobia.  Deixa de ser chato!" "São somente meninos, precisam amadurecer!" "Estavam bêbados... Quem nunca fez bobagem depois de beber?  Releve!"
Os homens são eternos meninos.  Sejam youtubers,
sejam torcedores endinheirados na Copa
Precisam de compreensão.
O que quero dizer?  Foram buscar uns Tweets de Bruno Gagliasso lá de 2009 para provar que ele é, ou era, homofóbico e, por isso, não tem moral para militar em boas causas hoje.  Ele atacou o youtuber que apagou CINQUENTA MIL (*sim, melhor colocar em letras garrafais*) Tweets na internet.  O ator e sua esposa, Giovanna Ewbank, são conhecidos, especialmente, por suas ações contra o racismo. Eles adotaram uma menina negra, que já foi alvo de ofensas na internet.  E não é porque ouvem mais um casal de brancos quando falam de racismo do que a Taís Araújo que eles são culpados disso.  Isso é somente mais uma evidência do quão racista é nossa sociedade.  E nem vou parar para discutir o caso do jogador da seleção brasileira, Fernandinho, porque renderia outro texto e já estou enojada o suficiente.

Quem foi buscar falas de quase 10 anos atrás de Gagliasso, ou do famosíssimo youtuber Whindersson (*este eu conhecia de nome*), não tem preocupações com o combate homofobia ou qualquer causa nobre.  Querem silenciar e intimidar pessoas.  Já fizeram algo semelhante com Joanna Maranhão e Pablo Vittar.  Tweets pontuais fora usados com o intuito de expôr uma suposta hipocrisia.  O fato de alguém ter sido escroto um dia, ou simplesmente ser o cidadão médio incapaz de reflexões para além do seu umbigo, não faz com que essa pessoa tenha que ser sempre assim.  Falas antigas só tem real valor, repito, se seguem um padrão.  De resto, é só cortina de fumaça.  E não se trata de perdão, especialmente, quando estamos falando de crimes, mas de compreender que todo mundo erra e que vivemos em uma sociedade, não em uma bolha ideal.

Taís Araújo é  uma voz que sempre se levanta
contra o racismo e, claro, é atacada por isso.
Já concluindo, vou contar algo triste sobre o meu passado: eu já fui contra o aborto em qualquer situação.  Eu pensava no feto, que eu via como se uma criança fosse, e nunca na mulher.  E eu me considerava feminista.  Se  houvesse internet na minha vida em 1994, 1995, talvez alguém encontrasse fala da Valéria que me desqualificaria como uma feminista ideal (*não que eu seja, há tantos feminismos que eu certamente não sou feminista para alguém*), que poderia ser utilizado contra mim em alguma discussão.  Certamente já escrevi alguma coisa inadequada na internet, já ofendi algum grupo mesmo sem querer, já mudei de opinião sobre uma série de coisas.  

Então, é aquilo, há um padrão de comportamento?  A denúncia tem como objetivo fazer com que a internet se torne um lugar melhor, que a pessoa mude seus conceitos ou seja punida, quando for o caso?  Se a resposta é "não", fique atento/a para saber se você não está sendo massa de manobra de alguém ou um linchador movido pelo ódio.  Justiça é diferente de vingança.  Justiça  em uma sociedade desenvolvida implica em acreditar e defender que é possível reeducar e ressocializar, senão sempre, pelo menos em boa parte dos casos.  Promover a cura, algo que passa pelo diálogo, é mais difícil que expor feridas e linchar  as pessoas na internet.

Foi esta a foto usada.
Já que falei em Taís Araújo, convém comentar o caso da menina, uma blogueira  infantil, que teve seu cabelo alisado pela namorada do pai, sem a permissão da mãe e contra a vontade da própria criança.  A atriz se pronunciou sobre o caso, mais do que justo e até esperado.  E começou a história de buscar no passado da atriz uma "evidência" de seu racismo e hipocrisia.  O que um gênio fez?  Pegou uma foto da atriz na novela Cobras e Lagartos, na qual fazia o papel de uma mulher fútil e que queria ascender socialmente como evidência de que Taís Araújo tinha alisado o cabelo um dia e que, portanto, não podia criticar a atrocidade que fizeram com a menina de oito anos.

Olha, m ator, ou atriz, tem que colocar o seu corpo à serviço de um papel.  Engordar, emagrecer, raspar a cabeça, encrespar, ou alisar cabelos etc. tudo isso faz parte da carreira.  A aparência de uma atriz associada a uma personagem não é prova de qualquer coisa a respeito de seu caráter.  Tentar usar isso é demonstração de indigência mental, ou de canalhice. Fora isso, uma mulher negra, ou que tenha cabelo crespo, alisar seu cabelo por sua vontade não representa em si mesmo um problema, ou demérito.  A gente pode questionar assujeitamento à padrões de beleza, mas, no fim das contas, é questão de ESCOLHA pessoal.  

O caso da menina relatado pela mãe.
No caso da menina, ela foi submetida a um tratamento estético contra sua vontade e a da mãe.  O dano emocional foi enorme. Alisar o cabelo de quem não deseja para se enquadrar em um padrão de beleza X ou Y é um ato de violência que atinge não somente os cabelos, que demoram a voltar ao normal, mas a autoestima de uma pessoa.  Durante  muito tempo, ainda hoje, vide o caso, pessoas negras eram estigmatizadas por terem "cabelo ruim".  Como se houvesse cabelo bom, ou ruim, salvo em uma ordem racista de mundo.  Fingir que não entende isso é abominável.  Simples assim. 

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