sábado, 15 de dezembro de 2018

Comentando Colette (Reino Unido/EUA, 2018)


Quinta-feira, assisti Colette, filme autobiográfico sobre a escritora, artista de teatro, mímica e jornalista francesa de mesmo nome, que viveu anos com um marido abusivo, que a impedia de assinar suas obras e conseguiu se libertar.  Lindas locações, belos figurinos, Keira Knightley convincente como a personagem desde o final da adolescência até a fase adulta.  Quando o filme estava rolando por mais de uma hora e meia, pensei "Bem, deve faltar ainda uns 40 minutos para ele se concluir."  Aí, o filme acabou.  O filme é bom?  É, só que cobre uma ínfima parte da vida de Colette e está mais preocupado em falar do seu casamento abusivo do que de sua riquíssima carreira.

França, Belle Époque, Sidonie-Gabrielle Colette (Keira Knightley), uma moça pobre do interior casa-se em 1893 com Willy (Dominic West), um homem bem mais velho que ela e que tem um estilo de vida fascinante.  Willy apresenta Colette aos círculos elegantes e boêmios da Cidade Luz, mas ela logo percebe que ele é infiel e vive endividado.  Willy, que pagava sujeitos para escreverem peças de teatro, romances e outras coisas por ele, descobre o talento da esposa e decide ganhar dinheiro com isso.  Nasce a série de livros Claudine, um sucesso de crítica e público.  Só que Willy não permite que sua esposa assine as obras e usa de violência para obrigá-la a escrever.  Colette começa a repensar seu casamento e sua vida, seus desejos e suas possibilidades, e como uma relação abusiva a estava sufocando.  A protagonista decide tomar sua vida nas próprias mãos e construir-se como uma nova mulher.  


A adolescente.
Coloquei um resumo muito genérico do filme Colette, omiti o homoerotismo, algo central na película, porque, bem, ao assistir o filme não sabia mesmo muita coisa sobre Sidonie-Gabrielle Colette (1873-1954).  E, digo mais, quando saímos do filme, continuamos sem saber.  O filme é feminista, sim, inegavelmente, e muito bonito e bem executado, não faz justiça à Colette, porque trata muito mais do seu casamento abusivo com Willy do que de sua carreira bem sucedida.  É como assistir ao filme Frida, que eu nunca resenhei aqui, e pensar que seria melhor se ele se chamasse Frida e Rivera, tamanho o peso que o marido da pintora tem na película.  No caso de Colette, acredito que seria mais justo se ele fosse intitulado Claudine, já que é a feitura dessa coleção e a identificação da protagonista com a personagem que criou que ocupam boa parte da narrativa.

Enfim, o filme Colette é muito bem sucedido ao construir uma relação abusiva modelar.  Uma moça muito jovem e inexperiente se apaixona por um homem fascinante que a força, seja pela sedução, ou pela violência, a fazer o que ele deseja.  Willy reafirma o tempo inteiro que é um privilégio masculino ter amantes, fazer sucesso, ser lembrado.  Ele a obriga a escrever e chega a trancá-la no quarto por horas, sem comida e sem água, para que ela produza um novo romance da série Claudine (Claudine à l'école/1900, Claudine à Paris/1901, Claudine en ménage/1902 e Claudine s'en va/1903).  Ele a obriga a cortar seus longos cabelos em uma ação de marketing para o lançamento da peça Claudine à l'école, baseada no primeiro livro escrito pela protagonista.  


O caso com Polaire, a atriz que representa Claudine no
teatro,  não é mostrado no filme, mas sugere-se a
intimidade da jovem atriz com Willy.
Ele estimula os relacionamentos lesbianos de Colette para ter mais material para a série Claudine, mas não admite que ela tenha relações com outros homens, mesmo quando seu casamento vira uma união aberta.  Por fim, ele vende os direitos da série Claudine sem lhe consultar e só não destrói os manuscritos da esposa, prova cabal de que ela é a escritora do grande sucesso, porque o secretário decide desobedecer a ordem dada.  É pesado e Dominic West, que é ótimo ator e muito bonito (*uma beleza rústica, eu diria*), está muito bem como o picareta que era uma celebridade e ótimo de marketing.  E acho que ele usou uma roupa com enchimento, ou ganhou peso.  Apostaria no primeiro, já que semi-nudez temos de monte e ele aparece sempre vestido.  Enfim, Willy chega a criar bonecas e toda uma série de produtos baseados em Claudine, algo pioneiro na época.  

Eu me pergunto como uma série de livros com tanto erotismo se tornou sucesso de público e material lido por meninas em idade escolar.  Sério, não é como um Maria-sama ga Miteru, isto é, material água com açúcar com suspiros, olhares apaixonados e promessas de amor eterno somente.  Enfim, Willy é um canalha, mas Colette permanece boa parte do filme sob seu encanto.  O crescimento da personagem, e cabe elogios à atuação de Keira Knightley, é um dos trunfos do filme.  Ela vai se transmutando da moça caipira e ingênua em uma esposa de vida mundana (*era o círculo que frequentavam*) até se libertar através da arte (*o teatro e a mímica*) e do romance com Missy (Denise Gough), uma mulher da mais alta nobreza e que costumava envergar roupas masculinas.  


Willy enreda a jovem Colette.
O problema é que o filme engana quem, como eu, não conhecia a biografia de Colette.  Fica parecendo que Missy foi o amor da vida artista, quando, na verdade, foi somente um de seus muitos amores.  Depois de se separar de Missy, Colette se casa com outro homem, depois ele se separa dela, porque ela tomou o enteado como amante.  E isso rendeu um livro, semi-autobiográfico, Chéri.  O Pois bem, não sabia que Colette era bissexual, porque acredito que era essa a orientação sexual da protagonista.  Como Colette tem duas amantes no filme, Missy e a norte-americana  Georgie Raoul-Duval (Eleanor Tomlinson), além de mostrar-se encantada pela atriz Polaire (Aiysha Hart), fiquei mesmo me questionando se Willy não tinha sido somente o caminho esperado em uma sociedade patriarcal e que a protagonista seria lésbica.  Saí do filme com esse ideia na cabeça.  

De qualquer forma, melhor seria dizer que Colette era uma mulher livre, que oferecia - ou passou a oferecer seus afetos - a quem quisesse e como quisesse.  O filme de certa forma a domestica e moraliza.  Por exemplo, o caso com Georgie é apresentado como a primeira relação lesbiana de Colette.  Willy a estimula a ceder ao flerte da americana rica e entediada, só que ele mesmo se torna amante de Georgie sem que a esposa saiba.  Ao descobrir, a Colette do filme se ofende, sente-se a amante traída, toma satisfações com o marido.  Na realidade, os três se entenderam muito bem e e formaram uma ménage à trois.  Acho que seria demais para o filme, que tem muita cenas de quase nu feminino, colocar o trio na cama. O que quero dizer é que a película engana o público em relação ao comportamento sexual de Colette.


Missy reconhece o valor de Colette.
O filme, no entanto, é muito bem sucedido em desenhar o casamento abusivo e a precária condição das mulheres.  A adolescente Colette é empurrada pelos pais empobrecidos para um vantajoso casamento, ainda que o marido fosse muito mais velho e um conhecido libertino.  Ele é rico, ele não exige dote e não há outras opções em vista.  Por qual motivo não apoiar essa união?  Mais tarde, quando Colette quer assinar seus livros, o marido diz que ninguém compraria uma obra escrita por uma mulher.  "Ninguém quer ler mulheres!"  Até hoje, para nãos erem identificadas, algumas mulheres assinam as iniciais de seus nomes.  É uma forma de esconder o seu sexo e tentar vender mais. 

O filme e outras fontes que li, dá a entender que muitos dos "operários" de Willy pensavam mais ou menos assim.  Escreviam, Willy assinava as obras e, assim, garantiam o seu ganha pão.  Escrevo de novo, o cara era um picareta intelectual e um marido abusivo.  Daí, uma das grandes discussões de Colette é sobre o poder da escrita e como as mulheres muitas vezes foram privadas do acesso a esse poder.  Quantas mulheres tiveram suas obras roubadas como Colette?  E quantas viraram a mesa como ela?  Poucas.  Pouquíssimas.  Por isso, talvez a frase mais poderosa do filme seja "My name is Colette and the hand who holds the pen, writes the history."  (*Meu nome é Colette e a mão que controla/segura a caneta, escreve a história."*).  A gente sabe bem que é assim mesmo, por isso, Willy queria pelo menos parecer o dono da caneta.


Willy obriga Colette a cortar seus cabelos.
O filme discute, também, privilégios de classe.  Missy pode se vestir como um homem (*e o filme parece sugerir que a personagem é um homem trans, mas há controvérsias sobre isso*), porque é rica e de uma família poderosa.  Ela diz para Colette que seria presa por se vestir com roupas masculinas se não fosse quem era, sobrinha de Napoleão III, outros imperador.  Curiosamente, o que o filme não cita é que o marido de Missy era homossexual.  Há um termo vitoriano para esse tipo de casamento por conveniência, "lavender marriage".  O filme meio que nos induz a pensar que o ex-marido de Missy seria um macho ofendido.  Na verdade, a confusão que acontece depois que Missy e Colette se beijam em uma peça tem muito mais a ver com o fato delas terem cruzado uma espécie de linha.  

A sociedade boêmia que frequentavam achava excitante certos comportamentos, mas não todos.  Missy, afinal, não era uma Georgie, ela não estava ali para o olhar masculino e mesmo Colette estava aprendendo a pensar em si e, não, no que a sociedade pensava.  Esse tipo de lesbianismo incomoda, porque não é para consumo masculino.  Enfim, Missy é a primeira pessoa a externar que sabe que Colette é a autora de Claudine e a apoiá-la.  Sabe a palavrinha mágica?  Sororidade.  O amor vem depois e incomoda Willy, claro.  O filme, porém, não apresenta Missy como uma artista, mas como uma espécie de "playboy" rica que só subiu aos palcos para satisfazer a amante.


No filme, a rica americana Georgie é sua primeira amante. 
Ela também iria se tornar escritora sem grande sucesso.
Já me estendi bastante e a resenha está uma confusão... Cabe, no entanto, explicar um termo que usei: Belle Époque.  Trata-se de um período (1871-1914) de grande progresso material, científico e cultural, particularmente visível nas grandes cidades europeias, como a Paris do filme, mas não só.  Pensem na remodelação urbanística do Rio de Janeiro (*Bota-Abaixo*) nos primeiros anos do século XX, por exemplo.  É o período em que se dá na Europa, nos EUA, e em outros lugares em menor escala, a massificação da educação básica (*Colette, por exemplo, frequentou a escola pública*), de intensificação do êxodo rural (*Colette sai do interior para Paris*), com a possibilidade de mobilidade social ainda que pequena, de setores das classes trabalhadoras (*vide a primeira temporada de Downton Abbey*), e das camadas médias.  

O filme cumpre a Bechdel Rule sem nenhum problema.  Apesar do peso de Willy, trata-se de um filme sobre uma mulher e que interage com outras mulheres que tem peso em sua história.  Missy foi comentada na resenha, mas há outra, a mãe de Colette, interpretada por Fiona Shaw.  Ela dá os melhores conselhos para a filha (*no início, eu achei que Colette era uma órfã acolhida por ela, enfim...*), inclusive de ser ela mesma e se livrar do casamento com o Willy.  Daí, é difícil entender por qual motivo ela foi uma das principais incentivadoras do casamento.  Não combina, entende?  Uma mulher como ela atirar sua filha nos braços de um libertino e picareta, ainda por cima, muito mais velho.  Ah, sim, o filme salpica aqui e ali, atores e atrizes não-brancos.  Paris era uma cidade cosmopolita, então, nada mais adequado.


Figurino elegante.
Agora, outro problema, e não vou dar o spoiler, é ver que Ollendorf (Julian Wadham) reaparece como editor dos livros da série Claudine mesmo depois do rompimento dele com Willy.  Muito estranho mesmo.  Imagino que o incidente que levou à ruptura tenha sido inventado par ao filme.  Bem, outras coisas a pontuar?  Só um detalhe de figurino.  Achei muito forçada que durante a primeira noite no meio da sociedade boêmia de Colette a produção tenha querido forçar o seu aspecto "caipira" colocando-a vestida de forma absolutamente inadequada.  Sem luvas, sem chapéu.  Ela poderia ser interiorana, mas essas regras valiam em todo lugar.  Ela poderia estar fora de moda, vestida de forma empobrecida, enfim, mas nunca deslizaria nesses quesitos.  A sequência é meio que desnecessária.  

Concluindo, o filme é eficiente e deficiente ao mesmo tempo.  Pinta muito bem as limitações impostas às mulheres e como se constrói um casamento abusivo, como é difícil fugir dele.  Agora, Colette não nos apresenta a protagonista em sua integridade.  Não vimos a Colette romancista, indicada ao prêmio Nobel, tampouco a jornalista durante a Primeira Guerra Mundial.  Gosto de filmes biográficos que focam em um período determinado, mas a película sugeria algo mais e colocar letreiramentos no final contando a vida das personagens depois do "The End" não é satisfatório, é uma solução preguiçosa.  No mais, eu geralmente não me importo com essas coisas, mas me pareceu que um filme sobre Colette deveria ser feito por um elenco que falasse francês.  Parecia que tinham transplantado ingleses para Paris e o resultado não foi dos mais eficientes.


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