segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Prêmio de Literatura Infantil nos EUA Muda de Nome: Laura Ingalls Wilder seria racista demais para a homenagem


Quando eu era criança, havia uma série de TV de muito sucesso chamada Os Pioneiros (Little House on the Prairie), mais tarde, bem mais tarde, descobri que a série era baseada em livros de autoria de Laura Ingalls Wilder (1867-1957), uma das meninas da tal família de pioneiros no Velho Oeste.  Ela escreveu dez livros contando a experiência de sua família, suas lembranças da infância e adolescência.  Os livros são um sucesso até hoje nos Estados Unidos, o seriado de TV foi vendido para muitos países.  Um dos maiores prêmios da literatura infanto-juvenil norte-americana tinha o nome de Ingalls.  Este ano, a The American Library Association (ALA), que confere a premiação, decidiu que o nome da autora seria retirado do prêmio por considerar que seus livros traziam mensagens racistas, apesar dos valores consistentes transmitidos pelos seus escritos.

Sempre que vejo o quanto de mulheres escritoras de sucesso havia na Europa e nos EUA, no Canadá já nos séculos XVIII, XIX e início do XX, eu fico maravilhada.  Meninas poderiam ler Anne of the Green Gables (Lucy Maud Montgomery), Heide (Johanna Spyri), Little Women (Louisa May Alcott), Peter Rabbit (Beatrix Potter), Pollyanna (Eleanor H. Porter), Little House on the Prairie e desejar escrever, também.  Muitos dos livros dessas mulheres eram sobre meninas da idade de suas possíveis leitoras, tinham caráter autobiográfico, de alguma maneira.  Mais tarde, alguns foram transformados em peças de teatro, filmes para o cinema, animações, seriados de TV.  O fenômeno era semelhante era semelhante ao dos shoujo mangá, percebem?  


Aqui, nos séculos XIX e início do XX, quem temos?  Eu, e posso estar sendo ignorante, mas lembro somente de Monteiro Lobato.  Um único autor (homem) realmente dedicado à literatura infanto-juvenil nessa época que eu pontuei, vejam bem.  Há Minha Vida de Menina de Alice Dayrell Caldeira Brant, mas é um livro descoberto posteriormente por adultos e a autora, na época da publicação, anos 1930, teve que usar o pseudônimo "Helena Morley", porque ser escritora não era algo que uma mulher de família devesse aspirar. Escrever um diário, ter um livro de receitas feito a mão, OK, publicar livros não foi algo desejável no Brasil por muito tempo.  (*E, por favor, parem de dizer que há muitas autoras de literatura infanto-juvenil no Brasil, olhem o meu RECORTE TEMPORAL.  Estou falando até a primeira metade do século XX.  Primeira metade.*)

Entendo as preocupações da ALA, mas me pergunto como a autora poderia fugir de estereótipos que eram o discurso dominante em sua época.  Ainda assim, como várias matérias comentaram (*1-2-3-4*), mesmo as que defendem a mudança, a autora fez a autocrítica e alterou algumas coisas ainda em vida.  Quantos autores são capazes de fazer isso? Por exemplo, ela teria escrito "Não há ninguém lá.  Só índios." , mas nas últimas edições antes de sua morte, ela teria modificado o texto "Não há colonos lá.  Só índios.".  Reclamam de uma personagem abertamente racista (*veja que estou enfatizando*) nos livros, um vizinho dos Ingalls, que teria dito "O único índio bom é um índio morto.", mas ignoram que o pai de Ingalls logo em seguida teria retrucado que nunca vira um índio ser mau com ninguém desde que os deixassem em paz.  Uma fala assim é muito moderna e humanista para a década de 1880 e é melhor do que muito diálogo de personagens de Manoel Carlos, vamos combinar.

Outra fala dos livros considerada ofensiva é quando uma das irmãs Ingalls diz para a autora que as meninas da cidade pensariam mal dela, porque ela estava "morena como uma índia".  Se você está em um ambiente no qual a pele branca é sinônimo de beleza e status social, porque mulheres ricas não precisavam trabalhar fora de casa, nem deviam ficar ao sol, é absurdo não compreender a fala.  Em Orgulho & Preconceito, Caroline Bingley tenta desqualificar Elizabeth Bennet aos olhos de Mr. Darcy argumentando exatamente que ela está morena demais, porque toma sol nas suas caminhadas (*mulher leviana que vive pelas estradas...*).  Talvez, se Jane Austen tivesse escrito o livro nas Américas, Miss Bingley comparasse Lizzie com uma índia, ou uma negra.

Quando leio essas notícias, me pergunto qual a função do adulto, seja responsável, ou professor/a, em explicar e localizar historicamente um livro para um jovem leitor ou leitora.  Ou ainda, por qual motivo não colocar uma introdução crítica pontuando os "problemas" para que o leitor possa refletir sobre os tais problemas da obra?  Enfim, não sou norte-americana, não tenho nada com isso, mas acho lamentável quando leio esse tipo de coisa.  É como Monteiro Lobato, e olhe que nosso principal autor de literatura infantil era um racista consciente, isto é, engajado, não era caso de tropecinhos aqui e ali, não.  Mas penso, também, em como é menos complicado atacar a obra de uma mulher e desqualificá-la, ainda que com todos os "poréns" do que a de um homem que faça o mesmo, ou pior.

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