segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Sexualização infantil e namoro: Discutindo uma Imagem

Você já deve ter visto essa imagem.  Ela tem circulado muito pelas redes sociais, como ela merece ser discutida,decidi trazer a discussão para o Shoujo Café. Apaguei os rostos e nomes dos envolvidos, porque, bem, não acho correto expô-los aqui (*repassei no Facebook e no Twitter e acredito que vou deletar*).  Enfim, nos últimos tempos, cresceu a campanha "Criança não namora".  Em princípio, concordo, mas será que quando adultos pensam em "namorar" não estão contaminados pela ideia de consumação do ato sexual? Namorar pode ser trocar olhares, bilhetes, presentes, querer estar junto, andar de mãos dadas, dividir um sorvete etc.  Sexo é uma possibilidade, inclusive, que não se encontra no espectro daquilo que muitos grupos consideram namoro.  Explicado isso, eu, Valéria, não vejo problema na foto acima, nada de sexualização precoce salta aos meus olhos. Olhar essa foto e ver sexo é o mesmo, a meu ver, que olhar um casal homoafetivo e ficar imaginando o simples ato de tocar de mãos sexualizado e ofensivo. Isso encerra a discussão?  Não.

Não sou freudiana, nem tenho leituras profundas de psicanálise, mas eu sei que a noção de que criança tem sexualidade não é nova, aliás, muito pelo contrário.  Ela se manifestaria de forma diferente da dos adultos, ou do boom da puberdade e estaria condicionada à questões de ordem cultural-religiosa, ou mesmo individual (*há pessoas que são assexuais e isso também é ser normal,oras!*). Crianças sentem prazer, mas não teriam a consciência dos complexos códigos de sexualidade  das sociedades nas quais estão inseridas, porque elas não são naturais.  Aí, sou eu, historiadora, afirmando.  Para tentar acomodar as coisas, entram os adultos "educadores" e, não raro, começa a desgraça.
Meninas, cheguei!

O que me preocupa é que crianças, especialmente os meninos, sejam expostos a toda uma série de estímulos sexuais desde cedo.  Pedem a um bebê garoto (*vi isso ontem em uma festa de família*) que pisque para uma mulher/menina e os pais e adultos ao redor brincam que ele está namorando.   Há toda uma gama de roupas alardeando a potência sexual de  um futuro macho sendo vendidas no mercado.  Ser hetero, perseguir as garotas, se fazer notar, é fundamental para a construção de nosso modelo hegemônico de sexualidade. 


Para as meninas, o modelo é a repressão, ou a sublimação.  Nem nos tocar podemos, porque é feio, imoral.  Há  o culto ao corpo e a objetificação presente nas roupas para meninas, mas não é socialmente aceitável que uma menina seja o agente em um "namoro" precoce.  E se fosse o inverso essa foto dos presentes, a menina estaria sendo criticada, chamada de vadia, a mãe, em especial, seria crucificada.  Mas olhemos a foto de novo, se fossem duas crianças negras, talvez, ao invés de curtidas teríamos gente comentando de forma agressiva e falando em gravidez precoce.  Agora, se essa expressão de afeto, que, repito, me parece inocente, fosse de dois meninos, ou duas meninas, os moralistas de plantão estariam pedindo a prisão dos responsáveis e clamando alguns que as crianças fossem surradas para se consertarem.   Estou falando de expressões de afeto sem caráter sexual e, não, estou colocando na mesa o caso do aniversário do adolescente de 13 anos que beijou o namorado.  Isso exigiria outro texto.
Dito mais que popular.

O que quero dizer, é que a foto não envolve somente privilégio hetero, como muita gente está repetindo.  Há  outros privilégios envolvidos  nesse angu.  Privilégio branco. Privilégio do macho.  E se a gente perde isso de vista, tende a ser injusto.  Fora isso,  no afã de expôr esses problemas, não cabe sexualizar a foto e projetar nela coisas que, à princípio, ela não nos diz.  Namorar pode ser muita coisa, crianças de 8,  9 anos, tem certo grau de autonomia nos seus afetos. Quem nunca viu um menino apaixonado pela professora, por exemplo?  (*De novo, menina apaixonada não pode.  É perigoso.*) Não é o mesmo que pegar dois quase-bebês de 3 anos e fazer um sessão de fotos de casamento, porque as duas crianças, menino e menina sempre, são muito amiguinhos e as mamães acharam que seria fofo.  Agora, crianças de 8, 9, 10 anos, continuam sendo isso, crianças, e a gente tem que cuidar delas e tratá-las desse jeito.


Agora, há um problema de nossos tempo para além de achar necessário mostrar sua intimidade nas redes  sociais, a exposição precoce de crianças à pornografia. Coisa  que elas não entendem direito, nem deveriam precisar entender, e que normalmente expõe situações de violência, abuso e humilhação das mulheres.  Segundo matéria que li, e queria comentar no último jornal, mas não consegui arrumar as ideias, cresce o número de atendimentos de crianças sexualmente abusada por outras crianças.  Isso não deve ser  coisa nova, certamente, não é (*e eu não queria citar histórias  que conheço*), mas aumentou a quantidade de crianças atendidas nos hospitais e de casos que chegam até a polícia.  E manchetes como essa "Filho de 13 anos de babá confessa ter estuprado menina de 7 por várias vezes".  
Muitas crianças são expostas à pornografia
 por acidente, ou descuido.
Alguém poderia dizer que com 13 anos não é criança.  Concordo, mas está no limiar.  Que tipo de estímulo esse menino recebeu para achar que podia e devia violentar uma criança.  Não é, também, uma questão de classe, ainda que possa ser uma questão de classe levar o caso para a polícia,ou abafá-lo, vide o caso do filho do dono da RBS, ocorrido em 2010. Na época, o garoto de 14 anos e seus amigos, estupraram uma menina de 13 anos.  Deu em quase nada (*hoje,ele já tem outros problemas com a lei*), mas a conduta sexual da garota foi examinada.  Afinal, o que ela estava fazendo lá com os garotos?  O que esperava?  Deve ser normal ir estudar com os colegas e ser por eles estuprada.  Mas isso era coisa corrente na literatura erótico-pornográfica brasileira e além.  É aquilo, sua boca diz "não", mas seu corpo diz "sim".

Misturei muito as coisas, mas espero ter me feito entender.  Por princípio, não vejo nada demais na foto que gerou a polêmica.  Namoro  não significa sexo,ou crianças sexualizadas.  O pessoal que se preocupa como abuso infantil e os que se preocupam em encobri-lo parecem comprometidos em tapar o sol com a peneira.  Família, escola, mídias deveriam trabalhar para criar pessoas melhores, inclusive na forma como lidam com seus afetos e sexualidade.  O problema é que não há nada disso no horizonte, vide a minha discussão final sobre crianças expostas à pornografia e os abusos cada vez mais recorrentes. Por outro lado, a foto aponta para uma série de privilégios e deixar de analisá-los é, também, tapar o sol com a peneira. Crianças não são anjos, nem demônios, nós, adultos, é que projetamos neles nossas noias e, não raro, ajudamos a bagunçar com a cabeça dos pequenos, seja por excesso de zelo, seja por excesso de exposição.  Um pouco de bom senso ajudaria muito nessas horas.

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3 pessoas comentaram:

Quem nunca se apaixonou quando pequeno?
Posso dizer pela parte dos homens, que sim. E não tinha erotismo. Aliás era muito puro o sentimento, era um beijo no rosto e você ia pro céu e voltava.....kkkk
Ótima matéria Valeria. Acompanho seu trabalho desde a finada(ou não) NeoTokyo, ainda as releio de vez em quando. :)

O comentário família foi "Eu sempre entendi o termo "namoro" como algo mais platônico, envolvendo antes de tudo afeto, sentimentos e cuidado. Faz pouco tempo que percebi que as pessoas atribuem um significado sexual ao termo.". Apaguei sem querer.

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