domingo, 17 de fevereiro de 2019

Comentando Alita: Anjo de Combate (Battle Angel Alita, 2019)


Sexta-feira, assisti Battle Angel Alita com meu marido.  Efetivamente, não tinha vontade alguma de ver esse filme, tenho pelo menos três do Oscar que gostaria de assistir e não consegui ainda.  Só que meu marido já foi assistir filmes comigo sem querer, só para acompanhar mesmo, e eu decidi retornar o favor.  Aviso que será uma resenha curta, ou assim espero, porque quero comentar Dumplin e até o novo filme do Lego e minha memória pode falhar.  Não sou fã do mangá original, não li nada dele, mas sei muita coisa da série por causa do meu marido, é seu mangá favorito e nossa filha não se chama Júlia Alita à toa.  Se tudo correr bem, Alita deve ser o primeiro filme a ter duas resenhas no blog, a minha e a de um especialista, por assim dizer.  Vamos lá!

No ano de 2563, uma guerra catastrófica contra os marcianos conhecida como "A Queda" deixou a Terra devastada. Tempos depois, uma ciborgue (Rosa Salazar) é descoberta parcialmente destruída pelo cientista Dyson Ido (Christoph Waltz) em um aterro de lixo nos arredores de Iron city. Ela não tem memórias de sua criação, não sabe quem é, mas logo fica evidente que possui grande conhecimento de artes marciais. Ido lhe dá o nome de Alita e tenta colocar a ciborgue no lugar de sua filha perdida.  Só que Alita não se conforma ao papel de criança protegida, ela tem sede de conhecimento e, também, de perigo e violência.  Em suas andanças pela cidade, Alita termina por conhecer Hugo (Keean Johnson), um jovem que lhe apresenta um esporte violento, o motorball.  

Apesar das avarias, ela está viva.
Hugo sonha em ir para Zalem, a cidade que paira sobre as nuvens e é um lugar habitado somente pelos eleitos, a elite que sobrou de uma Terra destruída.  Ninguém pode ir para Zalem, salvo em duas situações, como órgãos e tecidos para pesquisa, ou como grande campeão do torneio de motorball, que é dominado por ciborgues.  Hugo também se torna o primeiro amor de Alita. Inconformada com a condição de criança que Ido deseja para ela, Alita decide se tornar uma guerreira-caçadora à serviço de Zalem e atrai a atenção de perigosos ciborgues e do poderoso Nova (Edward Norton) que manipula humanos e ciborgues que vivem em Iron City.

Desde 2003, era esperado um filme de Alita.  James Cameron comprou os direitos, mas colocou Avatar como prioridade e o filme sobre a personagem de Yukito Kishiro foi sofrendo vários adiamentos.  Em 2016, finalmente, o projeto andou.  Robert Rodriguez foi anunciado como diretor, houve a seleção do elenco e as filmagens começaram.  No entanto, as primeiras exibições teste não foram lá muito positivas, o filme deve ter sofrido ajustes e teve sua estréia adiada mais de uma vez para não ser atropelado por blockbusters mais robustos.  Estreando sem oponentes mais vigorosos, o Alita parece estar se saindo bem nas bilheterias.  Se sair bem é fundamental, porque o filme em si foi construído para ter pelo menos uma sequência, já que termina em um gancho e, não, um simples final aberto.

Alita acorda e não se lembra de quem é.
Apesar desse parágrafo um tanto ácido, devo dizer que o filme é bom, daria uma nota sete sem problema algum.  Por exemplo, ele tem uma história muito mais robusta do que o primeiro filme da nova série de Guerra nas Estrelas, O Despertar da Força.  O problema de Alita, quer dizer, os dois problemas, é que ele tentou condensar muita coisa do mangá em um filme só, por consequência, o filme se alonga demais, aprofundando de menos.  Só para se ter uma ideia, o mangá de Alita começou a ser publicado em 1990 e terminou de forma um tanto acidentada, o autor estava com problemas de saúde, em 1995.  Ele fechou a série em 9 volumes, porém, retomou a história anulando o final original.  Alita segue em publicação até hoje, já mudou de revista, de editora, e já está chegando nos 30 volumes, se somarmos suas três séries, na verdade, arcos de história.  Percebem o problema?  

O que o filme fez então?  Pegou informações, personagens e trechos da história das várias séries de Alita, juntou com os OAVs, daí a personagem Dr.ª Chiren (Jennifer Connelly), reinterpretou tudo e jogou no filme.  Houve ganhos e perdas, resta a quem assiste tentar se posicionar sobre elas.  Por exemplo, ao escalarem o excelente  Christoph Waltz, Ido foi envelhecido.  A relação dele com Alita vai ser sempre de pai e filha na película.  No mangá, ele chega a ver a ciborgue como um par romântico (*ver mito de Pigmaleão e Galatéa*), no filme, isso não se concretiza.  Livraram-se de uma possível (*dada a neurose em certos círculos*) acusação de pedofilia e não houve perda para a história.  Chiren, que trabalha com os vilões, também foi transformada em ex-esposa de Ido, criando uma espécie de drama pessoal para o cientista que não havia no original.  No geral, essa mexida funcionou em benefício da trama.

Os vilões são esquemáticos, em número
excessivo e sem a profundidade que poderiam ter.
Agora, ao tentarem enfiar uma série de vilões no filme - Vector (Mahershala Ali), Zapan (Ed Skrein), Grewishka (Jackie Earle Haley) - nenhum deles foi de fato aprofundado.  No mangá, todos eles são complexos, tem dramas pessoais que eram desenvolvidos ao longo dos capítulos.  "Ah, você não leu a série, você escreveu isso no primeiro parágrafo!"  Sim, não li, mas assisti muitos filmes na vida para saber quando a produção mete os pés pelas mãos.  Ao invés de tentar abraçar o máximo de elementos possíveis, deveriam ter escolhido dois vilões e os desenvolvido bem.  E, o pior, é que Nova, que no mangá é um cientista que como Ido, também, foi expulso de Zalem, é transformado em um pupet master, o que reduz a importância de Vector e Grewishka.  Aliás, Mahershala Ali está no filme só para deleite dos meus olhos, sempre bonito e elegante.  Função mesmo, é pouca.

Meu marido reclamou muito de terem introduzido tão cedo o motorball, e de terem modificado bastante a trama relacionada ao esporte, mas dá para entender o motivo, colocar mais cenas de ação e violência no filme.  E Alita, no geral, é bem violento, mas esse aspecto está em função da trama, sem exageros.  Cabe elogio, também, aos efeitos visuais e, não, não estou falando da ideia tola de colocar olhões na protagonista, OK?  Isso foi uma das piores ideias que alguém poderia ter.  Falo que, apesar do 3D, é possível ver tudo com precisão, diferente da minha impressão com Aquaman.  Agora, Iron City é muito mais limpa e iluminada do que no mangá e há muitos mais humanos comuns do que no original.

Alita é capaz de chorar, de mostrar compaixão
 e outros sentimentos complexos.
Falando em humanos comuns, chegamos em Hugo.  Vamos lá, algo que merece elogios é a forma como oi trabalhada a tomada de consciência e a recuperação das memórias pela protagonista.  A Alita no filme é bem desenvolvida e suas fases, infantil-tutelada, adolescente-questionadora, adolescente-rebelde e mulher-independente estão bem evidenciadas no filme. O que também fica muito bem caracterizado é o romance pueril da protagonista com Hugo.  O rapaz, uma personagem moralmente dúbia, como deveriam ser todas as demais, quase se redime através do amor.  É "quase", porque não se trata de um filme água com açúcar.  Segundo meu marido, o desfecho do romance Hugo e Alita está tal e qual no mangá, diferente de outras questões.

De qualquer forma,  Keean Johnson, que faz o jovem Hugo, consegue se sair bem nas cenas dramáticas e românticas nas quais está envolvido.  A trama do primeiro amor consegue se inserir bem no filme, sem quebrar a narrativa, ou enfraquecer a protagonista.  Alita, a personagem, consegue ser doce, ingênua e, ao mesmo tempo, uma arma de guerra extremamente competente e consciente de suas capacidades e possibilidades.  Agora, como avaliar a atuação de Rosa Salazar se ela foi refeita por computação gráfica?  Enfim, o filme tem duas personagens femininas fortes e bem delineadas - Alita e Chiren - mas não é o suficiente para cumprir a Bechdel Rule.  

Alita descobre o amor com o jovem Hugo.
Concluindo, não sei se Alita será abraçada como uma heroína pela audiência, ou se o filme estimulará a leitura do mangá, é esperar para ver.  De qualquer forma, trata-se de um filme que pede continuação e que termina com um gancho quase irresistível.  Dada a ansiedade em relação à produção e os percalços para que esse filme chegasse até as telas, é preciso dizer que foi feito um excelente trabalho.  Muito melhor do que eu esperava.  Enfim, se um filme dois vier, espero que não demore mais 10 ou 15 anos e que, claro, Yukito Kishiro termine a série antes disso.  Para quem se interessar pelo mangá, ele está sendo republicado pela JBC.

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