quinta-feira, 4 de julho de 2019

Comentando o primeiro volume da Rosa de Versalhes: Um Dos Maiores Clássicos do Shoujo Mangá Agora no Brasil


Estou com os volumes da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら) faz um tempão para resenhar.  Trouxe os encadernados #1 e #2 para as férias com a intenção de cumprir com o meu dever.  Li o primeiro volume brasileiro, já tinha lido o mangá outras vezes, mas não em minha língua, e não vou negar a minha emoção.  É como redescobrir a obra, ver minúcias  e detalhes que teria perdido antes.  É curioso, também, que sempre que leio as falas de Maria Antonieta em português, ouço a voz da dubladora brasileira Eleonora Prado.  Acho que é um caso raro na minha vida, mas é o que acontece.  Para quem caiu de paraquedas aqui, ou nunca leu algum post meu em que comento minha relação com A Rosa de Versalhes, vou explicar rapidamente.  

Conheci meu marido em uma lista de discussão do Yahoo sobre anime e mangá.  Começamos com Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ) e ele gravou para mim os VHS da Rosa de Versalhes que tinham saído no Brasil.  Mais tarde, entramos em uma “aventura” para conseguir importar o anime completo de um fansuber no Canadá.  Nesse processo, nos apaixonamos e terminamos nos casando.  Quando consegui por as mãos no mangá, era o exemplar em japonês em uma mão e o script em inglês na outra, percebi o quanto o anime tinha se desviado do original de Riyoko Ikeda.  Continuo amando o anime, mas sei que se trata de uma releitura machista do original e entendo perfeitamente o motivo de não ter feito sucesso no Japão.  Mas vou falar do mangá, esqueçamos o anime.

Fersen abre e fecha o mangá.
A Rosa de Versalhes acompanha os últimos dias do Antigo Regime na França, culminando com a Revolução Francesa (1789) e se fechando com as mortes da Rainha Maria Antonieta (1755-1793) e de seu amante, o Conde sueco Hans Axel von Fersen (1755-1810) .  Antes que um alucinado grite "SPOILER!", digo que em História não existe spoiler e se você não dormiu nas suas aulas da disciplina, deve estar ciente de quase todos os dados que escrevi nesse parágrafo, exceto a parte de Fersen, que não é prioridade para nenhum/a professor/a em nosso país.  Retornando,  nosso mangá tem três personagens-chave, Maria Antonieta, Fersen e Oscar, a única personagem ficcional desse trio.  

Primeira página de abertura em cores. 
A JBC não colocou na edição brasileira.
Oscar François de Jarjayes, que a gente acaba associando ao próprio título da obra, é a sexta filha do General de Jarjayes.  Seu pai, cansado de esperar por um filho varão, decide educar a caçula como um rapaz.  Bem sucedido na tarefa, Oscar se torna um perfeito militar e termina sendo designada como capitão da guarda de Maria Antonieta, quando essa vem para a França como esposa do delfim Luís Augusto, herdeiro do trono daquele país.  A partir desse ponto de partida, Ikeda entrelaça acontecimentos históricos com elementos ficcionais, personagens reais com suas criações.  E dá certo, dá muito certo, a ponto de ser difícil para mim retirar Oscar e André da minha cabeça quando penso nos últimos dias da monarquia francesa.

Chorou tão forte que parecia um menino.
A Rosa de Versalhes começou a ser lançado nas páginas da revista Margaret em 1972, sendo concluído em 1974.  Contou com 10 volumes originais e foi o primeiro mangá histórico feito para meninas no Japão.  É considerado, também, uma das obras que ajudaram a revolucionar o shoujo mangá seja pela temática, seja pela forma como Riyoko Ikeda desenha sua história e as emoções que ela evoca.  Ikeda, uma ex-estudante de filosofia, não queria ser desenhista, desejava ser escritora, mas havia demanda por mangá-kas e ela precisava se sustentar para conseguir sua independência.  A Rosa de Versalhes nasceu da sua leitura da biografia de Maria Antonieta escrita por  Stefan Zweig.  Já a personagem Oscar, foi inspirada na rainha Cristina da Suécia, educada como um príncipe por ordem do pai.

Dez capas originais.  As duas primeiras tem Antonieta em destaque,
mas, salvo pelo volume #9, Oscar sempre estará em destaque.
Apesar da descrença inicial do editor, que acreditava que meninas não se interessariam por um mangá histórico, A Rosa de Versalhes foi um sucesso.  Como a autora já disse em entrevista, não existe "a rosa", e o singular e o plural são dúbios no original, mas "as rosas".  As duas de maior destaque são Antonieta (vermelha) e Oscar (branca), mas Rosalie (botão), Jeanne (negra), a Condessa Polignac (amarela) são também rosas, cada uma com suas características. Qual a cor da Du Barry?  Ikeda não diz. Todas essas personagens já aparecem nesse primeiro volume da edição brasileira que reúne os dois primeiros volumes originais.

Nesse início da série, todas as personagens são jovens e, ao longo dos volumes, Ikeda vai amadurecendo seu traço (*e, na minha opinião, ele só chegará ao seu auge em Orpheus no Mado*) e suas personagens.  Fácil entender, Maria Antonieta começa nossa história como uma menina de 11 anos.  A vemos crescer e se tornar uma jovem mulher.  Relendo A Rosa tantos anos depois, percebo claramente os ecos de Zweig, ele abre sua biografia afirmando que Antonieta era uma mulher ordinária (*comum*) em tempos que exigiam pessoas extraordinárias.  Concordo.  Agora, a série corrobora uma visão da rainha que se assenta muito em preconceitos sobre a última rainha da França.

Uma criança mimada.
Maria Antonieta nunca teve ingerência na política de Estado, nenhuma rainha da França tinha qualquer participação nessa esfera fazia muito tempo.  Antonia Fraser, que escreveu minha biografia favorita sobre Maria Antonieta, rebate, por exemplo, a ideia de que Maria Carolina (1752-1814), irmã imediatamente maior de Antonieta, avó da Imperatriz Leopoldina, teria sido uma melhor rainha da França, porque era mais focada, ambiciosa e dotada de inteligência política.  Só que ao se casar, estava no seu contrato de nupcial que ela teria assento no conselho de Estado de Reino de Nápoles assim que desse à luz ao primeiro filho do sexo masculino.  Não havia nada do gênero reservado para Maria Antonieta.

Na França, a amante principal do rei, a Maîtresse-en-titre, tinha muito poder e tiveram ainda mais durante o reinado de Luís  XV.  Ainda que Luís XVI nunca tenha tido uma amante pública, Maria Antonieta não escolhia ministros, como o mangá dá a entender.  Sua influência política era em outras esferas, podendo conceder as honrarias que estavam na sua alçada, como, por exemplo, nas indicações para sua própria "casa", seu staff pessoal, por assim dizer.  É nessa esfera de atuação que ela "ajuda" Madame de Polignac, uma das personagens que mais prejuízo causará à imagem pública da rainha.  
Rosalie jura se vingar da nobre que atropelou sua mãe.
O que esses primeiros volumes retratam bem é o quanto a formação de Maria Antonieta foi negligente, ainda que tire a responsabilidade da Imperatriz Maria Teresa, sua mãe e apresentada por Riyoko Ikeda como uma governante modelo.  Maria Teresa sabe das deficiências da filha, mas esperava que seu caráter se impusesse e ele conseguisse se encaixar em Versalhes.  O que temos é Maria Antonieta sendo aprisionada pelo tédio e se entregando aos prazeres que sua posição e dinheiro podem oferecer.  O luxo e o conforto que ela, como rainha, poderá oferecer aos que ama, se torna um de seus motores.  

O vazio de Antonieta é fruto da falta de amor.  Não seria Ikeda que iria romper com isso, ainda mais com uma personagem como Maria Antonieta em mãos.  A jovem sonha com o amor, mas esse sentimento é estranho aos casamentos dinásticos.  Sua união com o futuro Luís XVI é uma aliança para garantir a paz entre Áustria a França.  O lema da Casa dos Habsburgos apontava para isso, aliás, "Bella gerant alii; tu, felix Austria, nube" ("que outros guerreiem (enquanto) tu, feliz Áustria, se casa").  Maria Antonieta, no entanto, não consegue compreender o seu dever e seu marido também não se esforça.  Embora a coisa seja levemente abordada nesse volume, Ikeda não se cala.  Os anos se passaram e o casamento entre Luís XVI e Maria Antonieta não foi consumado.

Oscar bem jovem.  No quadrinho menos, Madame Du Barry.
Nesse contexto, com uma rainha sedenta de atenção e de afeto, aparece Fersen.  Não vou antecipar o mangá, mas não se tem certeza se Fersen e Antonieta fossem amantes no sentido completo do termo.  Eles se amavam, ele nunca se casou, em seu diário publicado depois de sua morte, temos várias censuras impostas pelo editor, seu sobrinho.  O fato é que o jovem sueco se torna objeto do afeto da rainha e de Oscar.  A capitã da guarda é uma mulher, ainda que tenha decidido viver como homem, e acaba apaixona.  Diferente de Maria Antonieta, no entanto, Oscar sabe qual o seu dever e afasta Fersen da corte.  Ele compreende o perigo e parte.  Isso não faz bem para Maria Antonieta, mas leiam o mangá.

Quanto já escrevi?  Que texto mais prolixo... Enfim, Ikeda introduz uma série de temas nos dois primeiros volumes.  Há a questão do dever de classe e das responsabilidades de Estado.  Luís XVI tenta ser um monarca consciente em relação aos impostos de seu povo, mas sua timidez e falta de energia o impedem de agir como deve.  Ikeda se posiciona desde o início pró-revolução francesa.  Ela denuncia os abusos dos nobres e coloca Oscar como alguém dividida entre suas responsabilidades de classe e o desejo de fazer o que é certo.  Ao acolher Rosalie, Oscar tenta consertar erros alheios.  Ao confrontar o Duque de Guemene, ela se insurge contra as injustiças.  Ao recusar as honrarias e aumento de salário que a rainha lhe oferece, ela mostra o valor que dá aos impostos que pesam sobre a população.

Luís XV recebe Maria Antonieta efusivamente,
mas ele não é o noivo.
Nesse primeiro volume, e eu realmente não gosto desse formato imenso, Antonieta é mais importante que Oscar.  O mangá dá grande importância à infância e adolescência da rainha, que seria a heroína por excelência de um shoujo mangá clássico.  Isso ocorre, muito provavelmente, porque Ikeda precisa se equilibrar entre o que esperam que ela faça, uma série infantil, e o que ela gostaria de fazer, um mangá histórico mais denso.  Só que Oscar cai nas graças do público e, já no segundo volume, ou segunda parte desse tijolo que a JBC publicou, é a capitã da guarda que começa a se projetar como elemento central.  Um olhar de dentro, ela é nobre, afinal, e de fora, já que sua condição é anômala, uma mulher em função de homem, dos acontecimentos.

Falando em gênero, a tensão se estabelece de forma inequívoca entre Oscar e Rosalie, é o quase yuri que Ikeda não ousou fazer ainda.  A jovem se apaixona por Oscar, seu modelo ideal de masculinidade, já a protagonista, lamenta não ser um homem em sentido completo.  Há, também, o akogare das damas da corte, essa veneração que elas têm pela heroína, dispostas mesmo a se oferecerem a ela.  Ikeda também faz questão de explicar que as amizades entre as damas – ela falava de Maria Antonieta e a Polignac – eram próximas, mas nada tinham de homossexuais.  

Você será rainha da França.
Do outro lado, temos André amando Oscar silenciosamente e ainda sem muito destaque na história.  André irá crescer na história nos próximos volumes.  Já Fersen, ignora por algum tempo o sexo biológico de Oscar e se surpreende que ela não tenha desejos de mulher.  Há um paralelo na última sequência do volume entre Rosalie trêmula e deixando a escova de cabelo cair perturbada pela proximidade com Oscar e a heroína fazendo o mesmo quando percebe que Fersen voltou.

O fato de Oscar ser mulher e todos saberem disso é elemento importante na história.  Mesmo que alguns tentem afrontá-la, ou desprezá-la, ela sempre responde com altivez e inteligência.  Oscar sabe o valor que tem e é estimada pelo pai que a educou.  Não é uma heroína frágil empurrada pelos outros.
Maria Teresa se preocupa com o destino da filha.
Que tenho mais a dizer?  Nesse primeiro volume, as vilãs são mulheres.  A Du Barry, amante do rei Luís XV, quase provoca um incidente diplomático ao medir forças com a jovem rainha.  Polignac e Jeanne ainda as veremos por um bom tempo.  Falando em Jeanne, ela é uma das maiores golpistas da História.  Enganou muita gente e conseguiu aplicar alguns golpes difíceis de imaginar.  Não vou adiantar nada, mas já nesse volume vocês conseguem ver que ela é capaz de tudo, ainda que algumas armações apresentadas por Riyoko Ikeda sejam bem pueris.  O que volto a reforçar é que esse primeiro volume é o momento em que Ikde ousa, mas não tanto, pois se a série não ganhasse popularidade, seria cancelada.

Falando do figurino, bem, Ikeda não é muito fiel, mas prefiro esse flerte com a fantasia do que uma rigidez excessiva que veremos em obras posteriores da autora. Claro, que há uns figurantes, mulheres em especial, bem mal vestidas.  Parece aqueles filmes de época em que os extras usam roupas reaproveitadas.  Quanto à Oscar, Ikeda mesma admitiu em entrevistas que seu uniforme era napoleônico.  Da mesma forma que confessou que somente pode perceber alguns erros de arquitetura cometidos quando pode visitar Paris.  Ela não imaginava, por exemplo, que o teto de Versalhes fosse tão alto.

Antonieta cede e aceita falar com a amante de Luís XV.
Falando da edição da JBC, encontrei alguns errinhos na edição que, sendo tão cara, deveria ser quase impecável.  Alguns errinhos são de digitação/revisão.  Por exemplo, Maria Antonieta está sendo descrita como elegante, graciosa e vem um "ativa".  Não combina, obviamente, era "altiva".  Em outro momento, o erro é  crasso, O pai de Oscar fala do rei para Oscar e usa "vossa majestade".  Quando se fala de um monarca é "sua majestade", quando se fala com um monarca, aí, sim, é "vossa majestade".  Em dado momento, e esse pode ser um equívoco de Ikeda, é dito que Maria Antonieta entrou para a "casa imperial da França", algo que não existe.  Se o erro é do original, bastava o/a revisor/a corrigir.  

Agora, há aquelas coisas que não tem jeito, quando faltam correspondentes linguísticos, o sentido pode se perder.  Na cena do baile, o primeiro encontro entre Rosalie e Charlotte, a filha de Madame de Polignac destrata a protegida de Oscar por ciúmes.  Rosalie usa uma forma não polida para se referir a sua mãe e recebe desprezo da moça nobre.  Como traduzir as minúcias do japonês?  As diferentes formas do uso do "eu", ou dos honoríficos?  Não pensem que em um mangá como A Rosa de Versalhes isso não é importante.  De qualquer forma, as edições da Panini ainda me parecem qualitativamente melhores, seja no papel, seja na tradução/a  Ainda assim, sou muito grata à JBC por realizar esse meu sonho de ter A Rosa de Versalhes em língua portuguesa.  Espero que a série faça o sucesso que merece.

Dois volumes juntos, acaba sendo muito material para analisar.
É isso.  Desculpem o texto desorganizado.  Ficou grande, ficou confuso, e eu estou correndo para terminá-lo.  Daqui a pouco sigo para São Paulo, vou ao Festival do Japão depois de muito tempo.  Espero que seja um passeio agradável, apesar do frio, e que volte com o volume #5 da Rosa nas mãos.  Vou fazer umas revisões ainda, mas nada que altere estruturalmente a resenha.  Para quem quiser comprar os volumes da Rosa de Versalhes, é só clicar nos links: 1 – 2  – 3  – 4  – 5.

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1 pessoas comentaram:

Valéria a sua resenha ficou ótimo e nada confuso, e não sou somente eu que ama as suas resenhas longas mas muitos fãs seus.

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|・`) HEY!
|o,)
|-u
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|・ω・`) Eu quero
|o❤️o
|―u’
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|(´・ω・`) Dar isso.
|' _つ つ
|―u’❤️.,
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| ❤️
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