domingo, 21 de julho de 2019

Falar que a Kyoani empregava mais mulheres que a média é ofensivo para alguns


Passei pelo Sankaku Complex (+18/NSFW*) pela manhã, estava em busca de atualizações sobre a tragédia da Kyoani e vi que o site tinha um post reclamando não somente das opiniões absurdas e desrespeitosas de alguns sobre o incêndio na Kyoto Animation, mas tentando associar as bobagens que alguns escreveram no Twitter à agenda de esquerda e feminista. Sim, ele abriu o post com dois artigos, um da CNN (Kyoto Animation studio: Destruction is a terrible loss for both humanity and art), que falava das mulheres em um mísero parágrafo, e o que mais incomodou o autor do post, o do New York Times (Japan Fire Killed Mostly Women, at a Studio Known for Hiring Them) apontando que, sim, a Kyoani tinha a proposta de empregar mulheres animadoras e em outras funções que seus concorrentes. Para o dono do site, isso é empurrar uma agenda feminista sobre os corpos das vítimas. Para vocês perceberem o quanto isso é doentio, deixo um dos depoimentos da matéria do NY Times:
"Na sexta-feira, um homem preocupado com sua neta de 21 anos, que trabalhava na Kyoto Animation, disse à NHK que não conseguiu encontrar seu nome nas listas de pessoas levadas para hospitais locais. "Ela era o meu orgulho", disse o homem, Kazuo Okada, 69, sobre sua neta, Megumu Ohno. “Seu nome começou a aparecer nas telas de filmes de animação. Eu estava tão feliz em ver isso. Eu estava orgulhoso dela. Eu quero ver o rosto dela em breve."
Como alguém pode se incomodar com uma matéria que coloque um depoimento desses? Como alguém pode achar que dar voz a esse avô é passar por cima da dor das pessoas? Para ele, só de tocar na questão das mulheres, as matérias querem vender a ideia de que o criminoso cometeu o atentado para matar mulheres, um feminicídio. Sabe coisa de INCEL? Pois é... A matéria da CNN fala das mulheres uma vez e, logo em seguida, traz outra informação importante sobre o estúdio e que é relativa a todos que lá trabalham:
"Em uma indústria dominada por homens e, tradicionalmente, voltada para o público masculino, o estúdio tem a reputação de empregar mais mulheres - inclusive no nível de diretoria - do que muitos de seus concorrentes."
"Também tem animadores fixos, assalariados, oferecendo o tipo de dinheiro e segurança que lhes permite criar obras de alta qualidade. Durante anos, ela administrou uma escola para animadores, na qual a cooperação e a colaboração são altamente enfatizadas - a missão declarada pelo estúdio inclui um apelo à sinceridade e dá prioridade ao respeito pelo artista."
Esse detalhe dos melhores salários, do respeito com os artistas, só tornava a Kyoani um local de trabalho melhor que a média.  Agora, em nenhum momento, nem a matéria do NY Times, nem a da CNN, aventaram qualquer coisa como feminicídio, algo direcionado, até porque não temos nada que aponte para isso.  Morreram mais mulheres e jovens, porque eram a maioria do staff.  A rigor essa é a resposta.  Não é como no caso da Escola de Realengo quando várias mídias tentaram esconder o fato do atirador alvejar mais meninas e para matar.  E, claro, um atirador pode escolher, um incendiário, na maioria das vezes, não.  A matéria do NY Times comenta que os homens só eram maioria no grupo de animadores a partir de 35 anos.


Estamos vivendo em um momento tão horroroso que as pessoas perdem total noção de equilíbrio, bom senso, são mal educadas e hostis a troco quase de nada.  As mensagens de Twitter que estão no post do Sankaku são muito ofensivas e absurdas, vão desde gente dizendo "Bem feito!  Anime é coisa de pedófilo." até o sujeito pseudo-revolucionário (*talvez fake*) apontando que a Kyoani estava à serviço do capitalismo e que os que se suicidam por causa da opressão são em maior número.  


Insanidades, enfim, mas a gente pode fazer um mosaico com elas sobre os mais variados temas, falas de pessoas de todas as origens, sexo, orientação sexual, identidades, enfim.  As pessoas estão enlouquecendo e apodrecendo, eu diria.  Por outro lado, os que se manifestaram de forma solidária nas redes sociais sobre a tragédia são sempre em maior número do que os loucos, cruéis e perversos.  Se não fossem, nosso mundo já teria explodido.  Agora, tem condição alguém dizer que citar as políticas da empresa, ou que morreram mais mulheres, é ofender a memória dos mortos?  Para os misóginos, porque são misóginos, é, sim.  

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1 pessoas comentaram:

Realmente acho que estamos vivendo um momento problemático, não é que as pessoas estão mais loucas, sem noção, desrespeitosas e egocêntricas, a diferença é que isso está escancarado para além da discussão de buteco com seus pares.
A internet desmascarou a burrice, a indiferença, a falta de empatia, e como disse Renato Russo "nos deram espelhos e vimos um mundo doente".
É lamentável o que aconteceu com Kyoani, é lamentável a perda de qualquer vida, é lamentável que vivamos em um mundo que haja pessoas que não lamentem isso.

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