quinta-feira, 25 de julho de 2019

GAME ~O Jogo Proibido~: A Panini agora aposta em um josei erótico + Pequena Resenha do Primeiro Volume


Já estou atrasada com esse anúncio, porque faz tempo que todo mundo está sabendo, mas a Panini anunciou, e já deve estar para sair o mangá Game Suit no Sukima~ (GAME~スーツの隙間~), de Mai Nishikata.  A série tem 4 volumes lançados e é publicada na revista Love Jossie, que é digital.  Trata-se de um mangá josei e será o primeiro mangá feminino erótico a ser lançado em nosso país.  A história do mangá é mais ou menos o seguinte:
Sayo Fujī tem 27 anos e é executiva de uma empresa de contabilidade. Apesar de brilhante e competente, ela sofre o olhar de desaprovação da maioria dos homens ao seu redor, que têm ciúmes dela ou não aceitam que uma mulher seja tão dedicada à sua carreira profissional. Debaixo de seu exterior implacável, Fujī sofre com a solidão que marca a sua existência. Mas a chegada de um novo funcionário na empresa pode mudar a situação. De fato, Ryôichi Kiriyama não é um funcionário dedicado e propõe que Sayo faça sexo com ele. A princípio chocada, Fuji acaba concordando em ir além dos limites de um relacionamento profissional simples, sem ter sentimentos por ele. Então começa um jogo estranho entre os dois colegas de dominação e prazer.

site francês Manga-News defende que o mangá trabalha muito bem aspectos psicológicos e é inteligente, contestando inclusive aspectos do patriarcado.  Olha, eu não li nada do material, então, não tenho como me pronunciar.  Com certeza irei comprar o primeiro volume e avaliar se vou seguir.  De qualquer forma, é muito interessante o investimento em um mangá diferente, porque adulto e com conteúdo sexual assumido, para mulheres.  Vamos esperar para ver.  Outra coisa, a editora abriu assinaturas para Game, logo, está apostando no mangá.


PEQUENA RESENHA

Ontem, depois de escrever o post, acabei pegando os seis primeiro capítulos de GAME para ler, é fácil encontrar na internet.  Falando em termos de arte, ela funciona.  É boa, ainda que o Ryôichi Kiriyama, que iniciará o caso com a protagonista, pareça muito com as personagens de Shinju Mayu nos dois primeiros capítulos.  Aliás, ele parece de outras formas, também.  Sei que se trata de material erótico beirando o pornográfico, que não tem nenhum dever de passar mensagens feministas (*e discordo da resenha do Manga-News que citei*), mas trata-se de um mangá que tem sérias dificuldades de trabalhar com a ideia de consentimento.



Kiriyama é mais um digno, ou indigno, representante da categoria dos ore-sama guys (*vide tipologia*).  Ele insiste para que a mocinha faça sexo com ele, ignorando quaisquer limites de respeito pelo espaço do outro.  Ele não é violento, mas é impositivo.  E ele consegue o que deseja.  Estabelece-se entre ele e Sayo uma relação baseada no sexo e no "jogo".  Ele quer que a mocinha se solte e grite durante o ato sexual, ele consegue, mas ela até onde li, não conseguiu o mesmo com ele.  Pois bem, mas eis que entra o componente BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo).  

Não discutir com seu parceiro se a pessoa curte, se quer "brincar" não é muito ético.  A prática tem regras e amarrar a parceira sem que ela tenha concordado com o jogo e sem que se combine uma palavra de segurança não é BDSM. A forma como a autora introduz a questão na história é problemática nesse sentido.  Irresponsável, porque ela poderia ter passado a dica didática e, não, a mensagem de que "tudo bem se seu ficante/namorado/wahtever joga você na cama com violência e lhe amarra".  Sayo termina curtindo?  Sim, verdade, mas a situação poderia ter se desdobrado em um estupro facilmente.  Kiriyama tem um segredo, isso a gente já sabe, mas ele é um sujeito um tanto perturbador e, talvez, perturbado.  *Coffeee & Vanilla (コーヒー&バニラ) feelings.*



Enfim, e a parte critica ao patriarcado, está lá mesmo?  Bem, a autora tem conhecimento do ambiente corporativo japonês, de como as mulheres são jogadas para baixo e valorizadas menos pela sua competência e mais pela sua aparência e submissão. A protagonista é uma espécie de supervisora, ou gerente na sua empresa, não é a nossa office lady padrão. Sayo é competente e tem um projeto de carreira, além de um objetivo claro para os próximos meses/anos, comprar uma casa própria.  Os coleguinhas homens dela, porque no mesmo cargo são todos do sexo masculino, a recriminam por se dedicar demais.  "Não é muito feminino gostar tanto do trabalho."  "Ela parece um homem, mulher não tem que se preocupar com a carreira.".  Ela deveria se preocupar com casamento, enquanto é jovem.  Eles não se importam se ela ouvir, ela finge não se deixa ferir e é a favorita do chefe.

O próprio chefe, em todas as cenas nas quais aparece, pergunta se ela não está trabalhando além do que deveria, concentrando tarefas demais.  E está, esse é outro ponto do mangá, mas se ela não se esforçar, ela não terá sua competência reconhecida, afinal, ela é mulher.  Fosse diferente, a chamariam de preguiçosa, espalhariam que o chefe deve estar tendo um caso com ela e coisas assim.  Como nada disso é possível, a linha de ataque é outra, ela não é feminina.   Estamos falando de papéis de gênero, não se sexualidade, mas fica meio nublado se, para os colegas, Sayo não seria lésbica, também.



Sayo tem uma amiga, uma office lady, que se enquadra exatamente no padrão de feminilidade exigido.  Ela é uma fofura, ela não tem força física para certas tarefas, ela precisa da ajuda dos coleguinhas para fazer tarefas simples no computador.  Lembra Hataraki-Man (働きマン), e ser parecido nada tem a ver com copiar, simplesmente a autora de GAME conhece o mundo do trabalho japonês, e está usando isso a favor do seu mangá, só que, no fim das contas, Sayo poderia ser a aluna exemplar de um shoujo mangá escolar e Kiriyama o príncipe escroto que entra na sua vida como um fuiracão, só que eles são adultos e temos sexo.

Veredito?  Se você quer ler pelas cenas de sexo, a autora vai entregar isso para você.  É mangá adulto, pode ser lido por alguém de 16 anos, mas não entregue para a sua irmã, ou prima de 12, ou 14 anos.  É preciso ter passado por algumas fases anteriores, seja de educação sentimental, amadurecimento emocional, assim como de empoderamento mesmo como mulher.  Repito, um mangá não precisa ser feminista, progressista, ou o que seja, ele precisa contar uma boa história, entreter e ser responsável em relação a algumas coisas.  Não sei se GAME irá aprofundar as discussões sobre mercado de trabalho e mulheres, mas tratou de forma muito perigosa o BDSM quando introduziu a questão.



Não fiquem imaginando que é outro Black Bird, porque o mangá de Kanoko Sakurakoji é material juvenil apimentado.  Não há sexo graficamente desenhado.  GAME traz isso.  Não é sexo por metáforas, como em A Rosa de Versalhes, mostrando-se muito pouco ou nada.  GAME mostra, sim.  Há coisas mais pesadas para mulheres?  Sim, tem, mas GAME está no limite da pornografia.  E há espaço para tudo no mercado desde que sinalizado que é material adulto.  Compra quem quer.  Mantenho que comprarei o primeiro volume de GAME, porque quero ver como a Panini irá tratar o material.  Tradução, escolha de palavras, enfim.  A Panini tem pontuado mais alto que a JBC nesse quesito.  Torço para que GAME venda e que, de repente, tenhamos um Mangá-ka to Yakuza (漫画家とヤクザ), que é bem mais pornográfico que o mangá de Mai Nishikata, e mais divertido, também, pelo menos, para mim.

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2 pessoas comentaram:

Adoro suas resenhas, estou curiosa por esse mangá. Eu não sei se tem relação, mas há um tempo eu li algo sobre o consumo de mulheres na compra de mangás eróticos se faz mais pela internet, do que por mangá físico (não lembro onde li isso). Pensei se talvez a assinatura do mangá tivesse alguma relação com isso, no sentindo de não precisar e ir à banca e ser repreendida por olhares de desaprovação.

É... Tá difícil.
Amo mangás Yuri. Queria um Aoi Hana, mas a New Pop me traz Citrus, que eu detestei.
Adoro ler Josei, mas a Panini me traz Game, outro que também não me desceu.
Achei o mangá fraquinho, a protagonista dominadora no trabalho que aprende a "relaxar" com o abusador sem noção. É, não deu.
Vou gastar meu dinheiro com séries que eu curto e que não são lançadas aqui.

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