sábado, 26 de outubro de 2019

Grupo "pró-vida" constrange vítimas de estupro em frente ao hospital Pérola Byngton


Pérola Byngton (1879-1963) foi uma milionária, filantropa e ativista social brasileira dedicada a várias causas como a proteção à infância, às mulheres, enfim, aos em condição de vulnerabilidade.  Em 1959, o  Hospital Cruzada Pró-Infância em São Paulo foi fundado e, em 1963, ele foi rebatizado de Pérola Byngton.  Em 2017, ele atendia aproximadamente 6 mil mulheres e meninas por mês (*matéria aqui*), tudo isso pelo SUS.  

O Pérola Byngton é, também, hospital de referência para atendimento de mulheres e meninas vítimas de violência sexual.  Para se ter uma ideia do horror que é isso, recomendo a entrevista da médica Mariana da Silva Ferreira, que atende de bebês de dias a senhora de 80 anos todos os dias no hospital.  É preciso estômago, muito.  O Pérola Byngton  é também um dos poucos hospitais da rede pública que pode realizar a interrupção da gravidez nos casos previstos em lei do país, isto é, risco de vida para a mãe, estupro e má formação fetal gravíssima, como a anencefalia, de novo, ele é um centro de referência no assunto.

Se eles estivessem rezando em suas igrejas, eu nada teria a dizer contra eles. 
Se estivessem com sua banquinha na Praça da Sé, também,
não seria problema, mas em frente ao hospital?
Pois bem, agora imagine que você é uma mulher que foi violentada, já sofreu um monte, talvez tenha mesmo se questionado sobre se deveria, ou não, por questões diversas, usar seu DIREITO LEGAL e interromper a gravidez.  Daí, você dá de cara com um grupo truculento, cuja líder foi a figura que tentou agredir fisicamente a filósofa Judith Butler em sua passagem por nosso país, que lhe aborda e tenta convencê-la a não exercer o seu direito.  Não se trata de aborto eletivo, isso não existe LEGALMENTE em nosso país, mas de um dos poucos direitos que uma mulher grávida contra a sua vontade tem no Brasil.  

Uma das mulheres chegou a ser agredida com um mata-leão por um desses ditos "pró-vida".  Resumindo, um homem quer impedir uma mulher de interromper a gravidez dentro da lei, porque é "a favor da vida", mas não tem nenhum problema em agredir essa mesma mulher grávida.  De repente, na lógica dele é se ela quer matar o feto, eu posso matá-la.  Vai saber, não é mesmo?  O caso rendeu um Boletim de Ocorrência.  

Lembram do filme Juno?  A roteirista diz que se arrependeu... 
Esse tipo de ação é muito comum nos Estados Unidos, com grupos "pró-vida" acampados diante das clínicas e assediando as mulheres e meninas que vão procurar os serviços.  Isso aparece no filme Juno, que faz, de certa forma, uma defesa descolada e persuasiva das ideias pró-vida, por assim dizer.  Há casos de agressão e já houve mesmo quem invadisse clínicas e matasse médicos e pacientes.  Normal por lá, mas não, aqui, porque, bem, não temos clínicas de aborto, porque ele é ILEGAL em nosso país.  Por isso mesmo, os 'pró-vida" foram para onde?  A pracinha em frente ao hospital Pérola Byington.  Curiosamente, o grupo de heroicos católicos se recusa a dividir a pracinha em frente ao hospital com um grupo que quer impedir sua truculência e chamou a polícia.  Há um relato abaixo sobre o atual estado das coisas:


Se você estiver em São Paulo, se puder, preste solidariedade às mulheres e meninas que precisam do atendimento do Pérola Byngton.  Mas já que estou aqui e não quero perder a viagem, deixo uma outra notícia relacionada á questão do aborto.  A novela Bom Sucesso da rede Globo, que tem sido muito elogiada e que, infelizmente, eu não assisto, decidiu discutir a questão do aborto.  Uma mulher rica tem uma gravidez indesejada e cogita abortar (*não dentro da lei*), porque sendo endinheirada, ela sabe que conseguiria fazer isso sem grandes problemas.  Pois bem, o Ministério Público acionou a emissora por apologia ao aborto.

Sim, discutir a questão, fazer crítica social, mesmo informar sobre métodos contraceptivos pode se tornar em nosso país "apologia ao aborto".  Antes, e eu observo essas discussões faz quase trinta anos, havia duas frentes distintas.  Os católicos normalmente se posicionavam contra  o aborto, inclusive, tentando retirar direitos já adquiridos em vários países, já os evangélicos, iam contra os LGBTQI+.  Faz pelo menos uma década, que os grupos juntaram suas agendas.  E tem dado certo.  Eles e elas chegaram ao poder e estão presentes em todas as esferas, executivo, legislativo e judiciário.  É uma guerra e ela começa pelos mais vulneráveis, as mulheres.  

Juntos somos mais fortes, divididos, somos presa fácil. 
E assistam Bacurau, por favor.
Então, se você chegou até aqui, peço que abra a entrevista da médica e que tente faze rum exercício de empatia se colocando no lugar das vítimas.  Ainda que eu seja a favor da descriminalização, meu texto não é sobre isso, é sobre princípios mínimos de civilidade e empatia, é sobre garantir direitos que estão dados e o acesso a eles por parte das vítimas.  Só isso.

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2 pessoas comentaram:

Muito bem colocado todos os pontos da matéria, como uma mulher quero poder decidir sobre o que fazer com o meu corpo, não encontro coisa mais triste que essas mulheres violadas e crianças posteriormente abandonada.

Eu não sou a favor do aborto indiscriminado mas entendo que, uma vez que nunca passei por um estupro, por uma gravidez indesejada ou por risco a vida por causa de uma gestação, não posso entender como uma mulher nessas condições se sente. A única forma de entender é ouvindo essas mulheres e sendo empática pela sua dor. Eu não tenho o direito de julgar. Uma das coisas que me deixa enojada com esses grupos "pró-vida" é que o tempo e os recursos que poderiam ser usados para apoiar mulheres que realmente decidiram levar adiante essas gravidezes e seus bebês é usado para oprimir quem não compartilha de suas ideias. Por isso, vejo que a vida é a última coisa que importa para essas pessoas. É tudo sobre poder. Porque, no fim, é muito mais fácil falar mal de quem aborta do que estender a mão para uma mãe solteira.

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