quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Comentando Downton Abbey, o filme (Reino Unido/EUA/2019): quando um Bom Roteiro faz toda a diferença


Não sei como conseguiram, mas raramente assisti um filme tão bem executado quanto o de Downton Abbey.  Fizeram uma temporada inteira de oito episódios em duas horas de filme e, o mais importante, todo o elenco, que não é pequeno teve o que fazer. Que roteiro! Quando terminou, eu tive o impeto de aplaudir.  Como ia ficar com vergonha, ou não, vai que o resto do público embarca, eu me contive, mas, sim, há todos os elementos ali para mais um filme, ainda que, e desculpem o spoiler logo de saída, que seja para acompanharmos a despedida da matriarca da família Crawley, a maravilhosa Maggie Smith.

O filme começa em 1927, quando chega a Downton Abbey uma carta dizendo que o rei George V (Simon Jones) e a Rainha Mary (Geraldine James) iriam honrar a família do Conde de Grantham (Hugh Bonneville).  A notícia coloca a casa em polvorosa e Lady Mary (Michelle Dockery) não acredita que o mordomo, Thomas Barrow (Robert James-Collier), está à altura da tarefa e manda convocar o aposentado Carson (Jim Carter), que exercera por muitos anos a função, para preparar a casa para a visita.  Tudo em vão, porque chega de Londres um mini-exército que inclui mordomo (David Haig), governanta (Richenda Carey), chef (Philippe Spall), para serviram aos soberanos.  Será que os criados de Downton aceitariam tal afronta.


Carson é chamado para salvar a honra de Downton.
Com a visita real, várias histórias se cruzam e o incrível foi perceber a capacidade de Julian Fellowes de condensar tudo isso em um filme de míseras duas horas.  E, bem, Fellowes foi perfeito, sem cometer alguns dos deslizes da série, que é ótima, mas tem alguns altos e baixos.  Para quem é fã, trata-se de Downton Abbey como nos acostumamos a ver na TV, que ninguém vá ao cinema esperando outra coisa, mas é a primeira vez que vi uma série televisiva tão bem traduzida para o cinema.

Downton Abbey foi lançado em 2010 e teve seis temporadas, mais os especiais de Natal, fechando em 2015.  Iniciando em 1913, logo depois do naufrágio do Titanic, ela acompanha a vida da família Crawley ao longo dos anos, com pequenos saltos temporais.  Assim, já temos quase vinte anos de história com uma construção geralmente muito cuidadosa das personagens.  A maioria dos que permaneceram durante boa parte da série evoluíram bastante e o objetivo geral de Downton Abbey e montar um painel da mudanças pelas quais a sociedade britânica passou nas primeiras décadas do século XX.  


Matthew Goode chega em tempo para o último baile.
O filme para o cinema vinha sendo planejado desde 2016, ainda que muitos fãs, como eu mesma, tenham chegado a duvidar que iria realmente acontecer.  É notável, também, no filme ver como algumas estrelas da série aceitaram retornar aos seus papéis para terem participações bem menores do que seria em uma temporada de TV.  Ainda assim, Fellowes tratou todos com muito carinho e ainda introduziu novas personagens.

Por exemplo, o bonitinho do Matthew Goode, agora marido de Lady Mary, tem pouquíssimos minutos em tela, mas as suas cenas são importantes para a história, porque mostram o quanto ele é importante na vida da esposa e a apoia, porque ela é o pilar da família.  Ele chega em tempo dos Estados Unidos para o baile e para confortar a esposa depois de todo o estresse que foi a tal visita real.


A Condessa Viúva quer que a prima faça
transforme seu filho em herdeiro de seus bens.
Uma das cenas mais importantes do filme, e que me trouxe lágrimas aos olhos, é o diálogo entre Maggie Smith e Michelle Dockery, no qual a matriarca a encarrega de dar continuidade para as tradições da família, porque ela era o futuro, ela deveria manter Downton e preparar a propriedade para as gerações futuras.  Por isso escrevi no primeiro parágrafo que, se houver um segundo filme, e há material para isso, será a despedida de Violet Crawley, a Condessa Viúva.

Como pontuei, são várias histórias que se cruzam, todas elas mantendo o sabor da série.  Umas envolvem os criados, que se unem liderados por Ana (Joanne Froggatt) para terem o direito de servir aos reis.  Outras, envolvem os patrões.  Edith (Laura Carmichael), agora bem casada e sempre com os figurinos mais bonitos desde a terceira temporada, está casada, ama o marido, Bertie (Harry Hadden-Paton), mas não se sente feliz.  Ao longo das várias temporadas de Downton Abbey, ela foi de patinho feio e futura solteirona a mulher independente, elegante e editora de uma revista.  Casar com um marquês, e ela é a dama com o título mais elevado da família, lhe tirou essa liberdade.  Será que em um próximo filme ela vai recuperar o seu lugar no mundo?


Edith tem o título mais elevado, é a mais rica da família, tem um
marido adorável, um figurino espetacular, mas não está tão feliz assim.
Tom Branson, e como fiquei feliz de ver Allen Leech fora do papel de vilão que lhe grudaram na testa nos filmes hollywoodianos (*o último foi Bohemian Rhapsody*), é o braço direito de Mary na administração da propriedade.  Sim, ele é parte da família, mas continua irlandês e republicano, apesar de não mais um revolucionário como na primeira e segunda temporada (*que bate com a Revolução Russa*).  Branson acaba sendo abordado por um sujeito (Stephen Campbell Moore), que só de olhar a gente sabe que é suspeito, que ele primeiro toma por policial, ou agente secreto, mas que, na verdade, era outra coisa muito diferente...  

Sim, há espaço para esse tipo de subtrama no filme, e Branson ainda descobre um novo amor na figura da dama de companhia de Lady Bagshaw (Imelda Staunton).  Lady Bagshaw é prima dos Crawley, viúva e sem filhos.  Violet quer que ela deixe a sua fortuna e propriedades para seu filho, porque seria o correto e não entende por qual motivo ela decidiu que a criada será sua herdeira.  Já a jovem Lucy Smith (Tuppence Middleton) é uma fofa e eu quero que ela e Branson fiquem juntos.  A cena deles dançando do lado de fora, enquanto os nobres dançavam no salão, foi linda, delicada e carregada de sensibilidade. ❤️


Essa cena foi linda.
Mas há um segredo em torno da moça e quem mata a charada e consegue conciliar todo mundo é Isobel (Penelope Wilton), agora, Lady Merton, a amiga que vive se bicando com a Condessa Viúva desde a primeira temporada.  Ela é mãe de Mathew (Dan Stevens), o primeiro marido de Lady Mary, mas não vou recontar o início da história.  No final das contas, Minerva McGonagall e Doores Umbridge fazem as pazes e se entendem, afinal, ainda que Violet ainda dê umas alfinetadas na prima.  😁

Branson também ajuda a acalmar o coração da Princesa Mary (Kate Phillips), que estava passando por sérios problemas conjugais com seu marido (Andrew Havill).  Há controvérsias sobre essa questão, se a princesa e seu marido muito mais velho tinham um casamento feliz, ou não, mas o fato é que a conversa casual entre os dois, funciona dentro do roteiro.  Branson não sabe que se trata da princesa e fala da importância de retirar o melhor da vida e cumprir o seu dever.  No caso da Princesa Mary, que eram bem popular entre os súditos, é permanecer casada pelo bem da monarquia. 


Não ficaram tão parecidos, eu diria.
Falando em representação dos monarcas, fisicamente não achei nem Simon Jones, nem Geraldine James, muito parecidos com o Rei George V e a Rainha Mary.  No caso da rainha, conhecida pelo seu autocontrole em público, sua rigidez, ela me pareceu humana e gentil demais,  Achei bem mais interessante a representação que deram a ela na primeira temporada de The Crown.  Por tudo o que sei, e não sei muito, era uma Rainha Mary mais próxima da real.  Andrew Havill, o marido da Princesa Mary, parecia saído das pinturas e fotos de época.

Como não assisti a quinta e a sexta temporada da série, perdi o compasso depois do nascimento da Júlia, não conhecia algumas personagens novas, como o jovem criado (footman) apaixonado por Daisy (Sophie McShera). O moço (Michael C. Fox) quase estraga a visita real por com ciúmes da moça com o encanador.  E o que surpreendeu foi descobrir o quanto Daisy, que da primeira para a quarta temporada tinha crescido bastante, se tornou uma mulher com personalidade forte.  Todo mundo empolgadíssimo com a visita real e ela expressando suas opiniões republicanas.  


No melhor da festa... 
E em um filme que discute a importância simbólica da monarquia e das tradições, a necessidade de mudança, o direito de discordar em uma democracia, o papel das mulheres em uma sociedade em transformação, ainda houve espaço para falar de homofobia.  Thomas Barrow, agora mordomo, é uma das personagens mais ricas e sinuosas da série.  Seu caráter sempre foi meio duvidoso, mas ele é fiel à família Crawley, ou, pelo menos, aprendeu a ser, depois de muitas viradas e rasteiras que o roteiro lhe deu.  Desde o primeiríssimo capítulo da série sabemos que ele é gay e, bem, no filme, ele consegue arranjar um namorado decente e quero, claro, que a história dele também tenha continuidade.


...chega a polícia.
A discussão sobre homofobia se dá exatamente quando Barrow, que acabou se dando folga em protesto quando Mr. Carson foi chamado para seu lugar, estava em um bar na cidade de York esperando Richard Ellis (Max Brown), um dos valetes do rei (*não vou explicar a armação dos criados para conseguirem descartar o staff que veio do palácio de Buckingham, veja o filme!😉*).  Como o rapaz demora, ele acaba sendo assediado por um desconhecido.  Sabe o gaydar afiado que era necessário para garantir a própria sobrevivência?  Pois é.  O sujeito leva Barrow para um bar gay subterrâneo e, claro, totalmente ilegal.  A lei inglesa da época previa prisão (*não sei se já castração química*) em caso de homossexualidade masculina. Lembram do filme O Jogo da Imitação?  Vale assistir, também.


Mr. Ellis quer ser mais que um amigo.
Ellis tinham se atrasado e vê quando a polícia dá uma batida no estabelecimento e leva todo mundo preso.  Até cheguei a pensar que ele tinha feito a denúncia, mas o jovem vai ao resgate de Barrow e dá uma carteirada na delegacia (*ele é valete do rei, Barrow é mordomo de um conde*).  Em seguida, ele acolhe o sujeito e lhe dá uns conselhos sobre como guardar segredo, se proteger e, ainda assim, conseguir afeto de verdade, não migalhas.  E ainda temos uma conversa que lembrou muito a de Luccino e Otávio em Orgulho e Paixão sobre o mesmo tema.  Como será o mundo em 50 anos?  Será que ainda será necessário se esconder?  Foi uma das melhores partes do filme e uma das mais inesperadas.

Olha e tudo se encaixou tão bem nesse roteiro!  Nunca conseguiria imaginar que Julian Fellowes iria conseguir criar tramas para todos os personagens, retomar eventos passado sem exigir que a audiência do filme fosse especialista na série, e contar uma história única.  Fiquei encantada com a execução da coisa toda e, claro, em reencontrar personagens queridas.  Ele deixou vários ganchos para um próximo filme sem, contudo, deixar as coisas em aberto.  Se rolar, rolou.  


Cora (Elizabeth McGovern) e o marido ficam
empolgadíssimos com a visita real. 
Ela é americana e
acredita que pode ser um pouco "vulgar" ao expressar sua emoção.
O filme, claro, cumpre a Bechdel Rule, com personagens femininas para quase todos os gostos, com nomes, conversando entre si e tudo mais.   Downton Abbey não é um filme feminista, mas é uma crônica sobre as mudanças dos tempos e dos costumes, como todo mundo tinha que ser contemplado (*e foi*), não daria muito tempo para discutir a questão de Edith para além do que foi feito.  É através dela, em especial, que as questões feministas eram abordadas na série depois da morte da filha mais nova do Conde, Sybil (Jessica Brown Findlay), esposa de Branson (*que no começo da série era o chofer da família*).


A sequência mais emocionante do filme.  Maggie Smith
é magnífica e Michelle Dockery é extremamente talentosa, também.
É isso, não quero estender os spoilers, fiquei realmente feliz e satisfeita com o filme, com a execução de um produto que eu achava que iria sair bem mais ou menos.  O filme merece todo o sucesso e elogios que vem recebendo.  Preciso assistir as temporadas que não vi, talvez voltar para a temporada quatro e fazer a resenha.  Enfim, Downton Abbey é uma série muito querida e sou grata a minha amiga Natania por ter insistido tanto pare que eu assistisse.  Eu sou chata quando insistem comigo para ler, ou assistir alguma coisa, mas valeu a pena.  Se vocês quiserem ler minhas resenhas das três primeiras temporadas, eá só clicar nos links (*1-2-3*).


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1 pessoas comentaram:

Você acha possível para alguém que nunca assistiu a um episódio sequer da série assistir a esse filme e ter uma experiência válida ou sem a série o filme não faz sentido algum?

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