sábado, 30 de maio de 2020

Faz sentido acusar de "Grooming" Inuyasha e outros mangás?


Ontem, detonou-se uma discussão no grupo do Shoujo Café no Facebook por conta de umas ilustrações vindas de outro grupo defendendo o suposto casal Sesshomaru e Rin de acusações de grooming (*e achei coisa de 2015 falando disso*).  Sesshomaru, como a maioria das criaturas com poderes sobrenaturais, é virtualmente imortal, ainda que pareça ser um jovem adulto. Rin era a criança que ele protegeu e cuidou.  Estaria preparando a menina para ser sua noiva?  Há quem torça por isso.  Há quem seja contra (*e ainda chame Inuyasha de shoujo*).  Você não entendeu nada?  Vamos lá!  

Para quem não sabe, Inuyasha (犬夜叉) terá um spin-off supervisionado pela autora, Rumiko Takahashi, e protagonizado pela filha de Inuyasha e Kagome e as filhas de Sesshomaru.  Ninguém, que eu saiba, revelou quem é a mãe das filhas dele, mas todos apostam em Rin.  Para quem não se lembra, Rin era uma garotinha órfã que se tornou companheira de viagem do daiyoukai, depois de ter tentado ajudá-lo e posteriormente ter sido ressuscitada por ele.  A criança, no final da história, foi entregue à guarda da velha sacerdotisa Kaede.  O mangá de Inuyasha terminou em 2008 e o anime, em 2010.  Faz muito tempo, mas a série continua popular e é obra de Rumiko Takahashi, uma das mangá-kas mais importantes do Japão por quase quarenta anos.  

O grooming real, alertam os especialistas, acontece normalmente pela internet.
E o que é "grooming"?  Conhecia a palavra em inglês na sua acepção original, isto é, preparar, enfeitar, arrumar um animal, um cavalo, por exemplo, não sabia de outro significado, muito mais comum hoje, que é "aliciar uma criança com o intuito de se buscar benefícios sexuais".  O termo é usado principalmente para crimes cometidos via internet, como o sujeito que se aproxima de uma criança em um game, ganha sua confiança e consegue algum favor, desde o envio de material que podem ter cunho sexual (*fotos, filmagens, conversas*), até algum contato físico, o objetivo final talvez seja a captura dessa criança para o tráfico de pessoas e exploração sexual. Há um verbete sobre isso na Wikipedia.  

Como algumas pessoas vieram pontuar que o texto estava incompleto, ainda que eu tenha certeza de que a ideia está nele, o uso de grooming tem sido estendido aos sujeitos (*sim, homens em sua maioria*), que ganham a confiança de uma menina, uma adolescente, e, para não ter problemas, esperam que ela se torne maior de idade, ou esteja acima da idade de consentimento, que varia de país para país, nos EUA de estado para estado, para ter qualquer coisa com ela.  Sim, é coisa de americano, porque no Brasil, o quarto no mundo em casamentos infantis, ninguém espera coisa alguma, porque dificilmente alguém irá preso por isso.  Mas estou falando de vida real, Inuyasha e os mangás em geral são ficção.

"Não é só o Sesshomaru!  Olha, o Inuyasha, também!"  Me poupem!
Enfim, quando descobri o significado, fiquei enojada, não por Inuyasha, porque não vejo esse tipo de coisa lá, mas por existirem pessoas tão insanas, tão histéricas em proteger a pureza das crianças e denunciar atitudes criminosas mesmo contra personagens ficcionais, que começam a imaginar esse tipo de coisa.  Outro aspecto complicado que veio à tona, e vocês podem observar pelas imagens do post, foi gente que para tentar "defender" Sesshomaru, acusou de hipocrisia quem gosta de mangás shoujo com criaturas sobrenaturais que se relacionam com mortais muito mais jovens.  Citaram Kamisama Hajimemashita (神様はじめました) e outros.  

Ridículo e triste, eu sei, e uma moça perguntou com humor no tópico, se as pessoas não sabiam que eles não são personagens de verdade.  Eu diria que, sim, ela está certa, mas, ao mesmo tempo, existem materiais que apresentam grooming, sim.   O tema pode e deve ser discutido e, não, estou nem de longe defender censura, mas a necessidade de se analisar criticamente aquilo que consumimos, ou que está no mercado.


Querem ver grooming?  Peguem esse aqui.
Vários anos atrás, escrevi um texto, um dos mais importantes do blog, acredito, mesmo que talvez tenha revisto algumas ideias, chamado Sua Boca diz "Não", mas seu corpo diz "Sim"!.  Neste texto , comentei um mangá no qual efetivamente existe grooming, Toriko ~Aigan Shoujo~ (囚 愛玩少女), de Osakabe Mashin, que saiu na revista Cheese!.  Segue o trecho em que falo do mangá: "(...) cara rico compra uma menininha para transformá-la em sua escrava sexual. Na história que se passa nos dias de hoje, ela é adotada, mimada, e tal. Quando tem uns dez, onze anos, pergunta ao seu “pai” o que ela representa para ele... A resposta do cara é o estupro da criança, que certamente nutre sentimentos pelo sujeito... Logo, ela queria.  Quando a menina tem a primeira menstruação o sujeito a trata de forma pior ainda, porque está sendo privado do seu prazer. Passa a lhe dar remédios... Ele é o herói, tá? Na história que se passa no século XIX, Toriko, o cara rico compra a menina, desde o início sabemos para quê. Ele a tortura com o objetivo de educá-la, por fim, a violenta... Há outros detalhes na história, mas a essência é essa. Só que como o cara é um bishounen liiiindo de morrer, então está tudo certo.".  Isso é grooming dentro de um mangá shoujo publicado em uma revista mainstream.  Exemplo redondinho e dentro de um ambiente pseudo-realista.  .  

Agora, faz sentido você acusar de grooming um mangá ou série com uma personagem imortal, ou de grande longevidade?  Eu acredito que não.  Aliás, muitas grandes histórias de amor se sustentam nesse drama do imortal que se apaixona por um humano e tem que presenciar a morte do ser amado, seja de forma trágica, ou pelo envelhecimento.  Exatamente por não ter uma vida limitada como a humana, de terem poderes mágicos,  estarem amaldiçoados, ou o que valha, é que essas criaturas são fascinantes.  A literatura fantástica, histórias de vampiro, contos com youkai, mesmo os contos de fada, está cheio desses seres que acabam criando laços com seres humanos para o bem, ou para o mal.  Há o caso em que a criatura mágica conhece a criança (*normalmente, uma menina, é fato*) e, mais tarde, a reencontra, e eles descobrem que se amam, ou algo que valha, mas seria adequado enquadrar esse tipo de história dentro dessa caixinha do grooming, que é crime, perversão abuso?  

Ao invés de esquecerem essa história de grooming,
vamos brigar com os coleguinhas pelo direito
de defendermos o que achamos que é perversão.
Sesshomaru, se acabou se relacionando com Rin, o fez com a moça adulta, ou a adolescente mais velha, não com a criança.  Percebem a diferença?  Quando ele a acolheu, não o fez com o intuito de abusar sexualmente da criança, tampouco para educá-la para ser sua esposa.  Que sentido faz alimentar esse tipo de discussão que só aponta para a forma doentia como nos relacionamos com o sexo, o desejo, o prazer.  Crianças podem se apaixonar e isso não é coisa que tenha se descoberto agora, cabe ao adulto comportar-se de forma responsável, isto é, não tomando liberdades com alguém que não tem discernimento para saber exatamente o que sente, como sente e quais atitudes deve tomar, nem manipulando os sentimentos de crianças e adolescentes.  

Por exemplo, Rika se apaixonar pelo Prof. Terada em Card Captor Sakura (カードキャプターさくら) é aceitável, ele estimular o amor da menina, dizer que vai esperar por ela, é errado (*e, não, ela não é prometida a ele como alguém veio me dizer, não há nada disso no mangá*).  Chamaria de grooming?  Não sei, acho o termo muito sórdido para sair usando de forma leviana.  O fato é que o professor não se comporta de forma adequada e ainda que seja um amor puro, ele alimenta esperanças e expectativas na menina, manipulando-a.  No entanto, não há qualquer insinuação sexual.  Nenhuma.


"Ela é madura para a idade!"  Não!  Ele é um adulto
irresponsável se aproveitando da imaturidade de uma menina.
Enfim, fãs de mangá, que tal pararem de acreditar que precisam justificar o caso de Sesshomaru com Rin, porque, bem, são personagens queridas e Rumiko Takahashi não costuma exagerar em questões de cunho amoroso, ou sexual, e parem de se acusar entre si, porque é feio.  Curtam seus mangás e seus animes em paz.  Mas, antes de ir embora, preciso lembrar para alguns inocentes, ou ignorantes, ou desavisados, ou preguiçosos, ou o que seja, que Inuyasha é shounen, não é porque a autora é mulher que vira shoujo, não é porque tem romance, que é shoujo.  

Inuyasha foi publicado na revista Shounen Sunday, uma das mais tradicionais da demografia e Takahashi é uma das autoras de mangás para garotos mais importantes de todos os tempos.  E não importa, neste caso, que você ache que é outra coisa, isso não muda nada, e nem lhe tira o prazer de ler a obra, ou assistir ao anime.

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7 pessoas comentaram:

Sério, obrigada por este post. Ainda outro dia tive essa discussão no meu grupo de amigos otakus, mas ainda pior o povo tava doido já jogando Inuyasha na pedofilia, sim eu sei meio louco chegar nessa digressão a partir da simples hipótese das filhas do Sesshoumaru serem da Rin. Fiquei mais aliviada em ver que tem mais gente que fica indignada por essa discussão que nem faz sentido pra um personagem ficcional, até dentro de uma ficção (afinal yokais nem existem e mesmo no mundo em que existem sempre são descritos como viventes de um tempo diferente do humano), não desmerecendo o tema mas sim tentando encaixá-lo na situação certa.

É impressão minha ou esse povo vê sexo em tudo? É doido pensar que alguém viu esse anime e não entendeu o basico: Inuyasha é um youkai adolescente que se apaixonou por uma garota adolescente. Sesshoumaru é um youkai adulto que salvou uma criança por quem sentiu compaixão e cuidou dela. Não tem relação sexual em InuYasha, até mesmo a relação com Kagome só fica seria após o final, depois que ela se forma no ensino médio e decide ir viver definitivamente com ele. O resto é fanfic! Fico pensado: ou os puritanos que reclamam não assistiram a história ou são pervertidos enrustidos.

Amoooo InuYasha... é meu mangá/anime preferido da minha vida. Obg pelo texto maravilhoso.

Eu adorava Sakura Card Captor quando criança, e comprava aquele mangá fininho da JBC. Me lembro da Rika ficar noiva do professor. Não tenho acesso aos mangá nacional aqui, mas procurei scans na internet e acontece no capítulo 9, página 26. Achei scans em dois sites na internet, em inglês, com traduções um pouco diferentes. No primeira ele dá um anel de casamento para uma pessoa especial.
http://www.mangareader.net/card-captor-sakura/9/26
No outro ele dá um anel e fala que é um anel de noivado, para ela cuidar dele até que se torne um anel de casamento. Este cita a tradução como da Dark Horse.

Nenhuma das traduções muda o fato que ela tem uns 10 anos. E que é uma relação muito romantizada durante o mangá.

(Vou assumir que as traduções são fieis aos acontecimentos, e não um hoax. Se não forem, bem, faço papel de bobo perante todos aqui)

Não acompanhei Inuyasha até o fim. E, pelo que entendi, tudo se encaixa no reino da suposição. Mas me deixaria bem incomodado se o Sesshomaru e a Rin tiverem filhos. Talvez não se ele não acompanhar a vida dela - se realmente a largou e depois a reencontrou por acaso. Mas se já havia uma paixão me parece problemático.

É algo comum em mangás e animes que relacionamentos entre criaturas que são fisicamente crianças e adultos sejam mascarados pelo fato que a criança é imortal ou muito velha (Sakura Card Captor mesmo tem disso). Seria isso pedofilia? Um pouco diferente, creio eu, de obras onde pessoas se conhecem quando uma é adulta mas não há nenhum relacionamento além de amizade, e se reencontram depois e se apaixonam. O que é diferente de histórias onde há uma paixão do adulto pela criança. E também difere de histórias onde há claramente uma relação pai/mãe e filho/filha que se desenvolve depois em um relacionamento romântico (e no qual além da discussão sobre grooming entraria também discussões sobre incesto).

Me parece que Inuyasha pode ser o segundo caso, o terceiro, ou até o último.

Eu entendo a defesa de que são obras de ficção e personagens fictícios. Mas esta é uma defesa que não tem fim, e pode ser usada para justificar praticamente qualquer coisa. Ele ser imortal não muda em nada o fato que ela é uma criança (não conheço nenhuma história de vampiro onde um dos pares românticos seja uma criança além de Entrevista com o Vampiro, não duvido que existam muitas mas não me parece ser o padrão). Não falo sobre censurar a obra, mas que me parece que a reflexão sobre um adulto talvez se apaixonar por uma criança me parece bem interessante e relevante. E ele ser imortal não me parece afetar em nada o centro da situação - que ela é uma criança e ele um adulto e que talvez haja um "relacionamento romântico" entre ambos.

Heider, obrigada pelo comentário.

Enfim, sua preocupação sobre pedofilia só se aplicaria, a meu ver, se o adulto se apaixonasse pela criança e forçasse o relacionamento afetivo-sexual com ela, ou, deliberadamente, a fizesse educar para ser a/o companheiro/a perfeito (*grooming*) quando adulto, ou ao atingir a puberdade. Nada disso costuma se aplicar aos mangás mainstream com criaturas sobrenaturais, caso de Inuyasha. É preciso separar as coisas. Fora isso, os protagonistas de mangá e anime costumam, na média, ter a idade de seus consumidores prioritários, isto é, adolescentes. Inuyasha, o protagonista, tem sabe-se lá quantos anos, mas é um adolescente na aparência e nos seus comportamentos. É uma forma de dialogar com os leitores.

Normalmente, a pedofilia, o grooming, ou o que seja, está em outro tipo de mangá, até em alguns nos quais a gente não queria que estivesse e cito mangás para o público feminino mesmo, Usagi Drop e Honey & Clover.

Usagi Drop foi o primeiro mangá que tive contato com "grooming". Assisti o anime. Adorei. Fui ler o mangá e... argh. Mas na verdade não conhecia o termo até ler seu texto.

A questão da pedofilia eu vejo mais em animes shonen. Personagens sexualizadas com aparência infantil mas que são criaturas sobrenaturais. E que vem a ter um relacionamento afetivo-sexual com outro personagem. Sakura Card Captors mesmo tem este tipo de relacionamento entre alguns personagens, mas é mais implícito e não há sexualização.

Eu concordo totalmente com o Inuyasha ser representado como adolescente e o relacionamento dele com a Kagome ser entre dois adolescentes. É curioso que na minha mente o relacionamento dele com a Kikyō é bem mais adulto. Talvez seja besteira minha, mas parece haver esta separação. Em muitas obras temos personagens adultos que passaram por relacionamentos que se degastaram reencontrando a felicidade em novos relacionamentos que são mais bobos e adolescentes (assisti uma série da Netflix recente que tem isso, curiosamente chamada Valeria ^^), então talvez seja algo similar. De qq forma não vejo nada de pedófilo entre Inuyasha e Kagome porque ambos são representandos adolescentes.

No caso do Seishomaru ele pra mim é representado como adulto, e a Rin como criança. Pelo que entendi é cedo pra dizer sequer que ele e a Rin tiveram um relacionamento afetivo-sexual, mas se forem os pais da criança eu consideraria que também é cedo dizer que não houve grooming. É fácil pra mim imaginar eles mostrando ela indo no portal durante toda a infância e adolescência. Ou promessas de amor feitas por ele para ela. Assim como é fácil imaginar eles só se reencontrando depois de um tempo. Há muitas possibilidades até a nova série sair, e eu não descartaria nada. Embora reclamar de um "problema" que não aconteceu ainda não seja algo muito sensato da minha parte.

Novamente reitero que eu sequer assisti Inuyasha completo. E tudo é muito baseado nas minhas (incompletas) impressões. Espero pelo melhor. Não gosto das enrolações da Rumiko Takahashi, mas ela é super competente e cria personagens muito interessantes.

Eu acompanho seu blog há muitos anos, e adoro tudo sobre ele. Mesmo quando não concordo com uma ou outra argumentação sempre levo suas opiniões em conta. Provavelmente não acompanharei a série nova de Inuyasha, mas com certeza vou acompanhar seus comentários sobre ela com interesse se você decidir lê-la e comentá-la. Estou aproveitando que não comento muito para deixar um obrigado pela resposta e pelo conteúdo, no geral ^^

No meu ponto de vista é Grooming sim, independentemente do Sessh ter longevidade e ser uma criatura mística etc. É só parar e analisar o ponto de vista da Rin, uma criança, diante de um youkai de porte adulto. Se ao menos o Sessh tivesse um porte infantil eu não ia me incomodar tanto. E agora do ponto de vista do Sesshoumaru: ele cuida de uma criança humana que não tem noção nenhuma da vida... transformar a relação deles em algo romântico é no mínimo predatório. E esse é o maior problema com a cultura japonesa... romantizar essas histórias de homem mais velho esperando a criança crescer pra pegar ela sabe! Nojento e problemático.

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