sexta-feira, 15 de maio de 2020

Precisamos falar da dublagem de Gekkan Shoujo Nozaki-kun


Gekkan Shoujo Nozaki-kun (月刊少女野崎くん) estreou na Netflix em maio.  Escrevi sobre isso dias atrás.  Gosto muito da série, coleciono o mangá na edição da Yen Press, queria uma continuação do anime, enfim, não vou repetir esses papos todos de novo.  Coloquei Júlia para assistir.  Ainda que alguns temas da série escapem ao entendimento de uma criança de seis anos, na média, Nozaki-kun é compreensível, as piadas são acessíveis e há muito pouco que poderia tornar a série não-recomendável para menores de 10 ou 12 anos.  

Júlia viu vários episódios ontem e gargalhava sem parar, especialmente, com o Mikurin e com a Seo.  Como ela não tem velocidade com as legendas, afinal, tem seis anos de idade, estamos vendo dublado.  Quem frequenta o Shoujo Café sabe que eu já escrevi diversas vezes que ter o áudio  nacional deveria ser obrigatório para qualquer produto, mas que a dublagem brasileira atual é ruim.  E, quando eu falo atual, estou me referindo aos últimos 15 anos pelo menos e sei que a situação de muitos estúdios de dublagem é precária e os salários são baixos e por aí vai.  No entanto, o que me irrita muito é que muitos dubladores entregam sempre as mesmas interpretações a tal ponto de eu não saber qual desenho animado a Júlia está assistindo.  


Orlando Drummond, maravilhoso.
O dublador é um ator e ainda que eu reconheça a voz do sujeito, ou da sujeita, são personagens diferentes.  Tem que mudar a entonação e outras coisas que fazem parte do processo de interpretação.  Eu tenho a antiga Coleção Disquinho e é muito divertido reconhecer a voz do grande Orlando Drummond no príncipe da Rapunzel.  Só que ele não interpreta o príncipe como o  Scooby-Doo ou o Vingador ou o Popeye. Outros tempos.  Mas como mãe de uma criança pequena e sendo obrigada a ir ao cinema ver filme dublado, inclusive, estou me tornando cada vez mais insensível e essa tortura.  O grande problema de Nozaki-kun é outro.

Em Nozaki-kun, e não sei quem fez essas escolhas, estão colocando no anime palavras e expressões que são típicas de certos nichos da internet, coisa muito restrita.  Talvez, estejam tentando imitar a dublagem icônica de YuYuHakusho  (幽☆遊☆白書), que se destacou, também, na sua trilha sonora, que incorporava expressões que estavam na TV, nas ruas, na boca do povo, enfim.  Algumas caducaram, mas a maioria continua em uso e o anime é compreensível para qualquer um.


Sem querer criticar a dublagem de Yu☆Yu☆Hakusho, afinal, a citei como exemplo positivo, uma dublagem tem que optar por gírias que sejam mais duradouras, além de compreensíveis para a maioria.  Nem tudo é incorporado à língua, ela é mutável, o que pode ser comum em 2010, pode ter desaparecido da memória da maioria cinco anos depois.  Por exemplo, em um programa de TV brasileiro dos anos 1970, talvez uma moça bonita fosse chamada de "cocota".  Quem usa essa gíria hoje?  Mas "gatinha" continua sendo compreensível para a maioria de nós.

Vamos lá, Nozaki, que dá nome à série de TV, é um rapaz que desenha shoujo mangá sob pseudônimo, ele faz muito sucesso, mas quando o conhecemos melhor ficamos perplexos com suas limitações.  Ele é aquele típico personagem de mangá e anime que a gente chama de "clueless", as coisas acontecem e ele parece alheio, ou insensível, a elas.  Como no capítulo do Dia dos Namorados que eu comentei aqui.  Ele ofende suas colegas de turma sem nem perceber que está fazendo isso, simplesmente, porque ele vive no seu mundo próprio.  É como no primeiro capítulo, quando ele pensa que Sakura está lhe pedindo um autógrafo e, na verdade, ela está se declarando.  Ele não é mau, não é intenção dele, ele é avoado mesmo e um tanto egoísta, também.


O elenco principal no anime.
Mas eis que logo no primeiro capítulo do anime, ele faz uma observação para uma colega de turma sobre o sutiã dela ser colorido e estar à mostra.  Algo na linha, "Tenha cuidado!  Todo mundo está vendo!".  Não é uma repreensão, dentro do padrão Nozaki, é um ato de gentileza.  Como a coisa é do nada, a garota reage, claro.  Na dublagem brasileira ela o chama de "hetero top".  Sim.  É disso que ela chama o Nozaki.  Ela poderia chamá-lo de "grosso", "insensível", dizer "Meta-se com sua vida", mas ela o chama de "hetero top".  Você conhece essa gíria?  As pessoas usam na rua?  Mesmo nas produções televisivas brasileiras atuais ela é usada?  Quanto tempo essa expressão irá durar?  Se eu pegar esse anime daqui dez anos, vou entender essa gíria tão restrita?  Eu tive que explicar para a Júlia o que eu, Valéria, acho que significa, porque eu acredito que até o uso da gíria estava errado.

Mais adiante, no episódio #3, Sakura apresenta sua amiga Seo para Nozaki.  A protagonista, porque é Sakura a personagem mais importante da história, acha que ela pode servir de modelo para uma personagem no mangá de Nozaki.  Seo é outro tipo de personagem insensível, ela se aproveita da pessoas, debocha delas e é super competitiva.  Pois bem, em uma das cenas, Seo está fugindo de dois professores, não se explica o motivo, mas, como a personagem diz em outra cena, os professores vivem atrás dela.  Claro!  Ela sempre chega atrasada, está com o uniforme fora do padrão e arrumando confusão com outros colegas, enfim.


Seo, a melhor amiga de Sakura.
Seo é mais rápida e, na correria, os chama de ESQUERDOMACHOS.  Sim, e está confirmado que a pessoa responsável pela dublagem não tem nem bom senso, nem sabe o significado das gírias "descoladas" que está colocando na dublagem nacional.  Eu fui até o mangá, ela não fala nada.  No anime, com legendas em inglês, ela diz algo na linha "Como se eu fosse deixar eles me pegarem!".  Em português ficou algo como "Me deixem em paz, seus esquerdomachos!".

Tive que explicar para a Júlia que essa palavra não fazia sentido na cena, mas que eu achava que ela deveria ter falado "seus chatos", ou algo assim.  Meu marido, da porta, perguntou o que, afinal, era um "esquerdomacho"?  Enfim, trata-se de uma gíria feminista super restrita de internet que é usada para denominar aqueles homens que se dizem de esquerda, desconstruídos, progressistas, mas que são tão machistas quanto os homens ditos de direita, ou conservadores.  Na verdade, eles são piores, porque eles se metem no meio dos nosso s grupos e reuniões para dar palpite, ou tentar tomar o poder, ou, ainda, arrumar alguma moça mais vulnerável para seduzir.


Nozaki e Sakura devem se entender em algum momento.
Pergunto, por qual motivo essa palavra seria usada pela Seo?  Não há contexto para isso e a personagem não é feminista, aliás, nada de questões feministas são explicitamente tratadas em Nozaki-kun.  Resumo, quem usou achou a palavra interessante, mas não tem noção do que significa e decidiu usar.  "Esquerdomacho" é ininteligível para a maioria das pessoas, mesmo feministas que não são tão ligadas nesses nichos da internet não a conhecem.  

Faltou alguém de bom senso supervisionando a dublagem de Nozaki-kun, porque está, sim, ruim, e de uma forma que eu nunca imaginei que pudesse ser.  Não será lembrada como divertida ou ousada como a de Yu☆Yu☆Hakusho e ainda prejudica a compreensão das pessoas, porque se utiliza de termos que não tem sentido algum dentro da história.  Aguardo nos próximos capítulos que alguém xingue alguém de bolsominion, ou coisa do gênero.  Saudades de quando o Brasil podia, sim, ser lembrado por ter uma dublagem de qualidade.

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5 pessoas comentaram:

Apresentei esse anime pro meu marido e estamos vendo juntos só que não imaginei que a dublagem ta nesse nível ridículo, não conhecia as girias. Ainda bem que as legendas estão normais.

Esse compilado das gírias de YUU YUU HAKUSHO ficou genial e sem dúvida, por uma ou outra, é uma dublagem sensacional na minha opinião. Percebo que muitas delas são faladas hoje em dia ou é de conhecimento popular, mas gente... que m* aconteceu com Nozaki-kun?? Eu tô chocada Valéria!

Não conheço nem o mangá, nem o anime (que está na fila pra ver), mas essa dublagem perdeu o caminho! Que ridículo usar esses termos na série!! Sem sentindo e sem contexto algum segundo o seu depoimento. É preciso ter coragem porque noção passou longe! Cadê a pesquisa? Cadê a contextualização? Botar gírias de nicho de Internet num trabalho cujo público-alvo é bem maior é um desrespeito.

Eu confesso que detestava (e ainda torço o nariz) para aquelas dublagens que enfiavam referências paulistanas (Chaves está cheio), como "mano" e "trampo". A dublagem precisa se fazer inteligível para o maior público que puder e esses bairrismos e nichos só f*dem e limitam o trabalho.

Mencionei Chaves não porque usem os termos que citei, mas faz referências à emissora que o transmite até hoje, times paulistas e outras gírias.

Fui na Netflix porque tinha que ouvir pessoalmente.

Não há legenda em japonês na plataforma para esse anime, mas aqui está a transcrição do que é dito no episódio 1:
「おい! 下着透けてるから上着着たほうがいいぞ」
「はー?! なんでそうはっきり言うの? 本当デリカシーないわね」

Traduzindo:
- Ei! É melhor colocar uma blusa (um casaco) porque dá para ver seu sutiã (roupa de baixo).
- Hã?! Por que você está falando de forma tão direta (clara) assim? Você realmente não tem tato (delicadeza) com os outros, não é?

Essa é a tradução mais próxima do original. Eu adaptei para ficar mais natural em português e coloquei em parênteses a tradução literal das palavras ditas. Claro, é possível fazer mil e uma outras versões pro diálogo soar melhor, mas não há absolutamente nada sobre parecer um "hétero top" nem qualquer coisa que lembre nem remotamente isso no original. Agora, olhei a legenda em português e achei que ficou muito boa. Lá está "Ei, dá para ver seu sutiã, é melhor colocar uma blusa." e "O quê? Como consegue dizer isso desse jeito? Sua delicadeza é zero!".

Já na cena do episódio 2 a menina só diz:

「いや、来ないで!」

Iya é expressão de desgosto, descontentamento. Poderiam colocar um simples "Não", mas optaram por colocar um grito (o que acho que fica até melhor) e "konaide" é literalmente "não venham". Então:

- Ai não, não se aproximem!

já resolveria. Mais uma vez, nada que tenha a ver com o conceito de "esquerdomacho" (e por que ela chamaria os caras disso se não há absolutamente nenhuma conotação política ali?). Mais uma vez, a legenda está muito boa. Colocaram "Não! Fiquem longe!".

Como você bem apontou, essas duas expressões colocadas são de nicho. Talvez, forçando um pouco, até fosse aceitável se no original tivesse alguma referência cultural que lembrasse esses conceitos e aí seria necessário uma adaptação (embora haja quem opte pelo apagamento). Emfim, escolhas. Mas eu realmente acho que não ficou bom isso, não. Se está neutro no original, mantenha a neutralidade na tradução também.

Sou muito fã da dublagem brasileira, sempre gosto de assistir uma coisa legendada e dublada e realmente, saudades do tempo que o Brasil tinha uma boa dublagem, que permitia que os produtos internacionais fizessem aqui tanto sucesso quanto faziam em seus países de origem ou até mais. Do tempo em que tanto assistir legendado como dublado era um prazer e você podia até comparar a qualidade dos dois e muitas vezes o dublado superava o próprio original. Antigamente ou se dublava no Rio de Janeiro, na extinta Herbert Richers (Versão Brasileira Herbert Richers, como era gostoso ouvir isso na Tv), ou se dublava em São Paulo. Agora com a modernidade, pessoas podem criar estúdios para dublarem coisas, sem terem a técnica da dublagem. No interior de São Paulo está cheio deles e tem também em Miami, onde o único critério pra se dublar é saber falar português brasileiro. Esses estúdios cobram muito mais barato do que os estúdios onde trabalham OS DUBLADORES DE VERDADE, seja em São Paulo ou no Rio. E para piorar ainda tem os ''Star Talents'', que são celebridades contratadas para dublarem o filme e assim aumentarem o markentig dele. Dublagem não é só substituir o idioma original pelo português. Tem o tradutor/adaptador que traduz o texto original e se encontrar gírias ou expressões, substitui por gírias e expressões brasileiras que sejam parecidas em sentido com aquelas, o dublador que utiliza suas habilidades de ator (porque todo dublador precisa ser ator, não adianta colocar uma celebridade que não tem habilidades de ator para dublar um negócio que não vai dar certo) para entender o personagem e tornar aquilo o mais realista possível, sem estragar a interpretação do ator, e do diretor que serve para coordenar o negócio. Eles precisam estar em sintonia até para perceberem quando um erra e corrigir o erro antes que ele possa estragar o produto. Isso com certeza foi dublado em algum estúdio do interior de São Paulo ou em Miami, aí eles não tem noção mesmo

Ps: Só um exemplo: Miriam Fischer, uma das maiores dubladoras do país, contou uma vez que quando dirigia o desenho da Liga da Justiça, que tinha a Mulher-Gavião, ela teve uma discussão com o tradutor porque ele queria a todo custo, forçar o Batman a dizer: ''Não é brinquedo, não''. Na época o Brasil viva o frenesi da novela O Clone e ele queria brincar com isso, mas ela barrou porque do ponto de vista dela, primeiro, uma personagem como Batman falar uma coisa dessa não convenceria ninguém e segundo, naquele momento a novela era um fenômeno mas iria passar e na década seguinte quando uma pessoa mais jovem fosse assistir o desenho, não iria pegar a referência e ia achar estranho. No fim das contas, o tradutor não conseguiu seu intento, felizmente. Saudades desse cuidado ao parece, acabou

Acredito que as direções de dublagem - e até alguns dubladores mais ligados ao mundo da Internet ficam tão desesperados para atrair um público jovem que cometem essas gafes horríveis que forçaram uma nova dublagem se o desenho for passar daqui há uns 6, 7 anos. É muito triste! Não existe compromisso real com o roteiro original nem com o contexto, só a vontade de hitar entre aqueles que consomem o conteúdo como se fosse descartável. Eu esperei ansiosamente para ver Dragon Ball Super dublado, e, apesar de usar a maior parte do elenco original da Alamo/DPN a quantidade de gírias da internet, referências a games do momento, referências a memes nacionais (!) é tão louca que às vezes é IMPOSSÍVEL saber o que aquela cena quer te dizer. Além de DBS ser cheio de furos, animação ruim e forçação de barra, a dublagem nacional levou qualquer intenção de seriedade para o espaço. Eu assisto o original (as três dublagens), o Z e o GT e me sinto nostálgica. Mas não consigo ouvir o Vegeta comparando as lutas com o FORTNITE, a Chichi dizendo "miga, sua louca" e gírias, português extremamente coloquial em todos os personagens e piadas com meme. É tão ridículo que não durará 5 anos sem incomodar os ouvidos da geral - os meus já explodiram.

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