domingo, 14 de junho de 2020

Comentando o curta Recife Frio (2009/Brasil): uma profética visão glacial do Nordeste do General Pazuello


Ontem, meu amigo Alexandre Soares repassou no Facebook um link para o curta metragem Recife Frio de Kleber Mendonça Filho (*O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau), porque ele vinha bem a calhar com o momento em que vivemos.  Não entendeu?  O Ministro da Saúde, o General Pazuello, fez algumas considerações sobre o clima do Nordeste e do Norte do país que deixaram as pessoas que aprenderam o seu básico de Geografia atônitos.  Enfim, na visão do ministro, as regiões Norte e Nordeste de nosso país teriam clima semelhante ao do Hemisfério Norte.  Se quiserem saber mais, sigam os links.  Daí, meu amigo lembrou do mocumentário, filme que se apresenta como documentário, do Mendonça Filho.  É um achado, pelo filme e pelo timing.

Recife Frio é um filme de ficção científica social, aquela que fala do futuro, neste caso específico, muito próximo, para fazer a crítica a elementos da nossa sociedade.  Em um futuro próximo, um meteoro cai em Recife e a cidade e região metropolitana fica coberta por uma espessa camada de nuvens por semanas, meses.  O frio se torna uma constante, as temperaturas máximas não passam dos 14° C.  Pinguins criam uma colônia em uma das praias mais importantes de Recife, enquanto pessoas começam a morrer de frio em massa nas ruas.    Uma TV de língua espanhole envia um repórter  (Andrés Schaffer) para cobrir a situação e entrevistar moradores.  É este jornalista que nos guia pela Recife glacial.

A culpa é do meteoro?
Recife Frio é um filme que faz uma crítica social profunda às desigualdades  sociais presentes na cidade de Recife e que se manifestam na arquitetura moderna local, que aparece em várias partes do mocumentário que é bem curtinho.  O tema, aliás, foi abordado pelo diretor em Aquarius e O Som ao Redor.  Com o frio, as áreas mais valorizadas da cidade, na Avenida Beira Mar, com seus prédio altos e planejados para serem arejados e frescos, se tornando insuportavelmente frios.  O que foi comprado por altíssimos preços, é colocado à venda por valores muito baixos.

Quando o documentário fictício entrevista a família branca de classe média alta, ela lamenta o prejuízo e comenta de como o filho único, um adolescente, se apossou do quarto da empregada, a herança escravocrata que, como vimos, por exemplo, em Que Horas Ela Volta? é pequeno, apertado, quase sem ventilação, com janelas, quando elas existem, pequenas.  Ideal para o frio.  E para onde vai a empregada?  Para o gélido quarto do patrão.  "A Grace não está acostumada com o frio, nem com tanto espaço.  Fazer o quê?"  Grace está congelando na imensa suíte do patrãozinho.

Jornalista estrangeiro cobrindo a anomalia climática.
Outra "vítima" do frio é um francês, que trocou a Bretanha, lugar com praias e clima frio e chuvoso, por Recife.  Ele montou uma pousada e lucrava com o clima local.  Não mais.  Talvez, uma ideia seja criar uma ONG de adoção de pinguins.  Já o Papai Noel profissional está contentíssimo, porque lembra de como era sofrido trabalhar com um calor de 38° C e roupas que imitavam a "moda" da fria Lapônia.  E, enfim, alguém precisa lucrar com a mudança, não é mesmo?

A parte dos repentistas, que provavelmente são profissionais da área, é bem legal.  Eles falam em se mudar para Curitiba, porque, bem, lá é mais quentinho.  Há, também, a exposição dos presos, que fotografaram de suas celas e do pátio, as nuvens.  E, como não poderia deixar de ser, Kleber Mendonça Filho tem que mostrar genitais, ou não seria um filme dele.  Ao visitar o Mercado São José, o jornalista mostra como o artesanato típico, no qual figurinhas com os falos eretos são comuns, estão se adaptando aos novos tempos.  Quem estava pelado, agora, usa roupa.  A nova família pernambucana vai se reunir diante da lareira para ver TV.

Participação especialíssima de Lia de Itamaracá.
O filme não discute questões de gênero, nem cumpre a Bechdel Rule.  Só duas mulheres aparecem com algum destaque, a mãe da família de classe alta, e Lia de Itamaracá, a senhorinha do velório do início de Bacurau, que aparece no final cantando em uma ciranda.  Olhando a Wikipedia, vi que Recife Frio é o curta metragem brasileiro mais premiado desde Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado. Não é pouca coisa, não. Deixei o vídeo para quem quiser assistir no final.

O filme tem seus méritos e é interessante acompanhar como o trabalho de Kleber Mendonça Filho evoluiu e não-evoluiu (*a fixação que ele tem por exposição de genitais*), ao longo do tempo.  De resto, é muito divertido ver esse curta em um momento no qual as fontes oficiais tentam reinventar o clima do país e promovem Porto Velho a estado da federação.

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