terça-feira, 30 de junho de 2020

Precisamos falar da J.K. Rowling e dos riscos de uma militância sem filtro


Evitei comentar o caso J.K.Rowling, não por ter particular apreço pro ela, mas por ter plena consciência como feminista e estudiosa dos feminismos que essa última crise é muito mais perigosa do que pode parecer e eu não tenho lado nessa história.  Você não sabe do que estou falando, faz muito tempo que J.K.Rowling, criadora de Harry Potter, vem sendo criticada por suas atitudes transfóbicas na internet.  

Ontem, a questão ficou muito evidente quando ela apagou um Tweet elogiando e agradecendo Stephen King por passar adiante uma comentário seu que foi o seguinte:  ""Andrea Dworkin escreveu: 'Homens frequentemente reagem às palavras de mulheres — faladas ou escritas — como se fossem atos de violência; às vezes, homens reagem às palavras das mulheres com violência'. Não é odioso que as mulheres falem de suas próprias experiências, e elas não merecem ser vilificadas por fazer isso", disse Rowling."  O tweet apagado foi o seguinte:
"""Eu sempre reverenciei Stephen King, mas hoje meu
amor alcançou (...) outro patamar. 
É muito mais fácil para homens ignorarem as

 preocupações de mulheres, ou diminuí-las,
mas eu nunca vou esquecer os homens que
se pronunciaram quando não precisavam
se pronunciar. Obrigada, Stephen"."
O motivo de tal reação foi o fato, ou antes, só pode ser o fato, de King ter afirmado que "mulheres trans são mulheres". Rowling vem assumindo publicamente uma postura crítica e agressiva em relação às mulheres trans (*sim, os homens trans são deixados à margem da discussão, normalmente*), inclusive amplificando notícias de supostas mulheres trans praticando violência sexual contra outras mulheres.  A meu ver, isso é tão daninho quanto associar a homossexualidade à pedofilia, é você criminalizar todo um grupo de pessoas a partir de casos muito isolados, para levar adiante uma agenda política de exclusão e restrição de direitos.



Eu li o longo manifesto que a autora escreveu umas duas semanas atrás em sua língua original para que dúvida não ficasse do que ela escreveu e fiquei me coçando para comentar alguma coisa, mas estava sem tempo e não queria mais opinar em mais uma polêmica.  Enfim, para começo de conversa o texto confundia gênero (*papéis atribuídos ao masculino e ao feminino em uma dada sociedade historicamente determinada*) e identidade de gênero (*como uma pessoa se identifica, se sente, se percebe, se homem, ou mulher*).  Em nenhum momento do manifesto, onde ela afirmava ler, estudar o assunto, Rowling falou em desejo/sexualidade, e as coisas se misturavam muito.  Tudo me pareceu bem senso comum.  Tentarei ser didática agora e vou me usar como exemplo.

Eu sou biologicamente mulher; ao nascer fui identificada como tal a partir da minha genitália externa, porque bebês meninos e meninas, a despeito dos comportamentos a eles atribuídos (*gênero*), são idênticos a não se por esse detalhe.  Ao crescer, meus comportamentos (*gênero*) continuaram sendo reconhecidos como basicamente femininos pela sociedade, ainda que, como a maioria das pessoas, eu pudesse deslizar aqui e ali, e ter gostos e atitudes mais "masculinas" em alguns momentos.  Eu tinha carrinhos, aviões, brincava de bola, soltava pipa, não era bem coisa de menina, mas minha mãe, meu exemplo maior, nunca me reprimiu quanto a isso, me empoderou, para usar um termo da moda. 

Conforme a minha sexualidade foi despertando, e não me lembro quando a coisa se manifestou a primeira vez, meus interesses acompanharam certinho meu sexo biológico e meus comportamentos de gênero, eu gostava de meninos, enfim eu sou/estou (*detesto essencialismos*) uma mulher heterossexual.  E eu sou cis, porque, bem, estou muito confortável com a minha identidade de gênero.  Eu represento a maioria das mulheres, eu não me sinto ameaçada na minha "normalidade".  Aliás, via de regra, posso exercitá-la tranquilamente com todos os seus prós e contras.


Um quadro didático.
Durante um bom tempo, as teóricas feministas se esforçaram para separar em termos conceituais sexo (biológico) de gênero (cultural) e estabelecer que a sexualidade (orientação sexual/desejo) não era compulsória.  Nós aprendemos o que é ser mulher no social e se algo de natural existe em nossos comportamentos, este fator tem um peso mínimo sobre os seres humanos.  Eu estou escrevendo como historiadora e culturalista e sobre os ombros de Judith Butler, da minha orientadora de doutorado, Tânia Navarro Swain e tantas outras teóricas feministas.  

Nesse sentido, eu estou muito próxima das RADFEM, termo que muita gente toma como ofensivo, mas que se remete a uma questão bem simples, essa vertente feminista identifica que a base de todos os males que nos afligem, às mulheres e aos homens, é o patriarcado.  Ele legitima as desigualdades, a violência e a opressão.  Ele antecede o capitalismo, ele atravessa as múltiplas sociedades, ele nos reduz aos nossos corpos, nos binariza e nos essencializa a partir do gênero.  

Essa oposição entre mulheres trans, que são transativistas e transfeministas, e algumas RADFEM, são chamadas de TERF (Feministas Radicais que Excluem Mulheres Trans), é um fenômeno de internet, que tem pouco impacto no dia-a-dia das pessoas comuns, mas que pode, sim, prejudicar o avanço dos feminismos como movimento e dos direitos das pessoas trans.  Parece que uma parte considerável das discussões no ambiente virtual e, talvez, em certos nichos acadêmicos, degringolou em questões essencialistas como definir o ser mulher a partir de imperativos biológicos, ou de comportamentos de gênero.  

Eu, que sempre tive o azul como minha cor favorita e sempre resisti a que me embonecassem, me espanto muito quando alguém aponta o gostar de rosa, ou se interessar por coisas fofas como um sinal de transsexualidade em uma criança.  No entanto, não serei eu a transformar situações pontuais em uma "epidemia" de transsexualidade só para usar termos médicos pejorativos que eu vi por aí.  Continuemos, porque este texto será longo.  

Dissolver os gêneros, era uma das bandeiras mais importantes do movimento.  Já na época do meu doutorado (2003-2008), minha orientadora afirmava, com razão, aliás, que o termo gênero estava sendo banalizado, seu potencial analítico estava sendo esvaziado e propunha o uso de "sexo social".  Discussões acadêmicas, enfim, o fato é que as pessoas continuam, no senso comum, a confundir sexo e gênero, e com a introdução da categoria "identidade de gênero" a coisa ficou ainda mais confusa.  Nesse sentido, o primeiro texto acadêmico que eu li sobre mulheres trans foi um da Berenice Bento que está na revista Labrys.  Foi lá que eu descobri, porque foi descoberta mesmo, que havia mulheres trans que não queriam se operar.  Na minha cabeça era algo que não estava em disputa, uma transsexual deveria odiar aquilo que de masculino houvesse em seu corpo.

Eu cresci nos anos 1980, sou somente dez anos mais jovem que a Rowling, a referência de "mulher trans" que nós tínhamos nas TVs brasileiras eram Roberta Close, que despertava em muita gente aquela ideia de que ela era uma mulher que, por acidente, nascera em um corpo de homem, e a Rogéria.  A primeira era utilizada de uma forma sedutora e para despertar compaixão, a segunda, bem mais velha, normalmente estava ligada ao humor, ou no papel do "amigo gay", aquela personagem típica das comédias românticas.  Tieta está no Globoplay, Rogéria tem um papel na segunda fase e ela está lá exatamente nessa função.  

O problema é que quando as pessoas fogem das caixinhas, não cabem nelas, pior ainda, recusam a entrar, a gente fica confuso e com medo.  A TV nos anos 1980 e 1990 era extremamente benigna quando se tratava de reforçar essas representações sociais sobre a transsexualidade.  Se você ligar no programa de domingo à noite do Sílvio Santos terá um vislumbre desse passado.  Está tudo lá.  É como uma cápsula do tempo.

Com o desenvolvimento das discussões de gênero e dos estudos feministas nas universidades e a militância de sobrevivência (*porque se trata disso mesmo*) nas ruas e na internet, a percepção das pessoas trans começou a mudar um pouco, principalmente na grande imprensa, mas os (pre)conceitos homofóbicos (*no senso comum é tudo a mesma coisa*) e religiosos continuavam lá.  A querela do banheiro, por exemplo, é central para os religiosos dos Estados Unidos  (*e de lá para outros lugares*) e no texto-manifesto da Rowling.  É como se os banheiros femininos fossem santuários e as mulheres trans quisessem profaná-los.  

Daí, a conjuração da figura do abusador "vestido de mulher", que deseja utilizar o "privilégio" de ser trans para estuprar meninas e mulheres nos banheiros públicos.  Ora, um agressor sexual é um agressor sexual e, estatisticamente, a maioria deles são homens cis.  É injusto estender para as mulheres trans tal acusação, mas me incomoda muito a glorificação do pênis que algumas militantes trans de Twitter (*e sabe-se lá se não são homens cis se aproveitando para causar cizânia entre as feministas*) ofendendo a Rowling com expressões como "chupe o meu pau trans", afinal, o terror que algumas mulheres cis sentem em relação aos homens é fruto, sim de sua experiência de abuso.  


Alguns dos Tweets contra Rowling usando o "pênis"
como uma forma de intimidação, humilhação ou ameaça.
Do outro lado, temos  o problema da estigmatização das mulheres trans, como abusadoras sexuais, porque foram socializadas como homens ou que são homens que fetichizam o que seria visto como feminino, como se existisse um bônus nisso.  Enfim, essa entronização do pênis, algo tão patriarcal, é algo que até justificaria a defesa por parte das feministas da castração química.  Só que sabemos, também, que um estuprador não precisa de um pênis ativo para praticar violência sexual contra uma mulher, ou criança, ou mesmo outro homem.  O pênis pode ser somente um detalhe.

E há a questão dos homens trans, que é marginal, porque para as feministas que excluem as mulheres trans, homens trans sempre serão mulheres.  Assistindo canais de homens trans no Youtube, me parece (*e desde já me perdoem pelo reducionismo*) que mesmo os que são ativistas, parecem almejar a passabilidade, isto é, serem invisíveis no ambiente público sem o risco de serem assediados, sofrerem violência de outros homens.  Não acho correto, é ofensivo até, tratar homens trans como "lésbicas confusas", porque é, por extensão, a mesma coisa que tratar lésbicas como "mulheres que não conheceram um homem de verdade".  E reside aí o risco do "estupro corretivo", algo comum em muitos países e que é uma ameaça para todas as mulheres lésbicas.


Rowling sobre o uso da palavra pênis contra ela. 
Homens são agredidos de forma diferente,
mulheres, são ameaçadas com estupro.
Já que eu falei disso, desse terror que a violência contra as mulheres conjura, eu não posso deixar de apontar questões ligadas a alguns grupos da militância trans que são, sim, ofensivas e que precisam ser apontadas.  A Rowling fez isso de forma muito errada, talvez, eu não consiga fazer assim tão melhor que ela, mas vou tentar.  Vamos lá, ponto um, eu não sou contra a existência de espaços exclusivos para mulheres cis.  Não estou falando de banheiros, mas de espaços de militância onde mulheres cis possam trocar suas experiências sem se sentirem constrangidas, ou ameaçadas por aquilo que identificam como uma ameaça masculina.  

De novo, se você associa o falo à violência, se esta mulher, como a própria Rowling, sofreu violência, não vai ser ofendendo essa mulher, chamando-a de transfóbica, que você vai dialogar com ela.  Por isso desconfio muito que quando ofensas associando pênis e estupro são lançadas contra a Rowling e outras mulheres que se opõe ao transativismo de alguma forma, porque isso pode ser obra de homens cis que querem ver o circo pegar fogo.  Porque a primeira vez, e não tenho mais a referência, onde eu vi essa briga entre RADFEM e transativistas sendo discutida foi em um texto de um articulista conservador norte americano que afirmava que bastava assistir e que as mulheres trans destruiriam o feminismo (*para ele só havia um*) de dentro para fora.

Em que sentido ele disse isso?  As teóricas feministas, muitas delas feministas radicais, lésbicas, fizeram um esforço enorme dentro da academia para desmembrar sexo de gênero, para estabelecer as categorias de análise que possibilitaram a discussão da transsexualidade dentro das ciências humanas, e, agora, essa brecha estaria sendo usada para excluir essas mesmas mulheres das fileiras feministas.  "Mas, Valéria, isso acontece?".  Sim, acontece.

Quando se tenta interditar a discussão, por exemplo, da prostituição como uma violência contra as mulheres (*cis, ou trans*), se está atendendo a uma agenda que passa pela militância trans, ainda que não só. Ao invés de discutirmos por qual motivo as mulheres trans terminam sendo empurradas para a prostituição, porque isso teria que passar por questões de estrutura econômica, buscamos normalizar a exploração dos corpos das mulheres pelos homens.  E, se você discorda, é mal amada, mal resolvida, conservadora. 

Será que se chamássemos os homens de "Ejaculadores"
isso seria aceito pacificamente?
Quando usamos termos como menstruadoras para mulheres cis (*e homens trans*) estamos reduzindo essas mulheres aos seus corpos.  Não é muito diferente, aliás, dos termos "barriga de aluguel", ou "barriga solidária", porque é reduzir as mulheres cis ao seu potencial procreativo.  E foi essa história do "pessoas que menstruam"  ("People who menstruate."*) que fez com que a Rowling tivesse o problema duas, ou três, semanas atrás.

Ela se insurgiu, e encontrei artigos defendendo o ponto de vista dela, que menstruar é algo inerentemente feminino.  Em linhas gerais, é, sim.  Há homens trans que menstruam e que precisam ter suas necessidades atendidas, sua saúde física e mental respeitada.  Há mulheres cis que por algum motivo nunca menstruaram.  É uma anomalia?  Sim, mas elas existem.  Eu, uma mulher de 44 anos, logo, logo, não menstruarei mais.  É da vida.  "Pessoas que menstruam" nem me parece tão ofensivo assim, mas menstruadoras (*algo essencialista*) como sinônimo de mulheres, é.  Me faz lembrar de um poeta romano (*Ovídio?  Não vou pegar o Sexualidades Ocidentais para checar*) que dizia que gostava de rapazes e moças, mas que os rapazes eram melhores, porque eles não menstruavam.

Esse tipo de pensamento tem nome, é misoginia.  Quando a Rowling externou suas ideias enviesadas sofreu um monte de críticas justas, mas, também, ataques misóginos, a história do pênis, que já comentei, alusões a sua idade, peseo, enfim.  E sabe qual foi a coisa mais curiosa?  O silêncio.  As RADFEM levantaram a bola, claro, mas outras vertentes feministas ficaram em silêncio.  Era como se o linchamento fosse merecido.  Veja, há formas de atacar, de criticar pesadamente alguém sem resvalar nesse tipo de comportamento repulsivo.  E, aí, mesmo sem cair na armadilha do "mulheres trans não são mulheres", fica parecendo que atacar uma mulher (cis) é permitido, porque, bem, é algo normal dentro do patriarcado.  


Não compactuar com a misoginia e a violência,
não quer dizer apoiar os erros das pessoas.
É como quando a Manuela D'Ávila prestou solidariedade à Joice Hasselmann, nao se tratava de relevar todo o mal que ela fez, faz e continuará fazendo, mas perceber que nãos e deve legitimar a violência misógina, porque é contra alguém que detestamos.  "Ela mereceu!".  Eu não sou esse tipo de feminista e eu sei onde esse tipo de complacência pode nos levar. Podem me chamar de esquerda cirandeira, de feminista liberal, eu realmente não me importo.  Não é com violência e falta de diálogo que a gente construirá um mundo melhor.  E mais, falta consciência em parte da militância, enquanto isso, os reacionários aplaudem, enquanto nós nos destruímos.  Muito bonito, não é mesmo?

Para terminar, algo que quando eu vi me causou um grande incômodo como feminista foi o termo "cotton-ceiling" ("teto de algodão").  Não sabe o que é isso?  Vamos lá.  Vou usar parte da definição do Dicionaria Feminista: "Esse termo faz referência a um outro - "Teto de Vidro" - cunhado por feministas da segunda onda para identificar e combater as dificuldades encontradas por mulheres para ascender a posições de poder e autoridade no mercado de trabalho.  Enquanto o conceito original, Teto de Vidro, busca evidenciar e esclarecer uma das formas pelas quais a mulher é oprimida e mantida fora do poder econômica e socialmente, ainda que esteja inserida no mercado de trabalho, o segundo apropria-se do primeiro para reclamar o acesso a sexo com lésbicas. Como se o acesso a sexo fosse um direito e a negativa desse acesso - o não consentimento da lésbica ao sexo quando inclua um pênis - uma forma de opressão (transfobia)."

Quando vi esse termo em um comentário no blog da Lola muitos anos atrás, eu não conhecia o termo "friendzone", mas a ideia é muito parecida, assustadoramente parecida.  Um homem se sente no direito de acesso ao corpo de uma mulher e se ofende de não ser cogitado como parceiro afetivo-sexual.  Já mulheres lésbicas cis para serem feministas "de verdade", deveriam manter relações sexuais com mulheres trans com pênis.  Por que?  Por qual motivo politizar a questão ao ponto dela poder ser utilizada para excluir mulheres de um movimento que foi criado pelas próprias mulheres? Não haveria uma contaminação de comportamentos de gêneros masculinos tóxicos na ideia do "cotton-ceiling"?  Minha resposta é sim.

Pessoas adultas devem ser livres para concederem acesso, ou não, aos seus corpos.  As mulheres cis já foram constrangidas por muito tempo, algumas ainda são, a permitir que os homens se apropriem deles.  Por qual motivo mulheres trans com pênis deveriam poder fazê-lo sem questionamento?  Expôr essas questões não é atentar contra as mulheres trans, tampouco legitimar a violência, ou a exclusão, ou afirmar que mulheres trans lésbicas seriam estupradoras.  Agora, é preciso que as militâncias façam uma autocrítica e parem para discutir e refletir sobre essas questões.

Terminando, a Rowling está errada, muito, muito, muito errada.  Sendo ela quem é, com a influência que tem, a coisa se torna ainda maior, porque ela tem um lugar de fala privilegiado.  Aliás, nem consegui escavar direito, mas ela deu like em um tweet de um movimento que é contra os direitos das pessoas trans no Canadá, algo ligado à transição de sexo. Agora, Rowling não é a única errada nessa história.  Não adianta criticar transfobia com misoginia.  Aliás, pelo menos na internet, parece conversa de surdos que não dominam a língua de sinais.

Não faz sentido ser feminista e pedir aceitação e não tentar compreender a limitações das outras mulheres e suas possibilidades.  Mulheres que, não raro, sofreram violência.  Eu, de minha parte, sempre estou mais disposta a ouvir, acolher e aprender com ambos os lados, me posicionando quando e se eu acreditar necessário, por isso, este post.  Seria um sonho se todas as feministas pudessem se unir em torno de bandeiras comuns, sem essencializar gênero, nem sexo biológico, e sem esquecer de duas outras questões que eu não incluí nesse meu mostrengo de texto, que é a classe social e a raça.

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9 pessoas comentaram:

Obrigada, Valeria. Você foi a primeira pessoa que conseguiu resumir num texto praticamente tudo o que tem me incomodado nesta história, em ambos os lados da briga.

Vim ler "ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O FINAL DE SAIUNKOKU MONOGATARI" de 2013 e acabei nesse post, muito obrigada pelo trabalho de vocês.
<3

Me senti muito contemplada.

Eu me aproximei do feminismo obviamente pela via liberal lá em 2012, aí comecei a estudar mais e me identifiquei bastante com o feminismo radical. Hoje, sinto que preciso estudar mais e mais. Gosto de algumas linhas tanto do fem marxista e do radical, e sigo nesse meio.

Enfim, voltei nesse blog porque estava com saudade dos shoujos e me deparei com esse texto hahaha

^^

O grande problema na questão trans x radfem é q eu nunca vejo nenhuma das partes tecendo críticas de forma educada, é sendo um discurso agressivo e preconceituoso. Me alinho muito ao pensamento radical, mas a forma como se referem as trans é horrível, a desumanização q fazem. Já muitas transfeministas utilizam discursos do tipo: "somos melhores, vcs não são isso tudo" entre outras coisas já apontadas no texto (e ai de quem levantar a bola de q isso é sintoma da socialização q tiveram..) e exigem q temas como gravidez, menstruação tenham aviso de gatilho (?)p não ofender as trans. Olha, complicado.
E o plus da militância tuiteira: "se vc continuar a gostar de hp e não jogar a sua coleção fora, você tbm é um monstro"

Ela não foi violenta.
Nem agressiva.
Muito menos fez afirmações sem base.

Esse texto do shoujo café explica cada ponto com muita coesão, mas o texto da J.K. Rowling tbm:

1. A organização que ela se posicionou contra tem um motivo: eles apoiam a transição de menores de idade. Ocorre que isso não tem base científica.

2. A verdade, é que não sabemos as consequência do uso de testosterona e estrogeneo a longo prazo. Em outros areas da Medicina, é comum levar anos para um tratamento ser aprovado.

3. Na transição, ele é vendido sem estudos anteriores ampliados. Em outros palavras, estão usando crianças e adultos como cobaias.

4. Menores de idade não devem iniciar um processo irreversível, pois a área do cérebro responsavél por escolhas e processamento de informações começa a se desenvolver aos 14 anos, e terminar de se desenvolver aos 25 anos.

5. O que sabemos até agora, é que o uso desses hormônios aumenta a probabilidade de desenvolver câncer, infarto e problemas osseos. Em resumo, a transição diminui a expectativa de vida.

6. Ele mencionou homens trans, está bem explícito no texto dela. Mas a maioria se recusa a ler o texto.

As afirmações delas podem ser resumidas em: Sexo é imutável. Pessoas trans são pessoas que experimentam disforia sexual, porém não pertecem ao sexo desejado.

Muito obrigada pela maravilhosa explicação! Me sinto menos perdida nessa confusão toda.

Olha, meu texto não afirma que Rowling não foi agressiva. Ela foi. Ela atirou sobre as mulheres trans, reduzidas a homens vestidos de mulher, suspeitas de crimes. O que eu afirmo é que nada justifica misoginia e que há exageros de parte a parte. Eu, como feminista, não posso ser complacente com as agressões feitas à Rowling, porque são agressões, não agregam nada à discussão, e porque são misóginas em sua maioria.

E, bem, desconheço país que tenha aprovado hormonização de menores de idade, menos ainda crianças. São usados bloqueadores de hormônios em adolescentes para inibir as características sexuais secundárias. Grupos com propostas alopradas, criminosas, ou o que seja, existem em todos os movimentos, poderia passar horas e horas listando.

Eu, Valéria, a autora do texto, feminista, historiadora, mulher hetero cis, mãe da Júlia, não estou defendendo com este texto que mulheres trans não são mulheres, ou que homens trans são lésbicas confusas, mas que um pouco de diálogo e respeito ajudaria e muito os feminismos como um todo, nossa pluralidade não pode ser utilizada como elemento para nos enfraquecer e destruir.

Quase tudo que sei sobre shoujo, aprendi nesse site. Quase nunca comento no blog, por não ter algo a acrescentar. Dessa vez, senti a necessidade de comentar.

O texto dela é longo, eu abordei apenas um dos tópicos, pois daria vários textos, e uma caixa de comentários é limitante para um debate como esse.

Por fim: Ela não foi violenta, pelo mesmo motivo que o movimento negro não deve ser cobrado sobre a pauta do racismo contra asiáticos. Criticar é diferente de atacar. Ela criticou.

Sei que ela tem privilégios por ser branca e rica. Mas assim como alguém tem privilêgios por ter nascido branco, alguém tem privilegios por ter nascido do sexo masculino. Ambos não podem ser negados. Esse é o ponto dela.
Obrigada por abrir esse debate.

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