segunda-feira, 29 de junho de 2020

Você gostaria de se tornar a heroína do seu livro de época favorito? Eu, não!


Estava passando pelo Twitter e vi que a Harlequin do Japão vai começar a lançar no aplicativo LINE (*expliquei o que é em outro post*), acredito que eu 7 de julho, um mangá original sobre uma OL (Office Lady) chamada Hikari de 28 anos, sem namorado, e que acaba indo parar dentro do romance que está lendo.  

As duas mocinhas.
Uma história que (*a julgar pelas poucas imagens*), é contemporânea dos romances de Jane Austen.  O mangá se chama Hikari to Bara ~ Shousetsu no Shujinkou ni Natte Mibun-chigai no Koishitemasu ~ (光と薔薇 ~小説の主人公になって身分違いの恋してます~).  A artista se chama OHTA e, pelo pouco que vi, ela tem um traço bonito e funcional nesse tipo de história.  Tem uma página da série, ou do volume único, não sei como será.  Eu queria ler esse material, mas queria muito mais que fosse uma troca mesmo, com a heroína do livro vindo para o mundo "real" contemporâneo.  Isso, sim, seria divertido!

Nossa mocinha vai parar dentro do livro.
Ela estava lendo a história da jovem Rose, que está apaixonada por um duque e, de repente, ela é a inocente donzela da história.  Não é nada muito diferente de um isekai, ou daquele esquema comum nos shoujo mangá desde os anos 1970, da garota que viaja no tempo (*Ouke no Monshou, Anatolia Story e por aí vai*).  Aliás, se tornar a heroína (*ou vilã*) de um game, ou livro, está na moda, não é mesmo?  Vide o sucesso de Katarina Claes.


Em Lost in Austen, a mocinha toca o terror
no livro e ainda fica com Mr. Darcy.
Só não sei se a coisa acontece como em Lost in Austen, uma série que eu amo, no qual a heroína troca de lugar com a mocinha do livro, no caso, Elizabeth Bennet, de Orgulho & Preconceito.  Amanda, a moça que vai para o passado, passa seus perrengues, mas fica com Mr. Darcy no final, já Lizzie consegue se virar no nosso mundo moderno.  Infelizmente, a série não nos mostra a jornada de Lizzie, o que é o grande defeito dessa série deliciosa.  

Eu não gostaria de ser a senhora, nem a sinhazinha, nem a lady, afinal,
esse tipo de privilégio e desigualdade nem deveriam existir, mas existem.
No final de semana, apareceu o meme que está acima.  Até pensei em fazer um post, quase fiz mesmo, porque há quem confunda o gosto por séries e livros de época, por uma louca vontade de se tornar a mocinha desses livros. Não, sou como a amiga negra (Gugu Mbatha-Raw) da Amanda (Jemima Rooper)  de Lost in Austen (2008/ITV).  E tem um diálogo na série que é mais ou menos assim: "Vem, Pirhana, é rapidinho!" "Amanda, eu sou negra." "Você vai estar comigo." "Amanda, eu não vou a nenhum lugar onde não exista chocolate e papel higiênico."  Sim, o nome da personagem é Pirhana, a gente ouve e parece "piranha".


Vamos dar um pulinho lá no início do século XIX?
Eu, no passado, não seria uma scullery maid, aquela que estava na parte mais baixa da hierarquia das serviçais, caso da Daisy (*que está na foto*) de Downton Abbey no início da série.  Eu seria a escravizada, a trabalhadora do canavial, do cafezal, a lavadeira, no máximo, com sorte, a negra do tabuleiro.  Aliás, lembrei desse outro texto antigo do blog.  Ele vem bem a calhar.  Eu não seria nem a sinhazinha, nem a dama vitoriana.  Talvez, nem você que sonha em realmente viver em outras épocas.  Aliás, mesmo para essas bem nascidas, não havia controle de natalidade, não eram senhoras de seus bens quando casadas, poderiam apanhar do marido e isso ser legal, seu testemunho poderia não valer em um tribunal, não poderiam frequentar livremente a universidade, mesmo quando qualificadas.  A depender da época, do lugar, poderiam ser descartadas com facilidade se não conseguissem gerar um filho, ou um filho homem.


Negra vendendo caju, gravura de Jean-Baptiste Debret (1768-1848).
Aliás, nem queria ser essas mulheres ricas e bem nascidas, porque engana-se quem acredita que ser mulher da elite era um paraíso.  Me deixem onde eu estou, com direito a trabalhar onde quiser e puder, a voto, à propriedade, direito de ir e vir, de liberdade de expressão.  Fora outras questões, como vacinas e antibióticos, a certeza de que minha filha não vai morrer de varíola, de tifo, de sarampo.  No século XXI, por mais que ainda tenhamos de lutar muito contra a violência de gênero, racismo e por direitos iguais, eu tenho certeza de que nasci em uma época melhor para nós, mulheres.  Para a maioria de nós, pelo menos.  E isso graças às feministas de outros tempos.  Sou muito grata a elas.

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2 pessoas comentaram:

É mesmo dr acabar com qualquer fantasia se imaginar realmente em uma época como essa. Eu sempre amei livros e séries antigas (ainda amo). Mas só depois de adulta, de ter consciência das causas do movimento negro é que caiu a ficha que, no meu caso, seria a mucama. Confesso que me deixou bem triste, eu sempre viajo demais quando leio kkkkk mas enfim, é importante ter essa consciência, os preconceitos e o racismo perpassam tudo. Continuarei lendo meus livros e viajando? Claro. Mas com o cuidado de não idealizar um mundo que nunca existiu. Fantasia é fantasia, né?

É como a história da idolatria pela idade média. O pessoal esquece das doenças, da falta de higiene e de direitos que hoje são básicos. Todo mundo queria ser nobre e cavaleiro, mas no geral, seriam camponeses morrendo de peste antes dos 30.

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