terça-feira, 6 de outubro de 2020

Comentando o capítulo 1 de Orgulho e Preconceito (BBC/1980): Uma Lizzie apaixonante para um Darcy um tanto perturbador

Estava na dúvida sobre qual Orgulho e Preconceito resenhar depois da série de 1995 e decidi pegar a adaptação da BBC de 1980, que completa seus 40 anos este ano.  Ela foi exibida nas TVs brasileiras, conheço gente, normalmente mais velha que eu, que assistiu.  Eu só fui conhecê-la remexendo na internet, baixei os cinco capítulos, mais tarde, comprei os DVDs ingleses.  Ela é a quinta adaptação de Orgulho & Preconceito feita pela BBC, sendo antecedida pelas de 1938, 1952, 1958 e 1967.  

A versão de 1967 marcou os 150 anos da morte de Jane Austen, e não existe mais na sua integralidade, salvo se alguém encontrar algum rolo de filme perdido por aí.  Sim,  é possível.  Já as anteriores, bem, não sei se é possível assistir algum fragmento delas.  Achei um arquivo de fotos da produção de 1958 que abre dizendo que os vídeos se perderam. A versão de 1980 foi muito bem cuidada para a sua época e fez parte de uma leva de produções austenianas que incluíram Mansfield Park (1983), Razão e Sensibilidade (1981) e Northanger Abbey (1986).  Como fiz com a série de 1995, vou resenhar capítulo a capítulo e estou partindo do princípio que você conheça a história do livro publicado por Jane Austen em 1813, mas vou dar um resumo rápido do seu início.

Inglaterra, início do século XIX, um rapaz rico chamado Bingley (Osmund Bullock) chega à fictícia Meryton para ocupar a propriedade de Netherfield.  A presença do moço, que é jovem e solteiro gera um frenesi na pequena cidade, em especial, na casa dos Bennet.  Mr. e Mrs. Bennet (Moray Watson e Priscilla Morgan) tem cinco filhas solteiras Jane (Sabina Franklyn), Elizabeth (Elizabeth Garvie), Mary (Tessa Peake-Jones), Kitty (Clare Higgins) e Lydia (Natalie Ogle).  Junto com Mr. Bingley vem seu amigo Mr. Darcy (David Rintoul), suas irmãs e o cunhado, pessoas acostumadas a circular na alta sociedade. Bingley se interessa imediatamente pela mais velha das irmãs Bennet, Jane, já Darcy tem dificuldades em se adaptar à comunidade local e se sente incomodado por estar atraído pela segunda das irmãs, Elizabeth, que o considera um homem muito desagradável.

Eu particularmente gosto muito da série de 1980, ainda que, como o título aponta, David Rintoul me pareça um Darcy um tanto, como direi, estranho, em especial, em um primeiro contato.  Voltarei a ele daqui a pouco, porém.  A série de 1980 manteve no primeiro capítulo vários diálogos que a de 1995 omitiu.  Mudou-se a ordem das cenas em relação ao livro, mas está praticamente tudo lá com alguns acréscimos, por exemplo, a frase inicial do livro "É uma verdade universalmente aceita que um homem solteiro, dotado de uma certa fortuna, precisa de uma esposa" foi dividida entre Charlotte e Lizzie.

Aliás, esta série joga muito peso na amizade de Lizzie e Charlotte.  No primeiro capítulo, a sintonia entre as amigas é maior que a interação entre a protagonista e a irmã, Jane.  Na série de 1980, Jane, além de ser morena, caso único, acho, nas adaptações famosas, está mais próxima das irmãs mais novas.  Quando Mrs. Hurst (Jennifer Granville) diz que ela ri demais para diminuí-la aos olhos de Bingley, seu irmão, de fato, ela o faz. É uma Jane mais risonha e menos reflexiva e madura que na adaptação de 1995, sendo mais romântica e vulnerável, também.

Já Lizzie tem uma língua muito mais afiada e um senso de humor que lembra bastante o do pai, Mr. Bennett.  Os dois, aliás, são parceiros na arte da ironia, do sarcasmo, e formam uma espécie de parceria ao longo dos capítulos.  Nessa versão, Lizzie mantém a vivacidade, mas seu comportamento é muito menos atlético, não a veremos correndo, ou pulando cercas como em 1995, e ela também é mais teimosa e destemperada.  É Charlotte que serve de ponto de equilíbrio para a mocinha, ainda que, até por causa da intimidade, ela às vezes coloque a amiga em umas situações desconfortáveis.


Uma das minhas cenas favoritas da versão de 1980 e omitida em 1995 ilustra bem isso.  Todos estão na casa do pai de Charlotte e a jovem faz com que Elizabeth toque piano e cante.  Darcy não consegue evitar e fica observando a moça.  David Rintoul é muito econômico em suas expressões faciais, muito mesmo, mas é possível observar as expressões de interesse e de certa ansiedade em seu rosto, especialmente, quando a personagem é lembrado de alguma forma que Elizabeth não é sozinha, mas vem com mãe e irmãs de bônus.

Mas antes da cena do piano, que termina com Mrs. Bennett praticamente expulsando Lizzie para que Mary possa se exibir.  Antes disso, a protagonista tinha ido cutucar Mr. Darcy.  A cena está no livro, só com uma leve diferença.  Charlotte e Lizzie conversavam com o Coronel Foster, na série, elas conversam entre si e Darcy está meio que pescando a conversa das duas.  Charlotte, que vê mais longe que todo mundo, percebe o interesse dele e avisa a amiga que vai até o moço para mostrar que não tem medo dele, nem qualquer interesse.

Nessa mesma conversa, Charlotte pontua para Elizabeth que Bingley está interessado em Jane, mas que a moça não está retribuindo com a intensidade necessária, apesar de estar apaixonada.  Charlotte enfatiza que uma mulher precisa demonstrar essas coisas, ela não diz, mas fica claro que ela insinua que os homens são muito obtusos.  Mais tarde, não nesse capítulo, Darcy irá dizer que sabia que o amigo gostava de Jane, mas que não conseguiu ter evidências do amor da moça.

Enfim, nessa versão, Mrs. Bennett é menos escandalosa que em 1995, em compensação, ela é mais maldosa e tem a língua ferina.  Ela rebaixa Charlotte Lucas diante dos outros, ela critica Mary por ler demais, ela enfrenta Darcy quando da conversa sobre o baile de Netherfield e as diferenças entre Londres e o interior de forma bem agressiva, por assim dizer.  Na mesma cena, ela gera constrangimento ao citar um cavalheiro que teria feito cortejado Jane quando ela tinha somente 15 anos.  Lizzie percebe o quanto isso poderia soar mal aos ouvidos de Mr. Bingley e tenta parar a mãe, mas é em vão.  Essa parte não está na série de 1995, mas saiu direto do livro.  No trato com as filhas, ela parece ainda mais parcial com Lydia e cruel com Kitty e Mary.

Aliás, Mary nessa versão tem uma função cômica bem definida. Ela é a irmã engraçada que a mãe ainda tanta salvar, por exemplo, Mrs. Bennet reclama que ela lê demais e, por isso, estragou seus olhos. Mary é a primeira das irmãs a aparecer em cena, nesta adaptação ela é capaz de fofocar e rir com as irmãs, ainda que se considere superior a elas, mais ponderada.  E, como está no livro, ela é vaidosa daquilo que acredita serem seus talentos, isto é, sua música e seu bom discernimento. Só que ela não consegue compreender o que lê e sua música, especialmente, seu canto, é muito deficiente.  Mary não é talentosa, ela é esforçada, ela treina muito, ela tenta se aperfeiçoar para compensar a falta de beleza e graça, só que acaba acreditando que é mais do que realmente é.  Fora isso, ela sofre bullying do pai.  

Neste primeiro capítulo, os alvos principais de Mr. Bennett foram a esposa e a pobre Mary.  Ele chega a pedir de forma debochada os conselhos da filha, sabendo que a moça nada sabe de coisa alguma.  Por outro lado, ele parece mais complacente com a esposa, como se ele, de certa forma, manobrado ou arrastado por ela, mesmo parecendo o senhor de sua casa.  Na cena em que Jane é convidada pelas irmãs de Bingley, ele não é cúmplice, ele simplesmente não tem força para evitar, quando ele se dá conta do plano da esposa, a coisa já aconteceu.  Enfim, isso não o torna menos fraco.

Agora, uma diferença grande em relação ao livro e outras adaptações.  Jane vai a cavalo para a casa de Bingley.  Conforme havia planejado sua mãe, chove e ela fica doente e retida em Netherfield.  Lizzie quer notícias da irmã imediatamente no outro dia, mesmo contra a vontade da mãe que acha ótimo que sua filha esteja doente e incapacitada de voltar para casa.  Aqui, cabe uma explicação, Mrs. Bennet é muito, mas muito irresponsável.  Uma gripe forte, nessa época, poderia escalar para algo pior sem grandes dificuldades.  Ela efetivamente colocou a vida de Jane em risco.

No livro e nas outras versões, já parara de chover, Lizzie teria que enfrentar a lama, pois recusa a oferta da carruagem feita pelo pai.  E Mary, em casa, deplora o bom juízo da irmã, que pretende andar a pé por 3 milhas (mais ou menos 4,8 km) até Ntherfield.  Quem acompanha a protagonista por parte do caminho são as irmãs caçulas, Kitty e Lydia, que estão indo para Meryton.  Nessa versão, está chovendo forte ainda e Mary é quem vai junto com Lizzie, mas desiste pelo caminho.  É meio exagerado, mas o objetivo é ressaltar o quanto Lizzie é determinada, teimosa.

A série de 1980, mesmo que as pessoas não comentem muito sobre isso, inventa muitas cenas e diálogos.  Ela se mantém fiel ao espírito da obra, diferentemente, por exemplo, do recente Sanditon, em que é difícil reconhecer Austen em certos diálogos, é um material muito sólido.  A diferença, especialmente, em relação à série de 1995, é que as cenas não são com Darcy, mas são centradas em Elizabeth.  Ela é a heroína, ela tem os holofotes sobre ela o tempo inteiro.  E as cenas do cotidiano estão na adaptação, também.  

Por exemplo, a melhor cena de Lizzie e Jane neste capítulo é um diálogo no qual a protagonista somente em roupa de baixo e penteando os cabelos.  Depois, Jane a ajuda a retirar os stays (*o espartilho da época*).  Há ainda outra em que Lizzie aparece com a caixa de costura e fazendo o arremate no vestido da irmã mais velha.  Coisas que as moças deveriam fazer no cotidiano.  Enfim, quando esta adaptação cria cenas, normalmente ela acerta.  Quando muda uma cena do original, como no caso da chuva, o efeito pode não ser tão bom assim.

De resto há algumas diferenças na estadia de Lizzie e Jane em Netherfield em relação ao livro, ou à adaptação de 1995, omissões, mudanças na ordem das cenas, mas é isso.  A primeira alteração, Jane não parece tão mal assim e quer ficar em Netherfield o máximo de tempo que puder, mesmo que não tenhamos uma única cena dela com Bingley.  Já Lizzie quer ir embora o mais rápido possível.  Parece oprimida por todas aquelas pessoas que, salvo por Bingley, lhe parecem desagradáveis.  

Mrs. Hurst fala muito mais nesta adaptação do que em 1995, tem muito mais personalidade por assim dizer, não sendo somente uma sombra da irmã, já Marsha Fitzalan, que interpreta Miss Bingley é muito venenosa, superficial e não finge que se acha superior em nenhum momento, só que ela recebe tantas cortadas de Darcy que dá pena.  O mocinho nesse primeiro capítulo é muito duro e frio, mas Caroline Bingley não desiste nunca.  O único que consegue brincar com ele é Bingley, que ousa dizer o quanto ele pode ser insuportável.  Seria um momento em que Rintoul deveria ser instruído pela direção a dar pelo menos um meio sorriso, porque ele sabe que o amigo o está provocando, mas nada!  Essas falas de Bingley e as respostas de Darcy foram tirada do livro e não estão na minissérie de 1995.

Enfim, nessa altura da série, não há nada que humanize muito o Darcy de David Rintoul.  Minha amiga Lina, o chama de Robô-Darcy, mas eu consigo ver que é a linha de interpretação do ator, vestir uma couraça e parecer sem sentimentos, um cavalheiro modelo, sem dúvida, mas que se vê como acima de todos.  Sabemos que ele está de olho em Lizzie, há uma cena engraçadinha em que ela está lendo e ele olhando fixo para a moça, encarando de longe mesmo, e a protagonista vira de costas para ele.  Darcy e Lizzie chegam a discutir em um dado momento para horror e felicidade de Caroline Bingley, que acha que isso pesará contra a protagonista, quando, na verdade, essa capacidade de enfrentá-lo e questioná-lo a eleva aos olhos do moço.

Mais alguma coisa a pontuar?  Osmund Bullock, que faz Bingley, é capaz de rir de Darcy, mas parece ter medo da irmã.  Quando Jane está partindo de Netherfield, ele todo solicito, ajeita uma manta sobre as pernas da moça que lhe lança um olhar apaixonado, mas, ao perceber que Caroline  o está encarando, ele se encolhe, tira as mãos, se afasta.  Apesar de ser um ator não tão jovem, ele tem uma aparência de garotinho bochechudo e assustado. Vamos ver se ele evolui um pouco até o fim da série.  Ah, e Mr. Hurst (Edward Arthur) tem aquele ar indolente descrito no livro, mas não está sempre dormindo, volta e meia ele solta umas frases esnobes e vazias.

Não sei quantas vezes vi a série de 1980 completa.  Acho que duas vezes e alguns pedacinhos sabe-se lá em quantas oportunidades.  Esta versão, diferentemente da de 1995, que tem um Darcy muito marcante, ou a de 2005, na qual Lizzie e o mocinho se equilibram, é de Elizabeth, ela tem muito mais espaço para ser desenvolvida.  E Elizabeth Garvie é minha Lizzie favorita e sua parceria com Irene Richard, a Charlotte, é um dos pontos altos da série.

Fechando esse texto, o próximo deve ser mais curto, espero, o verbete da Wikipedia brasileira é mais completo, ou menos econômico do que o em inglês (*coisa rara*) e fala de onde a série foi filmada.  A partir daqui, cito direto: "Várias mansões inglesas foram utilizadas para representar as propriedades fictícias de Pride and Prejudice. A proposta de casamento que Mr. Collins faz a Charlote foi filmada nos jardins de "Doddington Hall", Lincolnshire; a propriedade de Mr. Darcy, "Pemberley", foi representada por "Renishaw Hall", Derbyshire; Longbourn foi filmada em Thorpe Tilney Hall, Lincolnshire, Inglaterra, e Netherfield Hall em Well Vale, Alford, Lincolnshire, todos na Inglaterra".  Imagino se as fãs dessa série, porque elas existem e são barulhentas, visitam essas locações.  

Ah, sim!  Cada episódio abre e fecha com ilustrações resumindo o que acontece naquele capítulo.  Imagino se um álbum com esse Orgulho e Preconceito desenhado foi lançado em 1980.  São ilustrações divertidas e em um estilo humorístico.

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