domingo, 11 de outubro de 2020

Comentando o capítulo 4 de Orgulho e Preconceito (BBC/1980): Elizabeth descobre as virtudes de Mr. Darcy

Vamos para a penúltima resenha da série de 1980.  Eu fiquei até com vontade de juntar capítulo 4 e 5, mas decidi respeitar o modelo que usei par a série de 1995 e ir de um em um.  O capítulo 5 é importante, porque é quando fica claro que Darcy ama Elizabeth e vai fazer o possível para conquistar seu coração, tentando, inclusive, mudar a forma como se comportava publicamente, quer dizer, se você já conhecia previamente a história, já estaria ciente disso, mas vamos supor que não seja o caso.

Nós começamos com Lizzy e Jane conversando sobre o pedido de casamento de Mr. Darcy e a irmã mais velha da protagonista sentindo pena dele.  Ela repete várias vezes "Poor Mr. Darcy" com uma voz super lamentosa. Sabina Franklyn é uma Jane tão docinha, tão fofinha e mais ingênua  que em outras adaptações, também.  Foi a forma como a personagem foi construída dentro do roteiro, enfim.  Lizzy começa, então, a repensar seriamente seu pré-julgamento do caráter de Mr. Darcy.  O moço que ela via como orgulhoso e insensível se eleva aos seus olhos, enquanto Wickham é rebaixado.  

Temos então várias cenas inventadas, ou rearranjadas para usar diálogos originais e trechos inventados para o seriado.  Por exemplo, Lydia fala do seu desejo de se casar antes dos vinte anos, diz que jane periga ficar solteirona e que Lizzy deveria ter aceitado Mr. Collins.  Natalie Ogle é uma Lydia adoravelmente desmiolada, mas não tão vulgar e escandalosa como sua versão de 1995.  A atriz é pequenininha e parece uma boneca enfeitada, porque a mãe adora tratá-la desse jeito.  É a filha favorita, a que mais aprece consigo mesma.  Vem a notícia de que o regimento vai partir e Lydia e Kitty ficam se lamuriando.  Kitty, em especial, fala que não consegue dormir faz uma semana, quando vem a notícia de que Lydia foi convidada pela esposa do Coronel Foster, ela fica sem comer, mas não consegue manter a greve de fome.

Lizzy argumenta com o pai para que não deixe Lydia ir.  O texto é o do livro, a interpretação de Elizabeth Garvie é perfeita  na sua angústia pro ter que preservar o segredo sobre o caráter de Wickham que Darcy lhe confiou.  Já o pai, mostra-se surdo aos seus argumentos.  O Mr. Bennett dessa versão é menos bully e mais insensível mesmo, um pai relapso e um marido que não vê mérito algum na esposa.  Elizabeth reflete então, há muito dessa voz interior da heroína nessa série, sobre como o pai é negligente e que um casamento que se iniciou por luxúria (*porque é esse o caso*), pode se desdobrar em uma relação sem amor e respeito.  É uma reflexão austeniana, não foge ao livro e deveria voltar no último capítulo na conversa entre pai e filha após a proposta de Mr. Darcy.

Temos, então, uma festa de despedida do regimento na casa dos Bennett.  Na série de 1995, não fica muito claro onde o evento acontece.  Lizzy avalia Wickham e ele percebe que a moça não está mais à mercê de seus encantos.  Assim como na série de 1995, ele olha para Lydia e a câmera se desloca para a moça que é frívola, mas inocente; um alvo fácil.  De novo, a Lydia dessa versão tem defeitos, mas ela não parece envolvida em situações que poderiam ser interpretadas como sexualmente  comprometedoras com os oficiais, como na série de 1995.  Agora, infelizmente, reforço o que eu escrevi no capítulo 2, o Wickham dessa versão é bem sem sal.

Lydia parte com o regimento e logo Lyzzie segue para o norte com seus tios.  O percurso previsto eram os lagos, mas foi necessário mudar o lugar do passeio, sem que isso seja explicado, como em 1995 (*o tio de Lizzie tinah que resolver negócios por lá*).  Jane chega a pontuar que Derbyshire é a região de origem de Darcy para que a irmã retruque que o lugar é muito vasto para que ela o encontre.  Logo em seguida, já estamos em Derbyshire e temos a proposta da visita a Pemberly.  Nessa versão, não temos tanta insistência de Lizzy em saber se a família (*na verdade, Darcy*) estaria em casa.  Também não fica claro que a distância entre Lambton, onde Lizzy e seus tios ficarão hospedados e Pemberly são 5 milhas, mais ou menos 8 quilômetros.  

Se eu acho o Wickham dessa versão muito sem graça, os tios de Elizabeth são bem marcantes.  Já falei de Barbara Shelley, agora, é possível falar, também de Michael Lees, que faz um Mr. Gardiner muito simpático, gentil e bem humorado, além de inteligente.  Realmente não sei dizer se os Gardiner nessa versão são melhores, ou não, que os de 1995, só sei que eles são muito bons. Segue-se a sequência da conversa com a governanta, Mrs. Reynolds (Doreen Mantle), que se derrama em elogios ao patrão.  Em dado momento, Lizzy exclama descrente "Mr. Darcy?".  Ficou esquisito e mal educado.   Nessa versão, o retrato monumental de Darcy é mais bonito que o próprio ator.  Não sei se pintaram de verdade, mas, enfim, ficou muito realista.

No jardim, os Gardiner ficam discutindo a arquitetura do local, enquanto Elizabeth pensa que poderia ser senhora de Pemberley, mas que, ao aceitar, não lhe seria permitido receber seus queridos tios ali, ela teria que se afastar de sua família.  Aparece o cachorro de Darcy, que já tínhamos visto em Rosings, e logo o próprio.  Há aquela situação de estranheza e embaraço.  Elizabeth muito envergonhada e Darcy um tanto sem fala, mas ele logo se recupera e se retira.  Diferentemente da versão de 1995, Lizzy controla seus nervos e segue a visita com os tios.  Só que Darcy, que já estava completamente vestido e, não, como Colin Firth, os alcança.  Ele mostra que estava atento e retoma a conversa dos tios de Elizabeth sobre a arquitetura de sua propriedade e a época de sua construção.


Nessa sequência, o rosto de Rintoul está relaxado, ele consegue sorrir, e se comportar de forma amigável, dentro da linha de interpretação do ator, com gentileza e um esforço para interagir com estranhos que ele não mostrara até então.  Os tios Gardiner não acreditam que aquele moço tão gentil era a personagem desagradável que tantas pessoas descreveram, inclusive, a própria sobrinha.  Darcy convida Mr. Gardiner para pescar.  Já Lizzy, tem um comportamento de mocinha tímida nessa sequência, envergonhada, gaguejando e baixando os olhos.  É curioso o jogo nesse momento, Darcy se abre e Lizzy se retrai.  Por fim, Darcy pede para lhe apresentar sua irmã e a moça se sente honrada.

No outro dia, há toda uma preocupação de Lizzy com seu vestido, que ela usara em Rosings, mas não seria elegante o suficiente para Pemberley.  Quando Darcy e a irmã são anunciados, os tios de Elizabeth correm para guardar os vestidos, que estão esticando nas cadeiras.  Enfim, Emma Jacobs, atriz que faz a irmã de Darcy, parece muito tímida, mais que na versão de 1995, apagadinha mesmo.  Seria o trauma com Wickham?  E, claro, ela olha com muita deferência para o irmão, isso fica bem caracterizado no episódio.  Diferença em relação ao livro é que somente veremos Mr. Bingley em Pemberley, no livro, ele estava tão ansioso, que foi com Darcy e Georgiana encontrar Elizabeth.


Em Pemberley, temos cenas inventadas para ressaltar o esnobismo e superficialidade das irmãs e do cunhado de Bingley e o humor, elegância genuína e inteligência dos tios de Elizabeth.  Quando Caroline fala da transferência dos soldados, ela não toca no nome de Wickham, seguindo o livro, só que a reação da irmã de Darcy é quase nenhuma.  Não gostaria da crise histérica da versão de 1967, mas um pouco mais de emoção daria peso para a cena que é muito inferior a da série de 1995.  E Bingley, mais uma vez, parece ter medo de Caroline, ela o encara e ele se encolhe.  O Bingley dessa versão não é indeciso e influenciável somente, é bundão mesmo.

Mais tarde, a Caroline fala mal de Lizzy e toma uma cortada de Darcy.  Se David Rintoul está mais cordial nesse capítulo 5, essa atitude mais aberta não se aplica à maldosa Caroline Bingley.  A cena é muito boa, porque o olhar de Darcy para Caroline, e a atriz tem uma risada esquisita, é de tanto desprezo, que ela quase congela.  Acredito que será a última cena de Caroline Bingley na série.


E chegamos a uma cena que foi alterada para pior.  Jane manda cartas para Lizzy contando da fuga de Lydia.  Alterna-se a escrita de uma e a leitura de outra.  O recurso foi bom.  O problema é que Lizzy sai correndo feito doida com as cartas na mão para Pemberley.  No original, é Darcy quem vai em busca de Elizabeth e a encontra em prantos por causa das notícias.  Inclusive, na minha resenha da série de 1995, eu teorizei que o roteiro sugeria que ele a pediria em casamento d novo naquele dia, não fossem as cartas.  Na série de 1980, Lizzy vai correndo de Lambton até Pemberley, sozinha por OITO QUILÔMETROS, porque os tios estariam lá.  Realmente, não sei quem teve a ideia de mudar o livro, porque ficou ruim, quando a cena poderia ter sido muito melhor executada.  Ela é quase  tão ruim quando a do filme de 2005.

Depois disso, Lizzy e os tios retornam para Longbourn e temos o esforço para encontrar Lydia.  Nessa parte, o texto de Austen domina, ainda que a orddem das cenas possa ter sido ligeiramente alterada.  Mrs. Bennet em crise de nervos e culpando todo mundo menos Lydia.  Mr. Bennet culpando a esposa e a si mesmo.  Mary fazendo discursos moralistas e misóginos.  Kitty chorando por ter sido cúmplice e estar pagando pelo erro de Lydia.  Somente os tios Gardiner, Jane e Elizabeth parecem equilibrados.  Não há visita de Mr. Collins, mas uma carta.  O episódio termina com o retorno de um Mr. Bennet muito abatido e que se tranca na biblioteca.  Essa atitude reforça como a personagem é egoísta nessa versão.

Este capítulo tem mais altos do que baixos.  Por exemplo, a dinâmica entre as irmãs Bennet foi muito boa.  Mrs. Bennet estava deliciosa alternando-se entre excitada e histérica.  Os Gardiner são excelentes coadjuvantes e, finalmente, Elizabeth começa a  perceber que tem sentimentos por Darcy.  Já o moço tem mais micro expressões faciais neste capítulo do que nos três anteriores.  O ponto mais baixo fica por conta da corrida de Elizabeth, totalmente desnecessária essa alteração na história.

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