domingo, 18 de julho de 2021

O escândalo sexual que destruiu a vida de duas professoras na época de Jane Austen e que virou filme com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine

Estava nas minhas andanças pela internet e acabei descobrindo algo que não sabia sobre um que gosto muito, Perfídia (The Children's Hour - 1961), na verdade, bastava ler o verbete completo da Wikipedia, mas nunca tinha lido.  Resumindo, o filme, que é baseado em uma peça de  Lillian Hellman, primeira mulher a ser indicada sozinha ao Oscar de roteiro adaptado, fala da destruição da reputação de duas professoras (Audrey Hepburn e Shirley MacLaine), donas de uma escola para meninas, quando uma aluna, repreendida por seu mau comportamento, inventa para a avó que viu as duas professoras se beijando.  A velha senhora, uma mulher rica e influente, espalha a história pela comunidade e o filme acompanha o drama das duas mulheres, o processo judicial, o desgaste do relacionamento de uma delas com o noivo (James Garner), até que a verdade é revelada e elas vencem na justiça, mas é tarde demais e a tragédia acontece do mesmo jeito.  É um filme pesado, muito mesmo.

Eu conheci o filme no documentário The Celluloid Closet (1995) que mostra e discute a forma como Hollywood representou as pessoas do grupo LGBTQIA+ desde seus primórdios até o inicio dos anos 1990.  E comprei o DVD.  Tenho que resenhar o filme e o documentário, falha minha.  The Children's Hour, a peça, é de 1934. A primeira adaptação para o cinema veio em 1936 com o nome de These Three.  Para se adequar ao rígido, e recente,  Código Hays, a acusação de uma relação lésbica foi substituída por algo heteronormativo.  A aluna acusa uma das professoras de ter um caso com o noivo da amiga, o que justifica o "três" do título.  Enfim, enquanto estava escrevendo este post descobri que Keira Knightley e Elizabeth Moss participaram de uma recente montagem da peça.  Talvez, fosse hora para uma nova adaptação para o cinema.  Se fosse com essas duas, estaria ótimo.

Enfim, a história de The Children's Hour foi inspirada em um caso real, a escocesa Jane Pirie (1779 -1833) e inglesa Marianne Woods (1781-1870) abriram uma escola exclusiva para meninas em Edimburgo em 1809.  Elas eram muito jovens, investiram, muito provavelmente, um dinheiro que poderia ser o seu dote, em um momento no qual mulheres que trabalhavam não eram bem vistas, ou eram alvo de pena, ou de desprezo, basta tomar pelos livros de Jane Austen, que são contemporâneos desse caso.  Tudo ia bem, até que em 1810, uma aluna, Jane Cumming, contou para sua avó, Lady Helen Cumming Gordon, que as professoras, que dividiam a cama com ela (*Sim, dividiam, e isso não foi motivo de escândalo, então, a situação era aceitável.*) de a acordarem várias vezes durante a noite, porque estavam fazendo sexo.  

Eu sempre acho curioso como certas pessoas ficam horrorizadas quando alguma produção desse período coloca situações sexuais, como se as pessoas fossem absolutamente assexuadas, projetam a moral vitoriana, como se os próprios vitorianos fossem o que queriam parecer ser, em outros períodos sem nenhum problema. Mas não vou me perder.  A avó de Cumming, de quem falarei daqui a pouco, tirou a neta da escola e foi seguida por outros responsáveis.  O sonho de independência de Pirie e Woods estava destruído.  Marianne Woods dizia ignorar o sentido das próprias acusações, segundo o testemunho de uma mãe.

Marianne Woods e Jane Pirie processaram Lady Helen Cumming Gordon por difamação e o caso foi a tribunal em 15 de março de 1811. Apesar de terem ganho o caso em 1812, Lady  Helen apelou à Câmara dos Lordes por causa do nível dos danos que acusadora sofreria, o apelo acabou rejeitando em 1819.  As professoras haviam reivindicado com sucesso uma indenização de 10.000 libras de sua rica acusadora, no entanto, com o longo processo, elas ficaram economicamente arruinadas, após pagarem os honorários legais o que restou para cada uma foi aproximadamente 1000 libras.  Marianne Woods mudou-se para Londres e conseguiu um emprego na Camden House Academy, onde ela havia ensinado anteriormente.  Jane Pirie permaneceu em Edimburgo e não conseguiu encontrar emprego, e "possivelmente teve um colapso nervoso".  A vida das duas estava destroçada.

Falemos de Jane Cumming, porque ela é uma personagem importante, também.  Jane era filha bastarda de um inglês, funcionário da Companhia das Índias Orientais, graças à influência do pai, com uma mulher indiana com quem ele nunca se casou.  Quando a menina tinha quatro anos, seu pai comunicou à avó da menina da sua existência, mas ele morre pouco depois e Jane é enviada para escolas cristãs na Índia até que a menina é trazida para a Inglaterra em 1802.  Seu avô estava muito doente e a avó, agora responsável por sua educação, decide que ela será treinada para ser chapeleira, ou seja, em um primeiro momento, ela é somente uma agregada na família.  Com a morte do marido, Lady Helen se muda para Edimburgo em 1807 e, dois anos depois, após sonhar com Jane, decide trazê-la par a capital e legitimá-la.  E Jane é mandada para a escola.  

Segundo a Wikipedia, o testemunho de Jane foi recebido com argumentos racistas de que sua criação na Índia a expôs ao conhecimento sexual precoce e deturpado. Citando o Express "Os sete juízes eram uma equipe heterogênea, incluindo um bêbado e outro juiz ausente na maioria dos procedimentos. A maioria exibia uma mistura de racismo, preconceito de idade e sexismo."  O fato é que antes de denunciar as professoras, Jane havia reclamado de se sentir deslocada e rejeitada na escola.  É possível que efetivamente ela estivesse.  Apesar das bobagens que séries como Bridgerton querem impingir à audiência, o racismo não seria diluído por um casamento real feito por amor. Jane, mesmo se tivesse inventado tudo, ainda era uma vítima do racismo da sociedade em que estava inserida.

Enfim, Jane se sentiu intimidada pela corte e caiu em contradição, chorou várias vezes.  Ainda segundo o Express: "Os juízes não conseguiram entender como as duas professoras poderiam ter “dado prazer um ao outro”, nem como uma jovem poderia ter inventado essa história por conta própria. Um, Lord Meadowbank, declarou o sexo entre mulheres “igualmente imaginário como a bruxaria, a feitiçaria ou cópula carnal com o diabo”.  (...) A empregada escolar Charlotte Whiffin afirmou ter visto, através de um buraco de fechadura, as professoras se beijando em um sofá na sala de estar. Mas o sofá não podia ser visto pelo buraco da fechadura. Mais tarde, Whiffin negou a história."

Não há como se posicionar a respeito do caso das professoras, se elas de fato eram mais que amigas, ou, não, mas, pelas informações que temos, há outras certezas possíveis.  Uma dela é que tal acusação, especialmente, em relação à professoras, poderia destruir sua reputação como educadoras.  Woods conseguiu se empregar novamente, mas seu status caiu muito.  Outra certeza é a de que muitos homens consideravam a possibilidade do sexo entre mulheres absurda, sem falo, não há sexo, nem prazer.  A invisibilidade lésbica, no entanto, poderia ser uma faca de dois gumes, porque assegurou para alguns casais a possibilidade de existirem desde que não assumissem publicamente seu afeto, ou tentassem "usurpar" o lugar masculino.  

Concluindo, deixei muito a dever no mês do Orgulho, não fiz post algum específico, mas não poderia deixar essa história passar.  Seria muito interessante se alguém contasse a história das professoras, a que se passou nos tempos de Jane Austen.  Obviamente, eu entendo a necessidade de contar histórias felizes, ou que pelo menos mostrem pessoas LGBTQIA+ vivendo as vidas normais como as que os hetero podem ter na ficção.  É por isso que eu critico, mas entendo, o furor em relação à rainha Charlote de Bridgerton, só não podem querer usar a fantasia para anular a História e as lutas e sofrimentos de gerações de pessoas para que outras pudessem, sim, ter o direito ao seu espaço na ficção.

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