quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Muito Além do Mangá: Comentando Orgulho & Preconceito da Disney Italiana

Anteontem, recebi e li o volume Orgulho e Preconceito da coleção Graphic Disney da Panini.  Trata-se de uma edição de luxo de uma adaptação feita pela Disney Itália do clássico de Jane Austen, que tem o mesmo nome e foi lançado em 1813.  A autoria do material é do casal (*eles são casados mesmo*) Stefano Turconi (arte) e Teresa Radice (roteiro).  O volume, que na Itália faz parte da coleção Disney De Luxe e se chama Orgoglio e Pregiudizio, saiu no ano passado, ou seja, a Panini do Brasil trouxe rapidinho.  Sendo Jane Austen e Disney, a atenção está garantida.

Na página da Panini temos um resumo do volume "Elizabeth Pennet (Margarida) vive com as irmãs, a avó e uma tia numa fazenda alugada no interior da Inglaterra no início do século 19. Nesse ambiente, ela conhece Donald Duckcy, um aristocrata requintado com quem terá um turbulento relacionamento à base de desencontros a atritos -- mas o amor prevalecerá."  Como fã de Jane Austen, fiquei curiosa e conhecendo um pouquinho do currículo de Turconi e Radice, decidi arriscar.  Vamos aos pontos fortes e fracos do volume.

Primeira coisa, o roteiro colocou a própria Jane Austen como personagem e adiantando o seu livro, que ainda estava sendo escrito, para Martha Lloyd, a melhor amiga da autora depois de sua irmã Cassandra.  Sentadas e tomando um bom chá, Austen comenta que sua obra terá três volumes e que pensou em colocar o título de First Impressions (Primeiras Impressões), mas mudou de ideia.  Outra invenção de Teresa Radice foi modificar a família Bennet.  O pai da meninas é substituído por Elvira (???), que eu acho que é a vovó Donalda, e Lalá, Lelé e Lili (April, May e June)  se transformaram em Mary, Kitty e Lydia.  Sendo elas crianças, a trama da sedução de Lydia está fora da história por princípio.  O papel de Mrs. Bennet é de tia Bridget, não sei quem é a personagem no universo da Disney, mas ela cumpriu muito bem a função.


Outra mudança que funcionou muito bem foi colocar Maga Patalógica como Miss Bingley, ou Miss Bingpat, e o  Professor Ludovico ficou excelente como Mr. Collins.  O primo Ludovinis é um intelectual obcecado por livros e por procurar tesouros para Lord De Bourgh, que é o Tio Patinhas, claro.  Voltando, a parte de Ludovinis pedindo a mão de Elizabeth foi uma das melhores coisas do volume.  E ele é apresentado como um velho, afinal, Ludovico é velho, e quando ele se ajoelha, quase não consegue levantar e temos o som de nozes sendo quebradas.  Outro ponto alto é a dinâmica entre os protagonistas, Donald e Margarida funcionaram muito bem como Darcy e Elizabeth.




E a parte de Rosings foi divertida, porque a mansão de Lady Catherine de Bourgh foi mesclada com a de Tio Patinhas e a própria moedinha nº1 foi muito bem costurada na história.  Qual o interesse de Miss Bingpat por Darcy?  Roubar a moedinha do tio dele, claro!  E conseguiram manter uma fala de Mr. Collins sobre Lady Catherine apreciar a diferença entre as classes perfeitamente na boca de Ludovinis.  Mesmo que a interação entre o tio de Darcy e Elizabeth tenha deixado a desejar, falo disso daqui a pouco, foi interessante essa parte da história.

Outro ponto a se elogiar é a arte do quadrinho.  Stefano Turconi que tem um traço que é ao mesmo tempo bonito e dinâmico.  E o uso das cores é excelente, também.  Os extras do volume são exatamente os estudos de cores e da capa.  O desenhista coloca os esboços das capas e temos um artigo explicando a pesquisa histórica em quadros de época para que fosse criada uma identidade visual adequada.  Entre uma capa interna, ou externa, prevaleceu a que mostrava o campo e um Darcy-Donald um tanto desconfiado.  Aliás, falando em Darcy-Donald, a opção foi em pintar a personagem como tímida.    Influência direta da interpretação do filme de 2005.  

Falamos dos prós, vamos aos contras, porque houve bastante coisa que eu não gostei, ou que acredito que poderia ser melhor.  Primeira coisa, se você não conhece o original, talvez não consiga se divertir tanto com o volume.  Segundo, perderam uma chance de ouro ao não colocar Mickey e Minnie como Bingley e Jane.  Eles eram perfeitos para isso.   Aliás, achei a caracterização de Jane ruim.  A mais bonita e elegante das irmãs me pareceu descabelada e meio caipira.  Mas quando ela monta a cavalo está atravessada na sela, ganhou uns pontos aqui.  Peninha como Bingley é o alívio cômico permanente.

Tivemos pouco de Tio Patinhas.  Em Rosings não colocaram nenhuma das cenas do livro em que a tia, porque no livro é uma mulher, de Darcy confrontando Elizabeth.  Quando o velho aparece na casa da mocinha, a sequência também não consegue ser forte o suficiente.  A cena da carta de Darcy depois da primeira declaração e ela mesma, não foram lá tão impactantes, também.  Gastão é Wickham na adaptação e não é um sedutor, mas um ladrão.  Não vou escrever o que ele rouba de Lydia, mas, enfim, é muito diferente do original.

Enfim, mas o problema com a irmã de Darcy é exatamente por causa de um roubo.  O problema é que Georgiana não aparece em momento algum.  E ela é importante.  Não incluíram, por exemplo, a fala célebre de Darcy descrevendo o que seria uma mulher ideal para ele.  Tanto que o passeio pela sala de Miss Bingpat e Elizabeth parece incompleto.  Ela deveria aparecer.  Outro ponto ruim é a mudança na personalidade de Charlotte Lucas, ou, no caso da adaptação, Clarotte.  No original, ela se casa com Mr. Collins, ou Mr. Ludovinis, nesse caso, por cálculo, por não ter perspectivas de um matrimônio e não querer ficar solteirona.  Na adaptação, ela parece fascinada pelo sujeito.  Enfim, e quando Bridget cita que o jardim das Pennet é maior que o dos Lucas, não faz sentido, porque somente Clarotte aparece.  E é Elizabeth que se convida para ir visitá-la depois de casada, como se não houvesse certo constrangimento com Ludovinis.

Concluindo, daria um 7,0 de 10 para o volume e a nota se deve mais à arte do que ao roteiro.  Gostei muito da arte, de Elizabeth, da troca do pai pela tia Elvira, mesmo o Darcy de Donald funciona e algumas passagens ficaram ótimas, mas falta alguma coisa.  Pode ser excesso de exigência da minha parte?  Sem dúvida.  Eu não costumo ler material Disney e, talvez, esperasse demais.  Recomendo a leitura para quem é fã de Disney e de Orgulho & Preconceito, caso tenha curiosidade por mais esta adaptação, mas eu mesma talvez não tivesse adquirido o material caso tivesse lido antes.  Espero que a Júlia queira dar uma olhadinha, mas, como escrevi, é preciso conhecer o original para aproveitar integralmente o volume.

Outra coisa, a qualidade do volume em si, a parte gráfica e encadernação são excelentes.  É bonito e vale o que estão cobrando.  O preço no Amazon, e o link está lá no começo do texto, é menor que o da Panini.  Eu comprei na página da editora.  Para quem coleciona Disney, ou coisas relacionadas à Jane Austen é material obrigatório e não vai fazer feio na sua coleção.

1 pessoas comentaram:

Uns adendos Disney.

Elvira é o nome verdadeiro da Vovó Donalda (Elvira Pato). Isso foi revelado pelo Don Rosa há alguns anos.

Já a Brigite (Brigitta no original) é uma personagem da Disney italiana criada pelo grande Romano Scarpa. Ela é uma senhora de meia idade apaixonada pelo Tio Patinhas! Não me pergunte por que, já que o velho não é exatamente simpático e vive dando foras nelas.

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