sexta-feira, 3 de abril de 2026

Série da ITV com Elizabeth I trans: Vem aí mais polêmica vazia e gritaria!

Hoje fiquei sabendo por  um artigo de um jornal britânico que o canal ITV está produzindo uma série em seis partes chamada Majesty, focada em Elizabeth I (1533-1603).  No tal seriado, o maior monarca da Dinastia Tudor seria  uma mulher trans.  O artigo, que tem um paywall que eu não consegui quebrar, acusava a série de ser misógina, porque pensar uma Elizabeth trans reforçaria a ideia de que uma mulher não poderia ser um governante forte e competente.  Fui lá  investigar essa história, porque, se a série chegar a sair mesmo, teremos muito bate-boca, confusão e transfobia.

Muito bem, não sabia, mas existe uma teoria da conspiração do século XIX que afirma que Elizabeth morreu aos 9 anos e foi substituída por um menino que se parecia fisicamente com ela.  O ano era 1542, havia peste em Londres, e a menina e os funcionários responsáveis por ela deixaram a capital e foram para Overcourt House na vila de Bisley, em Cotswolds.  O rei os encontraria lá, mas a governanta da princesa, temendo a reação de Henrique VIII ao saber da morte da filha, fez a tal troca.  O Mito do Menino de Bisley ('Bisley Boy’ myth) surgiu em meados do século XIX, quando um túmulo de uma menina com roupas da Era Tudor foi encontrado na vila de Bisley e o vigário local chamado Thomas Keble inventou a história.

A história tornou-se parte do folclore local e poderia ter sido esquecida se não tivesse sido revisitada por um autor famoso.  Em 1910 ela ganhou notoriedade, quando foi mencionada por Bram Stoker, criador de Drácula, em seu livro "Impostores Famosos". Teóricos da conspiração a aproveitaram como explicação para o fato da Rainha Virgem se recusar a casar e ter filhos.  Ao que parece, a tal história não se montou, como estão querendo alardear, por não se acreditar que uma mulher pudesse ser uma governante tão impressionante, afinal, a Rainha Vitória estava ali aos olhos de todos, mas por ela deliberadamente ter evitado o casamento, algo que  poderia denunciar a sua identidade masculina.  Por qual motivo uma mulher, ainda mais correndo o risco de ter o poder usurpado por um marido, não iria querer se casar, não é mesmo?  Maternidade  é tudo  para uma mulher... 

Segundo a página Elizabeth Files, em um artigo de vários anos atrás, Bram Stoker foi muito além do surto e defendeu que o menino seria Henry Fitzroy (1519-1536), Duque de Richmond, filho de Henrique VIII fora do casamento e morto aos 17 anos, mesmo o rapaz sendo  bem mais velho que Elizabeth.  Prefiro a versão em que Henry Fitzroy virou vampiro e escritor de romances Harlequin (*no seriado de TV, ele virou quadrinista.*).  Muito bem, a proposta da série, anunciada em 2024, é a seguinte: "Majesty é uma história alternativa emocionante, divertida e com um toque contemporâneo, sobre como três forasteiros tentam sobreviver enquanto escondem um segredo que, se descoberto, abalaria a Inglaterra até seus alicerces. Majesty nos permite nos divertir com a história ao mesmo tempo que ilumina quem somos hoje. Esta série é a pura realização de um desejo: como pessoas dedicadas ao bem comum de repente se encontram em uma posição de fazer a diferença.". 

Vejam que isso poderia gerar uma série ficcional despretensiosa, que seria assistida e esquecida sem maiores problemas. Isso se acabar saindo, porque faz bem uma década que a ITV anunciou uma nova versão de Orgulho & Preconceito, que pela primeira vez colocaria na tela todos os sentimentos conturbados e eroticidade da obra original (!!!!) e estamos esperando essa bomba até agora.  Enfim,  vivemos um momento de  guerra cultural e, por conta disso, há muita gente surtando na imprensa inglesa e em sites especializados em séries de época por conta dessa série.  É como se um seriado pudesse reescrever a História.  Está me lembrando o escândalo por causa da Ana Bolena negra em uma série color blind (*1 - 2*) e como muita gente não se atenta para isso e fica achando que o seriado estava dizendo que a mãe de Elizabeth era negra.

A vida de Elizabeth é muito bem documentada.  O corpo de um rei ou rainha era público e os Tudor tiveram os seus particularmente bem monitorados.  Sabemos o que comiam, o que vestiam, o preço de suas roupas, temos informações sobre suas doenças e, no caso de Elizabeth, até seus ciclos menstruais.  Enquanto ela foi vista como noiva em potencial por vários príncipes europeus, os embaixadores buscavam registrar os ciclos da rainha e tudo o que pudesse sugerir a sua possível fertilidade.  Comentei sobre isso tempos atrás quando falei do filme da Rainha Cristina da Suécia, que menstruava, ainda que pudesse ser intersexo.  Não há dúvidas de que Elizabeth era uma mulher cis.

A  rigor considero a  leitura de  que a série será ofensiva às mulheres fruto da tensão existente na Inglaterra hoje em relação à questão das pessoas trans.  E eu duvido que tenhamos mulheres trans envolvidas na produção para além da atriz que fará a protagonista.  E o Mito do Menino de Bisley foi criado e ampliado por homens cis.  Agora, é  fato que há sempre gente disposta a pegar  um mito ou teoria da conspiração e transformar em verdade pessoal, headcanon histórico, por assim dizer.  Vide a Rainha Charlotte ser negra ou que Marx e Engels eram um casal.

O artigo do Them comenta que há acadêmicos que teorizam que Elizabeth seria não-binária por  chamar-se a si mesma de rainha, rei ou príncipe em momentos diferentes.  Bem, ela ocupava um lugar muito complicado e tinha consciência disso.  Precisava se remeter à  figura paterna para justificar sua posição, porque além de haver a preferência por um monarca do sexo masculino, sua origem a fazia ser ilegítima aos olhos de vários de seus súditos.  Ser mulher não era um bônus para  ela, mas isso não sugere nada em relação a sua identidade de gênero, só que ela era uma mulher em um lugar de homem e que poderia ser, mesmo assim, tão capaz quanto qualquer homem.  E isso transparece no famosíssimo discurso de Tilbury, em que Elizabeth fala às suas tropas antes do embate com a Invencível Armada, em 1588.  Ele está em qualquer série ou filme sobre Elizabeth e a frase famosa é "Sei que tenho o corpo de uma mulher frágil e delicada, mas tenho o coração e a coragem de um rei.".

De novo, a série que está por vir trata-se de uma ficção como tantas outras e, não, revisionismo histórico reacionário, como argumenta o artigo do site Unheard.  É um exercício de imaginação histórica que falará mais sobre os nossos dias do que sobre o passado.  Elizabeth continuará lá, magnífica, poderosa e uma mulher que se considerava única, porque tinha corpo de mulher e coração de homem (*ou assim ela queria ou dizia acreditar*).  Aliás, ninguém coloque na cabeça que Elizabeth era defensora dos direitos das mulheres ou da subversão dos papéis de gênero.  Simplesmente, ela herdou a coroa e deveria levá-la com a dignidade de um Tudor, honrando tanto seu pai quanto sua mãe.  

Mas, sim, essa série pode fazer com que gente tome a teoria da conspiração como verdade de um lado e que no outro o pessoal alucine acreditando que a peça de ficção é uma agressão às mulheres cis, enquanto os tablóides sensacionalistas, como o The Sun, lucrarão muito com isso.  E aposto que será color blind  para fechar o pacote, o que vai deixar ainda mais gente urrando de raiva.  Mais uma coisa, só não sei como uma situação limite dessas, de risco iminente de descoberta poderá ser vista como DIVERTIDA.  Eu prefiro esperar para ver se sai mesmo e o quão doido esse negócio será. 

1 pessoas comentaram:

Não aguento esse povo. "Ah, porque colocar Elizabeth como trans significa defender a ideia de que uma mulher ["de verdade", segundo eles] não é capaz de ser uma governante forte". É cada uma que são duas... Enfim, simplesmente patético esse show de transfobia. E ótima postagem como sempre, Valéria! Inclusive, depois do seu texto sobre Ikokku Nikki, comecei a ler o mangá e estou amando! <3

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