quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Não faltou só Neymar, faltou um time inteiro"


Não queria, mas preciso voltar ao assunto Copa do Mundo.  A frase que serve de título ao post não é minha, mas da âncora do Jornal da Record, Adriana Araújo.  Eu faço uma pequena correção, nós tínhamos goleiro, não tivéssemos, teria sido, muito, muito pior.  Júlio César é, talvez, o único inocente em campo. Eu tentei assistir ao jogo, mas depois de cinco gols em dezoito minutos, ou quatro gols em cinco minutos, ficou difícil.  Agora, quando for explicar Blitzkrieg durante uma aula de II Guerra terei um grande exemplo "lembram do jogo Brasil X Alemanha na Copa do Mundo"? Só espero que a molecada não comece a mostrar sintomas de stress pós-traumático.  

Não esperava muito da seleção.  Se quiserem confirmar, há meu último post, e podem resgatar meus twitts e o que eu escrevi no Facebook.  Identifiquei desde o primeiro momento um time desorganizado taticamente, depois, no jogo com o Chile, vi um grupo prestes a desmoronar emocionalmente – sim, está rimando – mas de forma alguma tinha como certa uma derrota para a Alemanha.  Eu imaginei que poderíamos ganhar, ou perder, e que seria um resultado apertado no tempo regulamentar.  1X0, 2X0, 2X1 ou, no máximo, 3X2.  Não imaginei nunca na vida ver o que vi.  Uma equipe de jogadores profissionais, não meninos, desamparados pelo técnico (*o que foi aquilo que Scolari e Parreira fizeram?*) e incapazes de esboçar qualquer reação.  Qualquer.  


Desculpe quem vem com o papo de que perder é parte do jogo, porque não foi uma derrota, foi uma humilhação.  Nunca uma seleção sofreu tamanha goleada em uma semifinal.  Nunca uma seleção anfitriã foi derrotada por placar semelhante.  Nunca uma seleção brasileira foi humilhada desta forma.  Nunca!   E não adianta culpar só a comissão técnica.  Os jogadores, eu repito, todos profissionais muito bem remunerados e experientes, foram responsáveis pelo tenebroso resultado que vai traumatizar toda uma geração de crianças arrastadas por esse circo midiático.  

A camisa amarela que viu tantas vitórias e nunca – ô, palavrinha repetida nesse texto – uma derrota tão humilhante foi vilipendiada hoje.  Perder era uma forte possibilidade, ainda mais depois dos dois desfalques, mas não era um destino.  Um pouco de raça poderia ter ajudado a impedir essa desgraceira sem tamanho.


Aqui em casa, sou eu quem gosta de futebol.  Gosto, torço para o meu Fluminense, e tudo mais.  Meu marido despreza futebol, mas foi contaminado por um estranho frenesi.  Eu queria desligar a TV, ele queria ver o jogo.  Depois do primeiro gol, pegou o telefone e ligou para o irmão no Rio “O juiz pode apitar o final do jogo, porque o Brasil já perdeu”.  Achei um bruto exagero, mas em quatro minutos isso se confirmou.  Desejei ardentemente que o jogo pudesse terminar no meio, pois não vi nenhum movimento para sequer estancar a hemorragia.  Temi por um 10X0.  Meu marido, histérico, mas sensato, ponderou que o próprio técnico da Alemanha daria ordem para parar, que não fizessem mais gols para não atrair a animosidade do público e produzir uma antipatia desnecessária.

No fim das contas, o público ficou anestesiado.  Eu acreditava que, se o Brasil fosse derrotado em qualquer jogo, quebrariam o estádio.  Não creio que foi a boa educação que impediu isso, mas o choque.  Estão acontecendo alguns incidentes pelo país, há vários relatos, mas nada tão dramático como eu imaginava.  O trauma é maior, a humilhação é sem tamanho.  O mais feio é saírem queimando bandeiras do Brasil.  Mas isso já aconteceu antes, o que eu nunca tinha visto – não sei se rolou em 1970, mas eu não era nascida – é esse patriotismo ostentação de cantar hino nacional aos berros à capela, de vestir a bandeira, e por aí vai.  


Aprendi algumas coisinhas lendo os livrinhos e revistas dos Testemunhas de Jeová, uma delas é que oração não ganha jogo, afinal, tem gente orando dos dois lados. Povo tem que aprender isso. Não faltou oração, faltou aplicação, equilíbrio emocional, garra e, claro, consistência tática.  Gritar o hino nacional, chorar cachoeiras dignas de anime e entrar fazendo trenzinho também não ganha Copa, só é ridículo mesmo. Espero que não repitam isso nunca mais.  A camisa do Neymar na hora do hino e foto, a história de que a alma dele estaria em campo (*Alma?  Neymar morreu????*), também só atrapalharam.  E, pior, não fomos eliminados, temos ainda que entrar para disputar o terceiro lugar.  Há clima?  Não sei mesmo.

Meu marido ficou clamando que nenhum dos que entraram no campo ontem deveria poder vestir a camisa da seleção de novo.  Há quem diga que esta seleção que aí está, destruída emocionalmente, deve servir de base para o próximo mundial. Seria justo punir um David Luiz?  Mas ele também não jogou nada nessa partida. Eu realmente não sei.  Só sei que presenciei algo inimaginável.  Pior foi a resposta de certos jogadores, especialmente, de alguns que nada ou pouco fizeram durante os jogos.  “Foi fatalidade.”  “Coisas do futebol.”  “Quem critica é que é o perdedor.”  Sério isso?  Qual será o futuro da seleção brasileira?


A cereja do bolo, para além do mico da Claro Brasil, que colocou no ar a propaganda feita para a vitória da seleção, falando em superação sem Neymar, é a tentativa de politizar ainda mais o evento.  Futebol e política no Brasil andam de braço.  Afinal, somos uma infeliz nação que parece só ter um esporte.  O problema é a turma que quer culpar o PT e a presidenta pela derrota.  Comissão técnica, CBF, jogadores, OK, mas o que Dilma tem com isso?  Que mal faria ela ao entregar a taça ao vencedor? Eu, ein... 

O outro lado  o pessoal que quer defender o PT a todo custo  quer relevar a humilhação – sim, meu povo, não foi somente uma derrota – com imagens de troféus simbolizando nossos mundiais; ou exaltando a Alemanha, que jogou um feijão com arroz sem precisar brilhar; ou que perder um jogo não é nada, que a Alemanha perdeu duas guerras mundiais (!!!!!); acusando de falta de patriotismo quem tenta rir dessa desgraceira.  Félix – essa personagem icônica graças ao Mateus Solano – aliviou e muito a minha tristeza.  


De qualquer forma, para além do massacre, que nunca será esquecido e que em nada se compara a honrosa final de 1950, há o espetáculo.  Sim, foi, ainda é, uma Copa bonita.  Talvez a melhor de todos os tempos.  Não por esforço único do governo, ou da FIFA, mas pelo calor humano e alegria dos que aqui residem e dos que vieram, pelo empenho das seleções envolvidas, pelo choro legítimo, pelas justas demonstrações de euforia pela vitória, pelos recordes... E aí começa o problema, porque um deles é esse placar horroroso.  Triste, muito triste... Ainda bem que Júlia terá lembrança zero desta Copa.  Já eu nunca esquecerei dessa desgraceira, desse 7X1 vexatório.  Porque falem o que quiserem, não há como considerar isso um resultado normal, não em semifinal, não entre seleções do porte de Brasil e Alemanha.

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1 pessoas comentaram:

Não torci por essa seleção desde o início, e sempre achei que, caso ganhassem, seria por pura sorte ou, quem sabe, a FIFA poderia ter garantido o resultado. Não jogou bem nenhuma partida, mostrou o jogo duro, a catimba, enfim, nada que provasse que merecesse ser a melhor do mundo, mesmo diante de times menores, mas aplicados, como a Costa Rica, a Colômbia e - por que não? - a Argélia. Quando vi que jogariam contra a Alemanha, pensei comigo mesma: "Agora vamos ver se esse campeonato está vendido ou não." Não acreditei em nenhum momento que conseguiriam vencer.
Mas nunca imaginei que seria daquela forma, daquele jeito! Fiquei perplexa com o que assisti. E esse choque não foi só meu, ou do Brasil, mas dos alemães, inclusive dos jogadores, que saíram do campo quase constrangidos pelo o que aconteceu ali.
Culpados? A conta pesa maior no bolso da equipe técnica, que hoje não teve nem a decência de admitir que cometeu erros, e tratou o vexame de ontem como um acidente de percurso. Os jogadores também, afinal, como você lembrou, são todos profissionais, todos jogando em time de ponta nos campeonatos europeus.
Você mencionou o David Luiz. Para mim, ele foi a estampa do desespero da seleção em jogo. Zagueiro, corria na frente do campo, tentando armar jogadas, ocupar posições que não eram dele. E, por sorte, quase não foi expulso, quando tentou jogar a bola no rosto de Müller, num lance de total descontrole. Espero que ele se recupere, pois é um bom jogador.
Outro culpado para o que aconteceu? A CBF, que transformou a seleção num produto a ser vendido, e não num time de futebol; que sucateia o futebol brasileiro, que tem campeonatos e formação de times muito abaixo do padrão mundial, que vive de uma glória que já passou.
Mas vergonha, vergonha mesmo, eu senti da torcida. Vaiou, xingou os jogadores, gritou olé, quase 90 minutos depois de ter berrado o hino nacional a plenos pulmões. Uma falta de respeito, de educação, ímpares. Mas o que podemos esperar de quem xingou a presidente em um evento mundial, que vaia o time adversário quando este pega a bola, que vaiou o hino do Chile?! Toda aquela pataquada patriótica não passou de uma grande falsidade, e a grande promotora desse clima, sobretudo da cortina de fumaça sobre o quanto a seleção era maravilhosa - leia-se Rede Globo de Televisão - agora lava as mãos, e se junta ao grupo que aponta as milhares de falhas da seleção brasileira, falhas que sua linha editorial fez questão de ignorar, amenizar.
Se fica uma lição dessa história toda é esta: o "jeitinho brasileiro", seja no futebol ou no que for, é uma grande falácia, e o que importa é o trabalho duro, a perseverança e a força de vontade.
E que a Argentina seja a campeã!

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