terça-feira, 30 de junho de 2015

Comentando Divertidamente (Inside Out, 2015)


Hoje, finalmente consegui assistir Divertidamente, Inside Out no original, o novo longa da Disney-Pixar.  Embora não tenha visto alarde sobre isso, foi mais um filme do estúdio protagonizado por personagens femininas, Alegria, Tristeza e Riley, principalmente.  No geral, gostei tanto do filme, muito simpático, com momentos tocantes, e do curta que o precedeu, o dos vulcões cantantes.  Chato – e já virou regra – é a falta de opção, ou é dublado, ou é dublado.  Sei que alguma coisa se perdeu com isso, piadas que talvez me fizessem rir bem mais, já que o humor do filme não me tocou muito.  De qualquer forma, é um filme interessante sobre as dores do crescimento, das mudanças  que abalam nossas seguranças, vistos a partir do interior, de dentro das nossas cabeças. 

Divertidamente conta a história de Alegria e outras “emoções” básicas, Tristeza, Medo, Raiva, Nojo, que habitam dentro da cabeça de uma menina de 11 anos Riley. Na verdade, habitam e guiam as reações dessa menina desde seu nascimento.  Riley é feliz em Minnesota, tem amigos, pais amorosos, joga hockey muito bem, e quem comanda suas emoções é a Alegria.  A vida de Riley e de suas emoções ia muito bem até que, por motivos de trabalho, seus pais decidem se mudar para São Francisco.  A menina fica abalada e tudo piora quando a Tristeza tenta ajudar “arrumar” as memórias da menina na sala de comando e acaba contaminando e perdendo memórias base para a construção da personalidade de Riley.  



As memórias mais preciosas da menina podem ser destruídas e Alegria se precipita para salvá-las. Resultado?  Tanto ela, quanto a Tristeza, acabam saindo da sala de comando e se perdendo dentro do labirinto que é a mente de Riley.  Como poderão voltar?  Como evitar que a crise comprometa o emocional de Riley “para sempre”?  Enquanto isso, na sala de comando, Raiva, Nojinho e Medo tentam segurar a situação até que Alegria retorne, só que as coisas vão mal... Muito mal!

Enfim, eu amei o trailer de Divertidamente e reafirmo que os trailers estão ficando cada vez mais interessantes que os filmes.  Não que a nova produção da Pixar tenha problemas, ela é um produto bem acabado e simpático.  Tem seus momentos comoventes, especialmente, quando expõe a fragilidade da criança, ou adolescente, que quase nunca é consultado pelos adultos quando grandes decisões são tomadas.  



Riley, seu mundo organizado, é desfeito pela ação dos pais que, pelo menos no início, não percebem que estão fazendo as coisas mais difíceis para a menina, ou nem estão percebendo as suas dificuldades.  Talvez, a ansiedade da Tristeza, que era alienada pelas suas companheiras, tenha a ver com isso.  O abraço dos pais depois lá no clímax do filme é um dos pontos altos para mim.  E, bem, agora que sou mãe, que tenho uma menina, essas coisas me tocam ainda mais.

Se eu tivesse que eleger dois ou três ou mais momentos tocantes, eu teria que citar a memória favorita da Tristeza, que Alegria, sempre muito hiperativa e egocêntrica demorou a compreender; o sacrifício do amigo imaginário de Riley; e a perda das memórias queridas.  Eu tenho muito medo de perder a memória, de não lembrar, no entanto, é fato que muitas das minhas lembranças se foram.  Quantas memórias são guardadas e quantas descartadas?  E, embora o filme não enverede por aí, como lembramos das coisas é algo muito, muito pessoal.  Memórias são interpretações do passado.  Eu me lembro de alguns acontecimentos de uma forma, meus pais, meu irmão, de outra.  


Como historiadora me recuso a rotular qualquer memória pessoal de mentirosa, simplesmente, porque destoa da minha.  O fato é que nosso cérebro não consegue manter todas as nossas memórias e o filme trabalha bem a questão ao separá-las não somente por seus sentimentos dominantes – alegria, raiva, medo, nojo, tristeza – mas pelo peso que terão na personalidade da pessoa.  Houve até um artigo sobre psiquiatras infantis que assistiram o filme e fizeram ponderações positivas.  Está em inglês.

As partes mais engraçadas, bem, eu ri pouco, mas a parte do estúdio dos sonhos foi muito bem bolada.  Apesar das emoções protagonistas, há vários outros funcionários trabalhando na mente de Riley, inclusive personagens de suas lembranças boas e ruins.  O unicórnio estrela de cinema e o palhaço assustador empurrado para o inconsciente, uma câmara fechada, onde ficam “aqueles que dão problemas”, tiveram uma participação bem interessante.  Já as emoções básicas estão controlando todas as pessoas, mas é curioso como conforme crescemos elas ficam parecidas com seu dono... As de Riley guardam bem sua individualidade, mas as de sua mãe e pai, por exemplo, tem características deles mesmos, o cabelo, o bigode... Daí, fica difícil dizer quais emoções são femininas ou masculinas depois de adultas.  



E, bem, isso é interessante.  Riley tem cinco emoções básicas, três femininas (Tristeza, Alegria, Nojinho) e duas masculinas (Medo e Raiva).  Raramente, muito raramente mesmo, vemos essa configuração em uma equipe de cinco.  Divertidamente é mais um produto da Pixar com protagonistas femininas, demanda antiga, aliás, e que dá muito mais tempos de tela para as mulheres.  A mãe de Riley aparece mais que o pai.  Alegria e Tristeza são as protagonistas  da sala de comando.  Bing Bong, o amigo imaginário a muito esquecido, é, talvez, o personagem secundário de maior peso.  E há Riley, claro... Enfim, o filme cumpre a Bechdel Rule sem problemas, afinal, há várias personagens femininas com nome, que conversam entre si e tem como principal assunto a menina, Riley.  


De resto, está sugerido que a puberdade é um período de problemas, é inescapável, e que meninas gostam de rapazes canadenses melosos de cabelo esquisito (*preciso dizer o nome?*) e vampiros depressivos românticos... O uso que Alegria faz do rapaz canadense foi bem surpreendente... Obviamente, esses clichês sobre adolescentes não estraga o filme, mas não poderia deixar de pontuar.  Na minha adolescência, eu mal saía de casa, amava Zorro, os Três Mosqueteiros, Sherlock Holmes e Drácula, trilhas de cinema, e enciclopédias e assistir jogos de basquete, mas ninguém nunca me disse que eu era uma adolescente normal.



Agora, antes do fim, algo que não posso deixar de comentar:  A idéia original de Inside Out lembra muito o do mangá josei Nounai Poison Berry (脳内ポイズンベリー), de Setona Mizushiro.  Não sei se é coincidência, mas plágios já aconteceram e como o mangá não saiu nos EUA – talvez, na frança e na Itália, mas não confirmei, quem ficaria sabendo?  A bola já foi levantada em sites de scanlations e outros de fãs de anime.  Nounai Poison Berry terá filme para o cinema em breve e foi publicado entee 2009 e 2015.

Divertidamente é um produto infantil e mesmo que passe alguma mensagem para nós, adultos, ele não tem tantas camadas quanto outros filmes da Pixar.  O drama é leve o suficiente para não chocar, nem ferir os mais jovens.  Faz pensar?  Sim, faz, mas só se você estiver permeável, como eu aqui com a questão da relação com a filha ou o medo de esquecer.  O visual, claro, é bonito.  Brinquedos do filme tem tudo para vender bem, só que há os Minions concorrendo e eles são mais atraentes para as crianças, eu acredito.  É isso.  Não é um filme brilhante, mas é colorido, divertido e traz algumas questões interessantes. Pretendo rever em inglês, quando puder.   O trailer está aí embaixo.


OFF-TOPIC: Gente, o público na sala de cinema foi o pior que eu já vi.  Uma dupla - mãe e filha adolescente - entraram na sala e estavam ao meu lado, uma cadeira de diferença.  Elas não sabiam qual era a sessão, se estavam na sala certa, brigaram em voz alta por causa da pipoca, quando começou o curta muita gente resmungou (*e a menina urrava...*) achando que era o filme errado...   Mudei de lugar, mas, apesar do cinema estar vazio, chegaram os donos da cadeira... Esse povo não sabe que todo filme da Pixar tem um curta antes?  Gente, visão do inferno.  Sério!  De resto, acho que no caso da mãe e da filha, eu acredito que era doença... Mesmo!

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