quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Comentando Ōoku #10 e sua misteriosa capa branca


Já estou com o volume #10 de Ōoku (大奥) faz mais de um ano, eu acho.  Tinha feito uma leitura dinâmica tempos atrás, mas comprovei ao retomar o tomo que coisas desse tipo não funcionam com Ōoku.  Ainda mais, em um volume que talvez seja o mais rico da série.  Aliás, a capa branca – todas as capas da série são negras – já sinalizava algo diferente.  Branco é cor de luto em muitos países do Oriente, trata-se de um volume de muitas tragédias, ao mesmo tempo, parece ser um ponto de virada na série, ainda que já esteja claro que a série tenha entrado em um novo arco que, eu espero, deve ser o final.

Para quem não conhece a série, Ōoku, de Fumi Yoshinaga, é publicado na revista Melody.  Trata-se de uma série que trabalha com ucronia, isto é, história alternativa.  Eventos reais, personagens reais, estão lá, mas, neste caso, normalmente com seu sexo trocado, isto, porque, uma praga, chamada de Varíola vermelha, dizimou a população masculina jovem do Japão.  As mulheres, agora maioria, tiveram que assumir os postos de mando e os mais diferentes ofícios.  O Shogun – comandante político e militar supremo do país – é uma mulher e ela tem um harém, o Ōoku, que dá nome para a série.  Iniciado como um oneshot, a série fez sucesso e seguiu seu caminho.  

Okitsugi e Gennai.
Começando com a terceira shogun, Iemitsu, tendo como elemento central a oitava shogun, Yoshimune, neste décimo volume, governa Ieharu, décima governante, mas ela está morrendo...  No volume #10, temos uma corrida contra o tempo, os médicos trabalhando no Ōoku, patrocinados pela Conselheira-Chefe Tanuma Okitsugu, conseguiram descobrir uma forma de conter a doença, a inoculação, mas existem inimigos que espreitam.  Com o fim do reinado, Okitsugu sabe que seu tempo de gabinete caminha para o seu final, é preciso promover a imunização do máximo de homens e, se possível, promover as reformas necessárias para que o fechamento do Japão ao contato com o mundo exterior chegue ao fim.  

O volume #10 segue ainda sob a sombra de Yoshimune.  Não sabe quem é ela, então dê uma olhada nas resenhas dos volumes 1, 7, 8, 9, porque pode ajudar a explicar.  Temos as três netas da velha Shogun – Ieharu, Harusada e Sadanobu – no centro do jogo de poder.  Junto com elas, a conselheira mais graduada, Tanuma Okitsugi, que causa inveja por ter servido no mesmo posto duas shoguns, Ieharu e sua mãe Ieshige.  Isolada no poder, decidindo mais do que deveria, mas tudo como parte de um plano para colocá-la em desgraça, Okitsugi segue com suas reformas e com as pesquisas científicas e médicas que podem por fim à terrível varíola vermelha.  Na cabeça das quatro, ou pelo menos, de três delas a pergunta permanente parece ser “O que Yoshimune faria no meu lugar?”, as respostas, claro, estão subordinadas a crenças pessoais, orgulho de classe, amor pelo bem comum, e interesses.

Harusada, a maior vilã da série até agora.
Ao mesmo tempo, dentro e fora do Ōoku, os acontecimentos se sucedem rapidamente.  Tragédias naturais, o esfriamento do clima com a conseqüente quebra das lavouras de arroz e duas erupções vulcânicas, a do monte Iwaki (1783) e a  pior, a do monte Asama (1783), trouxeram a grande fome de Tenmei (1782-88), a alta da inflação, e a rejeição às políticas de Okitsugi, vista como uma personagem de mau agouro, que se banqueteava, vivia no luxo, agia como shogun, enquanto o povo sofria.  Fora isso, a  liberdade com que ela e Gennai entravam e saíam do Ōoku despertava insatisfação e disse-me-disse, além disso, as profissionais especializadas em medicina chinesa se sentiam desprestigiadas.

Como já sinalizado no volume anterior, por trás de muitos boatos e do aumento do ódio, está Harusada Tokugawa, a primeira vilã no sentido pleno do termo a ser criada por Fumi Yoshinaga nesta série.  Trata-se de uma personagem inteligente, cruel, fria, com uma agenda de poder muito bem planejada e que se move nas sombras, vendendo para todos uma imagem retraída e desinteressada.  Ela move as pedras com precisão e consegue atingir seus objetivos.  Suas vítimas neste volume são muitas, a  bela Okitomo, filha de Okitsugi, é morta no palácio da Shogun sob os olhos de todos sem que os mandantes do crime sejam identificados; a Shogun (*e talvez sua filha, Iemoto*) é lentamente envenenada por sua médica pessoal; Hiraga Gennai, Aonuma e Okitsugi, também encontram um destino amargo.  E, claro, essas são as vítimas com nome... 

Gennai e Aonuma
No Ōoku, Aonuma, seus discípulos mais chegados – Kuroki, Ihei e Kisuke – e Gennai se aprofundam nos estudos holandeses e na busca por uma cura para a praga.  Aonuma  já estava ciente do método chinês, isto é, aspirar raspas das feridas de um doente de varíola como forma de adoecer uma pessoa sã com uma versão mais branda da doença, tornando-a imune.  O método, no entanto, parece ser mais falho do que outro que chega relatado em um novo livro.  Segundo o relato d euma britânica, Lady Montagu, no Império Turco Otomano, era comum que uma velha sábia – ela como mulher se encontrava principalmente com outras mulheres – introduzir nas veias de uma pessoa sã o pus das feridas de alguém que tivesse contraído uma forma mais branda de varíola.  Isso era feito em um número grande de pessoas de uma vez. Era as chamadas “Festas da Varíola”.  

Quem poderia encontrar um doente que estivesse com a forma mais branda?  Quem poderia sair andando pelo país?  Gennai.  Sim, ela mesma.  Só que a personagem mais interessante dos últimos volumes – cientista, escritora de contos eróticos, espírito livre – guardava um segredo.  Gennai foi alvo da vingança de uma amante desprezada.  Sim, Gennai não é bissexual, como eu imaginei, mas lésbica.  A mulher, uma atriz famosa, é manipulada por uma agente de Lorde Harusada e  Gennai é tocaiada, espancada e violentada por três homens.  Todos tinham sífilis.  Não foi o primeiro estupro de Ōoku e esse assunto nunca é tratado de forma leviana.  

O desespero de Gennai.
Yoshinaga aproveita a sequência para nos oferecer um longo flashback que nos explica como Gennai tornou-se quem é.  Desejosa de estudar e constrangida pela necessidade de chefiar sua família, sem interesse pelo casamento heteronormativo, ela consegue um escape e vira uma espécie de pária até que outra mulher, Okitsugi, reconhece seu valor.  É essa grande dama que dará à Gennai sua derradeira alegria ao suspender o banimento existente para que as mulheres pudessem se dedicar aos estudos holandeses.  Muito tarde para ela, mas não para outras meninas.  Gennai, pelo menos a personagem do mangá, é uma pessoa generosa, leve.  Impossível não amá-la.  Através dela e da Shogun, Yoshinaga mostra novamente que o domínio das mulheres não as liberta das pressões de gênero.  Se não existe simetria, ainda assim existem os imperativos sociais que tornam mais pesada a vida dos homens e das mulheres.

No Ōoku, Gennai pede a opinião de Aonuma, ela desconfia da sua doença e o veredito dele é categórico.  Sífilis.  Aonuma fica intrigado, afinal, não é comum que uma mulher passe sífilis para outra... A descoberta da violência sofrida por Gennai o deixa aterrado.  Segue-se a descrição da deterioração física e mental resultante da doença.   Depois disso, temos uma das cenas mais tristes de toda a série.  Gennai fica aterrorizada com a possibilidade de perder sua consciência, a razão, a mente que é seu único bem.  E ela não quer morrer, ela quer viver, estudar, descobrir coisas.  ELA QUER VIVER, VIVER, VIVER...  Mas o tempo urge e, mesmo doente, Gennai parte para cumprir sua missão, por Okitsugi, sua patrona e musa, por Aonuma, por seu irmão que morreu de varíola vermelha, e pelo Japão.  E ela consegue o doente, claro!

O primeiro filho de um grande nobre a ser inoculado.
A partir daí, antes até, porque ficamos sabendo do passado de Kisuki logo no início do volume, costuram-se os pequenos dramas, aquelas amenidades cotidianas que Yoshinaga sabe escrever e desenhar tão bem, com o grande drama, o fio seguro que mantém a série coesa, em um sentido mais amplo.  Assim, revemos o cozinheiro chefe Yoshizo e em uma conversa banal alimentada com arroz e enguia com Aonuma, seus discípulos e Gennai, ficamos sabendo que ele tem um jovem amante.  Aonuma fica chocado, afinal, relações homossexuais não eram proibidas?  Sim, são, mas o povo, às vezes, esquecem as regras... Sabemos, também, que Aonuma continua virgem e que alimenta uma paixão secreta.  Só não consegui ter certeza se pela Shogun, Ieharu, ou por Okitsugi.  

Concomitantemente, vemos a corrida de Aonuma e seus discípulos para testar o método de inoculação.  Primeiro, seus discípulos se voluntariam.  Sucesso.  Depois, aqueles que são “indignos dos olhos da Shogun” se oferecem, mais tarde os concubinos da Shogun e seus assistentes, até que, um Lorde oferece seu próprio filho.  O nome do grande senhor não é revelado, Aonuma alerta da possibilidade de fracasso, afinal, um em trezentos poderiam contraria a forma mais forte da doença.  O daimyo está ciente.  A inoculação é um sucesso.  Sabem quem é o menino submetido ao processo novo e ainda em testes?  O filho de Harusada.  A partir daí, ela pode finalizar o seu plano.

Okitomo é morta diante de sua mãe.
Okitomo é morta, por azar, um dos sobrinhos de Lorde Matsudaira Sadanobu morre depois de inoculado por Aonuma e a Shogun agoniza.  Doente faz muito tempo, deprimida pela perda do marido amado e da filha única, Ieharu não pode ser examinada por um homem.  Contra a vontade de outras conselheiras, ela exige que Aonuma a veja e Okitsugi consegue que médico faça uma observação indireta.  Ele é categórico, não se trata de Beriberi – deficiência de vitamina B1, algo comum entre os japoneses da época –, mas de envenenamento por arsênico.  Como a alimentação da Shogun é toda provada com antecedência, Okitsugi tem a certeza da conspiração.  No entanto, o cerco se fecha e a própria Shogun – que Yoshimune, sua avó, considerava muito precipitada em seus julgamentos – ordena que Okitsugi não a visite mais.

A partir daí, temos o desfecho das personagens que nos acompanharam nos últimos três volumes.  Personagens que vimos amadurecer, ou envelhecer.  Gente que com seus defeitos e qualidades, erros e acertos, pensava no bem do país.  Okitsugi – a personagem histórica – só muito tempo depois conseguiu um olhar favorável ou, pelo menos, equilibrado, afinal, as fontes sobre o seu período liderando o conselho foram escritas por seus adversários.  Depois de sua queda, foram suspensas todas as medidas que encaminhavam a abertura comercial e proibidos os estudos holandeses.  Tudo isso está na série, também.  

Kuroki jura vingança contra as malditas mulheres.
O que não está na história, o que é obra de Yoshinaga é o cruel desfecho de Gennai e Aonuma, assim como a crueldade de Harusada.  Ela consegue o Shogunato, seu filho está vacinado e ela suspende todas as pesquisas e elimina Aonuma.  Que os jovens continuem morrendo de varíola vermelha, somente seu filho importa.  Só que Harusada não quer ser shogun, ela deseja ser o poder por trás do trono.  Assim, ao terminarmos o volume #10 temos o primeiro governante homem desde Iemitsu.  150 anos se passaram do início da peste e, neste momento, as conselheiras não crêem que é possível que um homem possa governar.  Harusada também não acredita nas qualidades de seu filho, mas isso nunca esteve em questão, ela, agora, tem o poder como desejava. 

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