quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Comentando o capítulio #6 de The Crown

Margaret discursando na Rodésia,
nenhuma palavra sobre o Apartheid, nem esperem.
Escrevi que iria esperar terminar os últimos 5 episódios de The Crown para escrever outra resenha (*primeira resenha aqui*), mas o episódio #6 me obriga alguns comentários.  Este é o episódio centrado no romance entre a Princesa Margaret e Peter Townsend, este também é o episódio em que carregam as tintas nos clichês de gênero para que sejamos simpáticos com a protagonista, para transformá-la em vítima do lugar que ocupa.  Isso é ruim, porque a personagem se apequenou terrivelmente neste episódio #6.

Resumindo, Elizabeth é apresentada como uma pessoa tolerante, moderna, que apoiava a irmã caçula na sua paixão por um homem divorciado, plebeu, muito mais velho e sem grandes recursos. Atenção a estes pontos, ser bem mais velho não seria problema, se ele fosse um nobre; ser divorciado talvez não representasse um grande problema se ele fosse muito rico e poderoso.  O fato, e escrevo isso para ilustrar que, sim, Elizabeth é mostrada como tolerante, é o fato dela desconfiar desde o primeiro episódio de uma ligação de sua irmã com Townsend e haver proposto, na série, que a irmã se casasse na Escócia, driblando, assim, os impedimentos legais e de tradição ligados à Igreja da Inglaterra.  

O casal que não pode ser.
Elizabeth na série acredita no amor e este sentimento não deveria ser limitado por questões legais e de tradição.  Em nenhum momento do episódio, ela falou em nome da Coroa, ela sempre se comportou como a irmã compreensiva e que, apesar de tudo (*talvez certa reserva em relação à Townsend*) apoiadora.  Quem seriam os malvados e insensíveis, então?  A Rainha Mãe, guardiã da tradição, e o Príncipe Philip, esse poço de preconceito e falsidade.  Ainda assim, há a tentativa de driblar o Royal Marriages Act de1772.  E quem é o sujeito que executa a maldade, isto é, promove a separação do casal?  Tommy Lascelles.

De resto, para tirar ainda mais das costas da rainha, uma mulher terna, que é feminina até a última fibra do seu coraçãozinho e acredita no amor acima de tudo, Peter Townsend é apresentado como alguém que não reconhece o seu lugar.  Primeiro, claro, ele já traiu a confiança da família real, pois aproveitou-se da sua proximidade para iniciar um romance com a Margaret quando ele era casado e ela adolescente.  Segundo, porque quando a imprensa descobre o romance e faz um escândalo, ele não se esconde, mas aceita de bom grado a “propaganda”, vide a cena em que ele para na escada do avião e acena, como se fosse celebridade, ou, horror, horror, parte da família real.  

Visita oficial à Irlanda do Norte com Townsend na comitiva.
Terceiro, ele perde toda a noção de propriedade e se dirige à Rainha como “Lilibet”, apelido de família, como se fosse parte dela.  Por fim, ele afronta Lascelles e os oficiais, mas isso nada impacta na visão que temos da protagonista, Elizabeth, aliás, parece perdida no meio das forças hostis.  Por ela, a irmã poderia “ser feliz”.  OK, ter uma protagonista simpática e tudo, mas as sensibilidades modernas não deveriam ser impostas à rainha da Inglaterra, muito menos carregadas desses estereótipos de gênero, a mulher que sente, mais que pensa, que é toda amor e afeto.

Parem e pensem que Elizabeth melou o romance de Charles com a Camilla Parker Bowles quando ela era solteira e, portanto, elegível pelo seu pedigree, imagine a mesma pessoa nos anos 1950.  O fato é que a tolerância com divorciados e moças que se envolviam com homens casados que se envolviam com eles não era grande, isso dentro, ou fora da família real.  Quando se pensa na monarquia e no exemplo que os membros da família real deveriam dar, a coisa fica mais dramática.  Elizabeth casar com um jovem príncipe “pobre” é uma cosia, o que Margaret desejava era algo muito diferente.

Vitória Melita e sua filha Elisabeth.
E não pensem que não havia divórcios nas casas reais, mas eles tendiam a ser dolorosos e, não raro, os laços com o divorciado, ou quem se casava com ele/a eram cortados.  Vide o caso da Princesa Vitória Melita, neta da rainha Vitória, nem lhe avisaram quando sua única filha estava doente  (*aliás, é data da morte da criança é hoje*) e ela não pode estar ao lado da menina nos seus últimos momentos.  Vale também lembrar do caso do Duque de Windsor, que, aliás, aparece em uma ceninha deliciosa, com a esposa, Wallis, comemorando o escândalo.

O fato é que, neste episódio, pelo menos, ainda há a possibilidade de uma união entre Margaret e Townsend.  Eles precisam esperar 2 anos, até que a princesa complete 25 anos e não precise mais de permissão real para se casar.  Obviamente, casar contra a família - coisa que ela não fez - a faria perder seus privilégios de princesa.  De qualquer forma, o que eu imagino é que irão colocar a frustração amorosa de Margaret na base de um processo autodestrutivo da personagem, algo, aliás, que é de certa forma corroborado pelos fatos.  

Margaret jura vingança.
Enfim, colocarem uma Elizabeth contra o romance, ciosa da moral e dos bons costumes de época, amorosa com a irmã, mas menos incapaz de se expressar, seria mais justo com a personagem.  Ela não parece uma pessoa melhor por apoiar Margaret e ceder no final, ela parece fraca e reproduzindo papéis de gênero tradicionais.  E no episódio #7, a coisa começa no mesmo tom, com a mãe dizendo que ela sabe “quando ficar calada”, ora, em outro contexto (*e depois comento o episódio*) poderia significar que ela cumpria bem o papel de monarca constitucional, mas existe outra questão envolvida, ela era mulher, e recebeu uma educação feminina.  

Para uma mulher, saber calar e pedir modestamente para seus superiores (*homens*) orientações é uma virtude.  Aliás, Philip, e Matt Smith, está atuando muito, muito bem, anda cada vez mais na rua,  tentando compensar suas frustrações em companhia masculina, ou nem tanto.  A rainha?  Torce o nariz, mas como boa mulher, fica calada e lá vai o marido playboy para a gandaia.  Será que Philip era realmente esse tipo de homem.  De qualquer forma, esse, sim, um comportamento muito mais anos 1950 do que a conivência com o romance da irmã.  A Princesa Margaret, aliás, jura vingança.  Aguardemos.  De resto, minhas críticas não querem dizer que não foi outro grande episódio, com grandes interpretações, mas que foi um reforçador de estereótipos.

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