segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"O que essa Gorda está fazendo lá" ou Vamos falar do Concurso de Miss Universo?


Ontem aconteceu o Miss Universo, que muita gente ama, muita gente odeia, mas sempre vira assunto, ainda mais, no Twitter.  Eu não assisti, estava envolvida com Júlia, mas fui ver o que se estava sendo comentado no Twitter.  Bem, não deu para a brasileira Raissa Santana.  Uma pena, mas não tenho como opinar, porque mal olhei o rosto das finalistas, só vi mesmo a vencedora, a Miss França, Iris Mittenaere, e a achei muito bonita.  Agora, o que veio logo na minha cara, foram os comentários horrendos sobre a Miss Canadá, Siera Bearchell.

Explicando, a Miss Canadá foi uma das finalistas.  Segundo uma amiga, os comentaristas da Bandeirantes ressaltaram que a moça era "gorda" (*Link: 1-2*) e, portanto, não merecia estar entre as (*supostamente*) mais bonitas do mundo.  Não vejo o Miss Universo na Band desde que uma das comentaristas, uma miss das antigas que eu esqueci o nome, faleceu.  Ela sempre enfatizava que miss não é modelo de passarela, que não precisa (*nem devia, na opinião dela*) ser tão magra, nem tão alta.  Enfim, mas, este ano, parece que soltaram os demônios, porque, bem, o Miss Universo decidiu discutir gordofobia/lipofobia e a própria Miss Canadá aprece ter admitido que tinha sido discriminada.  Agora, olhem a foto da moça "gorda" aí embaixo.

Gordíssima Miss Canadá.
Me senti enorme de repente no meu manequim 44, aliás, é importante que nós, mulheres nos sintamos mal, isso move várias indústrias capitalistas importantes: de alimentos fitness, estética, médica, academias etc.  Muita gente lucra com nossa angústia, com nossa dor, com uma busca que nos exauri pelo corpo (*supostamente*) perfeito.  Agora, reflitam sobre duas coisas:

1. A Miss Canadá é gorda?
2. Por que tanto horror aos gordos?

Nada a ver com saúde, ou vocês acham que estavam preocupados com a saúde da Miss Canadá?  A preocupação principal é com uma imagem que é vendida, reforçada nas propagandas, na mídia e em todo lugar.  Essa imagem pode variar, o modelo, no entanto é sempre irreal, ou pouco alcançável pelas mulheres comuns com práticas saudáveis de vida.  Nem todo mundo aprovou o que a emissora responsável pela transmissão fez, as reações vieram, claro, mas mesmo algumas falas contra o discurso gordofóbico nem sempre são interessantes, porque enfatizam que a moça não merece ser agredida, já que não é gorda "de verdade".  Então, se fosse, tudo bem, né?  Outras, porque vão afirmar que quem gosta de osso é cachorro, como se mulheres existissem somente, para o consumo dos homens, ou seja, você, moça magrinha pode não ser tão agradável assim para o macho que está ali em busca de uma mulher para si.  

Outra foto da Moça
De resto, o que sobra?  Mulheres angustiadas, doentes, meninas cada vez mais jovens com transtornos alimentares.  Triste, muito triste, mas há gente lutando, não para promover estilos de vida que não são saudáveis, mas para que se compreenda os mecanismos por trás de um culto à beleza que é historicamente localizado e construído por "n" interesses e práticas.  Liberdade e autonomia das mulheres passa pelo repensar dessas questões e nada como um concurso de Misses para que boas discussões possam vir à tona.  Sim, esse tipo de concurso serve para muita coisa e não é somente vender modelos estéticos e outros produtos diversos.  

Termino sugerindo dois livros de um historiador que eu gosto muito (*e que não é feminista, vejam bem*) chamado Georges Vigarello.  Ele trabalha na linha de História das Mentalidades e da Cultura e praticamente todos os seus grandes livros saíram no Brasil.  Para quem quiser ver mais dessa discussão sob uma perspectiva histórica, recomendo: A História da Beleza e As Metamorfoses do Gordo - História da Obesidade.  Ambos são ótimos.

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