terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Comentando The Tenant of Wildfell Hall (BBC, 1996)


Não sei por qual motivo, mas, hoje, decidi pegar a minissérie The Tenant of Wildfell Hall (*em português A Inquilina de Wildfell Hall*) para assistir.  Baseada no livro do mesmo nome de Anne Brönte, a produção é de 1996 e teve três capítulos somente.  Sim, a série é muito boa, mas o livro pedia muito mais.  Para darem conta em tão pouco tempo, a trama se concentrou somente nos protagonistas, Helen Graham (Tara Fitzgerald), Gilbert Markham (Toby Stephens) e Arthur Huntington (Rupert Graves).

Resuminho da história é o seguinte: uma misteriosa mulher e seu filho passam a morar em Wildfell Hall atraindo a atenção da vizinhança.  Quem seria ela?  O vizinho, Gilbert Markham, sente-se particularmente atraído pela nova moradora e desenvolve uma relação afetuosa com seu filho, o pequeno Arthur.  Helen Graham é esquiva e evita eventos sociais, mas termina travando amizade com Markham.  Com o desenrolar do tempo, a nova moradora, Mrs. Graham e Markham se apaixonam, mas ela é alvo da fofoca da vizinhança, por seus mistérios, por pintar para viver e porque seu senhorio, Frederick Lawrence (James Purefoy), costuma visitar muito a inquilina.  
A inquilina misteriosa.
Markham não acredita na maledicência e segue alimentando esperanças em relação à Helen Graham.  Só que após presenciar uma cena suspeita entre ela e Lawrence, Markham se descontrola e agride o sujeito.  Helen fica decepcionada, mas lhe dá seu diário para que ele possa conhecer toda a sua história.  A partir da leitura, descobrimos que Helen é casada e fugiu do marido alcoólatra e depravado, depois de sofrer muitos abusos.  

A gota d’água para Helen foi ver que o marido tencionava perverter o caráter do próprio filho.   Com a ajuda de alguns criados fiéis e do irmão, ela foge com a criança. Quando o marido, já muito doente, descobre o paradeiro de Helen e exige o menino de volta, ela termina retornando ao lar para cuidar do sujeito e o futuro com Gilbert – que não poderia existir de qualquer forma, já que ela é casada – fica ameaçado.
Gilbert foi muito insistente.
Anne Brönte (1820-49) morreu com 29 anos.  Assim como suas irmãs, Charlotte e Emily, ela teve uma vida difícil, mas conseguiu deixar sua marca através da literatura.  The Tenant of Wildfell Hall, de 1948, foi um sucesso imediato, é sua obra mais importante e considerado um dos romances mais abertamente feministas do século XIX.  Este aspecto da obra – a crítica ao patriarcado, na medida que inferioriza as mulheres e as coloca em situação de fragilidade dentro da sociedade – está plenamente contemplado na minissérie.

Através de Helen e, também, da irmã de Gilbert, Rose (Paloma Baeza), a desigualdade de gênero é exposta na série.  Rose se mostra indignada porque a mãe impõe que ela sirva o irmão, ainda que ele não peça nada, e lhe faça as vontades.  Para a velha senhora, trata-se de uma forma de educar a moça para o casamento.  E, nesse aspecto, convém lembrar qual a função social das mulheres maduras, isto é, reforçar as estruturas sociais, afinal, elas já cumpriram sua função e, agora, em posição privilegiada, precisam zelar para que seu lugar de poder (*delegado*) – de mãe, de sogra – seja garantido pelos homens que geraram e adularam.

Presa fácil.
Já através de Helen se discutem várias coisas, mas logo de saída temos a sequência na qual ela afronta o reverendo e outras personagens do vilarejo ao ser questionada sobre a forma como educa seu filho.  Segundo os vizinhos e o pastor, ela estaria superprotegendo o menino, transformando-o em uma garota: frágil, dependente, medroso.  Afinal, ele deveria aprender sendo exposto às tentações (*o menininho só tem 5 anos*).  Helen prontamente pergunta se o mesmo seria proposto para uma menina.  Certamente, não!  Uma menina deve ser protegida das tentações, mantida na ignorância do mal.  Ao que Helen retruca que exatamente por causa disso, as mulheres se tornam presas fáceis dos enganadores.

Falando em Huntington, o marido de Helen, no livro ele é ruivo, talvez apontando para a instabilidade emocional e de caráter, na série, ele é aquele típico moreno lindo e viril que a literatura romântica popular e as adaptações para o cinema e TV adoram vender.  Fora isso, raramente vi um vilão tão asqueroso representado em tela.  Ele não é o vilão frio e elegante, daqueles que dão medo e, ao mesmo tempo, atraem, como o Sr. De Montserrat, ou Lord Grandcourt (Hugh Bonneville) de Daniel Deronda.  Ele é um alcoólatra que tem prazer em torturar a esposa valendo-se da força física e da lei que lhe assegura todos os direitos sobre ela e o filho. Além disso, humilha aqueles que considera inferiores, é assumidamente adúltero e corrupto.  

O marido pode tudo. 
As cenas em flashback com ele são terríveis e o esforço que o sujeito faz para transformar o filho pequenino em “um homem”, são angustiantes e carregadas de violência.  Foi até curioso voltar a ver a representação da construção da masculinidade em tela, depois de assistir Moonlight, o processo é o mesmo, porque, apesar das variações, o modelo de virilidade é muito semelhante.  Ser homem é tornar-se violento e, para isso, é preciso humilhar, tornar insensível, acostumar a criança a descontar nos "inferiores".  

E o menino sofre com o processo, claro.  Fora isso, o pai-vilão tenta tirar da mãe qualquer autoridade sobre a criança.  Anulando-a.  O menino é induzido a ser violento e desconta nos animais, treina as crueldades neles.  Assim, poucas vezes um vilão me despertou tamanha repulsa quanto Huntington e, ao que parece, uma das críticas ao livro – que a autora rebateu em vida (*olha que bobagem eu escrevi... mas vai ficar*) – foi que o retrato do alcoólatra moralmente degradado era realista demais.  

Você não verá esses sorrisos no seriado.
Para Anne Brönte, o vício precisava ser exposto e a interpretação de Rupert Graves é excepcional nesse aspecto.  Nem à beira da morte, mais para lá do que para cá, ele mostra qualquer sinal de arrependimento.  O sujeito continua debochando, espicaçando Helen.  A personagem é magnífica e, ao mesmo tempo, terrível.  no livro, então... Eu só fiquei pensando que se eu fosse a Helen, não teria fugido, não, tinha era providenciado um acidente para o canalha.


Através de Huntington todas o que de pior há no patriarcado está exposto.  O privilégio masculino, o poder sobre as mulheres e crianças.  A legislação inglesa, aliás, era particularmente terrível.  Mulheres casadas não eram sujeitos de direito, não podiam ter propriedade até 1870, se trabalhassem para ter uma renda poderiam ser processadas por estarem roubando o marido, se fugissem com os filhos, mesmo em situação de abuso, poderiam ser acusadas de sequestro.  Helen é, portanto, uma criminosa.  Ela suplica que o marido se separe dela, que lhe dê o que resta de seu dote, que permita que fique com o filho, mas ele não aceita nada disso apesar de desprezá-la, porque, bem, o que os vizinhos iriam pensar?  Enquanto isso, ele tinha um caso com a esposa de um de seus melhores amigos.


Condenada por ganhar seu próprio dinheiro.
Enfim, como pontuei lá no primeiro parágrafo, trata-se de um livro muito rico para ter somente três episódios.  Ainda assim, até que as coisas funcionaram bem.  Claro, que certas coisas parecem abruptas.  Quando Gilbert chama a protagonista de Helen pela primeira vez, tomei um susto.  “Ué, até a cena anterior era Mrs. Graham?”.  Mas não foi nada que comprometesse o andamento da história.  Tara Fitzgerald é uma boa Helen, ela passa o apagamento, a frieza, o distanciamento, toda aquele ar de quem suspeita de tudo e todos necessária a uma mulher que está fugindo e se escondendo.   Li uma resenha em que a pessoa se perguntava o que Gilbert viu nela... Ora, deve ter sido aquele gosto pelo mistério e pela fofoca. ^_^ 


O fato é que a atriz não parece com a descrição do livro, uma mulher bonita, alta e de cabelos negros, mas The Tenant of Wildfell Hall só teve duas adaptações para a TV e a primeira, de 1968,  que teve um episódio a mais, não está nem disponível.  Já o lindinho do Toby Stephens defende muito bem seu Gilbert Markham.  Ele transborda simpatia e bom mocismo, verdade, mas parece que era isso que a personagem pedia.  Imaginar que, dez anos depois, ele seria o melhor Mr. Rochester (*minha opinião, claro*) e passaria toda aquela paixão que a personagem turbulenta exige.  Gilbert é doce, gentil.  Há aquela cena do mal-entendido, porque romance sem mal-entendido parece coisa rara, mas ele resolve de forma totalmente diferente do Mr. Thornton de Norte e Sul e quase acaba com o irmão da amada.


Tio e sobrinho.
Aqui, cabe lamentar que os coadjuvantes tenham tão pouco espaço na trama.  Sabemos mais dos amigos pervertidos de Huntington do que do irmão de Helen.  James Purefoy faz quase nada na série e é realmente absurdo quando desconfiam que ele é o pai do filho de Helen por serem parecidos, quando um é moreno e o outro louro.  Enfim, ainda que as personagens secundárias não tenham sido desenvolvidas com a profundidade desejável, a tia de Helen nem volta no final como no livro, a atmosfera opressiva e hipócrita da vila perto de Wildfell Hall foi muito bem construída.  A voz coletiva, a condenação à (*suposta*) mulher adúltera e demasiado independente, está lá.

Não vi no seriado – e nem deve estar no livro, que eu nunca li por completo – uma condenação à Helen por ter desobedecido ao conselho da tia e se casado com Huntington.  O que a história parece condenar é a ignorância em que as moças eram mantidas e que as tornava presa fácil desse tipo de sujeito.  Huntington parece se casar com Helen, porque seria difícil simplesmente seduzi-la, só que acabou se decepcionando por não encontrar nela uma massa fácil de ser moldada, ela não se deixa corromper.  O escândalo da história para a sociedade da época – e o livro foi um sucesso imediato – era mostrar uma mulher capaz de romper, de fugir de um marido abusivo, de não se submeter. 

A filha do reverendo acreditava que iria casar com Gilbert.
Obviamente, salvaguardar moralmente o filho, foi uma escusa do roteiro, mas, ainda assim, era um ato de transgressão.  E Helen retorna para cuidar do marido, mas ela, agora, não é tão tola e vulnerável.  Foram ótimas as cenas em que ela toma as rédeas da casa e só deixa que o marido veja o filho depois que ele assina um documento lhe concedendo a guarda da criança.  Tendo em vista o caráter do sujeito, ela precisava se armar de todas as formas.

Que dizer mais?  O figurino não é fulgurante, mas Helen é uma personagem apagada nesse aspecto, especialmente, depois do casamento, e o ambiente da vila não favorece grandes belezas, mas parece correto.  Há algumas cenas com um figurino mais elaborado quando Helen é uma debutante em Londres, mas são poucas cenas.  Gostei da interação entre Tara Fitzgerald e Toby Stephens, a tensão, a angústia, a paixão reprimida, tudo está lá.  E a câmera mostra bem este jogo de sedução quando age como se fosse o olhar do mocinho sobre a nuca desnuda de Helen.  O decote dos vestidos da década de 1840 é bem sensual, levando-se em conta que todo o resto está coberto.

Você não verá muitos beijos nesta minissérie.
Terminando, vale a pena assistir a minissérie e ler o livro, também.  Espero desenterrar outras coisas do meu HD, há centenas de episódios de séries, minisséries da BBC e ITV, filmes etc.  E, bem, o Toby Stephens, que é filho da poderosa Maggie Smith, que fique registrado, vale por ele mesmo.  Ainda que como Mr. Rochester ele estivesse ainda mais bonito.  Comentarei Jane Eyre de 2006, eu prometo.  Aliás, acho que é o único Jane Eyre (*que vale a pena*) que não comentei no Shoujo Café.

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1 pessoas comentaram:

Excelente resenha Valéria. Assisti esse seriado já fazem alguns anos, como não li o livro não sei se a adaptação ficou fiel ou não, mas gostei do que assisti. A história é realmente bem transgressora para a época e mostra a hipocrisia da sociedade. Você chegou a assistir To Walk Insvisible, lançado ano passado pela BBC? É um bom retrato da vida e das dificuldades pelas quais passaram as irmãs Brontë, principalmente por causa de seu irmão que tinha problemas com alcool e teve um caso com uma mulher casada. Lendo a resenha consegui fazer algumas conexões com o que foi mostrado na minissérie do ano passado.
Um grande abraço.

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