quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A importância da cultura pop para a sociedade em dois exemplos


Ano passado, uma série da Netflix, 13 Reasons Why, que gira em torno do suicídio de uma adolescente, causou furor.  Houve quem considerasse o material muito mais um gatilho para suicidas, ou que tivesse banalizado uma questão tão série, só que, vejam só, o CVV  (Centro de Valorização da Vida), um telefone gratuito com voluntários que auxiliam pessoas que estão pensando em suicídio, registrou um aumento recorde nos atendimentos.  O CVV credita esse crescimento à influência positiva da série, que colocou em evidência, em uma linguagem acessível, a questão.  Ponto para a Netflix e os idealizadores da série.  Que bom que ajudou muita gente.

O segundo exemplo, está no ar a novela O Outro Lado do Paraíso.  Não assisto.  Não suporto o Walcyr Carrasco e acompanho todas as críticas que os bons jornalistas vem fazendo.  Por exemplo, se, no início, a telenovela trabalhou muito bem a questão da violência contra mulheres no casamento, a coisa descambou para uma situação ridícula na qual o agressor descobre que tem um "encosto", logo, um bom exorcismo resolverá se problema com as mulheres, e que, na raiz de todos os seus males está uma mãe abusiva.  Walcyr Carrasco é mais que machista, ele consegue ser misógino mesmo em muitos momentos, mas, eis que uma das tramas dessa novela realmente parece fazer diferença.

Bella Piero na novela.
Há na novela uma menina que foi abusada pelo padrasto.  Ela cresceu cheia de problemas psicológicos e ninguém parecia entender a  razão.  A mãe parecia não ver as ações do pedófilo.  Enfim, como parte da vingança da protagonista, Clara, o canalha terminou no tribunal.  A audiência explodiu, a sequência do tribunal, apesar de algumas incoerências, terminou com a "vitória do bem contra o mal".  Sim, ao estilo Carrasco. Só que, vejam só, a atriz, Bella Piero, vem recebendo mensagens e pedidos de ajuda de meninas que passaram, ou passam, pela mesma situação.  É algo pesado, sem dúvida, mas a atriz - que é muito competente - tem ajudado muita gente. Merchandising social é algo comum em novelas brasileiras e Glória Perez  é uma especialista nisso, só para citar os bons exemplos.

Lembrei-me do relato de Keiko Takemiya sobre  uma carta em especial que recebeu durante a publicação de Kaze to Ki no Uta (風と木の詩).  Era uma leitora, uma adolescente, que dizia que graças ao mangá da autora tinha descoberto, isso era década de 1970, que não estava sozinha.  Ela era abusada.  

Gilbert sofreu várias violências em Kaze to Ki no Uta
Há quem despreze telenovelas, e eu vou me divertir muito com os chiliques das puristas quando estrear Orgulho & Paixão, quem não acredite na função didática e social de mídias como quadrinhos, cinema, novelas seriados, enfim, mas as evidências estão aí.  E, aos  meus olhos, se uma novela (*ruim*) como a do Walcyr Carrasco ajudar uma pessoa sequer, eu já ficarei feliz.  E isso nada tem a ver com calar as críticas, com a ação justa dos psicólogos contra a propaganda de uma escola de Couching na novela, enfim. Estou pensando em gente de carne e osso que está sendo ajudada.  Gatilho também pode ser para o bem, por assim dizer. 

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2 pessoas comentaram:

telenovela já foi melhor, hoje decaiu feio.

Não acompanho novelas brasileiras tem vários anos, sobre orgulho e paixão, sim, sou purista e não estou otimista com que irão fazer, abrasileirar tudo é tal, não sou desconstruída mexxxmo kk

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