segunda-feira, 21 de outubro de 2019

China proíbe exibição de Era Uma Vez em Hollywood após pedido da filha de Bruce Lee


Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood) deveria estrear na China no dia 25 de outubro.  Estava tudo certo, mas um apelo da filha de Bruce Lee à Administração Nacional de Cinema do país fez com que o filme fosse suspenso.  Houve a proposta de que a cena na qual Bruce Lee é retratado de forma distorcida e humilhante fosse retirada. Não é incomum que filmes sofram alguma censura para serem exibidos na China.  Quentin Tarantino recusou.  

Decidi comentar esse causo, porque, bem, via de regra sou contra a censura, mas, neste caso, como se trata de difamação de alguém que nem vivo está para se defender e de egocentrismo de homem branco, rico e que finge não ser racista, estou concordando.  Seguem as minhas ponderações.  Serei breve, porque preciso ir dormir.

Tarantino apresenta Bruce Lee quase que como uma fraude.
Se você assistiu ao filme (*minha resenha está aqui*), deve concordar comigo que a cena entre a personagem de Brad Pitt e Bruce Lee não tem função na narrativa.  Ela parece estar lá somente para mostrar o quanto a personagem de Brad Pitt, um homem branco, dublê de cinema quarentão e herói de guerra (*se da 2ª Guerra, ou da Coreia, não fica claro*) é melhor que o chinês arrogante que não conhece o seu lugar.  É só isso mesmo, acredite.  Só que o chinesinho é Bruce Lee e há muita informação sobre ele e um monte de gente viva que conviveu com o astro para questionar essa representação absurda.

No entanto, toda a discussão sobre a representação equivocada do Bruce Lee foi ignorada pelo Tarantino.  Ele não deu a mínima.  Mesmo com a possibilidade de perder o mercado chinês, e olha que é um mercado de muito peso nos dias de hoje, ele achou que valia bater o pé.  E, sim, há mérito nisso.  Ele não quer ver sua obra mutilada e isso é direito do artista, ainda que eu considere que, neste caso específico, seja somente ego mesmo.  Pois bem, ninguém vai sofrer uma perda absurda na sua cultura cinematográfica se não assistir Era Uma Vez em… Hollywood e a pirataria agradece.

A cena que poderia ser tirada do filme.
Censura sempre é ruim?  Sim, é, mas me dou ao direito de incluir esse caso junto com parte dos cortes que os americanos fizeram nas duas primeiras séries de Yamato  (宇宙戦艦ヤマト) que passaram no Brasil nos anos 1980, na Rede Manchete.  Só fui descobrir o quanto Yamato era misógino e como a Lola (Yuki Mori) era humilhada, quando assisti um especial do Top TV (*saudoso programa da Record*) comentando Yamato vários anos depois.  

Foram muitos os cortes e alterações, mas me refiro às cenas que objetificavam a personagem, ressaltavam o seu papel acessório dentro da nave.  Aliás, até chegarmos na terceira temporada, Lola era a única mulher embarcada no Yamato, ou, pelo menos, a única oficial com falas e que não era mera figuração. A personagem era navegadora, chefe da cozinha, enfermeira (*com uma saia bem curtinha*) e namoradinha do capitão, um prodígio.  "Poxa, realmente fez falta para a  história, ela ser apalpada por quase toda a tripulação masculina gratuitamente!"  Não, não faz.  A cena com Bruce Lee também, não.

Yuki Mori, ou Lola, como era chamada nas
versões de Yamato, na verdade Star Blazers, exibidas aqui.
De resto, a censura é sempre um ato autoritário, isso não está em discussão no meu texto.  Alguém, normalmente em nome do Estado, acredita que pode decidir o que é melhor, ou pior para você. É uma forma de tutela em que alguns são encarregados de arriscarem os seus valores morais em prol da coletividade, sendo expostos a toda sorte de material para que o resto da sociedade seja poupada de fazê-lo.  

Não vou negar, entretanto que, nesse caso, eu entendo os chineses.  Compreendo a revolta da filha de Bruce Lee.  Eu, que nem sou tão fã dele, fiquei ofendida.  Como escrevi na minha resenha "(...) se alguém disser que foi um uso racista e babaca de Bruce Lee, assino embaixo.  Gente como Lee só pode ser desagradável para quem tem medo de mudanças sociais, de perder seu status quo (...)".  Para mim, seria como lançar em nosso país material (*sem notas de rodapé, introdução crítica, ou o que fosse possível*) negando o protagonismo de Santos Dumont na história da aviação em prol dos Irmãos Wright, que nada tinham a oferecer, salvo sua palavra sobre o (*suposto*) voo de 1903, sendo  que somente realizaram uma apresentação pública em 1908.  

Yuki Mori foi a única mulher da
tripulação durante boa parte da saga original.
Aliás, as tentativas de reproduzir o primeiro voo dos americanos, seguindo aquilo que eles disseram ter feito com seu primeiro modelo de avião, redundaram em fracasso, inclusive a comemorativa dos 100 anos da "façanha".  Os Wright somente conseguiram voar depois de Santos Dumont, que o fez  em 1906, e de terem acesso, já que o brasileiro não estava nem aí para patentes, ou lucro, aos projetos de Dumont expostos para quem quisesse ver em Paris.  

Mas é aquilo, americano não mente e tem uma máquina de propaganda na mão (*cinema, seriados de TV, quadrinhos, animações etc.*) para reforçar a sua versão dos fatos e torná-la uma verdade.  Há uma animação no Youtube, que eu não vou procurar, na qual Santos Dumont é o vilão rico que quer roubar a glória dos esforçados norte americanos.  Esse não passou por aqui, mas a gente viu episódios fofos de Snoopy e outros desenhos legais mostrando a façanha dos Wright e sem sequer mencionar o brasileiro.  Melhor apagá-lo do que atacá-lo, é até mais cruel, sabe?  


Willem Dafoe em A Última Tentação de Cristo.
Por essas e outras, a versão de Bruce Lee vendida por Quentin Tarantino pode se cristalizar no imaginário coletivo, afinal, já se passou muito tempo desde sua morte e o diretor norte americano pode ser tomado como voz de autoridade.  Enfim, pelo menos entre os chineses a versão tarantinesca de Lee não irá substituir outras leituras mais próximas do que o artista realmente foi.  

Retornando, este é um dos raros casos de censura dos quais não discordo, ainda que assumindo que, sim, é arriscado apoiar qualquer tipo de censura, mesmo bem intencionada.  Por onde passa um boi, pode passar uma boiada inteira e estou com um livro na mão, Roteiro da Intolerância de Inimá Simões, que mostra bem o quanto, mesmo depois da Constituição de 1988, a censura em nosso país continuou ativa, mesmo que envergonhada. Foi por muito pouco que A Última Tentação de Cristo, um filme excelente e muito cristão apesar da gritaria, não foi exibido em nosso país.  Faria muito mais falta nos anos 1980 do que o filme de Tarantino hoje, diga-se de passagem.  Mas, enfim, é um dilema, mas a vida é feita deles, porque quase nada é simplesmente preto, ou branco.

O chinês que se achava demais.
P.S.: Um amigo querido discordou de mim em relação à função da cena de Brad Pitt e Bruce Lee dentro da narrativa.  Para ele, a cena serve para estabelecer o  "(...) quão forte e habilidoso é o personagem do Brad Pitt. (...)" e que essa "cena justificaria a "surra" que o Pitt dá nos capangas do Mason, ao final do filme."  Enfim, se esta é a função da cena em que Brad Pitt surra Bruce Lee, o filme nivela o artista 
aos minions do Mason. Se você viu essa função na cena da discórdia, então, a ofensa ao Bruce Lee foi muito maior. Afinal, três adolescentes hippies drogados (*a tal ponto que entraram na casa errada*) deram mais trabalho ao herói super macho branco velho que o chinês boquirroto que lutava Kung Fu. 

Vejam que eu nem pensei por esse lado e mantenho que a cena não tem função na narrativa, porque se eu tomar por esse lado, tenho que voltar na minha resenha e dizer que o filme é uma das coisas mais ofensivas que já assisti no cinema, levando-se em consideração o fato de ser um filme de primeira linha e, não, uma produção feita para ser esquecida.

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