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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Shoujocast no Ar! O Episódio 10 foi um dos melhores de #Anatoliastory #redriver até agora.


O último episódio de Anatolia Story foi um dos melhores até agora. Yuri prisioneira e tendo que mostrar que pode resolver sozinha as mais terríveis situações. Fora a review da semana, há um bloco de notícias, entre elas, o caso da Bienal do Livro de São Paulo. E eu estou pouco interessada no mascarado, o meu assunto principal é a censura sofrida pela Newpop, que nada tinha a ver com o assunto.  Se você quiser a minutagem, é preciso ir até o Youtube.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Hollywood está se autocensurando para garantir o mercado chinês + Mulan direto para Streaming


O Hollywood Reporter comentou um relatório de 94 páginas do instituto PEN American intitulado "Made in Hollywood, Censored by Beijing" (Feito em Hollywood, Censurado em Pequim) sobre o esforço dos grandes estúdios japoneses e diretores em adequar suas produções - incluindo elenco, história, diálogos e locações - para agradar ao mercado chinês, na verdade, mais do que isso, para conseguir a aprovação dos censores do país.  

Ora, Hollywood poe até produzir arte, mas o que ela oferece ao mundo são produtos e o segundo mercado consumidor do mundo nos nossos dias (*não sei o que será pós-pandemia*) é a China.  O relatório mapeou essa tendência de adequação desde o filme Homem de Ferro 3, em 2013.  Um dos que deu seu testemunho para o relatório foi Richard Gere, conhecido por sua militância pró-Tibet.  Ele disse: "Imagine o Kundun de Marty Scorsese, sobre a vida do Dalai Lama, ou meu próprio filme Justiça Vermelha (Red Corner), que é altamente crítico do sistema jurídico chinês", disse Gere. "Imagine eles sendo feitos hoje. Eles não aconteceriam."

Red Corner, filme que critica o sistema jurídico chinês.

"Em 1998, o então chefe da Disney, Michael Eisner, pediu desculpas por Kundun, que mostra a opressão chinesa do povo tibetano, chamando-o de "uma forma de insulto aos nossos amigos", e o estúdio contratou o ex-secretário de Estado Henry Kissinger para ajudar a reduzir os danos provocados pelo filme. Até hoje, o filme é maldito para o estúdio. (Kundun não está disponível no Disney + e o estúdio não respondeu quando perguntado se planeja adicioná-lo à plataforma.)"  Não assisti Kundun, mas sei que ele teve impacto no desempenho de Mulan, a animação, na China.

Esta postura de Hollywood pode explicar o silêncio da Disney quando a estrela de Mulan, Liu Yifei, escreveu em agosto passado nas suas mídias sociais: "Eu apoio a polícia de Hong Kong, você pode me bater agora".  Eu comentei o caso aqui. As críticas a essa aparente complacência  para conseguir espaço da China tem vindo de ONGs e, também, da Casa Branca. A partir daqui, um trecho do artigo traduzido:

Kundun pode ter afetado a aceitação de Mulan
na China, não o filme em si.

"Nossa maior preocupação é que Hollywood esteja cada vez mais normalizando a autocensura preventiva, antecipando o que o censor de Pequim está procurando", diz James Tager, vice-diretor de política e pesquisa de liberdade de expressão do PEN e autor do relatório. O professor da USC Stan Rosen, especialista na indústria cinematográfica da China, chama as críticas de censura de "uma tempestade perfeita" que colocará em evidência a indústria do entretenimento. "Vai ficar cada vez mais difícil para Hollywood não responder", observa Rosen. (...)

Para aqueles que trabalham para aumentar a conscientização sobre os abusos dos direitos humanos no que diz respeito aos 61 anos de ocupação do Tibete na China, Hollywood já foi um amigo e agora é um inimigo. Filmes como o estrelado por Brad Pitt, em 1997, Sete Anos no Tibet (Seven Years in Tibet) foram substituídos por produções como o filme de 2019 da DreamWorks Animation, Abominável (Abominable), que reforça as reivindicações territoriais de Pequim no Mar da China Meridional. Para Doutor Estranho (Doctor Strange), de 2016, a Marvel da Disney estava disposta a enfrentar críticas por branquear um personagem asiático interpretado por Tilda Swinton para evitar a participação de um personagem tibetano originário dos quadrinhos. E Top Gun: Maverick, da Skydance/Paramount, foi criticado, como observa o relatório do PEN, pelo "misterioso desaparecimento da bandeira de Taiwan" em uma jaqueta de voo que foi vista no original de 1986.

A explicação do HR para Tilda Swinton no filme
me parece convincente.

"Se Hollywood estiver do lado do dinheiro, mais cedo ou mais tarde eles estarão do lado errado e perderão dinheiro porque o público em geral deixará de assistir a todos os filmes", diz Tenzing Barshee, ativista de Washington, presidente da Área da Capital. Associação Tibetana."

Voltei, aqui.  Hollywood nunca foi muito justa na representação de minorias, mulheres, e não-americanos em geral.  Aliás, resenhei um documentário sobre a representação dos árabes em Hollywood tempos atrás.  Obviamente, se curvar a Pequim não deve significar uma melhora nesse modus operandi. E o mesmo vale para os produtos japoneses se curvando aos interesses e padrões culturais ocidentais.  Sim, acabei de ver gente acusando Fruits Basket (フルーツバスケット) de PEDOFILIA e eu estou me coçando para não ir bater boca, mas deixa quieto, porque isso daria outro texto.

Mulan iria estrear em março.

Enfim, se estamos falando de cinema e de China, Mulan vai entrar na grade da Disney+, que não chegou ao Brasil ainda, no sistema de VOD (video on demand)  em setembro.   Olha, era esperado e, ao mesmo tempo, é burrice, porque o filme vai entrar no top 10 dos mais pirateados.  Mesmo com lançamento posterior no cinema, será que quem já tiver assistido vai querer pagar ingresso?

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

China proíbe exibição de Era Uma Vez em Hollywood após pedido da filha de Bruce Lee


Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood) deveria estrear na China no dia 25 de outubro.  Estava tudo certo, mas um apelo da filha de Bruce Lee à Administração Nacional de Cinema do país fez com que o filme fosse suspenso.  Houve a proposta de que a cena na qual Bruce Lee é retratado de forma distorcida e humilhante fosse retirada. Não é incomum que filmes sofram alguma censura para serem exibidos na China.  Quentin Tarantino recusou.  

Decidi comentar esse causo, porque, bem, via de regra sou contra a censura, mas, neste caso, como se trata de difamação de alguém que nem vivo está para se defender e de egocentrismo de homem branco, rico e que finge não ser racista, estou concordando.  Seguem as minhas ponderações.  Serei breve, porque preciso ir dormir.

Tarantino apresenta Bruce Lee quase que como uma fraude.
Se você assistiu ao filme (*minha resenha está aqui*), deve concordar comigo que a cena entre a personagem de Brad Pitt e Bruce Lee não tem função na narrativa.  Ela parece estar lá somente para mostrar o quanto a personagem de Brad Pitt, um homem branco, dublê de cinema quarentão e herói de guerra (*se da 2ª Guerra, ou da Coreia, não fica claro*) é melhor que o chinês arrogante que não conhece o seu lugar.  É só isso mesmo, acredite.  Só que o chinesinho é Bruce Lee e há muita informação sobre ele e um monte de gente viva que conviveu com o astro para questionar essa representação absurda.

No entanto, toda a discussão sobre a representação equivocada do Bruce Lee foi ignorada pelo Tarantino.  Ele não deu a mínima.  Mesmo com a possibilidade de perder o mercado chinês, e olha que é um mercado de muito peso nos dias de hoje, ele achou que valia bater o pé.  E, sim, há mérito nisso.  Ele não quer ver sua obra mutilada e isso é direito do artista, ainda que eu considere que, neste caso específico, seja somente ego mesmo.  Pois bem, ninguém vai sofrer uma perda absurda na sua cultura cinematográfica se não assistir Era Uma Vez em… Hollywood e a pirataria agradece.

A cena que poderia ser tirada do filme.
Censura sempre é ruim?  Sim, é, mas me dou ao direito de incluir esse caso junto com parte dos cortes que os americanos fizeram nas duas primeiras séries de Yamato  (宇宙戦艦ヤマト) que passaram no Brasil nos anos 1980, na Rede Manchete.  Só fui descobrir o quanto Yamato era misógino e como a Lola (Yuki Mori) era humilhada, quando assisti um especial do Top TV (*saudoso programa da Record*) comentando Yamato vários anos depois.  

Foram muitos os cortes e alterações, mas me refiro às cenas que objetificavam a personagem, ressaltavam o seu papel acessório dentro da nave.  Aliás, até chegarmos na terceira temporada, Lola era a única mulher embarcada no Yamato, ou, pelo menos, a única oficial com falas e que não era mera figuração. A personagem era navegadora, chefe da cozinha, enfermeira (*com uma saia bem curtinha*) e namoradinha do capitão, um prodígio.  "Poxa, realmente fez falta para a  história, ela ser apalpada por quase toda a tripulação masculina gratuitamente!"  Não, não faz.  A cena com Bruce Lee também, não.

Yuki Mori, ou Lola, como era chamada nas
versões de Yamato, na verdade Star Blazers, exibidas aqui.
De resto, a censura é sempre um ato autoritário, isso não está em discussão no meu texto.  Alguém, normalmente em nome do Estado, acredita que pode decidir o que é melhor, ou pior para você. É uma forma de tutela em que alguns são encarregados de arriscarem os seus valores morais em prol da coletividade, sendo expostos a toda sorte de material para que o resto da sociedade seja poupada de fazê-lo.  

Não vou negar, entretanto que, nesse caso, eu entendo os chineses.  Compreendo a revolta da filha de Bruce Lee.  Eu, que nem sou tão fã dele, fiquei ofendida.  Como escrevi na minha resenha "(...) se alguém disser que foi um uso racista e babaca de Bruce Lee, assino embaixo.  Gente como Lee só pode ser desagradável para quem tem medo de mudanças sociais, de perder seu status quo (...)".  Para mim, seria como lançar em nosso país material (*sem notas de rodapé, introdução crítica, ou o que fosse possível*) negando o protagonismo de Santos Dumont na história da aviação em prol dos Irmãos Wright, que nada tinham a oferecer, salvo sua palavra sobre o (*suposto*) voo de 1903, sendo  que somente realizaram uma apresentação pública em 1908.  

Yuki Mori foi a única mulher da
tripulação durante boa parte da saga original.
Aliás, as tentativas de reproduzir o primeiro voo dos americanos, seguindo aquilo que eles disseram ter feito com seu primeiro modelo de avião, redundaram em fracasso, inclusive a comemorativa dos 100 anos da "façanha".  Os Wright somente conseguiram voar depois de Santos Dumont, que o fez  em 1906, e de terem acesso, já que o brasileiro não estava nem aí para patentes, ou lucro, aos projetos de Dumont expostos para quem quisesse ver em Paris.  

Mas é aquilo, americano não mente e tem uma máquina de propaganda na mão (*cinema, seriados de TV, quadrinhos, animações etc.*) para reforçar a sua versão dos fatos e torná-la uma verdade.  Há uma animação no Youtube, que eu não vou procurar, na qual Santos Dumont é o vilão rico que quer roubar a glória dos esforçados norte americanos.  Esse não passou por aqui, mas a gente viu episódios fofos de Snoopy e outros desenhos legais mostrando a façanha dos Wright e sem sequer mencionar o brasileiro.  Melhor apagá-lo do que atacá-lo, é até mais cruel, sabe?  


Willem Dafoe em A Última Tentação de Cristo.
Por essas e outras, a versão de Bruce Lee vendida por Quentin Tarantino pode se cristalizar no imaginário coletivo, afinal, já se passou muito tempo desde sua morte e o diretor norte americano pode ser tomado como voz de autoridade.  Enfim, pelo menos entre os chineses a versão tarantinesca de Lee não irá substituir outras leituras mais próximas do que o artista realmente foi.  

Retornando, este é um dos raros casos de censura dos quais não discordo, ainda que assumindo que, sim, é arriscado apoiar qualquer tipo de censura, mesmo bem intencionada.  Por onde passa um boi, pode passar uma boiada inteira e estou com um livro na mão, Roteiro da Intolerância de Inimá Simões, que mostra bem o quanto, mesmo depois da Constituição de 1988, a censura em nosso país continuou ativa, mesmo que envergonhada. Foi por muito pouco que A Última Tentação de Cristo, um filme excelente e muito cristão apesar da gritaria, não foi exibido em nosso país.  Faria muito mais falta nos anos 1980 do que o filme de Tarantino hoje, diga-se de passagem.  Mas, enfim, é um dilema, mas a vida é feita deles, porque quase nada é simplesmente preto, ou branco.

O chinês que se achava demais.
P.S.: Um amigo querido discordou de mim em relação à função da cena de Brad Pitt e Bruce Lee dentro da narrativa.  Para ele, a cena serve para estabelecer o  "(...) quão forte e habilidoso é o personagem do Brad Pitt. (...)" e que essa "cena justificaria a "surra" que o Pitt dá nos capangas do Mason, ao final do filme."  Enfim, se esta é a função da cena em que Brad Pitt surra Bruce Lee, o filme nivela o artista 
aos minions do Mason. Se você viu essa função na cena da discórdia, então, a ofensa ao Bruce Lee foi muito maior. Afinal, três adolescentes hippies drogados (*a tal ponto que entraram na casa errada*) deram mais trabalho ao herói super macho branco velho que o chinês boquirroto que lutava Kung Fu. 

Vejam que eu nem pensei por esse lado e mantenho que a cena não tem função na narrativa, porque se eu tomar por esse lado, tenho que voltar na minha resenha e dizer que o filme é uma das coisas mais ofensivas que já assisti no cinema, levando-se em consideração o fato de ser um filme de primeira linha e, não, uma produção feita para ser esquecida.

domingo, 13 de outubro de 2019

Uma rosa para "Lady Oscar": a heroína da revolução francesa completa 40 anos (Artigo traduzido)


A Sam me passou mais um link de um artigo italiano comentando os 40 anos do lançamento do anime da Rosa de Versalhes no Japão, foi publicado no site Tgcom24 e não está assinado, parece tentar dar voz à memória coletiva das crianças e jovens italianos que assistiram a série nas suas primeiras exibições noa anos 1980.  Enfim, não vou me prolongar aqui, depois do artigo, coloco algumas notas..  Segue a tradução do artigo, mais um que mostra o amor dos italianos pela animação e a importância que ela teve no país.

Oscar e seus três uniformes.
Uma rosa para "Lady Oscar": a heroína da revolução francesa completa 40 anos

Em 10 de outubro de 1979 no Japão, foi transmitido o primeiro episódio do anime 

A luta de classes, história, liberdade, amor não correspondido, morte e desespero. Tudo isso foi "Lady Oscar", uma série de anime que se tornou uma das mais populares de todos os tempos,[1] inspirada na história em quadrinhos de Ryoko Ikeda "Versailles no Bara" (La Rosa di Versailles). O primeiro episódio do  anime estreou na TV japonesa em 10 de outubro de 1979, enquanto na Itália chegou apenas em março de 1982.

O mangá "Versailles no Bara" (Le rose di Versailles) foi publicado no Japão entre 1972 e 1973, inspirado em uma biografia de Marie Antoinette escrita pelo austríaco Stefan Zweig.[2] A obra de Riyoko Ikeda é um mangá shoujo (quadrinhos para meninas), que desvenda temas universais como amor, amizade, conflitos entre classes sociais, ferocidade da guerra, lealdade aos ideais.
Oscar aos 14 anos.
As rosas do título referem-se a cinco personagens: Marie Antoinette é a rosa vermelha, Madame de Polignac a amarela, Rosalie um botão de rosa, Jeanne a rosa negra e Oscar é a rosa branca.  Oscar é diferente das demais: ela é uma mulher criada por seu pai como se fosse um homem, cuja criação é inspirada por um personagem verdadeiramente histórico que, no entanto, não era de todo uma mulher ("O bom pai queria um menino / Mas, infelizmente, você nasceu / No berço, ele colocou uma florzinha para você / Lady com um laço azul").[3]

FRACASSO EM SUA PÁTRIA, SUCESSO NA ITÁLIA - A série animada feita pelo estúdio japonês Tokyo Shinsha e exibida no Japão em 1979 foi um fracasso. Até a transmissão foi interrompida em alguns distritos, com a série com a série terminando de forma apressada com um episódio resumido (nunca exibido na Itália). Em nosso país, por outro lado, a série logo fez grande sucesso. Após a estreia no canal Itália 1, ele foi reexibido no programa "Bim Bum Bam", e mais tarde no Canal 5, Rede 4 e outras emissoras: a Itália foi, entre as nações europeias, a que reexibiu o anime mais vezes.
Um amor impossível.
O TÍTULO ITALIANO - O título italiano do anime, "Lady Oscar",[4] deriva do título do filme lançado em 1978 sob a direção de Jacques Demy, adaptação do mangá original (Patsy Kensit interpretou Oscar quando criança).

A CENSURA - Quando a animação chegou à Itália, o anime passou pela censura da época.[5]  A famosa cena da discussão entre André e Oscar com a blusa da heroína sendo rasgada se tornou, corte após corte, cada vez menor com o passar dos anos. Mas as modificações no material original ocorreram sobretudo nos diálogos. As partes mais "revisadas" eram obviamente as relativas à identidade sexual de Oscar e à descrição de personagens desconfortáveis (como prostitutas).
A noite de amor, no anime, acontece em uma floresta.
AS MÚSICAS DE ABERTURA - "Ohh Lady, Lady, Lady Oscar, todo mundo comemora quando você passa" foi o refrão da primeira abertura mítica dos Cavalieri del Re, de Riccardo Zara. Um autêntico sucesso que alcançou o sétimo lugar da parada de sucessos italiana. Existem, no entanto, duas outras versões da segunda música tema do anime na Itália, "Uma espada para Lady Oscar". A primeira foi cantada por Enzo Draghi (a voz de Mirko da Bee Hive) e a segunda por Cristina D'Avena. E por causa das reprises nos anos 90 com sua voz, sua voz ficou marcada nas [nossas] memórias.[6]


Primeira abertura.


Segunda abertura.

[1] A série da rosa de Versalhes chegou no momento certo na Itália e no resto da Europa.  Tivéssemos a mesma sorte no Brasil, talvez o mangá, lançado pela JBC, teria sido lançado muito anos por aqui. Aliás, se não comprou a série, corra.  Seguem os links para compra no Amazon: 1 - 2 - 3 - 4 - 5.  Todos os volumes estão em promoção.
[2] A biografia de Maria Antonieta escrita por Stefan Zweig teve várias edições em nosso país.  A última foi publicada sob o título de Maria Antonieta: Retrato de uma mulher comum.
[3] Aqui não entendi bem.  O texto não fala de qual personagem histórico seria a fonte de inspiração para Oscar e ainda citou os versos iniciais da primeira (*e bem ridícula*) música de abertura da animação na Itália.  Enfim, segundo a própria Ikeda, uma das fontes de inspiração para Oscar, a maior de todas, foi a Rainha Cristina da Suécia.  Para quem tiver curiosidade, recomendo o último filme sobre Cristina feito em 2015.  A minha resenha está aqui.
[4] O filme de 1978 foi a primeira adaptação de um mangá para o cinema feito fora do Japão.  Sim, o filme não é lá essas coisas, mas o mérito do pioneirismo cabe à Rosa de Versalhes.  Para quem quiser ler a resenha, está aqui.

Primeiro encontro com Gerodell.
[5] A censura aos animes era muito comum na Itália, segundo um verbete da Wikipedia, mas isso se encontra, também, nos sites especializados, alguns animes passaram sem censura em sua primeira exibição em TVs privadas, e o artigo cita Lady Oscar e Georgie.  Este último talvez tenha sido o chamariz para a ação da censura, porque parecia inócuo, tinha um traço fofinho, o mesmo de Candy Candy, mas é muito barra pesada e tem um conteúdo sexual bem explícito, ainda que adequado à história.  Os sites italianos falam muito do impacto que a série teve e que uma cena de nudez e quase sexo fez com que houvesse pressão para a sua suspensão, isso lá nos idos de 1985, acho.  Agora, o anime mais censurado da TV italiana e francesa foi outro shoujo, Alpen Rose.  Não há nada de sexualmente explícito na série, nada, mas o vilão é um pedófilo assumido, que deseja a mocinha, e há o conteúdo político.  A série se passa na II Guerra, o vilão, além de pedófilo, é nazista.  Todas as cenas con suásticas foram cortadas, ou refeitas.  Como o sujeito era francês, na França a coisa foi ainda pior.
[6] Acho a primeira versão da música de abertura italiana muito ruim, a francesa consegue ser pior, mas ela é amada na Itália. A segunda é um pouco melhor, mas como alguém tem coragem de substituir a belíssima música original?  Aliás, há uma versão italiana do original que saiu em um LP por lá, mas não foi utilizada na série.  De qualquer forma, Cristina D'Avena tem uma linda voz e Una Spada para Lady Oscar é passável.  Na voz do Enzo Draghi é boa, também, mas D'Avena cantava praticamente todas as aberturas de anime italianos nos anos 1990.

domingo, 29 de setembro de 2019

Recomendação de Vídeo: Why Anime in Latin America was... Different (and Better)


Não conhecia o canal Get In The Robot, mas um amigo repassou o vídeo no Facebook  eu parei para assistir.  Enfim, não tem legendas em português, acredito, só as automáticas em inglês, o que é uma limitação.  Mas por qual motivo o vídeo é interessante? 


Para quem não entende inglês, vou deixar meus comentários:  A apresentadora, Cristal Marie Calderon, deve ser pelo menos uma geração mais nova que eu, o que quer dizer que ela assistiu criança aos animes que apontou como icônicos para a sua geração: Dragon Ball Z, Sailor Moon, Pokemon, Saint Seya e Cowboy Bebop.  O fato dela dizer que estava na escola, provavelmente, ainda criança, quando assistiu Pokemon, já confirma isso.

Ela comenta que o sucesso dos animes na América Latina, e ela em vários momentos especifica que falante do espanhol, é que eles não foram censurados.  Saint Seya (*o anime favorito da apresentadora*) foi exibido com seus 114 episódios, enquanto nos EUA, a exibição tardia da Cartoon Network editou a tal ponto que o anime passou a ter 40 episódios e somente 32 foram exibidos, porque a audiência era baixíssima.  

Não lamento que o assédio e o fanservice ofensivo
praticado contra a personagem Yuki Mori (Lola)
tenha sido retirado de Yamato pelos norte americanos. 
Para tudo há exceção.
No Brasil, foi mais ou menos assim, o que vinha para cá passava como chegava.  Por exemplo, Yamato (Patrulha Estelar), as duas primeiras séries, chegou via EUA e veio já com censura.  Quando veio a terceira temporada, direto do Japão, deu um nó na cabeça da gente, porque muitas personagens tinham morrido e, bem, nós não tínhamos assistido essas mortes.  Curiosamente, eu até aceito algumas das censuras em Yamato, porque a forma como Lola (Yuki) era ratada era realmente ofensiva.

A apresentadora ressalta que quando havia algum rolo em países da América Hispânica, era porque o material vinha censurado de fora, como aqui, via Espanha (*animes eram muito censurados na Europa dos anos 1980*), em alguns casos raros, Sailor Moon, via Estados Unidos, mas sem toda a censura de lá.  Sailor Moon, que nós aqui recebemos do México, não contou com a censura ocorrida nos EUA, simplesmente houve mudanças nos nomes Usagi virou Serena, por exemplo, e uma confusão na dublagem com Zoisite sendo transformado em uma mulher.  OK.  A gente recebeu essa versão, mas, de resto, era Sailor Moon.  

Nos EUA, Urano e Netuno eram primas.
O problema é que, no Brasil, tivemos uma lacuna grande sem receber anime nenhum, ou quase nenhum, daí o boom com Cavaleiros do Zodíaco (*para mim, um anime mais ou menos, mas meu marido ficou bravo agora a pouco, porque falei isso.*).  Em outros países latinos, o fluxo de animes foi quase contínuo.  Por exemplo, por aqui, a gente só assistiu uns 28 episódios de Candy Candy, muito diferente do que aconteceu em outros países da América Latina.

E o que a apresentadora tem a dizer sobre isso, que é, aliás, a parte mais importante do vídeo?  Enfim, ela discute que os japoneses queriam nos anos 1980-90 entrar nos EUA de qualquer jeito.  Os americanos consideravam os animes produtos inferiores (*olha, eu diria que eles sabiam que potencialmente era competição superior mesmo*), com muitas peculiaridades culturais e que fugiriam do objetivo das animações norte americanas, isto é, vender brinquedos.  Não dariam lucro.

Por confusão, Zoicite virou mulher.
Ela comenta que muitos animes, quando chegavam aos EUA, eram tão desfigurados, tão desfigurados, como Card Captor Sakura, com o objetivo de se ajustas aos (*supostos*) gostos locais, que flopavam completamente.  Ela cita Card Captor Sakura.  Para quem não conhece, nos EUA, a série virou Card Captors em seu primeiro lançamento e foi cortada e dublada para transformar Shoran em protagonista, porque Sakura não teria apelo para os meninos.  Enfim, atitudes típicas dos gênios que acreditavam, também, que meninas e mulheres não gostavam de quadrinhos.

Tentando ampliar o mercado, empurraram por baixíssimo preço os animes para países da América Latina, onde a produção de desenhos animados praticamente não existia, porque as crianças eram vistas como uma audiência pouco lucrativa.  Quem foi criança nos anos 1980, no Brasil, deve lembrar de quão caros eram os brinquedos e que a gente só ganhava (*quando ganhava*) brinquedos mais caros em datas muito específicas.  No meu caso e do meu irmão, o brinquedo mais caro era no Natal.  Dia das Crianças era um brinquedo barato.  Aniversário, bem, a festa já era seu presente.  Ela também pontua que esses países estavam saindo de ditaduras sangrentas.  O que isso tem a ver?  Ah, quem se importa com violência de anime quando temos a real servida todos os dias?  

Sangue azul... Sério isso, gente?
Outro fator importante, e este é central para mim, é que as telenovelas prepararam terreno.  Eu já defendi várias vezes que mangás são como folhetins/novelas, obras abertas.  Mudam-se os rumos no meio do caminho, sonda-se o que a audiência deseja ler/assistir.  A gente não está no Japão e não tem impacto nisso, mas o formato nos é familiar.  E, bem, telenovela também era visto como produto inferior, culturalmente falando, porque era feito principalmente para mulheres.  Isso ela aponta no vídeo e, sim, é meio desse jeito, ainda que no Brasil tenhamos saído um pouco desse cercadinho graças, principalmente, à uma mulher chamada Janete Clair, mas isso seria assunto para outro vídeo.

Novelas eram longas, mas com histórias fechadas.  As personagens normalmente tinham seus arcos desenvolvidos ao longo dos capítulos.  Havia drama, violência, humor, romance e, em alguns casos, certa nudez e sexo.  Ainda que o Brasil tenha meio que perdido o filão para crianças e adolescentes por mais de uma década, importamos Carrossel e Rebelde para somente depois produzirmos nossas versões, os mais jovens assistiam certas novelas.  Estavam, portanto, acostumados ao formato.

Shun mulher... Bem, já comentei sobre isso. 
Concordo com o vídeo.
De qualquer forma, assim como os animes se tornaram o maior produto de exportação do Japão, as novelas também são os de países como Argentina, México e Brasil.  Aqui, a apresentadora nos incluiu, também.  Produtos que são exportados, ganham versões em outros países (*inclusive nos EUA*) e geram produtos.  Coisa que, no início, não era nem imaginado.  Ela reforça isso citando como os americanos estão descobrindo essa mina e comenta o Cavaleiros do Zodíaco da Netflix.  Mas chega!  Me estendi demais.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Prefeito do Rio de Janeiro manda recolher da Bienal quadrinho da Marvel com romance gay


Está acontecendo no Rio de Janeiro a Bienal do Livro, um dos eventos mais importantes da cidade.  Como estamos vivendo tempos muito estranhos e sombrios, eu nem sei o que e como comentar  tanta desgraça que vem acontecendo, por isso, como se relaciona com quadrinhos, acabei dando preferência para esta notícia que apareceu na minha TL, agora.  

Enfim, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella publicou um vídeo anunciando que mandou recolher da Bienal, sim, RECOLHER, a HQ Vingadores – A Cruzada das Crianças, que mostra a nova geração dos Vingadores.  Segundo o virtuosíssimo prefeito "A prefeitura do Rio determinou que os organizadores recolhessem esse livro, que já foi denunciado inclusive na internet e que traz conteúdo sexual para menores. Livros assim precisam estar embalados em plástico preto, lacrado e com um aviso do lado de fora sobre o conteúdo. Portanto, a prefeitura do Rio de Janeiro está protegendo os menores da nossa cidade."


Vingadores – A Cruzada das Crianças é o 66º volume da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, lançada no Brasil em 2016 pela Editorial Salvat em parceria com a Panini Comics, ou seja, já estava no mercado faz tempo, antes que aparecesse algum paladino da heterossexualidade compulsória, do medo e da ignorância fazendo escândalo na internet.   A trama, que envolve um relacionamento gay, tem autoria do americano americano Allan Heinberg e do britânico Jim Cheung. Foi publicada originalmente em 2010.  

Segundo o site Rio Gay Life: "O casal gay da equipe é formado pelo Hulkilng, que foi confirmado esta semana como personagem no filme “Capitã Marvel 2″e pelo Wiccano, um dos filhos da Feiticeira Escarlate. Eles são um casal adolescente normal que, como qualquer casal adolescente, se beija. Umas duas vezes na história toda. E é só isso.”"  Não é material infantil, mas, também,  não é pornografia (*como parece ter alegado o prefeito*) ou qualquer coisa que precise ser escondida.  Ser LGBTQ+ não é proibido em nosso país e homofobia e transfobia são crimes equiparados ao racismo.

O MP está investigando se o confisco do material
feriu a lei.  Espero que não fique por isso mesmo.
O fato é que essa ação de censura é a segunda da semana, pois o governador de São Paulo e pré-candidato à presidência em 2022, João Dória, mandou recolher uma apostila da rede pública de ensino do estado que discutia questões de diversidade acusando-a de propagar a "ideologia de gênero", algo que efetivamente não existe a não ser dentro dos arraiais da extrema-direita religiosa.  Tanto Crivella, que enfrentará as urnas no ano que vem, quanto Dória querem capitalizar em tempos de obscurantismo e intolerância mirando uma fatia do eleitorado que por carência de informação e até boa fé (*Quem não se preocupa com as criancinhas?*) é alvo fácil de toda sorte de histeria moralista.  

Aliás, o E-Farsas já tinha comentado sobre boatos a respeito de livros da Bienal.  Esse tipo de "informação" chega no celular da sua tia, do seu avô, do vizinho, daquele seu irmão da igreja que nunca leu uma HQ, talvez nem mesmo um livro que não seja a Bíblia, ou recomendado na Igreja.  Para esse tipo de gente, quadrinho ainda é coisa de criança, ou de desocupado.  Se for uma pessoa da geração dos meus pais, por exemplo, gente na casa dos setenta, talvez, quadrinhos fosse literatura perigosa, que era usada por pervertidos para desencaminhar nossas criancinhas.  Essa ideia foi muito martelada entre os anos 1930 e 1950, culminando, nos EUA, com a publicação do livro A Sedução dos Inocentes.  Mas, enfim, esse tipo de ideia é explorada politicamente sem nenhuma vergonha por gente como esse vereador aqui.  Será que ele, ou Crivella, leram algum quadrinho na vida/ para além, talvez, da Turma da Mônica ou clássicos Disney quando crianças?   Duvido muito.

Censura é contra a lei.
O Jornal O Globo citou a advogada especializada em direito autoral e autora do livro "Cala boca já morreu: a censura judicial das biografias", Deborah Sztajnberg, que considera a medida pode ser considerada como censura do prefeito: "Quero crer que a Constituição ainda seja válida. Lá diz, textualmente, que acabou censura no Brasil. Uma decisão como essa precisa ser tomada por via judicial ou por decreto, mas de toda a forma é totalmente equivocada. É censura. O prefeito governa para uma cidade inteira, e não para uma parcela da população que compactua das crenças dele".

Sem dúvida, mas se as pessoas continuarem se calando, em breve a censura estará em todo o lugar, inclusive na internet, contrariando o que está assentado no artigo 5, incisos IV e IX  "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato (...)  é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;", além do artigo 220 da nossa Constituição.  Há quem grite contra as críticas politicamente corretas condenando racismo, homofobia, machismo, mas conviva perfeitamente bem com a censura de verdade.  Sim, a proibição de publicação, a censura de material a ser lançado, o confisco de livros e outras mídias e outras tantas atrocidades mais.  Muito triste o momento em que vivemos.

O conteúdo sexual ofensivo.

ATUALIZAÇÃO:
Segundo o Globo, quando a guarda municipal chegou para apreender as HQs, a direção da Bienal recusou a aceitar a ordem. O desdobramento foi o seguinte, a prefeitura insiste que a HQ viola a lei, porque apresenta conteúdo sexual (*um beijo*).  A maioria dos stands não tem mais a graphic novel e as que tem estão torcendo para que as vendas explodão.   Não fica claro se a HQ passou a estar lacrada e sinalizada, porque, enfim, parece que todo o movimento da prefeitura, que continua ameaçando a direção da Bienal, ou seja, mesmo sem o recolhimento,  é censura e, provavelmente, abuso de poder.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Vamos falar de Sexo? Sobre as mudanças nas sensibilidades, o recato das novelas das seis e como os shoujo barra pesada sobrevivem digitalmente


Estou devendo uns posts sobre Orgulho & Paixão.  Já aconteceu tanta, mas tanta coisa!  Desde o pedido de casamento de Darcy para Elisabeta, a recusa muito bem fundamentada da mocinha, até a sequência de sexo dos dois e o rolo das cartas que ainda está em andamento.  E Emma, então?  Tendo que lidar com Ernesto - que é um fofo e parece que  autor decidiu que teremos, sim, um Frederick Wentworth - e com Jorge tentando voltar ao jogo (*pode já ser tarde, aliás*) para que Murilo Rosa não morra na trama.  Emma ainda é a minha protagonista favorita de Orgulho e Paixão.  Mas não quero falar disso.  Quero falar de sexo e das neuroses cada vez mais frequentes em relação a isso.

Estamos no século XXI, não temos os nossos carros voadores, nem colônias na Lua, mas sim uma série de nóias que parecem saídas da Era Vitoriana (1837-1901) parecem ter voltado, ou emergido, com toda a força.  Era um período fascinante, sem dúvida, mas cheio de falso e verdadeiro recato, além de muita hipocrisia e violência para todos os gostos.  Ora, o sexo, como mecanismo de manutenção da espécie, permanece como uma necessidade, já a prática, a expressões dos afetos e dos desejos, a expressão sexualidade, enfim, é historicamente situada.  Bem, parece que vivemos um backlash em muitos sentidos, inclusive na forma como lidamos e falamos, ou não falamos, de sexo.  

A formidável rainha que deu nome a uma Era. 
Como aponta Eni Orlandi, se “todo dizer cala algum sentido (...)”, o silêncio não é um vazio sem história, o não-dito sempre quer dizer alguma coisa na ordem do discurso.  Como surgiu a ideia desse post?  Veio de quatro lugares: 1. Do confronto entre  as duas versões de Sinhá Moça, a de 1986 e a de 2006; 2. Da gritaria de certas mulheres elitistas e moralistas, porque há sexo em uma novela das seis que se passa em 1910; 3. Da conversa que tive com meu marido sobre essa onda (pseudo)moralista; e 4. Desse tweet aí embaixo:

A Emi, do site Shoujo Manga Land, é muito ativa no Twitter e ela fez esta postagem acima.  Para quem não entendeu, para quem não viu as antologias citadas, a Cheese! e a Sho-Comi, nos anos 1990-2000,  ambas traziam muito sexo, relações abusivas, mocinhas que eram, não raro, estupradas e isso tudo em um pacote cor de rosa.  Tais situações eram bem explícitas para revistas dedicadas para o público adolescente. A Cheese! tinha um recorte de idade mais elevado, mas a Sho-Comi seria para um público como o da Betsuma. Para piorar, e gerar escândalo e recriminações, a propaganda dos mangás dessas revistas apareciam na irmã mais nova de ambas, a Ciao, uma revista para a faixa etária de 9 a 13 anos, mais ou menos. 

Claro, essas duas revistas são mainstream, pertencem a uma grande editora, a Shogakukan, outras de editoras menores circulavam com material semelhante.  Tudo em papel e colocado nas lojas.  Havia reclamações, em alguns lugares revistas shoujo e josei terminaram apreendidas.  O que a Shogakukan fez?  Se impôs uma auto-censura.  Pegue uma Sho-Comi do tempo em que Shinju Mayu publicava lá, pegue um exemplar de hoje.  É muito diferente.  Há ainda conteúdo sexual, que é mais explícito na Cheese!, mas a coisa está em níveis muito mais controlados.  E eu considero que para o bem das publicações, especialmente, da Sho-Comi, que mira um público adolescente.  Mangás, repito, repetirei sempre, assim como outros tipos de quadrinhos, tem função pedagógica, também.
Ren-ai Shijou Shugi (レンアイ至上主義),
Minami Kanan, Sho-Comi, 2002.
Só que o que a Emi apontou, e que eu desconfiava, claro, é que muito desse material mais explícito, que celebra alegremente a cultura do estupro, migrou para o formato digital.  Na internet, é possível ler o que você quiser sem que tenha que passar em um balcão de loja para pagar.  A literatura erótica e pornográfica feminina (*vejam bem feminina, não necessariamente feminista*) floresce no meio digital.  Você pode ler no celular e no tablet, sem que tenha que expôr a capa de um livro ou mangá.  Como é uma coisa mais restrita, mesmo que de grande circulação, talvez os estragos sejam menores.  Como pontuei, essa separação, essa depuração das antologias shoujo fez bem para elas, para seus roteiros e leitoras.  Houve um momento em que era uma enxurrada de violência e ficava difícil separar joio do trigo.  

Quer ler coisas muito "smut"? Você pode.  Não estou aqui defendendo que sejam colocadas amarras aos desejos, fetiches, ou à imaginação de quem escreve, ou de quem consome, mas as empresas precisam criar linhas editoriais mais específicas e ter critérios claros em relação a elas.  Quem entra na página da Harlequin e vai no help center tem guias de como escrever e do que pode ser escrito nas diferentes coleções.  Enfim, os japoneses entenderam rápido o que estava acontecendo e fizeram isso, usaram a internet.  Continuamos falando de sexo, de afeto, de sexualidade nos shoujo mangá, mas aquela carga mais pesada que existia nos anos 1990-2000 sumiu das revistas mainstream.  Curiosamente, há quem olhe para esses materiais e ainda se apavore.  Veja bem, analisar é uma coisa, criticar é importante, mas se descabelar e gritar que é o fim do mundo e querer queimar tudo na fogueira, porque não se alinha a sua visão de mundo é outra coisa totalmente diferente.  Muito, aliás.
O problema é o sexo, ou é a falta
 de culpa por parte da mocinha?
O fato é que vivemos em tempos altamente moralistas no Ocidente.  Tanto o povo de direita, quanto o de esquerda, criam monstros o tempo inteiro.  E o sexo está no centro do palco.  Falando-se dele (*ou o mostrando*), ou não se falando dele, estamos o tempo inteiro orbitando em torno do dito cujo.  É o tal dispositivo da sexualidade, que Foucault tão bem definiu e discutiu. Ele nos domina, ele nos assujeita, ele tornou-se o eixo central da vida do Ocidente durante a tal Era Vitoriana.  Daí, muita gente acredita que todo mundo era casto, puro, sem desejo, antes dos anos 1960.  Depois veio a depravação e tudo é culpa da televisão, no Brasil, especialmente, da Rede Globo.

As narrativas se transformam, porém o dispositivo da sexualidade está lá enraizado. Antes se defendia que eram somente as mulheres (*decentes*) que não pensavam em sexo e aceitavam o desconforto dos contatos íntimos com um homem em troca do casamento e da realização suprema que era ter filhos.  Depois que coisas como Crepúsculo (*é somente um exemplo*) foram atiradas para as adolescentes (*e foram lidas por algumas adultas*) de uma década atrás, temos uma geração de mulheres que parece acreditar que os homens de séculos passados pautavam-se por ideias semelhantes.  Todos castos, guardando-se para o casamento, não frequentando bordéis, ou prostitutas, não tendo amantes, ou mesmo estuprando... Enfim, um mundo rosa e feito de algodão doce.

Maria Vitória e Vicente eram uns amores,
mas a noite de núpcias dos dois foi bem decepcionante.
E quando vejo algumas novelas das seis da Rede Globo, em especial a atual que é demonizada por vários motivos, acusadas em certos círculos de espalhar a depravação no Brasil e levar adiante uma agenda feminazi-gayzista-esquerdista, parece que eu estou vendo a revolta dos habitantes desse mundo cor de rosa ideal.  Acompanhei Tempo de Amar, a novela anterior e gostava dela, terminei não escrevendo uma crítica final, mas cheguei a comentar que me incomodava particularmente a falta de libido dos dois italianos que passaram quase toda a novela dividindo um cubículo com as duas portuguesas que eles amavam.  Nem leves delírios eróticos os moços tinham.  Absolutamente irreal.  

Como as sensibilidades modernas são projetadas no passado, a tolerância em relação ao moço bonzinho mulherengo é ZERO.  Ele não pode existir, não há aventuras amorosas, não existe mais aquela história do sujeito que tem duas famílias.  Se algo acontece, se o mocinho, ou alguém do "lado bom da força" olha para ourta, precisa ser acidente, ou armadilha do vilão.  Quando chegamos lá ao enlace de Vicente e Maria Vitória, da noite de núpcias dos dois quase nada foi mostrado.  E não peço longas cenas de sexo, mesmo que sugerido, ou erotismo muito marcado, não era o perfil das personagens, as melhores cenas dos dois, as cenas mais românticas, eram outras e sempre me lembrarei daquela lindíssima árvore amarela, entretanto, me ela me pareceu até pouco romântica, tamanho o pudor com que a coisa toda foi conduzida pela direção.

Lena terminou perdoando a traição de Giuseppe.
Daí, quando Darcy e Elisabeta tiveram sua primeira noite juntos, fiquei realmente surpresa da direção tornar tudo tão interessante, romântico e ao mesmo tempo erótico e apimentado na medida que o horário das seis atual permite.  Nada foi insosso, eu diria.  Primeiro, Elisabeta melhorou muito depois de umas primeiras semanas difíceis.  Acho que foi um esbregue que ela tomou do Jorge na sua primeira ida a São Paulo que inciou o processo.  A personagem amadureceu e se tornou independente na medida certa.  Ela ama, mas não quer casar.  É uma mulher livre e, sim, elas existiam na década de 1910, vide lá a minha resenha da biografia de Rosa Luxemburgo em quadrinhos.  
A pessoa postou em um grupo de Facebook restrito
e postou no UOL, então, quer que a coisa seja pública.
Só que isso, o amor materializado em sexo sem culpa, deixou umas coleguinhas de grupos de Jane Austen revoltadíssimas.  Como assim uma mulher fazia sexo antes do casamento em 1910?!  Como assim?!  Nem todas, a maioria provavelmente não, mas algumas faziam e gostavam, ou faziam e se arrependiam.  E posso citar exemplos históricos, começando pela irmã caçula de D. Pedro I, Ana de Jesus, quase contemporânea da própria Austen, que fez, gostou, e ainda conseguiu casar (*grávida*) com o homem que amava.  A maioria das princesas, vocês sabem, casavam com quem lhes era imposto, com raras exceções.  No mais, voltando para a novela, a sequência foi toda foi muito bonita também. Um meio termo entre o excesso de castidade e comedimento, e os exageros de outras épocas.

Foi-se o tempo em que em uma novela como Salomé (1991), Patrícia Pillar fazia a dança dos sete véus ao pôr do sol e terminava com os seios desnudos.  Fora as cenas de sexo as quais, hoje, talvez só aparecessem na novela das nove, mas eram relativamente comuns em algumas novelas das seis.  Sim, eu também acho que não era bem apropriado para o horário, como lá no caso das revistas shoujo com mangás super-sexualizados, mas vivíamos os anos pós ditadura e a censura tinha sido abolida.  Gerou-se quase um vale-tudo nas nossas TVs, basta pegar qualquer vídeo falando sobre programas de auditório, ou infantis da época, aliás, era uma tendência que vinha desde meados da década de 1980, pelo menos.  


Patrícia Pillar ficou quase nua no primeiro capítulo de Salomé.
Agora, é preciso ressaltar que as novelas das seis sempre foram muito mais comedidas que as do horário das oito e mesmo das sete.  Só que, em comparação com nossos dias, elas foram muito depuradas.  A novela Ciranda de Pedra de 1981 foi muito mais fiel ao livro que a de 2008, a qual modificou a orientação sexual de Letícia, que deixou de ser lésbica, e saiu distribuindo finais felizes para todo mundo, inclusive quem deveria morrer.  A atenuação dos conflitos, dos dramas é uma tendência que não me parece benéfica para as tramas das seis.  A novela que está no ar, Orgulho e Paixão, é agradável, bem escrita e dirigida, mas poderia ser mais interessante se fosse mais realista em certos aspectos.  Ela só consegue ser mais intensa quando assunto são os amores e os desejos, quer dizer, intensa para o que tem sido a média das tramas das seis. O resto é tratado com a excessiva leveza que o horário não precisava abraçar.

Já caminhando para o final, estou assistindo Sinhá Moça de 1986 e olhando o remake de 2006, ao mesmo tempo.  Pontuei umas coisas no meu último texto sobre como a primeira trama me parece mais realista, começando com a mocinha montando atravessada na sela, coisa que as produções modernas brasileiras e internacionais costumam ignorar, e humana em alguns aspectos.  Eis que estamos terminando a fase em que os protagonistas passam um tempo no quilombo.  Rodolfo rouba Sinhá Moça do trem e os dois seguem para a comunidade de escravos fugidos e lá se casam. Pelos cálculos da trama, passaram um mês escondidos e em idílio amoroso.  A mocinha está grávida e não sabe.  É igual em ambas as novelas.  
Sinhá Moça, 1986.
A novela de 1986 não mostra nenhuma situação sexual, mas mostra uma intimidade entre os protagonistas, Rodolfo e Sinhá Moça, que não percebi na novela de 2006.  As mesmas cenas, os mesmos diálogos, mas o desejo é evidente na versão mais antiga, com uma carga de desejo que a novela mais recente eliminou de todo. A de 2006 é somente romântica e um tanto sem sal. Daí, peguei duas imagens.  Na novela de 1986, o capítulo é o 106.  Rodolfo sem camisa, sentado com Sinhá Moça entre suas pernas.  A mesma cena na novela de 2006, capítulo 118, Rodolfo está completamente vestido, suas acomodações parecem melhores e o casal está em uma pose muito mais casta.  


Sinhá Moça, 2006.
Quando trabalha na roça do quilombo, Marcos Paulo aparece sem camisa, suado e descabelado.  Danton Mello parece sempre arrumadinho, limpinho e com a camisa bem abotoada. Há outra cena que me saltou aos olhos também.  O diálogo é o mesmo, porém o tom é totalmente diferente, assim como a ambientação.  Rodolfo (Marcos Paulo) está trabalhando no campo, suado e sem camisa.  Sinhá Moça (Lucélia Santos) vem atrás dele.  Ela fala que o pessoal do quilombo toma banho no Rio, o tom é quase de convite (*Vamos?*).  Ela diz que ele está suado.  Ele se desculpa.  Ela diz que gosta e os dois se beijam apaixonados.  Na versão de 2006, o diálogo é o mesmo, salvo por Rodolfo meio que reclamando de estar trabalhando tanto.  O mocinho está todo alinhadinho e o casal sentado em um banquinho.  Seguem as mesmas falas e temos um beijinho bem casto.  

Vinte anos e tantas mudanças.  Desde padrões de masculinidade e feminilidade novelescas, passando por essa obsessão por limpeza, e eu lembro de pelo menos duas intervenções - A Padroeira e Torre de Babel - porque os grupos de pesquisa reclamaram que as novelas eram sujas, até a questão do desejo suprimido e das situações com sugestão sexual cortadas.  Pelo menos, diferente de outras mídias, as novelas das seis cortam sexo e violência, e não somente o primeiro.  De qualquer forma, Orgulho e Paixão tem se saído melhor no que tange ao lidar com sexo e desejo, em mostrá-lo de forma inequívoca e romântica, do que Sinhá Moça 2006 e Tempo de Amar.  Mas é um processo e eu sei que se cismassem de fazer um remake de outra das minhas novelas favoritas, O Direito de Amar, a coisa perigaria a ficar insossa como a versão de Sinhá Moça de 2006. 

Já vi o povo reclamar de tudo, mas nunca vi ninguém reclamando
da camisa molhada fanservice do Colin Firth que não está no livro.
Não sei se o texto foi competente em condensar meus pensamentos.  Queria falar de backlash, falso moralismo (*daquele tipo que persegue exposições de museu e artistas*) e mudança nas sensibilidades.  O que era aceitável em uma época, pode deixar de ser em outra.  O que era esteticamente adequado em um momento, pode deixar de ser.  Material histórico (*filmes, novelas, quadrinhos*) são menos uma leitura do passado e muito mais uma expressão do tempo em que são criados.  A coisa, claro, tende a piorar se projetamos neles nossos (pre)conceitos e ignorância histórica.  Por exemplo, e a amiga Lina me lembrou disso, Jane Austen virou um ícone dos conservadores.  Por conta disso, há gente que não consiga perceber seu humor, sua crítica social e o quanto sua família Bennet era um tanto disfuncional... 

Concluindo, o pessoal transava, ou não transava, antes do casamento em 1910?  A resposta seria, alguns sim, alguns não.  E daí?  Por que sexo, especialmente, sem culpa lhe incomoda tanto?  E, por favor, deixe Jane Austen em paz, porque eu acho que ela teria é vergonha de certos fãs e não daria a mínima para a novela.

Pra quem não sabe, essa novela é de época,
 sim, mas passou às 23h.
ATUALIZAÇÃO: Cada vez que eu leio alguém dizendo que a Globo coloca conteúdo sexual em demasia em suas novelas de época, me pergunto qual foi a última novela das seis que a criatura assistiu, ou se não está confundindo novela das 11h, uma Liberdade, Liberdade, com novelas das seis da tarde.  Sério!  É viagem demais.