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domingo, 2 de agosto de 2020

Bate-papo com autores do livro"Gênero, sexualidade e feminismo no quadrinhos" e live de lançamento


O livro Gênero, Sexualidade e Feminismo nos Quadrinhos sai hoje.  Ele terá uma edição ebook gratuita e eu vou disponibilizar para vocês logo depois da live, hoje, 20h, com os editores (Natania e Amaro) no canal do Rapha Pinheiro, pesquisador e quadrinista, responsável pela linda capa do livro.   Para assistir, é só clicar abaixo 20h, ou depois, porque o vídeo estará disponível.


Ontem, houve um bate-papo com alguns dos autores, Dani Marino, Lucas Dalberto, Atilla Piovesan, Natania A S Nogueira e eu (Valéria Fernandes da Silva), sobre o livro.  Para assistir, é só clicar no vídeo abaixo:

E, se você ainda não estiver saturado, tem a live que eu fiz com o professor Amaro e está disponível aqui.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Um pouco da Bolívia e sobre representatividade: Não é por ser mulher que a gente tem que aplaudir


Não ia escrever sobre a Bolívia, a rigor, até poderia falar sobre as questões ligadas às mulheres, mas, enfim, tropecei nesse Tweet acima.  O que está escrito?  "Esta é a segunda presidenta da Bolívia.  Os Estados Unidos não elegeram ainda uma mulher presidente desde que ratificamos a nossa Declaração de Independência 243 anos atrás.  Parabéns para a Bolívia!  Que isso possa levar a uma eleição democrática livre e justa!" #BoliviaUnida"

Não sei se essa moça escreveu isso por ser bobinha, ou por convicção política.  Olhando por alto a página dela, acho que mais a primeira opção.  O que aconteceu na Bolívia foi um golpe militar, não do tipo clássico, porque há o forte componente religioso que vem dando o tom da coisa toda.  A autodeclarada presidenta, porque agora isso está na moda, Jeanine Áñez, entrou no palácio de governo carregando uma imensa Bíblia e dizendo que estava levando Deus de volta ao palácio.  Ela é autora de Tweets como o abaixo:

"Sonho com uma Bolívia livre de ritos
satânicos indígenas, a cidade não é dos índios,
que voltem para o Altiplano ou para o Chaco."
Enfim, ser a face feminina de um golpe não torna Jeanine Áñez uma mulher a ser admirada, agregue-se a isso o fato de ser racista e demonizar as religiões que não são a sua.  Aliás, a bronca toda desse povo com o Evo Morales, para além do fato dele ser quem é (*indígena, de esquerda, de origens humildes*), foi ter tirado da Igreja Católica o seu lugar como religião de Estado e o link para a notícia é de um site evangélico importante que, à época, comemorou essa medida por parte do presidente.  Até para quem está falando que os evangélicos deram o golpe na Bolívia, enfim, alguns podem até ter ajudado, mas são católicos extremistas que estão à frente dessa desgraça.

Sim, vários dos nossos vizinhos latino americanos tiveram até pouco tempo religião oficial, sobram, hoje, Argentina (*já com restrições*) e Costa Rica, que ainda mantém essa questão em suas constituições.  Amanhã, quando for feriado de 15 de novembro, convém lembrar que, graças aos militares e outros positivistas, a nossa república foi criada laica e, sim, nos seus primórdios, o povo levava essas coisas muito à sério. De qualquer forma, foi essa medida de Evo Morales que deve ter alimentado ainda mais o ódio de alguns setores da sociedade boliviana.

Sim! tudo em nome de Deus.
Voltando, realmente duas mulheres governaram a Bolívia, no entanto, nenhuma delas foi eleita.  Lidia Gueiler Tejada tornou-se, era a presidenta do Congresso, e foi empossada depois de um fracassado golpe militar.  Governou de 16 de novembro de 1979 até 17 de julho de 1980, sendo a segunda mulher a exercer este cargo executivo nas Américas.  Mas não houve tempo para eleições, os militares tentaram novo golpe e derrubaram Tejada, que era uma liderança importante de esquerda de seu país desde 1952.  Tejada partiu para o exílio e, mais tarde, foi embaixadora da Bolívia em alguns países.

Jeanine Áñez diz ser a legítima governante do país, mas assumiu sem quórum suficiente, tendo os congressistas contrários sido barrados na porta do parlamento pela polícia, e a faixa foi lhe dada por um militar.  Foram as Forças Armadas e a polícia que, de forma geral, legitimaram e deram a essa mulher a possibilidade de entrar no palácio dizendo-se presidenta escolhida pelo deus cristão.  Na verdade, como houve renúncia de todos os que estavam na linha sucessória, inclusive a presidenta do senado, a jovem Adriana Salvatierra, não havia previsão clara de quem deveria governar, ainda que interinamente.  Outro golpe, portanto, essa senhora assumir.  A Bolívia, na verdade, nunca elegeu uma mulher presidente do país, como a moça do tweet apontou.

Bíblia rosa versão menina.
Ao invés de ficarmos, se é que alguém está realmente vendo representatividade nessa palhaçada toda, louvando essa mulher, que tal usar seu exemplo para algo útil?  Mulheres podem ser golpistas, racistas, cruéis, fanáticas religiosas, basta que tenham a oportunidade para isso.  Mulheres nem sempre são vítimas, ou não são vítimas o tempo inteiro e em todas as situações.  Mulheres podem levar adiante políticas públicas que prejudiquem outras mulheres e serem admitidas no seleto grupo dos governantes como "homens honorários".  

Talvez o modelo da maioria dessas criaturas políticas aos moldes de Jeanine Áñez seja Margaret Thatcher com um rosário e/ou uma Bíblia nas mãos.  Thatcher não precisava recorrer a esses recursos, era uma personagem política completa, goste-se dela, ou não.  Então, não se deixem enganar, não há nenhuma vitória pra as mulheres em ver uma Janaína Paschoal com votação recorde, ou uma Jeanine Áñez se afirmando presidenta.  Elas estão lá por concessão dos homens e, de certa forma, para fazer sua vontade e, não raro, prejudicar os mais fracos, e, dentre eles, os mais fracos sempre são as mulheres e as crianças.

Quem me representa é essa índia anônima com a
bandeira da Bolívia e a dos povos indígenas,
a Wiphala, que os golpistas vem queimando.
P.S.: Para quem ficou se coçando para comentar esse aspecto, digo que não estou falando de Evo Morales nesse texto.  Gosto de Evo, tanto quanto gosto de Obama, mas o líder boliviano ERROU.  Não deveria ter concorrido a uma terceira eleição (*assim como Fernando Henrique Cardoso a sua segunda, aqui, no Brasil, apesar de ninguém costumar chamá-lo de golpista*), mesmo que com apoio popular e, mais que isso, não deveria ter ignorado o plebiscito de 2016 e tentado um novo mandato.  Ele deu asa para que gente da pior qualidade agisse e tomasse o poder.  E não cabe misturar sistemas legais.  A Merkel pode ficar sei lá quantos anos no poder, porque a lei alemã permite.  E deu tempo de sobra para formar um sucessor, apesar do que algumas vozes importantes da esquerda estão pontuando.  Essa tentação caudilhistica latino-americana, esse narcisismo de alguns grandes líderes políticos, acaba prejudicando a eles mesmos e a todo o povo.  E, sim, foi golpe e a culpa do golpe é dos golpistas.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Sailor Mercury nos protestos no Chile


Nesses últimos dias, estão acontecendo grandes protestos no Chile.  O estopim, um aumento das passagens de metrô, expôs a insatisfação com o modelo ultraliberal imposto pela Ditadura Pinochet (1973–1990) que privatizou tudo, da educação até a água, e impôs um modelo de previdência, o mesmo que querem nos empurrar aqui, que condena a maioria das pessoas a receberem bem menos que o salário mínimo, enquanto, em termos comparativos, preserva os militares, um dos pilares do regime.  Os protestos foram reprimidos com muita violência, mas o governo Piñera decidiu mudar de estratégia.  Governo que, é bom lembrar, chegou ao poder com um empurrão de um relatório mentiroso do Banco Mundial distorcendo índices do governo anterior da socialista Michelle Bachelet.  É bom dizer, também, que Piñera, o presidente, vem de família que participou em maior, ou menor grau da ditadura Pinochet e auxiliou nas reformas econômicas que impuseram o neoliberalismo no país, o pioneiro na América Latina nesse aspecto.

A foto completa.
De qualquer forma, ajuda a derrubar a máscara de um dos países mais desiguais da América Latina, junto conosco, aliás, e outro que não acertou bem as contas com seu passado.  Aliás, recomendo esse artigo aqui sobre como a ditadura Pinochet tratava as mulheres e meninas que eram presas, ou simplesmente abordadas, pelos agentes da repressão.  Mas, enfim, bom ver otaku participando dessas coisas, para quem quiser saber a origem da foto, basta clicar aqui.  

Trecho do artigo sobre tortura de mulheres no Chile.
Se alguém quiser assistir filmes sobre a Ditadura Chilena, e estou escolhendo coisa leve, nada que vá virar demais o estômago de alguém, afinal, é material roduzido em Hollywood, peguem Missing: Desaparecido (Missing), Costa Gravas com a mão leve; A Casa dos Espíritos (The House of the Spirits), o filme em si não é bom, mas a parte que fala do início da Ditadura Pinochet vale a pena, mas prefira o livro da Isabel Allende; e De Amor e de Sombras (Of Love and Shadows), outro filme baseado em livro de Allende. E recomendo dois vídeos de pontos diferentes do espectro político, um liberal, outro marxista, mas falando da mesma coisa, um do Reinaldo Azevedo, outro do Humberto, do Saia da Matrix.  Espero que o post seja útil.



P.S.: Sim, queria falar do Chile, a foto da Sailor Mercury só me deu a desculpa e, bem, eu agradeço quem postou no Facebook essa imagem.

domingo, 29 de setembro de 2019

Recomendação de Vídeo: Why Anime in Latin America was... Different (and Better)


Não conhecia o canal Get In The Robot, mas um amigo repassou o vídeo no Facebook  eu parei para assistir.  Enfim, não tem legendas em português, acredito, só as automáticas em inglês, o que é uma limitação.  Mas por qual motivo o vídeo é interessante? 


Para quem não entende inglês, vou deixar meus comentários:  A apresentadora, Cristal Marie Calderon, deve ser pelo menos uma geração mais nova que eu, o que quer dizer que ela assistiu criança aos animes que apontou como icônicos para a sua geração: Dragon Ball Z, Sailor Moon, Pokemon, Saint Seya e Cowboy Bebop.  O fato dela dizer que estava na escola, provavelmente, ainda criança, quando assistiu Pokemon, já confirma isso.

Ela comenta que o sucesso dos animes na América Latina, e ela em vários momentos especifica que falante do espanhol, é que eles não foram censurados.  Saint Seya (*o anime favorito da apresentadora*) foi exibido com seus 114 episódios, enquanto nos EUA, a exibição tardia da Cartoon Network editou a tal ponto que o anime passou a ter 40 episódios e somente 32 foram exibidos, porque a audiência era baixíssima.  

Não lamento que o assédio e o fanservice ofensivo
praticado contra a personagem Yuki Mori (Lola)
tenha sido retirado de Yamato pelos norte americanos. 
Para tudo há exceção.
No Brasil, foi mais ou menos assim, o que vinha para cá passava como chegava.  Por exemplo, Yamato (Patrulha Estelar), as duas primeiras séries, chegou via EUA e veio já com censura.  Quando veio a terceira temporada, direto do Japão, deu um nó na cabeça da gente, porque muitas personagens tinham morrido e, bem, nós não tínhamos assistido essas mortes.  Curiosamente, eu até aceito algumas das censuras em Yamato, porque a forma como Lola (Yuki) era ratada era realmente ofensiva.

A apresentadora ressalta que quando havia algum rolo em países da América Hispânica, era porque o material vinha censurado de fora, como aqui, via Espanha (*animes eram muito censurados na Europa dos anos 1980*), em alguns casos raros, Sailor Moon, via Estados Unidos, mas sem toda a censura de lá.  Sailor Moon, que nós aqui recebemos do México, não contou com a censura ocorrida nos EUA, simplesmente houve mudanças nos nomes Usagi virou Serena, por exemplo, e uma confusão na dublagem com Zoisite sendo transformado em uma mulher.  OK.  A gente recebeu essa versão, mas, de resto, era Sailor Moon.  

Nos EUA, Urano e Netuno eram primas.
O problema é que, no Brasil, tivemos uma lacuna grande sem receber anime nenhum, ou quase nenhum, daí o boom com Cavaleiros do Zodíaco (*para mim, um anime mais ou menos, mas meu marido ficou bravo agora a pouco, porque falei isso.*).  Em outros países latinos, o fluxo de animes foi quase contínuo.  Por exemplo, por aqui, a gente só assistiu uns 28 episódios de Candy Candy, muito diferente do que aconteceu em outros países da América Latina.

E o que a apresentadora tem a dizer sobre isso, que é, aliás, a parte mais importante do vídeo?  Enfim, ela discute que os japoneses queriam nos anos 1980-90 entrar nos EUA de qualquer jeito.  Os americanos consideravam os animes produtos inferiores (*olha, eu diria que eles sabiam que potencialmente era competição superior mesmo*), com muitas peculiaridades culturais e que fugiriam do objetivo das animações norte americanas, isto é, vender brinquedos.  Não dariam lucro.

Por confusão, Zoicite virou mulher.
Ela comenta que muitos animes, quando chegavam aos EUA, eram tão desfigurados, tão desfigurados, como Card Captor Sakura, com o objetivo de se ajustas aos (*supostos*) gostos locais, que flopavam completamente.  Ela cita Card Captor Sakura.  Para quem não conhece, nos EUA, a série virou Card Captors em seu primeiro lançamento e foi cortada e dublada para transformar Shoran em protagonista, porque Sakura não teria apelo para os meninos.  Enfim, atitudes típicas dos gênios que acreditavam, também, que meninas e mulheres não gostavam de quadrinhos.

Tentando ampliar o mercado, empurraram por baixíssimo preço os animes para países da América Latina, onde a produção de desenhos animados praticamente não existia, porque as crianças eram vistas como uma audiência pouco lucrativa.  Quem foi criança nos anos 1980, no Brasil, deve lembrar de quão caros eram os brinquedos e que a gente só ganhava (*quando ganhava*) brinquedos mais caros em datas muito específicas.  No meu caso e do meu irmão, o brinquedo mais caro era no Natal.  Dia das Crianças era um brinquedo barato.  Aniversário, bem, a festa já era seu presente.  Ela também pontua que esses países estavam saindo de ditaduras sangrentas.  O que isso tem a ver?  Ah, quem se importa com violência de anime quando temos a real servida todos os dias?  

Sangue azul... Sério isso, gente?
Outro fator importante, e este é central para mim, é que as telenovelas prepararam terreno.  Eu já defendi várias vezes que mangás são como folhetins/novelas, obras abertas.  Mudam-se os rumos no meio do caminho, sonda-se o que a audiência deseja ler/assistir.  A gente não está no Japão e não tem impacto nisso, mas o formato nos é familiar.  E, bem, telenovela também era visto como produto inferior, culturalmente falando, porque era feito principalmente para mulheres.  Isso ela aponta no vídeo e, sim, é meio desse jeito, ainda que no Brasil tenhamos saído um pouco desse cercadinho graças, principalmente, à uma mulher chamada Janete Clair, mas isso seria assunto para outro vídeo.

Novelas eram longas, mas com histórias fechadas.  As personagens normalmente tinham seus arcos desenvolvidos ao longo dos capítulos.  Havia drama, violência, humor, romance e, em alguns casos, certa nudez e sexo.  Ainda que o Brasil tenha meio que perdido o filão para crianças e adolescentes por mais de uma década, importamos Carrossel e Rebelde para somente depois produzirmos nossas versões, os mais jovens assistiam certas novelas.  Estavam, portanto, acostumados ao formato.

Shun mulher... Bem, já comentei sobre isso. 
Concordo com o vídeo.
De qualquer forma, assim como os animes se tornaram o maior produto de exportação do Japão, as novelas também são os de países como Argentina, México e Brasil.  Aqui, a apresentadora nos incluiu, também.  Produtos que são exportados, ganham versões em outros países (*inclusive nos EUA*) e geram produtos.  Coisa que, no início, não era nem imaginado.  Ela reforça isso citando como os americanos estão descobrindo essa mina e comenta o Cavaleiros do Zodíaco da Netflix.  Mas chega!  Me estendi demais.