terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Sessenta Anos da Bela Adormecida, Dez Anos da Princesa Sapo


Uma das coisas que adiei, adiei e não fiz este ano foi uma resenha da Bela Adormecida, a terceira animação de princesas da Disney, que foi tão cara para a época, tão requintada, que causou um prejuízo grande ao estúdio.  Só tivemos uma nova animação de princesas, a Pequena Sereia, em 1989, trinta anos depois. Poxa! É outro filme aniversariando, mas eu não pensei em comentá-lo, fica para outra vez. Enfim, eu até cheguei a escrever alguma coisa nos cinquenta anos da Bela Adormecida, mas não foi bem uma resenha.  Para quem quiser, está aqui.  

Nas ilustrações recentes, Aurora usa rosa.
Considero A Bela Adormecida um dos filmes mais injustiçados do estúdio, porque o pessoal aponta o dedo para a Aurora, como a mais submissa das princesas da Disney,  fazem até piada com isso, mas esquecem que nas versões tradicionais do conto a coisa era realmente desfavorável para a princesinha. E nem falo de voltar nas origens, em Giambattista Basile (1566-1632), "Sol, Lua e Talia", uma história violenta e que tratava o estupro e outras violências sofridas pela protagonista com uma banalidade enorme, me refiro às versões posteriores já depuradas.  Na média, em a Bela Adormecida, a princesa vai de bebê à moça de 16 anos em um salto, fere o dedo, dorme e não interage com o príncipe em momento algum antes do desfecho da história.  A passividade da heroína é realmente extrema. 

Ilustração do conto de Basile.
O que a Disney fez?  Deu uma vida para Aurora antes da fatidica espetada no dedo (*bebendo em outro conto, aliás*) e colocou a princesa se encontrando previamente com seu príncipe, o primeiro a ter nome, e fazendo com que eles se apaixonassem quando cantam juntos na floresta. O dueto dos dois serviu de inspiração para o entre Ana e o vilão em Frozen, que culmina com a menina querendo se casar com o rapaz só para Elsa dizer que ninguém deveria fazer isso com quem acabou de conhecer.  Trata-se de uma espetada nos antigos clássicos da Disney.  Outros tempos e uma releitura feminista de uma situação mais que banal para qualquer realeza até o início do século XX.  

Aurora passa parte do filme pensando que é uma camponesa.
Príncipes e princesas casavam sem se conhecer pessoalmente, com sorte, havia trocas de carta e retratos, porque o que importava era combinação das famílias e seus interesses dinásticos.  Mas mesmo em A Bela Adormecida temos uma crítica a esses arranjos "Papai, nós estamos no século XIV!", diz um Filipe indignado quando o pai cobra dele que se case com a princesa que lhe foi prometida no berço. O moço já tinha se apaixonado pela camponesa, que ele não sabia ser a sua prometida, e estava disposto a conseguir impor sua vontade aos mais velhos. Em 1959, filmes como Juventude Transviada eram sucesso e Elvis rebolando era algo que virava a cabeça dos adolescentes e jovens que começavam a acreditar que podiam e deviam se fazer ouvir na sociedade.


A Disney permite que Aurora e seu príncipe se apaixonam
antes dela cair em seu sono profundo.
Filipe, aliás, é o primeiro príncipe da Disney com nome e personalidade, ele não é somente um lugar de refúgio para a mocinha em perigo.  Ele tem o que fazer no filme e faz muito.  É meu príncipe favorito da Disney até hoje, o que encarna todas as boas virtudes e tem senso de humor.  Mas mesmo que se busque desqualificar A Bela Adormecida em termos feministas, quero que alguém me mostre um filme da Disney, qualquer um, com tantas personagens femininas importantes e com falas.  Malévola é a vilã mais elegante e poderosa do estúdio e nossa princesa não se salvaria se não tivesse as três fadas-tias, tão injustiçadas no filme Malévola, lutando por ela e a protegendo.  

Um dos motivos pelos quais não gosto de Malévola. 
Quando tudo parecia perdido, são as Fadas que colocam todo mundo para dormir e dão para Filipe as armas mágicas necessárias para que ele derrote a vilã.  Elas são fundamentais e elas não são jovens, são gordinhas e baixinhas, e capazes de tomar as decisões que precisam com a presteza e a coragem necessária. Aurora não é ajudada por bichinhos e acreditar que foi Filipe, sozinho,  quem salvou a princesa é anular a importância das três fadas madrinhas.  Sim, quero que me apresentem outra animação da Disney com tanta representatividade feminina quanto A Bela Adormecida.


Falei demais da Bela Adormecida, enfim, quase uma resenha.  De qualquer forma, faz dez anos que A Princesa Sapo foi lançada.  Trata-se da última animação de princesas 2D da Disney, infelizmente. Só que, na época, com a Pixar a todo vapor,  as coisas estavam mudando e o estúdio acabou por por acompanhar o que era tendência no momento.  Eu assisti ao filme no cinema e fiz uma resenha para o Shoujo Café na época.  Revi a animação depois com a Júlia e tenho Blu-ray, aliás, nunca saiu uma edição especial dessa animação no Brasil.


Mais tempo como sapo do que como moça.
Tiana é importante só por existir e eu gosto bastante da personagem, que é decidida, trabalhadora, racional, ainda que sonhadora.  Acho aquela introdução do filme, com o bonde indo da parte rica da cidade para o subúrbio dos negros um primor.  Agora, é fato, que mantenho duas das minhas críticas da época à película.  A primeira delas é que a Disney perdeu a chance de pegar um conto africano de verdade e contar sua história, assim como fez com contos ocidentais, ou a lenda de Mulan.  Claro, nada impede que aconteça, mas nesses dez anos, o que tivemos?  

Tiana é das classes trabalhadoras, mas não em uma situação
de escravidão como Cinderella e a Bela Adormecida.
 
Salvo por Moana, todas as princesas continuam sendo brancas e europeias e ainda teremos repetição de Ana e Elsa.  Fui procurar, mas não consegui encontrar (*conexão ruim*) nenhuma lista feita pela própria Disney com suas princesas favoritas.  Há um consenso que é a Cinderella, mas quem estaria no top 10? Mulan, com certeza, e Bella, mas quem mais? E eu considero a animação original, que eu resenhei para o blog, muito boa, mas tenho curiosidade para saber em qual colocação Tiana está nesse ranking. 

Um príncipe negro para a princesa negra.
A outra crítica é que, mesmo com uma princesa negra, que o é não somente por casar com um príncipe, mas por trazer dentro dela as virtudes de uma princesa para a empresa, Tiana passa boa parte do tempo como um sapo.  Ora, isso foi muito ruim.  Nas versões do conto da Princesa Sapo, a princesa se mantém humana o tempo inteiro, é o príncipe que está sob feitiço.  Na animação, a Disney deixa Tiana por mais de 60% do filme como um bichinho.  Isso é bom?  Não.  As meninas negras tem uma personagem com a qual se identificar, verdade, mas ela é invisibilizada dentro de seu próprio filme.

Tiana tem uma mãe que lhe apoia e uma amiga que realmente gosta dela.
Agora, um deslize da Disney, que eu não percebi na época, foi a escolha das cores, Tiana usa vestido azul, mas na maioria das ilustrações da personagem, ela está de verde.  Cada princesa usa uma cor, ou assim, parece, nas ilustrações oficiais e em outras campanhas.  Por exemplo, Aurora usa azul e rosa no filme, mas como Cinderella usa azul, a Bela Adormecida aparece de rosa faz um bom tempo. No caso de Tiana, o verde em si não era problema, até que em 2012, lançaram um doce de melancia de Tiana e isso gerou uma forte crítica nos EUA. Veja, a imagem caricata de uma pessoa negra comendo melancia é um dos signos do racismo nos Estados Unidos algo usado em filmes e animações entre os anos 1930 e 1950 sem qualquer cerimônia e colocaram Tiana vestindo as cores da melancia.  Bola fora absoluta e algo bem ofensivo.

Doces da discórdia.
Eu queria muito outra princesa negra, uma de uma lenda africana, algo que tivesse origem no próprio continente.  Enfim, vai rolar?  Não sei.  De qualquer forma, Tiana é importante, mas expõe o desequilíbrio entre princesas brancas e não brancas, porque temos somente Tiana, Mulan, Pocahontas (*tão injustiçada*) e Moana. (*Jasmine é anterior, mas está em um filme da série herói  que se chama Aladdin*)  É pouco, muito mesmo.  De resto, uma das coisas que eu mais gosto em A Princesa Sapo é a amizade entre Tiana e a mocinha branca doida para casar, assim como ela ter uma mãe viva e que lhe apoia.  Quantas princesas tem mãe viva?  Merida, sem dúvida, mas a outra é Aurora e a mãe dela, em um filme de mulheres com falas e importância na trama, é somente bela e silenciosa, não muito diferente, aliás, da mãe de Rapunzel, tantos anos depois.


Todas as princesas e a rainha, claro. Faltam Sophia,
Helena e a do Caldeirão Mágico. 
É isso.  É o último post pessoal do blog em 2019, a não ser que eu post alguma coisa de Feliz Ano Novo.  Pretendo publicar um presente que recebi, mas, neste caso, não foi trabalho meu.

5 pessoas comentaram:

A própria imagem que você colocou no final do post, traz jasmine, outra princesa nao branca. Mas sim, ainda é pouco

Jasmine foi incorporada às princesas, mas ela é coadjuvante de um filme da série heróis. Ela não não impacta em nada o que eu escrevi.

Assisti A Bela Adormecida ano passado. E cheguei as mesmas conclusões que você.

Me ajude. Eu sempre assisti Cinderela na infância e achava que o vestido da Cinderela era branco e o que mudava sua cor eram as luzes do baile, entre azuis e violetas. Quando os produtos da série Princesas começaram a ser vendidos, cada uma ganhou uma cor e o vestido ficou cada vez mais azul. Mas no original não é branco? Kkkkk

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