sábado, 21 de março de 2020

Comentando Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Pixar/2020): Pelo trailer não parecia atraente, mas o filme é muito bom


Assisti Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward) no dia seguinte à estreia.  Quase três semanas atrás, portanto.  Foi minha última ida ao cinema antes da crise do Coronavírus que obrigou todas as salas de Brasília a fechar.  Medida justa e importante, que fique claro.  Pois bem, se não fosse pela Júlia, minha filha de seis anos, eu não iria assistir Dois Irmãos.  Não iria mesmo!  O trailer não me disse nada, não me chamou para o cinema, não sinalizou de forma consistente o que eu poderia encontrar na película.  Só digo o seguinte, ainda bem que ela me intimou a ir, porque o novo filme da Pixar é muito bom.  

Não se enganem com a bilheteria, a pandemia teve forte impacto nas bilheterias e, provavelmente, o trailer ineficiente ajudou a afastar muitos adultos.  Mas Dois Irmãos é um filme inteligente, divertido e cheio daqueles bons sentimentos que a gente precisa cultivar para uma boa vida em sociedade. É um filme que exalta os laços familiares, o desprendimento e a superação dos obstáculos sem ser piegas em nenhum momento e com personagens que são gostáveis.  Mesmo as coadjuvantes menores conseguem ser interessantes e menos rasas do que a média.  


Lauren, a mãe de Ian, é cheia de energia.
Vamos tentar resumir o filme, então: Temos um mundo cheio de criaturas mitológicas como elfos, trolls, centauros, sereias, dragões etc., e movido pela magia.  Só que para fazer mágica, era necessário muito esforço, estudo e disciplina. Um belo dia, a ciência e as invenções impulsionadas por ela começaram a impactar nos hábitos de consumo, na vida das pessoas.  é mais fácil acender uma lâmpada elétrica do que conjurar uma magia que crie luz.  O mundo mágico transformou-se em uma versão com seres encantados de um subúrbio classe média norte americano.  Aquele que a gente vê na maioria dos filmes.

Nesse novo mundo, a magia desapareceu, as fadas não sabem mais voar, unicórnios vagam pelas ruas comendo o lixo que os outros seres produzem.  Pouca gente se lembra do passado e os que mantém a memória daqueles tempos sofrem com o deboche e o ostracismo.  Somos então transportados para a cidade de New Mushroomton, onde mora a família Lightfoot.  Eles são elfos, o pai faleceu e moram juntos a mãe e os dois filhos adolescentes.  Barley, o mais velho, é fascinado por esse passado mágico, e vive se metendo em confusões, inclusive por tentar preservar monumentos desse tempo perdido, sendo chamado com deboche de "historiador".  Seu irmão, Ian, é tímido, solitário e com algumas fobias como o medo de dirigir.


Ian é solitário, tímido e cheio de fobias.
Incapaz de levantar sua voz, com dificuldades enormes de fazer amigos, Ian chega ao aniversário de 16 anos sem muitas perspectivas de melhora.  É exatamente no dia do seu aniversário que a mãe revela que o pai, morto antes do nascimento do garoto, deixou um presente que deveria ser aberto nessa data.  Um presente mágico para os dois e a oportunidade de trazer o pai de volta para que ele passasse um dia com seus filhos, para que pudesse conhecer Ian.  O problema, claro, é que a magia não funciona e os rapazes precisam partir em uma jornada para tentar concluir o feitiço e realizar o sonho do pai.

Como fui para o cinema imaginando que não iria gostar do filme, fiquei feliz em assistir uma película que me manteve atenta o tempo inteiro.  Mesmo assistindo em um horário noturno, não me cochilei em nenhum momento, apesar de todo o meu cansaço.  Em Dois Irmãos há discussões que estão ao alcance das crianças, não das menores de cinco anos, acredito, e mensagens para os adultos, também.  Fala-se da importância de se ter um irmão, o fato do lugar de pai não necessariamente precisar ser ocupado por ele, e, ainda assim, a defesa de que ter um pai é importante e que ele faz falta na nossa vida, são questões presentes no filme.


Não vou explicar o motivo do pai
estar assim, veja o filme.
Barley com seu entusiasmo é o oposto de Ian.  Só que na sua fixação pelo passado mágico, ele é negligente com seu presente, com sua família e sua própria vida.  Ele tem bom coração, mas, em alguns momentos, é irritante nos seus exageros, na sua fé na magia e fixação pelo passado mítico de sua terra.  Agora, apesar da pouca diferença de idade, ele ocupou como pode a função de pai na vida de Ian.  E uma das grandes dores do rapaz, que muitos veem como perdedor, é não ter tido coragem de se despedir do pai na cama do hospital.  

Só que dadas as diferenças entre os dois, a introversão de Ian, ele realmente acredita que existe um vazio em sua vida, uma lacuna deixada pelo pai que nunca conheceu.  Não sei se para a maioria das crianças as discussões sobre morte, perda de um ente querido e a necessidade de continuar em frente ficaram claras.  O fato é que o filme discute muito bem a necessidade de viver o luto e de superá-lo.  Não sei se devo falar, mas o pai é uma personagem presente durante boa parte do filme, mas não de uma forma convencional, por assim dizer.


Barley acredita que somente
a Mantícora poderá ajudá-los.
O visual de Dois Irmãos é muito bonito e honra a tradição da Pixar.  Imagino que em 3D ficaria melhor, nesse caso específico, eu realmente gostaria de saber.  As discussões sobre como o uso intenso da tecnologia impacta nossa vida, com seres mágicos que perderam suas capacidades por se renderem às "facilidades" do mundo moderno é bem relevante.  E não pensem que o filme é obscurantista, ele só discute o quanto a tecnologia nos dá possibilidades, mas pode criar limitações.  Por exemplo, uma das personagens secundárias, o centauro policial que namora a mãe dos garotos, não corre, porque pode andar de carro.  Ou outra criatura mágica, muito importante no filme, que termina se acomodando a uma vida medíocre..

Agora, há um porém nessa história de magia.  Diferente da tecnologia, que todos podem usar, somente alguns tem o dom de fazer mágica.  Ainda que exista o aprendizado, acredito que o filme tropece ao definir que para ser um mago é preciso ser "um dos escolhidos", fazer parte de uma elite.  A tecnologia é democrática, todos podem usar, todos, com algum esforço e inventividade, podem inventar coisas novas.  Nesse sentido, o filme, ao privilegiar a magia, algo central na história, termina por defender um modelo de sociedade que é excludente.  


As fadas motoqueiras me pareceram
uma referência a Mad Max.
Apesar de Barley entender muito de mágica "na teoria", ele não é um dos escolhidos. Somente Ian consegue fazer mágica, mesmo que Barley seja fundamental para a jornada do irmão, em um retorno a essa era da magia, ele seria alguém menos importante, hierarquicamente inferior.  O mais velho dos Lightfoot guia o caçula, sacrifica sua querida van Guinevere em sua aventura, mas ele não tem o dom.  Esse aspecto de Dois Irmãos não me agradou.  

De resto, o filme discute como superar a timidez e as fobias, a depressão (*Ian, para mim, era depressivo*), o bullying e outras coisas que tornam a nossa vida miserável.  As inseguranças de Ian, sua incapacidade de encarar a vida de frente, ajudam a tornar a história muito realista.  Lecionado para adolescentes, a gente percebe o quanto questões que são tratáveis podem evoluir para doenças reais.  A cada ano, tenho um maior número de alunos e alunas com diagnósticos de depressão e com histórico de tentativas de suicídio.  A solidão e a incapacidade de dialogar, ou de encontrar quem os ouça está na base de muitas tragédias.  Ian consegue fazer as pazes consigo mesmo, se reaproximar do irmão e da mãe, além de compreender qual o lugar de seu pai em sua vida.


Lauren, o namorado policial e a Mantícora.
Já caminhando para o fim, porque este texto está em construção faz muito tempo, mais uma vez, a Pixar optou por contar a história de personagens masculinos.  Há mulheres, ou fêmeas, importantes na história, mas elas são coadjuvantes.  Poderiam ter colocado um casal de irmãos, mas acredito que isso iria macular aquela representação idealizada da solidariedade masculina.  É como a reafirmação de que ter um irmão mais velho é sempre melhor que ter uma irmã mais velha, ou de que a jornada de descoberta feita por Ian jamais poderia ser feita por uma garota na mesma situação. Resumindo, apesar de todas as boas qualidades, é mais uma história sobre garotos.

Falando das Lauren, a mãe dos meninos, não é deixada para trás, ela parte em busca dos filhos para ajudá-los.  Já a Mantícora, ser mitológico com rosto de leão, asas de morcego e cauda de escorpião, fundamental para a missão dos rapazes, é uma das melhores personagens do filme.  Através dela podemos discutir como abrimos mão dos nossos sonhos, daquilo que temos de melhor, para nos deixar domesticar pela sociedade.  Por causa dessas duas cumpre-se a Bechdel Rule no filme.  E parece que ao longo da produção muita coisa foi mudada, mas nunca no sentido de colocar uma adolescente como co-protagonista.


Essa personagem gerou polêmica.
Outras personagens femininas que aparecem com algum destaque no filme são duas policiais.  Uma delas, uma ciclope, é lésbica.  A informação vem rápida e de forma casual em uma pequena frase sobre a ilha adolescente de sua namorada.  Parece que isso causou escândalo para alguns e problemas de distribuição para o filme, mas acredito que a maioria nem tenha notado.  O que me saltou os olhos a respeito dos policiais do filme é que ele, o namorado da mãe dos meninos, e elas não são pintados como idiotas.  Um clichê muito recorrente no cinema.

Enfim, Dois Irmãos já vai para streaming daqui a pouco por causa do coronavírus, se puder assistir no original, não perca a chance.  Os principais dubladores são Tom Holland e Chris Pratt.  Repito que não se espantem com a bilheteria baixa, a pandemia e um trailer ineficiente ajudaram.  Não sei se minha resenha foi competente, mas acreditem que o filme é muito bom, surpreendentemente emocionante e comovente.  E um dos filmes de elogio à família mais interessantes que eu assisti nos últimos tempos.


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