sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Comentando The Hour of the Pig (The Advocate/1993): Uma amostra do complexo sistema legal francês no século XV

Ontem, o Frock Flicks fez um post sobre um filme que eu estava para rever e comentar fazia muito tempo, O Advogado (The Advocate), ou A Hora do Porco (The Hour of the Pig), um filme com Colin Firth pré-Orgulho & Preconceito, mas não jovenzinho como em Another Country.  A Hora do Porco é um filme que se passa no século XV e conta a experiência de um jovem advogado chamado Richard Courtois, que se muda de Paris para fazer carreira no interior e acaba se envolvendo em um crime inusitado, ele precisa defender um porco acusado de matar uma criança.

Em A Hora do Porco temos uma visão das complexidades jurídicas da França antes do Código Napoleônico, em 1804.  Sim, a Idade Média tinha acabao fazia um bom tempo (*ou, não?*), mas algumas de suas estruturas ainda estavam em vigor.  O que eu quero dizer com isso?  O Direito Romano tinha que conviver com as legislações locais, os chamados "costumes", as leis consuetudinárias, fora isso, as autoridades civis e religiosas muitas vezes operavam ao mesmo tempo, ora cooperando, ora se sobrepondo, ora competindo entre si.  Fora isso, pelo menos té o século XVII, havia a existência de situações bizarras como a possibilidade de transformar animais em réus, ou testemunhas.  Aliás, o título alternativo do filme deriva disso e a película já abre com a execução de um homem e de sua "amante", uma jumenta.  Quando eles estavam prestes a serem executados, chega um religioso com uma carga do bispo absolvendo... o animal.  Ela teria sido vítima, foi violentada, só o homem é  morto.

A história do filme é inspirada na vida de um advogado que existiu, Barthélemy de Chasseneuz (1480-1541), um jurista que deixou vários livros, participou de disputas legais importantes em sua época e, sim,defendeu animais nos tribunais, sendo o seu caso mais famoso o que envolvia ratos que tinham destruído uma colheita.  O jovem Richard Cortois (Colin Firth) se muda de Paris, onde ele era somente mais um advogado, para o interior, a vila de Abbeville, no condado de Ponthieu.  Ele acreditava que iria conseguir uma colocação, construir uma carreira sólida e teria casos simples para resolver.  Acaba se metendo em uma série de casos esquisitos e vendo que a vida no interior não é nada fácil.

Junto com Cortois vai seu espertíssimo secretário Mathieu (Jim Carter), que logo se inteira das fofocas locais e consegue ajudar o seu mestre, que, bem, é tão distraído para certas coisas que não percebe que a hospedaria na qual está alojada é o bordel da vila e que Maria (Sophie Dix), a mocinha atenciosa que pula na sua cama, não é somente uma criada comum.  Aliás, A Hora do Porco tem uma versão mais curta, lançada nos EUA e que corta cenas de sexo, acredito que uma das cenas de sexo entre Colin Firth e Sophie Dix, diferente da lançada na Grã-Bretanha.  Eu acredito que assisti a versão integral, mas certeza, não tenho.  Enfim, se você quer ver Colin Firth pelado, esse filme é para você.

Para se ter uma ideia, o primeiro caso de Cortois é a defesa de uma mulher acusada de bruxaria, Jeannine Martin, interpretada magistralmente por Harriet Walter. O filme mergulha nos meandros da legislação francesa sobre bruxaria, algo que dava pena de morte, e malleficium, cuja punição era menor.  Fica em destaque a ignorância jurídica da mulher, que é torturada e admite fazer feitiços e das autoridades civis que nem fazem questão de vê-la morta, afinal, uma condenação mais simples a faria perder sua terra.  

Cortois, que é cético em relação ao tema, mas sabe que ela é visto com seriedade pela corte, está certo de que pode salvar a mulher da morte e a leva a confessar o crime menor, mesmo sabendo que ela se acreditava bruxa, mas, ao chegar na corte, o juiz usa a legislação eclesiástica local contra a ré.  Ela é morta.  Jeannine termina fazendo uma profecia a respeito de um cavaleiro com uma armadura brilhante que chegaria à vila para livrá-la do mal.  Alguns creem que  Cortois, um homem comprometido com a justiça e com a defesa dos mais fracos é esse cavaleiro.

Outra das personagens importantes do filme é o padre Albertus, interpretado pelo recém falecido Iam Holm.  Ele fica amigo de Cortois, um homem culto e com uma mente moderna, mas não é totalmente sincero com ele.  O padre é o guardião dos piores segredos da aldeia.  Fora isso, ele é mulherengo e trambiqueiro, o tipo de religioso que serviria de justificativa para as reformas religiosas do século XVI.

Não falei até agora do crime principal, enfim, um menino judeu é morto e um porco é acusado do crime e encarcerado.  Só que o animal é o bem mais precioso de um grupo de ciganos.  Há uma tensão permanente na aldeia em relação à presença dos ciganos, que são discriminados e excluídos.  Cortois quer ajudá-los e intervém quando o xerife (Jean-Pierre Stewart) pratica abusos contra os ciganos, porém, não deseja defender o porco, é um caso ridículo e humilhante, fora que ele não acredita que o animal matou a criança.  Só que Cortois se sente fascinado por Samira (Amina Annabi), uma das ciganas, que está interessada nele também.  Ela quer que ele defenda o porco, o que ele acabará fazendo mesmo.

O senhor feudal local, Jehan d'Auferre (Nicol Williamson), convida Cortois para ir ao seu castelo.  O nobre nasceu plebeu e comprou seu título de nobreza e é muito prático.  Sua esposa (Joanna Dunham) é viúva de seu irmão e ele comenta que teve que pagar muito caro pela dispensa papal para o casamento.  Não fica muito claro, mas acredito que a esposa de Monseigneur d'Auferre é nobre.  Ele quer contratar Cortois e vê no jovem advogado parisiense um bom partido para sua filha (Lysette Anthony), que está encalhada e é visivelmente desequilibrada. O nobre tem também um filho (Justin Chadwick) que é bem sinistro, também.  

Cortois se vê obrigado a aceitar a defesa do porco e d'Auferre quer que o caso seja resolvido com rapidez, enquanto o advogado, já perdidamente apaixonado pela cigana, quer justiça.  O protagonista começa a desconfiar que o nobre está metido no crime.  O velho e experiente advogado local, Pincheon (Donald Pleasence), já o tinha avisado que ele deveria conhecer os costumes locais, mas Cortois permanece alheio a eles e acaba se surpreendendo ao ver que quem assume como juiz do caso é o próprio senhor feudal.  Qual seria o seu interesse?

Ao longo do filme, um esqueleto de uma criança desaparecida é encontrado, o apotecário (Vernon Dobtcheff), que faz as vezes de legista, avisa que não crê que o primeiro menino foi morto pelo porco e Cortois fica cada vez  mais intrigado pelo comportamento do nobre, seu filho e seus amigos sinistros.  Fora isso, há um sujeito esquisito (Vernon Dobtcheff) na hospedaria e que Cortois crê ser um espião mandado pelo nobre.  Há muitos segredos na vila e Monseigneur d'Auferre está comprometido em fazer com que a justiça prevaleça a seu favor.  É meio óbvio que o senhor feudal está metido com os crimes, mas não vou dar mais spoilers.

A Hora do Porco é um belo painel do final da Idade Média.  O filme mostra o início da caça às bruxas, os conflitos entre o direito romano, racional, centralizador, já ligado à ideia de um Estado Nacional, e o direito consuetudinário, uma lembrança de que a ordem feudal ainda estava em funcionamento.  A Hora do Porco deixa evidente, também, a importância que um diploma universitário tinha na época, especialmente, se viesse de Paris.  Ao mesmo tempo,deixando claro que a competição na capital era enorme, nem todos conseguiriam uma boa colocação se não fossem para o interior, ou outras cidades. 

 

Pincheon, o velho advogado, também formado em Paris, se mostra brilhante nos seus embates no tribunal.  Ele não é um tolo, como Cortois poderia ser levado a pensar.  E o velho advogado faz questão de jogar na cara do protagonsita que ele não foi para o interior por idealismo, mas por não se ver como competente o suficiente para vencer a competição na capital.  O velho ainda joga que ao olhar para ele, Cortois se via trinta anos depois.  Cortois, no entanto, se recusa a entrar no jogo, ele não quer comprometer seus ideais, se curvando aos interesses dos poderosos, ou à conveniência.

Outro tema presente em A Hora do Porco é a questão do outro, do não cristão, no mundo medieval.  Os judeus são o outro interior.  Estão na comunidade, mas excluídos de participarem de uma série de atividades.  O apotecário pode ajudar no caso de Cortois, mas ele, por ser judeu, não pode depor.  Seu testemunho não tem valor legal.  Os ciganos, chamados de mouros no filme, são o outro não domesticado e, portanto, perigoso, ameaçador, mas fascinante, desde que em condição de submissão.  Cortois se apaixona pela cigana e recusa o corpo da moça quando ela se oferece pelo bem de seu povo, afinal, o porco é o que vai alimentá-los no inverno.  Ele quer conviver com ela, quer a sua companhia exótica, deseja mesmo casar com Samira, mas a moça, muito mais sensata e consciente do mundo no qual eles viviam, recusa.  Ela sabe o mal que uma união desse tipo pode trazer para ambos, Cortois, nesse momento, ainda é um idealista.  

O século XV, ainda estava sob o impacto da Peste Negra, que tem papel no filme, e da Guerra dos Cem Anos.  O advogado Pincheon evidencia esse sentimento de angústia e temor em um dos seus discursos no tribunal.  Dias perigosos  potencializaram os medos, criam a necessidade de se encontrar um culpado.  O filme está bem em sintonia com o que é discutido no livro História do medo no ocidente, 1300-1800 de Jean Delumeau.  Quais eram os principais inimigos nesse momento?  O diabo, obviamente, ele é assunto constante no filme, as mulheres, vide a bruxa executada por uma acusação banal,  e os outros, os não cristãos, mais os judeus, claro, mas os ciganos, também.   Seres racionais como Cortois e o padre Albertus eram exceções entre os supersticiosos e sua vida poderia ficar em risco se deixassem muito evidentes as superstições que guiavam a maioria das pessoas.  

As moças do Frock Flicks falaram do figurino do filme em termos elogiosos.  Sim, o figurino é bem fiel às imagens que temos das roupas da época.  As roupas dos nobres, alguns ex-burgueses, são bem interessantes.  Seus trajes precisam mostrar sua riqueza e condição social.  Acho que as da filha de Monseigneur d'Auferre, a esquisitíssima Filette, são muito boas, mas o decote dela é profundo demais.  Basta comparar com pinturas de época, ou com a roupa de sua mãe, por exemplo. Algo interessante, as mulheres, salvo a cigana, cobrem os cabelos. Os peitos de moça pareciam querer pular para fora.  

Algo que se discutiu no Frock Flicks é se a linha do cabelo da atriz era tão alta, ou era maquiagem, ou depilação.  Na época, a moda era a testa bem exposta e muitas mulheres faziam isso mesmo, depilavam  a testa.  As moças do Frock Flicks relevaram as calças de couro de Colin Firth, algo que não existia na época, porque, bem, é um pequeno detalhe e o ator está muito bonito em A Hora do Porco.  Muito mesmo.  Fora que Cortois é ao mesmo tempo inteligente e tem aquele ar meio distraído que lhe dá um charme a mais e, claro, o tornaria um alvo fácil caso realmente alguém quisesse matá-lo.

Concluindo, não sei se o filme cumpre a Bechdel Rule.  Há várias  mulheres com nomes e Samira tem muita importância na história, ela é o interesse romântico do protagonista e uma personagem que recebeu excelente falas e cenas.  Uma mulher forte e consciente do mundo perigoso no qual vivia. Maria, a criada-prostituta, tem várias cenas, há a bruxa, também, e suas cenas são muito boas, mas não há conversa entre essas personagens femininas.  O único diálogo entre mulheres é uma rápida troca de palavras entre Filette e sua mãe.  


Enfim, o filme é de Colin Firth e o elenco masculino é muito bom.  Jim Carter, o mordomo de Downton Abbey está uma graça, e Iam Holm brilha em todas as suas cenas.  Vale a pena assistir A Hora do Porco é um excelente filme histórico e tem uma trama bem interessante, seja pelo mistério terrível ligado às mortes dos meninos, seja pelo romance impossível entre o advogado e a cigana.  Ah, sim!  O nome do filme no Brasil é Entre a Luz e as Trevas.  Não faz muito sentido, mas é.


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